Navigation – Plan du site

AccueilNuméros31Cinema em Minas Gerais, mineiro n...

Cinema em Minas Gerais, mineiro nas diferenças!

Cléber Eduardo
p. 24-33
Traduction(s) :
Le cinéma dans le Minas Gerais, le mineiro dans ses différences ! [fr]

Résumés

La production audiovisuelle actuelle du Minas Gerais, terre de tradition cinématographique d’une part, et cœur du Brésil d’autre part, marque un tournant de l’histoire du cinéma national. Il incarne les transformations de la création et de la production, résultats de décisions politiques et éducatives du début du XXIe siècle. Elles se caractérisent par une relation à l’intime et au local, tout en affichant une cinéphilie cosmopolite.

Haut de page

Texte intégral

Marte Um (2022) de Gabriel Martins

Marte Um (2022) de Gabriel Martins

1Humberto Mauro é uma das mais tradicionais salas de exibição de Belo Horizonte, situada em um complexo arquitetônico modernista (o Palácio das Artes), localizado no centro da capital de Minas Gerais, um dos muitos projetos na cidade do arquiteto Oscar Niemeyer. O nome da sala –de arte e ensaio, inaugurada em 1978– homenageia Mauro, o mais conhecido, mítico e longevo cineasta mineiro, nascido em Volta Grande em 1897 e morto em 1983, com filmografia iniciada no cinema silencioso da década de 1920 do século XX, quase 100 anos atrás, e desenvolvida sobre os paradoxos de momentos de transição: entre o cinema silencioso e o sonoro, entre o enfoque artístico e o educativo, entre universos rurais e urbanos, em um país também em trânsito entre o mundo agrário e o industrial na primeira metade do século passado.

2Estes contextos de transições estão expressos nas premissas e nos estilos de sua volumosa produção, especialmente na de ficção entre as décadas de 1920 e a de 1950, valorizando a convivência entre a tradição e a novidade Mauro foi o escolhido para ser o patrono do Cinema Novo, principalmente por ter, com sua modernidade inevitável, criado raízes de um cinema nacional brasileiro (não apenas do Brasil), por mais que essa distinção possa e deva ser questionada sempre. O que é, afinal, brasileiro? E o que é, consequentemente, mineiro?

Arabia (2017) de Renato Novaes

Arabia (2017) de Renato Novaes

3Mineiros são muitas possibilida eleição presidencial polarizada, que Minas Gerais, na disputa pelos votos, é considerada a média eleitoral brasileira, com um pé no Sudeste, outro no Centro Oeste e um terceiro no Nordeste. As diferenças percentuais nacionais de votos entre os candidatos presidenciais nas últimas eleições foram muito próximas das diferenças em Minas. Em outubro de 2022, Lula teve 50,20% e Bolsonaro 48,80% no estado. No Brasil, Lula teve 50,90% e Bolsonaro, 49,10%.

4Essa polarização é também expressa, não em termos políticos e ideológicos, nas diferenças do cinema em Minas. Ser mineiro é pressuposto e seu avesso. Há quem verá o ser mineiro como parte de uma grande roça fechada em si mesmo. Há quem enfatize o cosmopolitismo moderno frutificado entre o local e o estrangeiro.

5O cinema em Minas Gerais, para além da utilização dos cenários e locações do estado em filmes de Rio e de São Paulo, tem suas figuras protagonistas. Podemos mencionar, após a progressiva aposentadoria de Mauro no fim dos anos 1950, nomes fundamentais: Maurício Gomes Leite, Geraldo Veloso, Carlos Alberto Prates Correa, Helvécio Raton, Cao Guimarães, Rafael Conde, Marília Rocha. São em sua maioria emblemas de um cinema herdeiro ou discípulo, em sua atualização, das pesquisas formais modernas dos anos 1960.

6Embora outras filmografias mineiras tenham seguido passos mais tradicionais e conservadores, podemos constatar uma inclinação para experimentações menos ou mais discretas nestas filmografias mais expressivas. A arquitetura modernista do carioca internacionalizado Oscar Niemeyer, linhagem estética e urbana onde se encontra a sala Humberto Mauro, talvez nos ajude a entender estas movimentações. O acento local e a ambição universal andam juntas em outros campos artísticos em Minas, como na música (Milton Nascimento, Clube da Esquina), literatura (João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Paulo Mendes Campos), artes visuais/escultura (Aleijadinho, Lygia Clark, Amilcar de Castro), dança contemporânea (grupo Corpo), teatro renovador (grupo Galpão) e na própria videoarte que revelou Eder Santos, Lucas Bambozzi e Cao Guimarães. Outros exemplos poderiam ampliar essa pequena e redutora síntese.

7A oscilação entre os mundos rurais e urbanos permaneceu como marca do cinema mineiro nestas últimas cinco décadas e se mantém em andamento ao menos parcialmente. Há nos últimos anos um novo capítulo sendo escrito com luzes e sons, com continuidades e novidades, em anos recentes, alternando estéticas mais naturalistas e mais performáticas, mais realistas e mais formalistas, por meio de uma geração revelada nos curtas metragens desde a primeira década de 2000, que começou a realizar seus primeiros longas nos anos seguintes.

8Houve um momento em que se criou um chavão aglutinador –cinema poético mineiro– com olhos para a produção documentalimbricada com a videoarte. O chavão foi aposentado nos anos seguintes. Talvez o filme de transição seja A falta que me faz, de Marília Rocha, com as mulheres em primeiro plano, seguido de Céu sobre os ombros, de Sérgio Borges, que se valia de um jogo de montagem e de composição visual, mas sem perder personagens de vista, e Os residentes, de Tiago Mata Machado, que colocava na mineiridade de então uma antena com a cinéfila de referências européias e com uma noção de cena como performance. Essa virada no cinema mineiro se deu na virada da primeira para a segunda década dos anos 2000.

9Esses anos e os seguintes tiveram um elenco forte de autorias em início de percurso: Tiago Mata Machado (Os residentes e Os sonâmbulos), Sérgio Borges (Céu sobre os ombros), Helvécio Marins e Clarissa Campolina (Girimunho), Affonso Uchôa (Vizinhança do tigre e Arábia), Ricardo Alves Junior (Elon não acredita na morte, Vaga carne), André Novais Oliveira (Ela volta na quinta e Temporada), Juliana Antunes (Baronesa), Gabriel Martins (No coração do mundo e Marte Um), Maurílio Martins (No coração do mundo), Ewerton Belico e Samuel Marota (Baixo centro), Grace Passô (Vaga carne e República), Sueli Maxakali (Mulheres espírito e Essa terra é nossa).

Marte Um (2022) de Gabriel Martins

Marte Um (2022) de Gabriel Martins

10Há no momento uma cena de Belo Horizonte, outra de Contagem e mais uma nas aldeias Maxakali. São cineastas de origem na classe média (alta, média e baixa), nos centros urbanos pequenos burgueses, periferias e aldeias, brancos, brancas, negras, negros, indígenas, que filmam com mais ênfase ou mais sutilezas, de modo mais rebuscado ou mais simples, mais aproximados da aproximação documental e cotidiana ou mais reveladores de seus artifícios e das exceções do dia a dia.

11Essa cena cinematográfica tem acontecido em uma terra habituada à cinéfila cosmopolita desde pelo menos a década de 1950, à iniciativas importantes na crítica (a Revista de Cinema nos anos 1950 e 1960), à uma tradição dos cineclubes e festivais formadores (Mostra de Tiradentes, Forumdoc, Cine Ouro Preto, Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, Cine BH, Indie), a um contexto seminal para a videoarte nos anos 1980 e 1990, a uma cena teatral aquecida e em contato com o cinema e à presença intensa e estimulante dos cursos especializados em Belo Horizonte, como a Universidade Federal de Minas Gerais, a PUC, a Escola Livre de Cinema e a UNA.

12Segundo o diretor André Novais Oliveira, em conversa comigo durante a elaboração deste texto, alguns aspectos históricos são peças chaves para o cinema mineiro de hoje, entre os quais a tradição cineclubista em Belo Horizonte, e a importância da Revista de Cinema e do site Filmes Polvo para a formação da sua generação. Lembra dos elogios de Glauber Rocha a revista mineira nos anos 1960, antes de ser criticado em suas páginas e, consequentemente, destruir a importância da revista e rasgar suas páginas em público.

Arábia (2017) de Renato Novaes

Arábia (2017) de Renato Novaes

13Novais ainda destaca as importâncias, por um lado, de cineastas aproximados do Cinema Novo e do Cinema Marginal, sem se integrarem a nenhum dos “movimentos”, como Geraldo Ribeiro e Carlos Alberto Prates, e de cineastas menos experimentados, como Helvécio Ratton e Rafael Conde, não menos importantes para a manutenção sadia das atividades em cinema em Minas. O diretor elege O padre e a moça, de Joaquim Pedro de Andrade, cineasta ligado ao Cinema Novo, como estímulo ao cinema mineiro, uma vez que, além de ter sido filmado em Ouro Preto, em 1965/ 1966, teve em sua equipe futuros cineastas mineiros, como Veloso e Prates.

14São aspectos importantes para se ter maior clareza sobre a situação atualdo cinema em Minas Gerais e da forte e positiva reação a Marte Um, de Gabriel Martins, que se tornou o representante brasileiro no Oscar para produções em línguas estrangeiras. Acrescenta-se a esse solo fertilizado as políticas públicas de educação (por meio das ações afirmativas para população preta, indígena e de baixa renda) e de fomento à produção de filmes (estratégias de descentralização do investimento público, saindo da concentração em Rio e em São Paulo), seja por meio do Fundo Setorialdo Audiovisual (com seu ritmo de conta gotas desde 2017), seja por meio do edital estadual Filme Minas.

15Para o crítico e curador Marcelo Miranda, autor do artigo “As aldeias de todos nós: o novo cinema em Minas Gerais olha a vida e os espaços dequem o faz, a inclinação de cineastas para universos rurais, aos quais não pertencem diretamente, está sendo colocada em segundo plano no momento. Em vez de filmar pessoas com vivências distantes de quem realiza, em geografias com as quais não tem intimidade cotidiana e precisa antes se ambientar, o novo cinema mineiro filma as esquinas, metafórica e literalmente.

  • 1 O Cinema Brasileiro em resposta ao país (2016-2021), coordenador editorial Cléber Eduardo, Org. Raq (...)

[...] nunca, desde 2010, “registrou-se quantidade tão grande de filmes que tinham como protagonistas a rua onde mora, a pessoa com quem se vive, os pais com quem se cresce, o chefe com quem se trabalha, o crime que se comete, a injustiça que se sofre”, trazendo, nas palavras de Miranda, “produções de baixo orçamento que tinham suas casas, bairros, parentes, amigos e companheiros como personagens centrais.1

16André Novais Oliveira é o novo autor com mais prática e com mais entrega a esta dinâmica de filmar a vizinhança, família e a camaradagem, aliançado com as estratégias de um cineasta como Adirley Queirós e sua onipresente Ceilândia (cidade satélite de Brasília), mas adicionando uma sobriedade meditativa no desenvolvimento das cenas e das narrativas. O cineasta está hoje no topo de um cinema composto dos pequenos gestos e das situações comuns, sem fazer dos aspectos mais ordinários uma pauta ou bandeira sem ressonância no organismo dos próprios filmes, centrando sua câmera, seus elencos e seus diálogos na esfera da família e das amizades.

Vizinhancça do tigre (2004) de Affonso Uchôa e Aristides de Sousa

Vizinhancça do tigre (2004) de Affonso Uchôa e Aristides de Sousa

17Essa naturalidade das coisas simples da vida, que encontra fora do Brasil matrizes variadas e asiáticas, entre o japonês Yasujiro Ozu e o taiwanês Edward Yang, encontra seu exato oposto nos filmes de Tiago Mata Machado, com sua radicalidade estilística desdobrada das raízes européias de Godard e Fassbinder, para ficar em dois exemplos. O minimalismo e o acúmulo. Entre uma e outra vertente, encontramos Gabriel Martins, Affonso Uchoa e Maurílio Martins, não pela soma dos outros dois extremos, mas por opções próprias sem pender para nenhum dos lados (a cotidianidade ou performance do estilo).

18Outras potências ainda estão em desenvolvimento inicial, como Juliana Antunes, que estreou pelo alto com Baronesa, filme excessivamente visto como desdobramento feminino de A vizinhança do tigre, de Affonso Uchôa. Não se pode dizer, porém, se Baronesa é fruto de uma circunstância (de filmagem, de relação, de proposta) ou se é início de uma pesquisa formal (na qual o material humano e o ambiente deste material têm potencial mais intenso que a intensidade das escolhas visuais e cênicas). Também está em sedimentação ampliada os trabalhos fronteiriços com a performance de Ana Pi, que, no curta Noir Blue, atravessou as paredes das artes cênicas e chegou ao coração do cinema multidisciplinar.

Os sonâmbulos (2020) de Tiago Mata Machado

Os sonâmbulos (2020) de Tiago Mata Machado

19O crítico Vitor Guimarães, no artigo “Conheço meu lugar, logo o estranho: novas cartografias do cinema brasileiro, também presente no livro O cinema em resposta ao país (p. 102-104), observa uma nova frente. Os filmes estariam se deslocando das próprias ruas e quintais para o mundo, mas por meio de individualidades que carregam seus territórios em seus corpos e sentimentos. Cita os exemplos de Arábia, Temporada e Noir Blue, filmes de deslocamentos de personagens e de universos. O que se percebe, com a passagem de Vizinhança do tigre (Uchôa) para Arábia (Uchôa e João Dumans) e de No coração do mundo (Gabriel e Maurílio Martins) para Marte Um (Gabriel Martins), é maior empenho em visibilidade, em tocar o coração das pessoas, em adoçar a dureza com a esperança.

20Isso pode significar que, a cada ciclo de contingências, os estímulos são atualizados, nunca indo inteiramente para um lado ou para outro, mas transitando de um a outro lado, com mais ousadia ou com mais sobriedade. Talvez a própria ideia de Minas Gerais e de arte mineira carregue esses polos dos excessos e da calmaria formal, dos acúmulos e das subtrações, das experiências visuais e do recuo da estilização, das palavras em quantidade aos silêncios da ambiguidade. As Minas Gerais são muitas em uma só . O cinema mineiro de anos recentes parece antenado com essa percepção: uma Minas para dentro, outra para fora, em uma mesma produção contemporânea, às vezes em um mesmo filme.

No coração do mundo (Au cœur du monde, 2019) de Gabriel Martins

No coração do mundo (Au cœur du monde, 2019) de Gabriel Martins
Haut de page

Notes

1 O Cinema Brasileiro em resposta ao país (2016-2021), coordenador editorial Cléber Eduardo, Org. Raquel Hallak e Fernanda Hallak, Coleção Cinema sem Fronteiras, vol. III, Edição Universo Produção, Belo Horizonte, 2022, p. 126-127.

Haut de page

Table des illustrations

Titre Marte Um (2022) de Gabriel Martins
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-1.png
Fichier image/png, 4,8M
Titre Arabia (2017) de Renato Novaes
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-2.png
Fichier image/png, 477k
Titre Grace Passô
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-3.png
Fichier image/png, 691k
Titre Marte Um (2022) de Gabriel Martins
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-4.png
Fichier image/png, 373k
Titre Arábia (2017) de Renato Novaes
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-5.png
Fichier image/png, 532k
Titre Vizinhancça do tigre (2004) de Affonso Uchôa e Aristides de Sousa
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-6.png
Fichier image/png, 553k
Titre Os sonâmbulos (2020) de Tiago Mata Machado
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-7.png
Fichier image/png, 622k
Titre No coração do mundo (Au cœur du monde, 2019) de Gabriel Martins
URL http://journals.openedition.org/cinelatino/docannexe/image/10362/img-8.png
Fichier image/png, 735k
Haut de page

Pour citer cet article

Référence papier

Cléber Eduardo, « Cinema em Minas Gerais, mineiro nas diferenças! »Cinémas d’Amérique latine, 31 | 2023, 24-33.

Référence électronique

Cléber Eduardo, « Cinema em Minas Gerais, mineiro nas diferenças! »Cinémas d’Amérique latine [En ligne], 31 | 2023, mis en ligne le 23 novembre 2023, consulté le 09 septembre 2026. URL : http://journals.openedition.org/cinelatino/10362 ; DOI : https://doi.org/10.4000/1385m

Haut de page

Auteur

Cléber Eduardo

Cléber Eduardo é curador do Cine BH International Film Festival, do Cine Ouro Preto (CineOP) e do DOCSP. Formado em comunicação e ciências sociais, tem mestrado em cinema e audiovisual na ECA-USP com dissertação sobre a performance verbal de personagens nos documentários brasileiros na primeira década do século XXI. Foi curador da Mostra de Tiradentes (2007-2019), da mostra online 10 Olhares sobre o cinema brasileiro da segunda década do século XXI e de outros eventos. é organizador editorial do livro Cinema brasileiro em resposta ao país (2016-2021) e autor de diversos artigos publicados, entre os quais, “Continuidade expandida” e “O novo cinema autoral brasileiro (2005-2016)” no livro Nova história do cinema brasileiro, organizado por Fernão Pessoa Ramos e Sheila Schvarzman. Foi crítico de cinema dos jornais Diário Popular e Folha da Tarde em São Paulo, das revistas Época e Bravo, dos sites Contracampo e Cinética. Foi professor do curso de graduação em cinema e audiovisual do Centro Universitário Senac (2008-2020), com pesquisas e disciplinas voltadas para o cinema brasileiro e para o documentário.

Articles du même auteur

Haut de page

Droits d’auteur

CC-BY-NC-ND-4.0

Le texte seul est utilisable sous licence CC BY-NC-ND 4.0. Les autres éléments (illustrations, fichiers annexes importés) sont susceptibles d’être soumis à des autorisations d’usage spécifiques.

Haut de page
Rechercher dans OpenEdition Search

Vous allez être redirigé vers OpenEdition Search