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Dossier: Patrimonio industrial y gentrificación en Latinoamérica

Da herança industrial à ruína: o fim dos hospitais Henry Ford e o vazio assistencial na saúde da Amazônia

Zâmara Lima et Cybelle Salvador Miranda

Résumés

Este artigo dá continuidade à pesquisa sobre Fordlândia e Belterra, integrando-se às investigações sobre o Patrimônio da Saúde na Amazônia empreendidas no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFPA. Embora a construção do empreendimento de Ford para a produção de látex no início do século XX seja amplamente conhecida, há pouca discussão sobre os Hospitais Henry Ford, construídos para atender aos funcionários da empresa. Apesar das tensões entre modelos estrangeiros de saúde e práticas locais, esses hospitais foram referência em atendimento até o fim do projeto industrial, em 1945. Assim, o artigo investiga o período pós-desativação dessas unidades, analisando as consequências da deterioração dessas infraestruturas na assistência à saúde local. O método adotado é qualitativo, com levantamento histórico-documental e fotográfico, análise do discurso de moradores, associado à percepção das ambiências desses lugares na contemporaneidade, segundo a perspectiva da Rede Ambiances.net.

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Texte intégral

Introdução

1O presente artigo volta-se para à construção e história de Fordlândia e Belterra, audaciosos empreendimentos de Henry Ford destinados à produção de látex por meio do cultivo de seringueiras, localizadas ao sudoeste do estado do Pará, na Amazônia Brasileira, com o objetivo de garantir autonomia na fabricação de automóveis, no início do século XX. Foram construídas cidades-empresas completas dotadas de infraestrutura com moradias, escolas, estação de tratamento de esgoto, água encanada, luz elétrica, usina de beneficiamento, entre muitos outros equipamentos urbanos e, sobretudo, foram construídos hospitais em cada localidade, ambos nomeados Hospital Henry Ford.

Imagem 01: Mapa de localização de Fordlândia e Belterra no estado do Pará. Autores: George B. A. Lima; Zâmara E. A. Lima, 2018

2O percurso desta pesquisa se iniciou na graduação em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal do Pará (UFPA), quando foram realizadas as primeiras visitas à Fordlândia, integrantes do trabalho de conclusão de curso foi intitulado “Fordlândia: Arquitetura norte-americana do início do século XX na Amazônia, suas tipologias e adaptações”. Neste estudo, foram analisadas as tipologias das moradias remanescentes das vilas construídas pela Companhia Ford e suas consequentes adaptações aos novos usos, haja vista que foram percebidas intervenções que vinham sendo realizadas nas residências (Lima, 2015). A partir do Mestrado, houve a necessidade de integrar Belterra, para discutir sobre a patrimonialização, pois ambas as localidades estavam envolvidas em um mesmo processo de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) que se iniciou em 1990 e se prolongou por décadas, sendo as disputas de significação e as limitações à salvaguarda tratadas na dissertação “A patrimonialização de Company Towns: O Caso de Fordlândia e Belterra” (Lima, 2019).

3Em 2021, houve a oportunidade, a convite da Justiça Federal de Itaituba, município do estado do Pará, de integrar, na condição de pesquisadora acadêmica, de comissão para Audiência Pública e Inspeção Judicial realizada no Distrito de Fordlândia, pertencente ao município de Aveiro (PA). A atuação compreendeu a apresentação da pesquisa para a população local e autoridades presentes, além de auxiliar o magistrado na compreensão das transformações arquitetônicas das construções históricas do local. Este evento marcou a fase final do processo de tombamento, na qual houve interferência do Ministério Público e esfera judiciária, mas que resultou no indeferimento do requerimento.

4Desse modo, esse trabalho visa contribuir com as pesquisas anteriores a respeito do Patrimônio Cultural de Fordlândia e Belterra e as pesquisas desenvolvidas pelo Laboratório de Memória e Patrimônio Cultural (LAMEMO/UFPA) acerca do Patrimônio Cultural da Saúde. O recorte hospitalar faz-se pertinente no contexto da pesquisa em arquitetura, pela necessidade de compreender a relevância dos Hospitais Ford no contexto da Amazônia e o período pós-desativação industrial, analisando as consequências da deterioração dessas infraestruturas na assistência à saúde local, cujos apagamentos deixaram populações desassistidas em atenção hospitalar, além dos aspectos culturais e sociais.

5No que tange ao patrimônio industrial, para Choay (2001), houve uma tendência de salvaguardar o patrimônio arquitetônico e industrial do século XX, “muitas vezes ameaçado de demolição por causa do seu mau estado, causa hoje em dia um complexo de Noé, que tende a colocar ao abrigo do teto patrimonial o conjunto exaustivo dos novos tipos construtivos aparecidos ao longo deste período” (Choay, 2001. p. 184). Viñuales (2007) traça a trajetória desde a revolução industrial aos novos olhares para o patrimônio resultante daquele processo, incluindo o contexto na América do Sul. Segundo ela, somente a partir da década de 70 do século XX se começa a falar em “arqueologia industrial” para então se chegar ao “patrimônio industrial”.

6No Brasil, houve iniciativas para classificar algumas company-towns e vilas operárias como de interesse à preservação, sob a terminologia de conjuntos urbanos. Além disso, há pesquisas que elevam os debates sobre esse processo pós-industrial, sobre os pontos favoráveis e desfavoráveis à patrimonialização, dadas as dificuldades legais do processo, dentre as quais os transtornos aos moradores devido à ausência de regularização de propriedade do imóvel onde residem, antes pertencentes à empresa. A exemplo desses casos, Ferreira (2013) aborda o caso da Fábrica Rheingantz para discutir as dimensões do trabalho, memória e patrimônio após o fechamento de uma fábrica têxtil do século XIX, em Rio Grande, no estado do Rio Grande do Sul.

7De modo que, essa temática contempla todo o legado deixado pela Companhia Ford em 1945, quando, com o encerramento das atividades, as terras retornaram à posse do Governo Brasileiro e as vilas tornaram-se sedes do Ministério da Agricultura. Nesse período, os Hospitais e demais serviços e equipamentos seguiram em funcionamento, deixados como símbolos da presença industrial dotada de ilusões do progresso (Viñuales, 2007).

8Contudo, os Hospitais Ford foram por alguns anos referência em atendimento médico-hospitalar na região e abandonados após a desativação das atividades industriais. Foram extintos em momentos e de formas distintas, parte do que se sabe surge através de relatos de moradores e registros fotográficos das construções em diferentes períodos. Para alcançar o entendimento dessas dinâmicas de desativação dos hospitais e de seu impacto sobre a assistência às populações locais, adotou-se, além da consulta bibliográfica, levantamento histórico e fotográfico e análise do discurso de moradores, obtidos em visitas realizadas em diferentes períodos, associados à percepção das ambiências desses lugares na contemporaneidade, segundo a perspectiva da Rede Ambiances.net.

A Herança

9A construção do hospital de Fordlândia teve início com as demais construções da cidade-empresa, por volta de 1928. As notícias sobre essas benfeitorias eram disseminadas pela Ford, a fim de atrair mão-de-obra mais especializada para a região, comprometendo-se com creche, moradia, escola, assistência médica, hospitalar e odontológica para toda a família. Essa oferta de estrutura funcionou como uma compensação e, consequentemente, levou novos padrões de vida a esses lugares (Pereira, 2019).

Ao final de 1930, finalmente, Fordlândia tinha a aparência de uma pequena cidade norte americana em plena Amazônia, com suas casas com jardins na frente, seus hidrantes vermelhos nas calçadas, esgotos, uma estação de captação e tratamento da água do rio Tapajós, uma escola bilíngue, o hospital (que se tornaria referência não somente regional, mas nacional), a serraria, a usina de força, assim como a caixa d’água (que se tornaria referência para os navegantes no rio Tapajós), sem esquecer a ferrovia, com cinco quilômetros de extensão (Duarte Jr, 2015, p. 5).

10Após uma permuta de terras e a transferência do empreendimento para outra região do Tapajós, foi construído o novo hospital em Belterra, com inauguração em 1938.

Nas proximidades da Vila Americana foi construído o Hospital Henry Ford, que se tornou uma grande referência na área de saúde na Amazônia por seus equipamentos e corpo profissional especializado. Nele trabalhavam 41 pessoas, entre médicos e enfermeiros, sob supervisão de um médico norte-americano. As cirurgias eram feitas no próprio hospital (Pereira, 2019, p. 92).

11Sempre descritos na bibliografia como hospitais de referência na área da saúde naquele período, a nível regional, nacional e quiçá na América do Sul, dotados de adjetivos que vislumbram a grandiosidade e importância atribuídos a esses estabelecimentos de saúde como no trecho: “a Companhia construiu e manteve dois grandes e sofisticados hospitais: um em Fordlândia e outro em Belterra.” (Costa, 2012, p. 93) ou ainda no que Cohen (1929) classifica “como modelar no gênero, obedecendo a mais rigorosa higiene, com serviço de ambulância equiparado ao de Belém” (Cohen apud Sena, 2008, p. 93). Citado pelo jornalista Daniel Camargos como “um dos mais modernos do país, sendo o primeiro a realizar um transplante de pele” (Camargos, 2015, p. 7).

12Segundo Rodrigo de Oliveira Andrade (2024), no fim da década de 30, os hospitais Henry Ford de Fordlândia e Belterra eram as únicas instituições com serviços de saúde fora das cidades de Santarém (pólo regional) e Belém (a capital). Sabe-se que, além de leitos de enfermaria, eram equipados com centros cirúrgicos, farmácia e sala de Raio-X.

Imagem 02: Enfermaria do Hospital Fordlândia - 1931Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.

Imagem 03: Sala de cirurgia do Hospital Belterra por volta de 1933. Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.

Imagem 04: Farmácia hospitalar de Fordlândia, ago.1931. Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.

13Com base nos dados do Anexo 6 dos Inventários dos Meios Infraestruturais no livro “Grande capital e agricultura na Amazônia: a experiência Ford no Tapajós” (Costa, 2012), foi possível produzir o seguinte comparativo entre a dimensão dos dois hospitais.

Quadro 01: Comparativo entre área construída e número de leitos dos hospitais de Fordlândia e Belterra. Fonte: Costa, 2012. (quadro produção nossa)

14Percebe-se que o Hospital em Fordlândia, apesar de possuir área construída menor, possuía mais leitos que o de Belterra. Há a possibilidade de que a área hospitalar maior tenha sido dividida para novas áreas de atendimentos, exames ou procedimentos, optando por menos leitos, mas apenas com uma análise futura da planta do hospital será possível constatar sobre o organograma dessas instituições hospitalares.

O Fim

15Quando o projeto de Ford foi interrompido, em 1945, as duas localidades retornaram à propriedade da União e passaram a ser administradas pelo Ministério da Agricultura, bem como o gerenciamento dos demais setores e equipamentos urbanos. Desse modo, os hospitais continuaram atuando no atendimento ao público, porém, sucateados pela falta de recursos, foram desativados em 1992 (Andrade, 2024).

16Inclusive, os altos custos dos hospitais foram apontados por um dos autores como um dos cinco pontos determinantes para a desativação do empreendimento pela Ford. Segundo o autor:

O custo de operação de Fordlândia e Belterra era elevado em função da infraestrutura que havia sido montada. Por exemplo, os hospitais das duas cidades eram considerados pelos próprios médicos brasileiros muito superiores a qualquer outro hospital no norte do Brasil (Duarte Jr, 2015, p. 13).

17Com a desativação dos hospitais, que eram as únicas instituições de saúde local, os moradores e população ribeirinha próxima precisavam se deslocar através do rio Tapajós até a cidade mais próxima, Santarém, o que persistiu e persiste até os dias de hoje, a depender da complexidade do atendimento (Andrade, 2024).

18Uma vez desativado, a deterioração do edifício hospitalar em Fordlândia, segundo relatos de moradores, se deu a partir de um destelhamento que se iniciou com saqueamento de telhas, comprometendo a cobertura da edificação e acelerando o processo de degradação.

A questão do hospital principalmente, foi que a população não teve consciência pela conservação, pois quando algumas pessoas começaram a deteriorar, outras também se sentiram no direito de retirar, e assim foi se acabando… saquearam telhas, cobre (que tinha bastante). Hoje, infelizmente, não há como trabalhar uma revitalização no Hospital, pois encontra-se totalmente deteriorado (Fábio Junior Moura Pimenta. Entrevista realizada em Fordlândia, 18/09/2018 - transcrição preservando-se a fala do entrevistado).

19O repórter Daniel Camargos (2015), em matéria especial para o jornal Estado de Minas, visitou o local após esse processo e descreveu a área do antigo hospital de Fordlândia como “mato e ruínas”, onde “somente o zumbido de mosquito interrompe o silêncio” (Camargos, 2015, p. 7)

20Por sua vez, o hospital de Belterra sofreu com um incêndio por volta de 2004-2005, segundo relatos de moradores. Em um blog na internet, Miriam Sousa relata:

Em 2005, os belterrenses se impressionaram com o hospital em chamas e que, até hoje, não se sabe como o incêndio começou. As pessoas presentes no momento choravam e lamentavam a perda irreparável que fez parte da vida de muitos belterrenses. No local ficaram as cinzas e ferros retorcidos dos móveis que ainda estavam dentro. Atualmente funciona a Secretaria de Saúde que, talvez, tenha sido construída para fazer referência ao grande empreendimento no setor de saúde pública que existiu no local (Sousa, 2010).

21 Esse abandono pós-industrial, relativo ou não, aparece como um fenômeno quase que inerente ao patrimônio industrial. O que fazer com ele? O que preservar? Qual uso dar? E pode-se até questionar: por que considerar os Hospitais Henry Ford como patrimônio industrial? O que é respondido a seguir, por Kühl (2010):

Um ponto importantíssimo é o próprio objeto dos estudos: todas as definições englobam também as unidades de produção de energia, a sistematização dos meios de transporte e todo o complexo de elementos relacionados à fábrica, e não apenas o local de produção em si. Isso se dá pelo fato de esses dados serem considerados essenciais para a compreensão do processo de industrialização em sua inteireza, a que almejam os estudos dessa temática. Ademais, o interesse volta-se também aos produtos do processo de industrialização, o que, no que concerne às edificações, implica que construções pré-fabricadas sejam também consideradas patrimônio da industrialização, a exemplo de mercados, igrejas, teatros, pavilhões, caixas-d’água e viadutos (Kühl, 2010, p. 26-27).

22No Brasil, esse complexo, decorrente de atividades industriais, figura nas instituições de proteção patrimonial, como “conjuntos urbanos”. Lima (2019) cita alguns desses conjuntos urbanos, cuja formação é de origem industrial, que constavam na Tabela de Processos de Tombamento do IPHAN – 2018. São alguns deles: Vila Ferroviária de Paranapiacaba – Santo André (SP) tombada em 1987; Vila Serra do Navio (AP) tombada em 2008; Vila Operária de Delmiro Gouveia (AL), além do conjunto arquitetônico da antiga Fábrica Rheingantz, cuja solicitação de tombamento foi indeferida, assim como o Conjunto urbano de Fordlândia e Belterra. Porém, não se trata de lamentar o indeferimento, nem justificar a perda dos hospitais pela falta de salvaguarda institucional, mas corroborar com o que diz Kühl (2010), ao mencionar que:

Tendo-se consciência das razões por que se preserva, as questões de ordem prática (de uso, econômicas, etc.), que estão sempre presentes, deixam de ser únicas e prevalentes (como ocorria antes), e passam a ter caráter indicativo, concomitante, mas não determinante (Kühl, 2010, p. 28-29).

23Afinal, Fordlândia e Belterra são mais exemplos da mudança de cenários que sucederam após a desativação industrial. Muitas dessas instalações são abandonadas porque tornaram-se obsoletas ou por falta de recursos para a manutenção. Desse modo, é importante destacar os conceitos de “arquitetura manutente” e “arquitetura voltária” (Karman; Fiorentini, 2006). Os autores estabelecem esses conceitos para diferenciar uma arquitetura duradoura e estática, como em seu projeto original chamada de arquitetura manutente e a arquitetura voltária, que se refere a uma arquitetura mutável, adaptável e dinâmica, que estabelecem como a arquitetura ideal para estabelecimentos assistenciais de saúde (EAS).

24Essa é uma importante discussão, já que antigos hospitais se tornam obsoletos e são abandonados e demolidos sob esse argumento. No entanto, qual a melhor solução em um contexto de precariedade e carência assistencial em saúde dessas populações ribeirinhas? No estado do Pará, que ainda hoje conta, no total, com 1,38 médicos por mil habitantes, segundo a Demografia Médica no Brasil (DMB) do Observatório do Conselho Federal de Medicina, indicada como a menor concentração de médicos do Brasil (Associação Médica Brasileira, 2023).

25Contudo, Viñuales (2007) reitera que essas instalações não desapareceram, por todos os lados restam relíquias, todo tipo de edifícios e escombros de resíduos que formam uma nova paisagem. Gasnier e Baranger (2023) vão além nessa reflexão, ao destacar que há uma dimensão memorial relevante, pois os sítios industriais são testemunhos da evolução histórica que contribuiu para a atual situação e, portanto, a reabilitação desse patrimônio de herança industrial se apresenta como uma alternativa mais sustentável em comparação à demolição, que frequentemente acarreta maiores custos ambientais, sociais e culturais.

26 Assim, a destruição dos hospitais significou não apenas a perda de infraestrutura já existente, mas também gerou custos ambientais e sociais, pois a ausência de atendimento hospitalar impactou diretamente a saúde da população.

O Vazio

27Como estudar Ambiências implica em “tecer um compromisso de experienciá-las”, (Duarte et al, 2022, p. 26), em uma primeira visita ao antigo hospital de Fordlândia para um estudo etnográfico, em 2018, foi possível sentir a sensação de vazio ao se deparar com as ruínas representadas apenas por alguns pilares e poucas paredes, em meio à alta vegetação que se (re)apropriou do espaço. A localização da antiga construção é afastada das demais, o que reforça essa impressão (Lima, 2019). É possível que essa sensação seja traduzida através das imagens a seguir:

28Uma vez em campo, ainda que naquele momento o objetivo da pesquisa fosse outro, os hospitais eram assunto recorrente em conversas com moradores. Sem serem indagados a respeito, muitos deles acabavam citando no decorrer dos relatos, sobre a importância, a beleza, a perda e até assumindo a responsabilidade da população em Fordlândia pelo saqueamento de telhas, que acabou por acelerar todo o processo de degradação. Assim, além de perceber o ambiente, a etnografia se fez importante para perceber o olhar do outro, o ponto de vista dos nativos (Duarte, 2010) afinal, surgia ali a possibilidade de outra temática que pareceu importante para quem comunicava.

29Portanto, através de discursos dos moradores foi possível considerar que a falta do hospital representa “perda”, o que se pode entender como uma “possibilidade real de uma adesão coletiva provocada pela percepção grupal de algo compartilhado” (Silva, 2021 apud Duarte et al 2022, p. 63), haja vista que havia um “padrão” em um misto de orgulho, saudosismo e lamentação, no que era relatado:

Nós já perdemos o Hospital, que era muito bonito, onde foi realizada a primeira cirurgia plástica do Brasil, que foi em Fordlândia (Delmas Brito da Silva. Entrevista realizada em Fordlândia, 19/09/2018 - transcrição preservando-se a fala do entrevistado).

Foi um absurdo o que fizeram com o hospital lá em Fordlândia, lá foi o hospital onde eu nasci, eu tinha orgulho de ter nascido naquele hospital. Onde foi feita a primeira cirurgia plástica no Norte do país, lá passaram os melhores médicos da época. No hospital sempre tinham médicos, que foram embora aos poucos à medida que estavam desativando (Percílio dos Santos Fernandes. Entrevista realizada em Belterra, 24/09/2018 - transcrição preservando-se a fala do entrevistado).

30 Em seu livro, Pereira (2019) transcreve o relato de outro morador, ex-funcionário do Hospital, que dá luz à percepção do que representavam aquelas instituições, reforçando a qualidade dos atendimentos como sinônimo de “perfeição”:

Esse hospital era a estrela da região, não tinha nem em Santarém um hospital que nem ele, sempre, geralmente tinha um médico americano, um brasileiro ou dois que vinha lá de São Paulo, e era o atendimento, era muito bom. Tudo muito perfeito naquele hospital. [...] podia atender qualquer pessoa que viesse [...] morar aqui na casa de um parente ou qualquer coisa. Não precisava ser funcionário ou gente daqui não [...] tudo grátis, alimentação, tudo, cirurgia se fosse preciso, tudo era grátis [...] [inclusive a] ambulância (Tica, nov. 2009 apud Pereira, 2019, p. 92).

31 Em vista disso, pode-se aferir, através da tradução das Ambiências, de modo a interpretá-las, dados os aspectos materiais e imateriais que o “vazio” deixado pelos Hospitais não está associado apenas ao espaço físico, mas representa o vazio deixado no atendimento de saúde da população e a ausência que assumiu o lugar do orgulho de ser funcionário ou usuário de um Hospital reconhecido (Duarte et al, 2022).

Conclusão

32A trajetória dos Hospitais Henry Ford em Fordlândia e Belterra reflete a efemeridade dos empreendimentos industriais e seus impactos duradouros nas comunidades locais. A grandiosidade das instalações, concebidas como referência na saúde, contrasta com o abandono e a degradação que sucederam sua desativação, deixando não apenas espaços vazios, mas também um legado de perdas sociais e históricas.

33O estudo das ambiências desses hospitais evidencia que seu desaparecimento impactou profundamente a vida dos moradores, não apenas pela ausência de atendimento médico-hospitalar, mas também pela dissolução de um sentimento de pertencimento e orgulho em relação às instituições que simbolizavam o progresso e a modernidade na região amazônica.

34Em um contexto em que a preservação do patrimônio industrial se torna cada vez mais relevante, olhar para Fordlândia e Belterra significa não apenas revisitar o passado, mas também buscar alternativas sustentáveis para o futuro, garantindo que a história e os valores imateriais desses hospitais não se percam completamente no tempo.

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Bibliographie

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Table des illustrations

Légende Imagem 01: Mapa de localização de Fordlândia e Belterra no estado do Pará. Autores: George B. A. Lima; Zâmara E. A. Lima, 2018
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Légende Imagem 02: Enfermaria do Hospital Fordlândia - 1931Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.
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Légende Imagem 03: Sala de cirurgia do Hospital Belterra por volta de 1933. Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.
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Légende Imagem 04: Farmácia hospitalar de Fordlândia, ago.1931. Fonte: Coleções e Pesquisa - The Henry Ford Org.
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Légende Quadro 01: Comparativo entre área construída e número de leitos dos hospitais de Fordlândia e Belterra. Fonte: Costa, 2012. (quadro produção nossa)
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Pour citer cet article

Référence électronique

Zâmara Lima et Cybelle Salvador Miranda, « Da herança industrial à ruína: o fim dos hospitais Henry Ford e o vazio assistencial na saúde da Amazônia »Amerika [En ligne], 30 | 2025, mis en ligne le 16 juillet 2025, consulté le 06 septembre 2026. URL : http://journals.openedition.org/amerika/21305 ; DOI : https://doi.org/10.4000/14ffv

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Auteurs

Zâmara Lima

zamaralima@hotmail.com, doutoranda Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo - Universidade Federal do Pará

Cybelle Salvador Miranda

cybelle1974@hotmail.com docente Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo - Universidade Federal do Pará

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