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Dossiê "África, artes e artistas diante da emergência de guerras: pensamentos, mobilizações poéticas e criações"
Editorial

África, Artes e Artistas diante da Emergência de Guerras: Pensamentos, Mobilizações Poéticas e Criações

Paulo S C Neves, Denise Dias Barros, Aghi Bahi e Fernanda Almeida
p. 3-7

Texto integral

1A história do continente africano vem sendo marcada por diversas crises e situações de guerra desde as independências em relação às potências europeias, a partir da década de 1960. Frutos de múltiplas tensões herdadas do período colonial ou geradas pelo neocolonialismo instaurado na maioria dos países da região após os processos de independência, muitos são os conflitos que, de fato, rasgam o continente em feridas vivas e sangrentas. Feridas que, por vezes, se traduzem em massacres, golpes de Estado, guerras civis ou na enorme desigualdade que grassa em muitos países africanos. Essa realidade tem sido usada para justificar a visão persistente da África no imaginário ocidental: um continente atravessado por guerras, injustiças e conflitos, incapaz de solucionar seus problemas e presa fácil das injunções econômicas, políticas e militares das potências mundiais.

2Essa é, contudo, uma visão simplista e redutora da África, uma vez que invisibiliza não apenas a responsabilidade de alguns atores mundiais nesses processos, mas também o fato de que lá fervilham forças e energias criativas que se manifestam em diferentes domínios da vida social: das expressões artísticas e culturais da juventude à literatura, às artes plásticas engajadas e às experiências socioeconômicas em diversas comunidades.

3É esse paradoxo africano que coloca o continente no centro do debate contemporâneo sobre o futuro das sociedades humanas e o torna um dos maiores focos de interesse investigativo para os pesquisadores das ciências humanas. Não se trata de desafios que atingem tão somente a África, mas todas as sociedades contemporâneas, marcadas pelas entropias do projeto modernidade, emergido na Europa, e também por resiliências e criações inovadoras. Isso nos dá a esperança de que, afinal, a criatividade humana é capaz senão de superar nossas mazelas, ao menos, de criar mecanismos que nos ajudem a atravessá-las e sobreviver a elas.

4Tudo isso nos interpela sobre o papel da arte no mundo contemporâneo e, em África, de modo particular. O lugar da expressão artística em um mundo em mutação nos remete à noção de catarse, tal como pensada por Aristóteles (2025), na antiguidade. A arte é uma forma de ilusão que nos ajuda a ir além do real, transmutando-o e ressignificando-o, tornando-se, pois, uma ilusão que se sobrepõe ao real (Baudrillard, 1981). Por essa razão, autores como Rancière (2005) consideram toda forma de arte intrinsecamente política, não tanto (ou não apenas) pelo conteúdo difundido, mas pela capacidade de realizar a “partilha do sensível”, alterando a forma como o mundo é visto e interpretado.

5No contexto africano, diante das situações-limite mencionadas, a arte, em suas várias dimensões, tem desempenhado um papel importante para repensar criticamente os acontecimentos no continente. São inúmeros os polos intelectuais, culturais e artísticos que se desenvolvem por diferentes iniciativas em África, incluindo a África do Sul, que exerce influência para além do continente.

6Nesse sentido, este dossiê indaga, sobretudo, as formas expressivas das identidades culturais, como propõe Édouard Glissant (2011), seus substratos políticos e culturais, assim como os movimentos sociais que hoje mobilizam a criação em suas dinâmicas ético-estéticas e poéticas. Entender essa dinâmica significa compreender como a arte é, ao mesmo tempo, espelho da sociedade e uma metarrealidade, onde novas possibilidades e imaginários ganham sentido e formas de existência.

7A partir dessa dialética — ser espelho do mundo e, ao mesmo tempo, ser um outro mundo em criação —, podemos entender como as artes se consolidam como espaços de tensionamentos e de catarse frente a um mundo que ameaça desmoronar. Servem também como celeiros de utopias de mundos vindouros e de visões críticas da realidade atual. Para entender a arte nessa perspectiva, é necessário ir além da estética e da interferência do social sobre a arte, compreendendo-a na perspectiva de uma autopoiesis construída a partir de realidades heterogêneas.

8Essas foram as ideias mestras que nos guiaram na organização deste dossiê. Seu objetivo é abordar e dar vazão a essa tensão dialética entre realidades “em beligerância e beligerantes”, tanto em termos de guerras abertas quanto de conflitos latentes e implícitos, mais ou menos negados. Um dossiê sobre arte em tempos de guerra, a partir do pensamento e das criações insurgentes em contextos africanos, comporta, portanto, um leque amplo de possibilidades temáticas e disciplinares, como se verá a seguir.

9O primeiro texto que compõe este dossiê, Arte, Memória e Herança Colonial em uma Cidade do Sul da África, retrata as ambiguidades da sociedade sul-africana em relação ao seu passado recente. Por meio da análise da arte pública em uma cidade simbolicamente importante da África do Sul, Paulo S. C. Neves e Laura Moutinho mostram as dificuldades desse país em lidar com a memória de um passado colonial e segregacionista. Ao mesmo tempo em que se buscam construir novas memórias e imaginários, valorizando formas artísticas críticas desse passado traumático, a permanência de visões idealizadas do colonialismo em museus e em obras de artistas altamente valorizados no mercado local evidencia que esse legado ainda ronda a realidade. Apesar de três décadas do fim do apartheid e das políticas multiculturais implantadas, o pensamento reificador do passado colonial ainda se expressa em obras de arte, em museus e nas relações entre grupos sociais de diferentes origens étnico-raciais. Essa tensão entre preservação e transformação das narrativas sobre o passado pode ser lida como expressão de algumas das encruzilhadas que se apresentam à sociedade sul-africana contemporânea: como expiar o passado sem comprometer o presente e o futuro? Como dar expressão a novos imaginários (artísticos, políticos e sociais) se as estruturas herdadas continuam a assombrar a realidade e a capacidade imaginativa?

10Embora o artigo tome o caso sul-africano como exemplo, a discussão sobre o uso da arte nas disputas pela memória oficial é recorrente no mundo africano. É o que se vê no texto de Rosa Cavalcanti Ribas Vieira, As presenças ausentes: etnografia, artefatos e memórias no Mayombe, no qual a autora relata as demandas pela restituição de artefatos originários das comunidades que vivem na floresta do Mayombe, na República Democrática do Congo, mas que atualmente se encontram em museus e coleções do Norte Global. Baseado em dados etnográficos, o texto “discute uma coisa-conceito Yoómbe relacionando-a com duas peças de acervos museais para refletir sobre artefatos ausentes que continuam presentes e interferem na vida social. Argumenta-se que esta coisa-conceito atualiza memórias do tráfico transatlântico de pessoas em situação de escravização e tornou-se uma agência maléfica que provoca suspeições.” Para além do debate atual sobre a devolução das obras artísticas levadas às metrópoles coloniais no passado, há aqui uma reflexão sobre uma memória ancestral dolorosa que esses objetos reativam na atualidade.

11Já no texto escrito por Mahfouz Ag Adnane e Flavio Nogueira (Tessituras de resiliências em mundos-em-conflito: silenciamentos e metamorfoses em festivais e expografias visuais em contextos africanos), os autores buscam entender como artistas oriundos de áreas de conflitos expressam a dor e o sofrimento dos “que foram violados pelo apagamento cultural, exclusão estrutural e ameaças à vida”. A partir de um extenso trabalho de pesquisa em arquivos e de interações com artistas e produtores culturais em festivais, bienais, galerias e ateliês no Marrocos e na África do Sul, os autores sustentam que há uma tendência nesses artistas à invocação da memória e à ressignificação das experiências traumáticas para um reposicionamento no presente. O que se percebe também é uma busca identitária desses artistas em oposição ao nacionalismo dos Estados-nação africanos, que buscam apagar as especificidades dos grupos minoritários em nome da identidade nacional.

12Buscando entender os efeitos das experiências de conflitos armados sobre crianças, Marina Pastore descreve em seu texto “É guerra isso? Marcas da violência nas experiências e corpos negros de crianças em Cabo Delgado” sua experiência com etno-arte em acampamentos de deslocados de guerra em Moçambique, na região de Cabo Delgado. Assentado em um relato etnográfico comovente, o artigo mostra como o desenho e outras formas artísticas atuam como linguagens possíveis para expressar a dor e o sofrimento nesses contextos. Temos aqui mais um exemplo de como a arte pode ser terapêutica e funcionar como um meio de exorcizar os demônios que insistem em permanecer ativos no mundo contemporâneo.

13Por sua vez, Mahesse Kole, em seu texto “Les musiques urbaines dans la crise politique ivoirienne 2002-2012”, mostra-nos como as músicas urbanas na Costa do Marfim tiveram um papel importante nas manifestações políticas na primeira década do século XXI. A tese desenvolvida é que, ao mesmo tempo em que os músicos dos gêneros musicais mais populares no país (Reggae, Zouglou, Coupé-Décalé) foram influenciados pelos eventos políticos, eles também influenciaram a conjuntura por meio de suas mensagens e posturas, tornando-se atores importantes na evolução da situação. Vemos aqui uma relação direta entre arte e política em um contexto de crise política.

14Também versando sobre a situação na Costa do Marfim, Stéphane Ettien Adou nos transporta para o universo televisivo em “Panser et repenser le vivre ensemble par le rire et la dérision: la contribution de fiction télévisée ivoirienne Cour Commune”, através da análise de um programa humorístico no contexto pós-crise política no país. A partir da análise conjugada das mensagens propagadas no programa e da recepção do público, o texto sustenta que os objetivos de apaziguamento dos conflitos na sociedade não foram atingidos. Para o autor, isso mostra que, para se sair da crise, é necessário repensar os laços sociais, sem os quais os objetivos de uso da comédia televisiva para ampliar a coesão social não serão atingidos.

15Como se pode notar, o dossiê aqui proposto toma a noção de conflito e de guerra em um sentido amplo. Afinal, se as guerras são vistas como conflitos armados em larga escala, não se pode ocultar o fato de que muitos conflitos políticos em África, e alhures, são também seguidos de violência. Razão pela qual usamos o conceito de guerra aqui não apenas no sentido de guerras convencionais, mas também para abarcar disputas tensas sobre temas que envolvem os destinos das sociedades. Assim, todos os textos aqui apresentados retratam situações de tensões bem marcadas, seja ao nível dos conflitos armados, seja ao nível das disputas políticas pela memória legítima, ou ainda das lutas políticas. Entender como diferentes formas artísticas se inserem nessas situações nos faz avançar na compreensão sobre como a arte é praticada em contextos limites.

16Além disso, este dossiê buscou estar aberto a contribuições de diferentes campos acadêmicos e a diferentes análises de experiências artísticas que tensionam a realidade social, política e econômica. Esperamos que ele possa inspirar a realização de novas pesquisas sobre as complexas relações entre arte e guerra no contexto africano, trazendo novas perspectivas e alargando nossa compreensão sobre essa realidade tão trágica e prenhe de aprendizados para todos nós, africanos ou não.

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Bibliografia

Aristoteles. 2025. Poética. São Paulo: LP&M.

Baudrillard, J. 1981. Simulacres et Simulation. Paris: Galilée.

Glissant, Édouard. 2011. Poética da relação. Lisboa: Sextante.

Rancière, Jacques. 2005. A partilha do sensível. São Paulo: Ed. 34.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Paulo S C Neves, Denise Dias Barros, Aghi Bahi e Fernanda Almeida, «África, Artes e Artistas diante da Emergência de Guerras: Pensamentos, Mobilizações Poéticas e Criações»Cadernos de Arte e Antropologia, Vol. 14 | -0001, 3-7.

Referência eletrónica

Paulo S C Neves, Denise Dias Barros, Aghi Bahi e Fernanda Almeida, «África, Artes e Artistas diante da Emergência de Guerras: Pensamentos, Mobilizações Poéticas e Criações»Cadernos de Arte e Antropologia [Online], Vol. 14 | 2025, posto online no dia 01 agosto 2025, consultado o 07 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/cadernosaa/5381; DOI: https://doi.org/10.4000/14rif

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Autores

Paulo S C Neves

UFABC (São Paulo, Brasil)
pscneves@gmail.com

Denise Dias Barros

USP (São Paulo, Brasil)

Aghi Bahi

UFHB (Abidjan, Costa do Marfim)

Fernanda Almeida

SU (Stellenbosch, África do Sul)

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Direitos de autor

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