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Dossier: Arts et littérature dans les Amériques au XXIe siècle, la croisée des chemins?
Créations, sociétés et espace

Máscaras e o cruzamento de culturas : experiências pedagógicas cênicas no Brasil em busca de outra globalização

Bya Braga

Résumés

Le jeu masqué et du masquement/mascarade est un thème important dans le champ de l'art théâtral et prend une dimension particulière dans le processus d'enseignement-apprentissage, notamment lorsqu'on considère la convergence des expressions masquées entre différentes cultures. La pédagogie du jeu masqué permet la création ludique de diverses altérités et suscite des réflexions sur les notions d'humanité, de sociodiversité, de rapports de pouvoir et de transculturalité. Cet article propose une réflexion sur les expériences d'enseignement-apprentissage au théâtre menées par l'auteure dans les domaines de le jeu masqué et du processus créatif à l'Université fédérale de Minas Gerais, au Brésil, pendant plus de trente ans. Ces expériences portent sur le jeu masqué dans le contexte du passage entre les cultures. Dans une perspective essayistique, le texte met en lumière des pratiques pédagogiques scéniques, telles que des performances didactiques et des démarches pédagogiques, qui expérimentent une interculturalité critique visant à comprendre notre place dans le monde, à rechercher la complicité et à promouvoir une résistance théâtrale créative. La métaphore de l'ivresse est également évoquée pour refléter poétiquement différentes manières de vivre dans le monde, pouvant renvoyer à une existence humaine sous d'autres formes de mondialisation.

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Texte intégral

Introdução1

  • 1 Apoio : Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PQ-316109/2023-1).
  • 2 Parte de estudos aqui trazidos foram apresentados no XII Congresso da Associação Brasileira de Pesq (...)

1Este trabalho objetiva refletir sobre possíveis contribuições da pedagogia teatral de máscaras e mascaramentos para a discussão de questões relacionadas aos trânsitos entre culturas em busca de outra globalização2. Os estudos que se seguem revelam experiências docentes próprias, realizadas no bacharelado e licenciatura teatrais da Universidade Federal de Minas Gerais, refletindo sobre como uma pedagogia de máscaras pode nutrir-se de interações entre elementos históricos, sociais, estéticos, culturais de diferentes localidades, podendo experimentar recriações cênicas que lancem questões de interesse global.

2Para isso, destacamos experiências cênicas que possibilitam reflexões relacionadas à interculturalidade crítica (Bharucha, 2011; 2017; Walsh, 2009), realizadas por nós desde 1993, ano inicial de nosso exercício profissional docente na referida universidade. Tais experiências incluem : espetáculos teatrais didáticos e procedimentos pedagógicos criados, cujo tema da máscara os perpassa, de diferentes modos. As reflexões geradas partem de observações e interpretações criadoras, de maneira participante e sobre elas, em diálogo com a investigação bibliográfica, dentro de uma visão qualitativa e de inspiração na cultura ensaística (Callai; Ribetto, 2016).

3A escolha pela abordagem de experiências pedagógicas cênicas diz respeito ao fato de que a arte teatral, como um dos conhecimentos presentes na formação universitária brasileira, já é, em si, um modo de resistência cultural em sociedades cuja demanda do desenvolvimento educacional em universidades esteve atrelado à questão econômica produtiva e à industrialização, o que se intensificou e se revela na atual ideologia do consumo. Além disso, dentro do ensino-aprendizagem teatral aqui tratado, outro modo de globalização é experimentado ao se considerar, por exemplo, que no trânsito entre culturas é preciso haver reconhecimento dos contextos comunitários diferentes que se encontram, agindo-se com responsabilidade nas práticas cênicas estabelecidas.

4Ao realizarmos uma interação entre culturas, tanto externas ao país, quanto intraculturais, buscamos um maior companheirismo entre elas, o que também demanda estudos de seus históricos e protocolos de existência. Exercitamos, assim, uma compreensão sobre o que nos une e nos diferencia, ainda que tenhamos limitações geográficas e econômicas importantes para fazermos isso. Pensamos, ainda, com Rustom Bharucha que nos alerta quanto ao perigo de praticarmos uma relação estética intercultural dentro de modelos euro-americanos de livre troca, nos quais a autoria e a propriedade de algo estariam dentro de noções políticas liberais que desconsideram contextos históricos ou mesmo se afastam de responsabilidades variadas (2011; 2017).

5Trabalhar para uma outra globalização na pedagogia teatral das máscaras é também considerar que a arte teatral tem como base o encontro entre seres e a ação artística, e que o corpo é uma realidade do ser humano que ganha ainda mais importância no contexto globalizado (Santos, 1996). Cidadanias são afetadas pelas corporeidades humanas. Em uma globalização perversa, uma pessoa cidadã dá lugar a um ser consumidor somente.

6A opção pela pedagogia de máscaras dentro do conhecimento teatral é um modo de resistência frente a um modelo de composição cênica que quer abrigar esta arte principalmente no âmbito da literatura. Assim, a noção de máscara, expandida ou não, como fonte de pesquisa e composição teatral, aponta para modos alternativos do fazer cênico no Brasil. Neste sentido, a arte teatral se aproxima das festas populares, tornando-se teatro-festa, dialogando com teatralidades mascaradas e suas corporeidades expressivas singulares, fazendo uso da palavra, quando faz, buscando escapar de narrativas lógicas e causais ou mesmo da própria literatura como fonte compositiva cênica primordial e recurso estético.

7As máscaras são compreendidas socialmente como artefato, objeto etnográfico e cultura material. Para o campo de estudos da arte teatral, elas são, especialmente, maneiras de se viver performativamente que mobilizam encontros culturais e recriações artísticas, em um ato relacional crítico que pede um companheirismo cultural.

8Neste sentido, na pedagogia do jogo teatral com máscaras que realizamos, estão incluídas experiências de percepção e compreensão dos contextos histórico-culturais envolvidos para o estabelecimento de relações companheiras, vivências de imitação de algo, de representação simbólica, de apresentação festiva e, até mesmo, a criação de uma composição caricatural ou tipificada da imagem de uma personagem-máscara. No entanto, neste último caso, no teatro, busca-se também provocar um caminho de expressão performativa que possa ir além da própria imagem tipo (personagem-máscara) fixada pelo objeto máscara.

9Trata-se, assim, de experimentar teatralmente um ato de refazer uma vida por meio do encontro com a vida de outro ser e a sua imagem, assim possibilitando surgir, ousamos dizer, uma “imagem-sintoma” (Didi-Huberman, 2015: 396), ou seja, uma imagem que não se prende somente a uma representação mimética e que vá além do próprio signo icônico que ela emite, o que não excluem as ressonâncias de seus contextos histórico-culturais.

10Falar sobre máscaras nos estudos teatrais é poder destacar a sua vitalidade e seus modos de aparição no jogo com a alteridade, incentivando-se, também, a percepção crítica sobre o fazer teatral contemporâneo na relação com, por exemplo, tradições performativas populares de dado território ou mesmo as teatralidades populares que dele brotam.

  • 3 George Bataille se refere ao ato soberano como um movimento do excesso, a atitude de tomar a si mes (...)
  • 4 O mascaramento espacial urbano, criado por Donato Sartori (Alberti & Piizi, 2013), é aqui nossa ref (...)
  • 5 Conhecemos o termo masquiagem (masquillage) nas aulas teóricas teatrais da professora francesa Béat (...)

11Seja a partir de uma experiência ritual (laico ou não) contextualizada, da brincadeira, da camuflagem ou jogando com um disfarce, a aparição de uma máscara teatral comporta um sentido fundamental: integrar-se a um encontro e confrontação com a alteridade em um ato de grande escuta, intensidade performativa, transformação e mistério. Assim, no teatro, as máscaras e mascaramentos podem motivar um ato relacional excessivo3 para quem o vive. Isso pode ser realizado por modos diferentes de se trabalhar a noção de máscara : pelo objeto escultural colocado no rosto; pelo mascaramento corporal, que é um tipo de máscara ampliada envolvendo todo o corpo; e pelo mascaramento expandido. Neste último caso, a noção de máscara é a inspiração para um jogo performativo do mascaramento de um espaço4 ou, ainda, ela se integra à maquiagem, como uma caracterização cênica que possua expressão mais exagerada ou grotesca. Masquiagem5 é o termo que adotamos para dizer do encontro da máscara com a maquiagem.

12Portanto, ao experimentarmos uma vivência sensorial intensificada por meio do jogo pedagógico de máscaras, nos dispomos a uma transformação que pode ir além da própria visualidade aparente mostrada por elas. Então, a desfiguração simbólica da figura humana e a recriação de outras figuras híbridas, inclusive, se fazem presentes, potencializando abordagens criativas por meio de uma expressão intercultural crítica.

13Por fim, trazemos ainda no texto, de modo lúdico, a metáfora da beberagem e seu caminho à embriaguez como um jogo de compreensão para algumas das experiências aqui tratadas. Uma beberagem pode nos conduzir a um estado onírico que é uma mudança do ser, um jeito diferente de percepção e de conexão com o mundo, cuja produção desta alteração pode dar início a uma vivência transcultural. A ideia da embriaguez é aqui tomada de empréstimo da proposição do filósofo Jean-Luc Nancy (2020), que a trata como uma metodologia titubeante do viver com-junto (2006).

Quadro 1

  • 6 Em tradução livre : “CALIBAN : Uhuru! / PROSPERO : O que disse? / CALIBAN : Eu disse Uhuru! / PROSP (...)

Caliban. — Uhuru !
Prospero. — Qu’est-ce que tu dis ?
Caliban. — Je dis Uhuru !
Prospero. — Encore une remontée de ton langage barbare. Je t’ai déjà dit que je n’aime pas ça. D’ailleurs, tu pourrais être poli, un bonjour ne te tuerait pas !” (Césaire, 1969: 24)6

  • 7 A expressão aula-sonho se inspira nas proposições que faz a professora-pesquisadora Sandra Mara Cor (...)

14Em 1993, dirigimos a encenação teatral Tempestade a partir do texto Une tempête. Adaptation pour un theatre nègre, de Aimé Césaire, escrito em 1969. Tratava-se de montagem cênica inédita no Brasil até então, cujo texto também teve tradução inédita, em caráter didático, pelo professor e tradutor Francisco Pontes de Paula Lima. Esta proposta de encenação estava inserida no primeiro projeto pedagógico que propusemos para a docência universitária de teatro, que iniciávamos naquele ano. Posteriormente, compreenderíamos nosso trabalho como uma composição de aulas-sonho7, tanto para treinamentos de atuação e improvisação teatral com jogos de máscaras, quanto para a direção de espetáculos.

  • 8 Escola teatral de formação técnica universitária, com 74 anos de existência, na qual nos formamos c (...)
  • 9 Em tradução livre : “ENCENADOR Vamos lá, Senhores, fiquem à vontade. A cada um, a sua personagem. E (...)

15O espetáculo Tempestade, de caráter didático, se destinava à formatura teatral de estudantes da escola Teatro Universitário-UFMG8. Nesta encenação não havia objetos máscaras, apesar da indicação de Césaire : “LE MENEUR DE JEU. — Allons, Messieurs, servez-vous… À chacun son personnage et à chaque personnage son masque”9. (Césaire, 1969: 11)

16Rubricas de encenação propostas por Césaire, contidas em seu texto, dizem que a peça deve ser realizada por pessoas de ancestralidade preta, em uma radical (e necessária) revisão histórica deste autor sobre os processos (violentos e racistas) de colonização ocorridos nas Américas. Máscaras brancas, em atitude colonial branca, deveriam, também, ser utilizadas por pessoas pretas que atuavam. No entanto, diante de um grupo multiétnico de estudantes de teatro e suas diferenças culturais, mesmo sendo de um mesmo país, Brasil, o antirracismo, a antimisoginia e a descolonialidade estiveram presentes em nossa encenação de outras maneiras, contemplando, assim, o contexto proposto pelo autor.

  • 10 Este trabalho foi realizado pelo professor de caracterização cênica Antônio Kattah (Teatro Universi (...)
  • 11 Atrizes e atores de ancestralidades preta, parda e indígena atuavam, sobretudo, as personagens opri (...)

17Para algumas personagens, utilizamos, por exemplo, a masquiagem.10 Este tipo de mascaramento, com uma caracterização artística exagerada e sem o objeto máscara no rosto, tratava-se de uma linguagem visual criada com pinturas e apliques mais expressivos no rosto e corpo, entrelaçadas com adereços cênicos.11 Isso possibilitava que o público experimentasse ver as imagens das personagens em um jogo de percepção mais ampliado, por vezes mais fantástico e onírico.

18Com recursos cênicos diversos, experimentamos mostrar o jogo de opressão colonial e as estratégias de resistência que o texto de Césaire revela, apresentando, ao mesmo tempo, nossos sonhos de liberdade por meio de Caliban. A imagem criada para Ariel contemplava seu desejo de irmandade na sociodiversidade ao ser atuado por um duo de estudantes, mulher e homem, masquiados. A personagem Exu nos trazia, no seu modo de aparição, também masquiada, a resistência cultural e o embate forte, irreverente e irônico. Caliban se apresentava sem masquiagem, na pele seminua de um ator de ancestralidade indígena, criando, assim, a imagem encarnada de sua resistência, seu grito uhuru por liberdade.

  • 12 A criação da dramaturgia de espaço composta em site specific foi composta por Bya Braga e Tarcísio (...)
  • 13 O espetáculo foi apresentado na cidade de Belo Horizonte (Minas Gerais-Brasil) e, posteriormente, c (...)

19A rica complexidade e o brilhantismo de revisão criativa estética da proposição literária teatral cesairiana, nos trouxe a pertinência de falar de questões como as ancestralidades presentes no Brasil, valorizando memórias diversas, terras e saberes locais, bem como expressar sobre a necessária reivindicação de reconhecimento de nossas singularidades e saberes. Paralelamente, dizíamos do lugar do conhecimento teatral nas universidades, reivindicando a legitimidade da existência de outras epistemologias e possíveis bricolagens entre conhecimentos, ciências e vida (Simas; Rufino, 2018). Ainda, expúnhamos criticamente a importância de apresentar a arte teatral fora de espaços canônicos, como os palcos frontais, uma vez que o nosso espetáculo se realizava em um modo de site specific, ocupando um prédio histórico que abrigava nossa Escola, à época.12 Tratamos, assim, da usurpação doentia de territórios e identidades, aprendendo, por meio da pedagogia teatral, seu jogo de imagens e no diálogo com Césaire sobre como podemos nos situar no tabuleiro pluriespistemológico existente.13

20Depois disso, seguimos com o desafio de fortalecer a maior visibilidade de outros saberes, práticas e expressões estéticas, como a própria arte teatral, de continuar a confrontar discriminações e exclusões, de promover articulações epistemológicas em temporalidades e espacialidades misturadas, compreendendo que os trânsitos entre culturas, de modo crítico e contextualizado, são importantes para a sobrevivência de todo mundo. Tentávamos, assim, compreender como a relação entre seres diversos (inter = entre diversos) poderia ser o próprio sentido do nosso existir. E o que poderia originar disso de maneira singular.

21Neste percurso inicial, nos tornamos, assim, espécie de sonhadora de aulas. A problematização do poder antropocêntrico se instalou em nós, abrindo-nos para a vivência poética do florestar(-se) (Krenak, 2019), o que incorpora uma forte reflexão sobre como aprender também com o que está ao nosso redor, sobre os ciclos da vida e a perspectiva da coisificação contemporânea do ser humano.

  • 14 A tradução do texto teatral de S. Beckett para a língua portuguesa foi realizada por nós, neste cas (...)

22Neste contexto, outro trabalho cênico didático realizado por nós foi Comédia, uma performance criada em 1997. Inspirada na dramaturgia de texto Play, de Samuel Beckett, escrita por ele entre 1963 e 196414, Comédia foi apresentada dentro de uma grande caixa de papelão, um cenário precário construído para caber nele seis pessoas, sendo três atuando e três como público, com revezamento deste. O objeto-cenário foi instalado ao ar livre em frente a um cemitério famoso da cidade de Belo Horizonte. A encenação apresentava, na atuação, um conjunto de três cabeças/corpos hibridizados com três vasos mortuários cenográficos, uma indicação do autor. Criamos, então, uma linguagem visual com masquiagens em argila unidas aos objetos urnas.

  • 15 Aqui nos referimos à narrativa mítica do povo indígena Maxakali sobre a origem da primeira mulher, (...)

23Para esta composição visual, observamos a seguinte rubrica de Beckett : “rostos tão perdidos na idade e na aparência que parecem quase parte das urnas. Mas máscaras proibidas” (1986: 307). Nossas masquiagens, porém, já eram entendidas por nós como um tipo de mascaramento expandido. Assim, por meio delas, criamos as imagens fantasmáticas imóveis que o autor indicava, guardando em nós a curiosidade de tentar compreender a enfática proibição do uso de máscaras. De todo modo, as três cabeças/corpos fragmentados de nossa performance, ao atuarem, mostravam o ciclo da vida que se desfaz, as identidades culturais que se dissolvem, as relações que se desintegram e o isolamento do humano, contemplando, assim, as propostas temáticas do autor. E elas também revelavam uma conexão profunda que se pode ter com a terra, aqui mediada pela argila cobrindo os corpos em performance, um barro por meio do qual também se pode curar ou fazer nascer, miticamente, outro ser por meio dele.15 Na performance, revelar isso não era um objetivo inicial, mas inegavelmente tal memória cultural surgiu entre nós.

24Lapsos de vida brotavam quando uma luz iluminava uma das cabeças/urnas. Diferentemente da proposta do autor para a iluminação cênica de Play em um palco frontal, o que fizemos foi criar um jogo de luzes por meio de lanternas usadas pelo público. Tratava-se de jogar com o poder do público por meio da luz, possibilitando a experiência deste em conduzir a performance como se tivesse batutas de um maestro. Ou, até mesmo, tivesse uma arma na mão apontada para um ator/atriz, determinando a duração de uma existência pseudo-viva. Na performance, uma fala de Beckett ecoava por meio de uma personagem : ela perguntava se estava sendo vista e se alguém se importava com ela. Uma resposta afirmativa seria a condição para a sua existência. Mas quem, de fato, a percebia? Quem, realmente, a escutava?

25Esta performance didática permitiu a nós, estudantes e professora, e também ao público, refletir sobre a questão das tentativas de apagamento de uma existência, daquilo que nos singulariza em territórios simbólicos, culturais e de memória. Vivenciamos, na prática performativa, um jogo de poder no qual a vida, ou a voz, era permitida brotar, mas principalmente quando uma determinada luz externa a iluminava. E, com isso, imprimimos rastros de uma singularidade performativa criada no com-junto, para falarmos com o filósofo Jean-Luc Nancy, e que nos fazia também pensar, ao mesmo tempo, na violência de um ato colonial. Não seria a desumanização uma lógica colonial, mesmo na ausência de colônias geográficas (Maldonado-Torres, 2022)? A coisificação do humano, ou das humanidades, não seria esta imagem fantasmagórica que criamos? Isso não corresponderia à globalização perversa, na qual a escuta e o cuidado entre os seres se faz ausente?

Quadro 2

26As tradições de pedagogia teatral de atuação com máscaras que nos chegaram no Brasil no século XX, estão ancoradas em experiências de escolas europeias, especialmente francesas e italianas. Seja com o objetivo de melhor preparar um ator e uma atriz para serem intérpretes de personagens de uma literatura teatral, seja visando à formação de atores e atrizes para serem compositores(as), além de intérpretes, podendo criar dramaturgias de atuação e teatros mais performativos, tais pedagogias das máscaras difundiram procedimentos que são referências, ainda hoje, para o ensino-aprendizagem brasileiro neste contexto (Alberti & Piizi, 2013; Lecoq, 2021).

27Inicialmente, aprendemos o ensino-aprendizagem teatral com máscaras por meio delas. As reconhecemos em seus contextos e histórias, mas as problematizamos. Em diálogo com elas, criamos estratégias de ensino-aprendizagem que possam valorizar as pessoas vítimas de colonizações, cuja etnia e gênero foram violentadas no Brasil, além de buscarmos promover, paralelamente, um maior conhecimento de referências mascaradas brasileiras e seus repertórios técnicos. A produção artística cultural popular mascarada no Brasil nos apresenta uma teatralidade singular. Nosso desejo, então, não é realizar um trânsito funcional de culturas (Walsh, 2009) no ensino-aprendizagem com máscaras, mas experimentar encontros culturais que tornem possíveis transformações pedagógicas teatrais mais estruturantes e que sinalizem, inclusive, elementos e procedimentos para uma interculturalidade crítica e uma possível transculturação (Rama, 2007) cênica.

Quadro 3

28O filósofo Jean-Luc Nancy (2020) diz que a embriaguez é uma metodologia titubeante. Então, para vivê-la, é preciso beber algo. Nesta embriaguez metafórica titubeamos, misturando realidade e sonho, considerando sua importância para o ato de criação.

29A beberagem aqui trazida quer possibilitar ao ser humano, e seu corpo, existir como “um campo de derramamento e uma rede de fontes, de jorro, um bebedouro, um remanso (...) comportas cujo jogo entretém a vida no úmido, ou seja, na passagem, na permeabilidade, no deslizamento, na flutuação, no nado e no banho” (Nancy, 2020: 24).

30Desse modo, não se trata de uma beberagem somente para matar a sede. Há quem veja nela um veículo para certa mutação mística, com um sentido de sagrado, podendo ir ao além, e nisso se fixe. Há quem perceba nela uma transgressão, mirando o sagrado como ilusão, e contendo também aqui alguma comicidade. De todo modo, o ser bêbado desta beberagem se coloca disposto ao viver com-junto.

31Se “a embriaguez exprime, no sentido mais premente da palavra, da família da prensa e da pressão, o suco que propaga a partir dos licores que absorve” (Nancy, 2020: 26. Grifos do autor), nossos licores são, assim, o conhecimento teatral por meio de máscaras, exprimidos no processo de pedagogia com elas. Nosso desafio maior tem sido, justamente, compreender o suco deles gerado. Em nossa percepção, ele valoriza uma vitalidade, intensidade e abertura dos corpos, que é condição importante para que se criem outras possibilidades expressivas estéticas, no trânsito entre culturas.

  • 16 O modo de confecção destas máscaras foi uma proposição conjunta entre a pedagoga cênica Bya Braga e (...)

32As máscaras-licores nos chegaram, ao Brasil, temperadas de suas especiarias estrangeiras. As máscaras neutras, da pedagogia teatral francesa de máscaras, assim denominadas por Charles Antonetti (1946) e também por Jacques Lecoq (2021), resultaram das máscaras nobres da pedagogia teatral de Jacques Copeau e Suzanne Bing, no início do século XX, na França (Braga, 2013), em uma pesquisa com máscaras orientais. Conosco, elas encontraram outras especiarias locais quando iniciamos, em 1999, nosso trabalho docente com elas. Disso resultou a máscara neutra diversa16, como as denominamos para enfatizar procedimentos cênicos relacionados aos saberes interculturais críticos.

33Para o professor Jacques Lecoq (2021), o princípio da neutralidade cênica não é para uma paralisação ou mesmo uma robotização de quem atua com máscaras nesta perspectiva pedagógica, e nem é para criar uma uniformidade técnica cênica. Trata-se de uma pedagogia do corpo poético que objetiva a vivência e percepção de sensações mais profundas, estados de atenção e calma. Isso pode ser entendido como um estado disponível de atuação, o que é uma situação cênica de prontidão, curiosidade, descoberta, abertura para atuar e não a criação de uma personagem-máscara específica.

34Mesmo que Lecoq tenha dito que esta máscara não buscava uma uniformidade cênica, na formação do trabalho com elas que vivenciamos no Brasil, em meados dos anos de 1980 e 1990, as conhecemos como um conjunto de máscaras praticamente iguais em forma e cor para todo um grupo de aprendizes, com práticas que não nos pareciam perceber, ou motivar, as singularidades de existência presentes.

35De fato, a difusão internacional das máscaras neutras, ao serem tratadas como um objeto de arte por meio das que foram confeccionadas pelo artista Amleto Sartori (Alberti & Piizi, 2013), as tornaram símbolo e modelo técnico teatral forte. Estas máscaras neutras se apresentavam, assim, predominantemente, em uma cor única, fruto de seu material de confecção, o couro, e com uma simetria de linhas na testa que distinguia o gênero feminino e o masculino, resultado da proposta escultural de Sartori.

36Assim, com as máscaras neutras diversas que propusemos, ainda que tenhamos referências nas diretrizes pedagógicas teatrais para a neutralidade cênica de origem, trabalhamos, primeiramente, com uma confecção delas em cores diferentes de acordo com tonalidades de pele originadas de ancestralidades variadas que temos no Brasil. Não distinguimos nelas também o gênero. E mesmo compreendendo as histórias e contextos estrangeiros da origem da máscara neutra, em nossa pedagogia não ignoramos as feridas coloniais existentes e as violências que disso repercute na vida das várias pessoas que as experimentam didaticamente. Compreendemos que tal acolhimento e cuidado impacta no estado cênico de calma e de atenção dessas pessoas. E o reconhecimento desta diversidade na imagem e escultura desta máscara parece também despertar uma sensação profunda de compreensão das singularidades existentes. Além disso, no trabalho didático com a máscara neutra diversa, não inibimos expressões corpóreas que surgem de uma memória cultural ancestral. A dinâmica mímica de uma ação realizada com esta máscara traz singularidades culturais. E o fato também de as experimentarmos pedagogicamente tanto em espaços abertos quanto fechados, naturais ou urbanos, com procedimentos didáticos próprios criados para isso, percebemos o despertar de uma escuta qualificada com reações corporais singulares, com transposições das realidades para um modo corpóreo atravessadas por heranças culturais. Trata-se, assim, de um percurso de auto-percepção que repercute quem somos e nos coloca em estado cênico de com-junto, podendo sinalizar imagens corpóreas performativas surpreendentes.

37As máscaras-licores da Commedia dell’Arte italiana também já possui fortes temperos. Ainda assim, em nossa pedagogia com as suas meia-máscaras, que cobrem somente a parte superior do rosto, as colocamos para fermentar e borbulhar junto de especiarias tropicais, criando contornos e expressões próprias por meio da artesania da atuação (Braga, 2013) de estudantes.

  • 17 Referimo-nos aqui ao Centro Maschere e Strutture Gestuali no Museo Internazionale della Maschera Am (...)
  • 18 Calçar é verbo usado na terminologia da pedagogia da máscara que a associa a um objeto artesanal fe (...)

38De 1999 até 2016, aproximadamente, ao trabalharmos com meia-máscaras dell’Arte, utilizávamos designs de esculturas de máscaras dentro de referências do ateliê italiano dos Sartori17 (Alberti & Piizi, 2013). Paralelamente a isso, começamos a experimentar a confecção artesanal de máscaras de animais e seres fantásticos a serem usadas por cada estudante que as calçaria18, em outras dinâmicas pedagógicas teatrais. Neste processo de confecção, a experimentação de repertórios próprios artesanais era estimulada, dentro de uma metodologia que consideramos titubeante. Conteúdos de zoopoética foram incorporados nestas atividades. E, com isso, também aprofundamos estudos de zoomorfismos das máscaras dell’Arte.

  • 19 Desde 2017, o Departamento de Artes Cênicas da UFMG conta com a presença do artista visual e da cen (...)

39A prática manual artesã impulsionou uma percepção de si mais aprofundada em cada estudante e daquilo que estava ao seu redor. O ato de confeccionar a sua própria máscara, integrava variadas sensações entre a liberdade e o controle no fazer.19 As descobertas eram emocionantes e estas experiências passaram, então, a integrar continuamente nossos processos de ensino-aprendizagem com a máscara. Há cerca de dois anos atrás, uma estudante testemunhou como este processo criativo a tinha impactado profundamente pois, até então, ela percebia as próprias mãos com uma utilidade instrumental, como quando trabalhava na função de operadora de caixa de um supermercado.

40Confeccionar uma máscara é um ato de produção de sensações profundas e de pensamento por uma ação corpórea. Aqui a fala comunicacional verbal está silenciada e o dizer aparece em outras vias, como o caminho sensorial tátil. Os repertórios culturais aparecem e são muito bem-vindos. A historicidade da máscara da Commedia dell’Arte se mantém presente em nossa pedagogia como referência para compreendermos correspondências e trânsitos culturais de personagens-máscaras específicas, repercutidas em nosso país por meio de outras criações. Promovemos, assim, um encontro das especiarias de lá com as de cá. O suco produzido nesta beberagem intercultural criou uma experiência renovada de existência teatral. A partir destes estudos, outras personagens-máscaras surgiram revelando equivalências, transposições culturais, e mostrando também o nosso Brasil rural, os empresários gananciosos de cá ou mesmo as pessoas trabalhadoras de atividades que poucos querem, de fato, realizar.

41Este modo de artesania didática que adotamos impacta sensivelmente a pedagogia do jogo teatral de máscaras, mobilizando uma ética da atenção, do cuidado e da responsabilidade, seja na relação com as referências das máscaras de origem, seja com o que surgirá em uma recriação em diálogo com elas. Com isso, estimula-se uma atitude de ensino-aprendizagem que problematiza as atitudes pessoais diante de um mundo cujo valor digital e industrial é evidente. “A industrialização é um modo de saquear a infância” (Braga, 2013: 140). E é no movimento impulsivo da infância que encontramos outra referência para o jogo entre a realidade e o sonho, o que sustenta as nossas aulas-sonho. A artesania ensina também a (re)viver uma infância possível e a titubear criadoramente com ela.

42Outras experiências contidas em nossa pedagogia de máscaras trazem reflexões que vão se somando as que já tratamos acima. O ensino-aprendizagem com máscaras-narizes de animais, máscaras-bonecos e máscaras da cultura popular brasileira também nos aponta caminhos importantes para a discussão da interculturalidade crítica e a perspectiva de sinalização de transculturalidades cênicas.

43As máscaras-narizes de animais trazem correspondências pedagógicas com a máscara de palhaço (nariz vermelho), em técnicas de atuação vindas da França e da Itália, que ressoam contextos de festas populares antigas, da arte circense, nas quais estão presentes uma corporeidade grotesca e a comicidade. Dentro disso, encontram-se também jogos de poder para serem atuados.

44Ao trabalharmos o encontro de diferentes espécies por meio das máscaras-narizes de animais, estimulamos lógicas cênicas de convivência na diferença, impulsionadas ou não por situações temáticas de sobrevivência. Nisso incluímos jogos cênicos de poder entre máscaras-narizes de diferentes animais, o que resulta em uma disposição corpórea de ataque e defesa, com investidas súbitas e saídas rápidas, ou mesmo uma briga cênica animalizada. Voltamos, aqui, a refletir sobre a noção de humanidade e, ainda, a discutir sobre o hibridismo cênico entre seres. A referência dos bestiários também se faz aqui presente.

  • 20 Brinquedo é uma denominação dada, pelos(as) próprios(as) brincadores(as) de seus territórios, para (...)

45Entre máscaras de rosto, máscaras-narizes, máscaras-bonecos e também as masquiagens, estudamos, ainda, as culturas performativas populares de nosso país, por meio de festas teatralizadas denominadas como brinquedos20. Aqui aparecem a máscara do Diabo da Folia de Reis (de Minas Gerais), a do Boi, do Bumba-meu-Boi (de várias partes do Brasil), de Mateus, Catirina e da Véia do Bambu do Cavalo Marinho (de Pernambuco). Neste contexto, experimentamos um diálogo intracultural crítico, que convida ao conhecimento de saberes de mestras e mestres de tradições culturais do Brasil, bem como de experiências de criação performativa comunitária, resultantes de vários trânsitos entre culturas. Podemos, assim, olhar especificamente para o que vivemos no Brasil.

Considerações

46Compreendemos que a pedagogia teatral do jogo de máscaras que realizamos contribui para a discussão de questões relacionadas aos trânsitos entre culturas em busca de outra globalização. Isso se revela na promoção que ela faz da criação lúdica de alteridades diversas em companhia de discussões críticas sobre a noção de humanidade, as relações de poder, a sociodiversidade e buscando, também, a transculturalidade, questões que são entendidas como de interesse global e que sinalizam para uma cultura da paz. Além disso, tal pedagogia problematiza a própria ideia de teatro e da atuação teatral, expandindo-as em suas fontes de criação e nas técnicas artísticas cênicas.

47No âmbito de nossas experiências, as aulas práticas de composição teatral, aqui tratadas como aulas-sonho, revelam também oportunidades de união com processos iniciais de pesquisa-criação. Pois, neste enlace, por meio de montagens de espetáculos ou performances, da composição de figuras, tudo criado em modos laboratoriais criativos, são realizados exercícios experimentais, perceptivos e afetivos de construção do conhecimento, fazendo interagir curiosidades, dúvidas, problemas impensados, questões humanas e sociais, junto a reflexão crítica e ao rigor artístico com, ainda, o desejo de avançar atitudes e pensamentos. Dos resultados obtidos, identificamos, ainda, processos pedagógicos e artísticos-cênicos com possibilidades de transmissão.

48Neste percurso de ensino-aprendizagem teatral, acompanhado de cuidados e responsabilidades docente, observamos nas pessoas que estudam as máscaras performativas o aparecimento de uma intensidade do viver e da abertura à alteridade, em processos experimentais cuja imaginação, a invenção e a ludicidade são bem-vindas. Assim, um ser mascarado inventado, ou criado com uma caracterização cênica masquiada singular, mostra uma imagem performativa e poética diferente, cuja presença relacional pode agir desmontando e remontando histórias, recriando memórias ao revisar repertórios e arquivos, e sinalizando, ainda, para a multinaturalidade. Este ser inventado, que problematiza a figura humana e suas relações culturais, encarna nossas perguntas ao mundo. Inclusive, indaga ao próprio conhecimento teatral, como este pode se expressar em uma perspectiva menos antropocêntrica. E nos oferece, também, respostas especulativas, criadoras, ainda que parciais. Ou, ainda, nos fazem outras perguntas.

49Das experiências cênicas aqui trazidas, reconhecemos nelas a motivação de pesquisas futuras em artes da cena, no âmbito de programas de pós-graduação em artes, que valorizem mais as metodologias de pesquisa-criação. A discussão sobre a interculturalidade crítica visando à compreensão sobre onde nós nos vemos no mundo pode e deve continuar, se possível, também baseada na prática do teatro e apontando para a utopia da existência em uma outra globalização.

50Neste século XXI, compreendemos a importância da interculturalidade crítica para a produção do conhecimento cênico manifestado em formas de arte, sejam estas de caráter didático ou não, que venham a fortalecer transgressões de acordos sociais e culturais de viés predominantemente utilitários. Assim, estudantes, docentes e também artistas de teatro, podem mostrar o substrato afetivo e fraterno de suas imagens transcriadas, em diferentes diálogos corpóreos e existenciais. Mas não só isso. Nas criações artesanais de máscaras e mascaramentos para a atuação teatral, com um saber-fazer corpóreo, manual, são reveladas estratégias de composição cênica que, paralelamente, trazem posicionamentos frente aos desafios da globalização capitalista dentro da pós-industrialização e da saturação tecnológica.

51Por meio da recepção de tais imagens cênicas mascaradas ou masquiadas, percebemos, por fim, que o estado onírico no viver é outro modo também necessário de conexão com o mundo, que abre a nossa atenção e desperta desejos para vivências transculturais em uma existência com-junta.

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Bibliographie

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Notes

1 Apoio : Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PQ-316109/2023-1).

2 Parte de estudos aqui trazidos foram apresentados no XII Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, em 2024, no Brasil, tendo sido ampliados e reelaborados.

3 George Bataille se refere ao ato soberano como um movimento do excesso, a atitude de tomar a si mesmo como matéria-prima para uma experiência extrema a experiência anterior (Braga, 2013).

4 O mascaramento espacial urbano, criado por Donato Sartori (Alberti & Piizi, 2013), é aqui nossa referência. O termo mascaramento é utilizado na língua portuguesa. Mas para a tradução dele na língua francesa, por exemplo, criamos o neologismo masquement.

5 Conhecemos o termo masquiagem (masquillage) nas aulas teóricas teatrais da professora francesa Béatrice Picon-Vallin, em 2006, ao mencionar uma ideia expandida de máscara, aliada à maquiagem, utilizada no Théâtre du Soleil (França).

6 Em tradução livre : “CALIBAN : Uhuru! / PROSPERO : O que disse? / CALIBAN : Eu disse Uhuru! / PROSPERO : Outra vez esta sua linguagem bárbara. Eu já falei para você que não gosto disso. Além disso, você poderia ser mais educado, um bom dia não te mataria”. Na língua bantu Suaíli, uhuru significa liberdade e emancipação.

7 A expressão aula-sonho se inspira nas proposições que faz a professora-pesquisadora Sandra Mara Corazza (2019) sobre uma docência poética.

8 Escola teatral de formação técnica universitária, com 74 anos de existência, na qual nos formamos como atriz.

9 Em tradução livre : “ENCENADOR Vamos lá, Senhores, fiquem à vontade. A cada um, a sua personagem. E a cada personagem, a sua máscara”.

10 Este trabalho foi realizado pelo professor de caracterização cênica Antônio Kattah (Teatro Universitário-UFMG).

11 Atrizes e atores de ancestralidades preta, parda e indígena atuavam, sobretudo, as personagens oprimidas.

12 A criação da dramaturgia de espaço composta em site specific foi composta por Bya Braga e Tarcísio Ribeiro Jr.. O espetáculo era realizado ao ar livre, no interior de um casarão histórico da cidade, em um pátio em declive, tendo : de um lado, um palco frontal de cimento com uma parte superior na qual atuavam Próspero, Miranda e Ferdinando ; ao redor do pátio e em um andar acima, varandas e corredores que recebiam a atuação dos nobres em um piso ainda mais elevado cenograficamente ; no solo, na parte inferior e central do pátio, atuava Caliban, sendo ali o cenário de sua gruta/gueto ; o público, também no solo e ao centro, sentado em bancos cujos tampos eram confeccionados em quatro formas geométricas diferentes, como se fossem peças de um jogo de tabuleiro e coloridos em verde, amarelo, azul e vermelho, dispostos no espaço também na forma de um tabuleiro ; Ariel, em duo, movia-se por cima do público em duas grandes redes similares aquelas usadas para proteção de números circenses aéreos ; Exu, por fim, tomava o espaço/palco de Próspero, de modo irreprimível e libertário. E a voz de Xangô era também forte presença no espetáculo por meio de música original composta e cantada pelo multiartista Maurício Tizumba, um dos importantes mestres da cultura afro-brasileira no Brasil.

13 O espetáculo foi apresentado na cidade de Belo Horizonte (Minas Gerais-Brasil) e, posteriormente, convidado a se apresentar, também em caráter de apresentação didática, na cidade do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro-Brasil), em 1994, no Teatro Gláucio Gill, cujo espaço cênico estava apto a abrigar espetáculos multiambientais.

14 A tradução do texto teatral de S. Beckett para a língua portuguesa foi realizada por nós, neste caso, com única finalidade didática e para circulação restrita no grupo cênico que realizava a performance pedagógica.

15 Aqui nos referimos à narrativa mítica do povo indígena Maxakali sobre a origem da primeira mulher, criada a partir de um ato sexual de um ancestral índio (mõnãyxop), que vivia sozinho, com uma vagina-barro modelada por ele próprio em um barreiro. (Braga, 2022: 46-47) O povo Maxakali, do tronco linguístico Macro-Jê, os Tikmũ,ũn (“Nós, os humanos”), como se autodenominam, está presente hoje exclusivamente em nossa região, no estado de Minas Gerais, Brasil.

16 O modo de confecção destas máscaras foi uma proposição conjunta entre a pedagoga cênica Bya Braga e o mascareiro Tarcício Ribeiro Jr., que estudou técnicas de criação de máscaras teatrais com o mestre Donato Sartori, na Itália, em 1997.

17 Referimo-nos aqui ao Centro Maschere e Strutture Gestuali no Museo Internazionale della Maschera Amleto e Donato Sartori, em Abano Terme-Pádua, Itália. Disponível em : https://www.sartorimaskmuseum.it/ , acesso em 08 de março de 2026.

18 Calçar é verbo usado na terminologia da pedagogia da máscara que a associa a um objeto artesanal feito sob medida. (Braga, 2013).

19 Desde 2017, o Departamento de Artes Cênicas da UFMG conta com a presença do artista visual e da cena Daniel Ducato como Técnico em cenotécnica, realizando também atividades de mascareiro. Estabelecemos com ele uma parceria no ensino de confecção de máscaras, com orientações técnicas e artísticas específicas para cada treinamento de atuação mascarada e projeto de criação teatral.

20 Brinquedo é uma denominação dada, pelos(as) próprios(as) brincadores(as) de seus territórios, para algumas manifestações performativas festivas oriundas de culturas populares brasileiras, também chamadas de folguedos, danças dramáticas, teatros folclóricos ou mesmo teatralidades de tradição popular. A palavra brincante, neste contexto, seria uma designação equivalente a ator/atriz, participante da brincadeira, que nomeamos como um teatro-festa.

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Pour citer cet article

Référence électronique

Bya Braga, « Máscaras e o cruzamento de culturas : experiências pedagógicas cênicas no Brasil em busca de outra globalização »Amerika [En ligne], 32 | 2026, mis en ligne le 31 juillet 2026, consulté le 15 septembre 2026. URL : http://journals.openedition.org/amerika/23724 ; DOI : https://doi.org/10.4000/16p4d

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Auteur

Bya Braga

Professora e pesquisadora/Departamento de Artes Cênicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil

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Droits d’auteur

CC-BY-SA-4.0

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