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Cinéma d’aujourd’hui, regards critiques

A paixão segundo Luiz Fernando Carvalho

Sylvie Debs
Traduction de Sylvie Debs
p. 108-121
Cet article est une traduction de :
La passion selon Luiz Fernando Carvalho [fr]

Résumés

Cet article analyse le processus créatif mis en place par Luiz Fernando Carvalho pour passer du livre de Clarice Lispector, La passion selon G.H. au film du même nom. Il présente quelques exemples de transposition du texte au film.

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Texte intégral

Para que serve a literatura? Para ver e ouvir.
Gilles Deleuze / Félix Guattari

Rodagem de A Paixão segundo G.H. (2022) de Luiz Fernando Carvalho

Rodagem de A Paixão segundo G.H. (2022) de Luiz Fernando Carvalho
  • 1 Debs S., “Du goût du public selon Luiz Fernando Carvalho”, Cinémas d’Amérique latine n°16, PUM, Tou (...)
  • 2 Moser B., Clarice Lispector, une biographie. Pourquoi ce monde, traduit de l’anglais (États-Unis) p (...)
  • 3 Tarkovski, A., Esculpir o tempo, Martins Fontes, São Paulo, 1998, p.162-163: “Durante as filmagens a (...)

1O trabalho e as realizações de Luiz Fernando Carvalho não podem ser ignorados por quem se interessa pelo setor audiovisual no Brasil. De fato, suas produções audiovisuais, seja para a televisão ou para o cinema1, são uma referência. Ele tem a reputação de ser um diretor muito exigente, um caçador de talentos, inventivo, ousado e inovador. Ele desafia os limites entre as diferentes artes e sempre se cerca de uma equipe sólida de especialistas e amadores, a quem convida a embarcar na experiência de uma criação coletiva. Ele mesmo prefere se definir como amador em vez de profissional, um ponto que compartilha com Clarice Lispector (1920-1977)2. Para concretizar suas ideias antes de capturá-las para a tela, ele tem uma profunda necessidade de se perder, de se desafiar, de testar, de inventar, de rastrear as palavras e, principalmente, de escavar as entrelinhas dos textos literários que escolheu para levar à tela, levando consigo todos os “atores” do processo criativo em andamento. Para definir o estado de espírito dessa equipe, a energia que ela gera, a cumplicidade entre as pessoas além de qualquer hierarquia, ele gosta de se referir a Andreï Tarkovski (1932-1986), que disse que era necessário “que o mesmo sangue corresse por todas as veias e artérias de toda a equipe, o mesmo pulso3”.

2A paixão segundo G.H., de Clarice Lispector, acompanha o diretor há muitos anos. Ele recorreu a esse texto durante a montagem de Lavoura arcaica, quando se viu totalmente perturbado pelas imagens de Ana, magnificamente vivida pela atriz Simone Spoladore, especialmente na sequência final da dança. Ana é uma personagem privada da fala no filme e, en quanto ela se rebela contra o patriarcado oferecendo seu corpo como sacrifício, G.H., por sua vez, desenvolve um discurso absolutamente revolucionário que leva à total desorganização da ordem estabelecida. O diretor, portanto, tomou emprestado o texto de G.H. para criar o subtexto narrativo do corpo de Ana na montagem. A própria essência do livro faz com que sua linguagem não se encaixe em um gênero definido: é um diário? uma meditação? uma reflexão filosófica? uma psicanálise? um livro de terror? É exatamente isso que levará Luiz Fernando Carvalho à beira do mesmo precipício: qual gênero cinematográfico ele deve adotar? Uma resposta é óbvia: não apenas um gênero, porque isso não seria suficiente para transmitir a complexidade da vida, mas talvez um filme “transgênero” ou “multigênero”. Em todo caso, assim como no livro, havia uma linguagem a ser inventada.

Luiz Fernando Carvalho (2022). Foto: Antônio Garcia Couto

Luiz Fernando Carvalho (2022). Foto: Antônio Garcia Couto

3Então, como se passa das palavras às imagens? Clarice Lispector já estava transformando, amassando e manipulando as palavras, sem contar que torcia o pescoço da gramática. Resolver esse enigma exigirá não apenas tempo e perseverança, mas também coragem e talvez, quem sabe, um senso radical de necessidade. Uma fome? Começaremos pe lo dispositivo utilizado por Luiz Fernando Carvalho e, em seguida, pe las revelações escondidas nas entrelinhas do texto que serão “traduzidas” em imagens, para que as linguagens literária e fílmica alcancem uma simbiose perfeita: ver o filme deve ser como transfigurar a leitura do livro.

O método Luiz Fernando Carvalho

  • 4 Debs S., “A Pedra do Reino: do romance à televisão, de Ariano Suassuna a Luiz Fernando Carvalho”, p (...)

4Das entrevistas com Raduan Nassar à viagem com ele ao Líbano, a partir da qual realizou o magnífico documentário Que teus olhos sejam atendidos antes de filmar Lavoura arcaica; das aulas-espetáculos de Ariano Suassuna à improvável instalação de toda a equipe em Taperoá, no fundo do sertão da Paraíba, onde a família do escritor se refugiara, para filmar A Pedra do Reino4, ou, mais recentemente, as conferências ministradas por especialistas na obra de Clarice Lispector na oficina de criação em São Paulo para A paixão segundo G.H., o modo de trabalhar de Luiz Fernando Carvalho é indissociável do convite e da participação de todos os envolvidos no processo criativo, do fotógrafo à costureira, da atriz ao figurinista, da roteirista ao maquiador. Nos meses que antecedem a filmagem, e mesmo durante a filmagem, toda a equipe é requisitada no local, com o mínimo de contato com o mundo exterior. As vidas de todos os envolvidos no processo criativo e seu próprio processo criativo coletivo se fundiram, tamanha era a demanda por disponibilidade total. Tudo é incorporado ao filme. Todos são afetados, ou até mesmo literalmente “atravessados” pelo que acontece diariamente, seja em nível pessoal ou coletivo (como a eleição de um presidente improvável em 2018 ou o choque da pandemia em 2020) e pelo que acontece na oficina de criação, nas conferências, nos testes de câmera, na obtenção ou não do orçamento de produção: tudo é compartilhado. A equipe é mantida unida por todas essas experiências compartilhadas, que são percebidas tanto subjetivamente por cada membro da equipe quanto objetivamente pelo grupo como elementos contextuais na produção do filme. A concentração é extrema existe o aqui e o agora. Os momentos de dúvida, desalento e ansiedade, bem como os momentos de êxito, euforia e alegria, são vividos, sentidos e compartilhados dia a dia.

  • 5 https://luizfernandocarvalho.com/

5Esse alto padrão não só beneficia o trabalho como um todo e a equipe por trás dele, mas também produz um grande número de documentos que constituem uma mina de tesouros, insights e chaves para todos os entusiastas, amadores, estudantes e críticos profissionais interessados no trabalho de Luiz Fernando Carvalho. Todas as etapas de seu trabalho são meticulosamente registradas e apresentadas em seu site oficial5, desde a sinopse, a visão do diretor, a preparação dos atores e a trilha sonora, incluindo lançamentos de DVD, livros e sketchbooks, além de críticas da imprensa e pesquisas acadêmicas. O cineasta faz questão de que, sempre que possível, o lançamento de suas obras no Brasil seja acompanhado de publicações que possam oferecer a todos, independentemente de sua relação com o cinema, o processo de criação que ele desenvolveu e aperfeiçoou.

Sketchbooks de Luiz Fernando Carvalho

Sketchbooks de Luiz Fernando Carvalho

Literatura e cinema

  • 6 Ver Luiz Joaquim, 26/10/2006, Olhar do cinema, https://www.cinemaescrito.com/2006/10/entrevista-lui (...)

6Sabemos há muito tempo, e ele nunca escondeu isso, a relação muito especial que tem com a literatura, que ele sempre evitou adaptar para o cinema: “Recuso a ideia de adaptação. Ela me parece sempre redutora. [...] Nos melhores momentos, seja trabalhando para a TV ou para o cinema, talvez tenha alcançado uma espécie de resposta aos textos, ou, no meu modo de sentir, um diálogo, uma reação criativa à literatura6”. Embora aqueles que estão familiarizados com a linguagem de Luiz Fernando Carvalho possam pensar que conhecem o “método LFC”, é preciso dizer que cada nova produção traz suas próprias surpresas e inovações. Desde Lavoura arcaica, sabemos que o cineasta pretendia levar para a tela o denso, complexo e enigmático livro A paixão segundo G.H., considerado “inadaptável”. Não nos esqueçamos do que Clarice Lispector teve o cuidado de registrar no prefácio, que poderia ser traduzido da seguinte forma aos possíveis “espectadores”:

  • 7 Lispector, C., A paixão segundo G.H., Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2019, p. 5.

7A possíveis leitores
Este é um livro qualquer.
Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de almajá formada.
Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente - atravessando inclusive o oposto da quilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém.
A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria
7.

  • 8 HowlettJ., La Quinzaine littéraire, 1er-15 janvier 1979, https://www.desfemmes.fr/litterature/la-pa (...)
  • 9 Lispector, C., op. cit., p. 9.
  • 10 Ibid., p. 32.

8Essa mulher de letras, nascida em 1920 em um shtetl na Ucrânia, de onde seus pais saíram para fugir dos pogroms, e que chegou nos braços da mãe aos dois meses de idade ao Brasil, onde sua família se estabeleceu, avisa aos leitores que esse livro, publicado em 1964, ano do golpe militar, exige um esforço. Reconhecida internacionalmente como uma grande escritora com um estilo inovador, a obra foi traduzida na França em 1979 pela Éditions des femmes-Antoinette Fouque, que a reeditou em 2020 com uma nova tradução para marcar o centenário de seu nascimento. Imediatamente aclamada pela crítica8, essa obra representa um verdadeiro desafio para a direção de um filme. Trata-se de um longo monólogo que começa com as palavras: “– – – – – – – – – – Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi9”. Essa narrativa em primeira pessoa se passa em um luxuoso apartamento no último andar de um prédio em Copacabana, na década de 1960, com uma mulher que se deslocada sala de estar para o quarto da empregada, após a demissão desta, com a ideia de arrumar as coisas, pois “o quarto da empregada devia ser imundo, na sua dupla função de dormida e depósito de trapos, malas velhas, jornais antigos, papel de embrulho e barbantes inúteis10”. A descoberta de uma enorme barata no quarto limpo e arrumado, contrariando suas expectativas, desencadeia uma crise existencial na proprietária, uma escultorada elite branca.

Samira Nancassa (Janair).

Samira Nancassa (Janair).

A oficina criativa de São Paulo

  • 11 As filmagens do filme estão programadas para o segundo semestre de 2024.

9Com planos de lançar o filme em 2020, Luiz Fernando Carvalho começou a reunir seus colaboradores em outubro de 2017 em uma antiga fábrica desativada transformada em seu habitual galpão de criação. Foi lá, ao longo de várias semanas, que o diretor trabalhou pela primeira vez em dois projetos concomitantes, A paixão segundo G.H. e Objetos perdidos11, baseados em um roteiro original. Como o libro de Clarice Lispector foi considerado “inadaptável”, o orçamentonão incluiu a contratação de uma roteirista, pois Luiz Fernando Carvalho não queria nenhuma intermediação entre o livro e o filme.

10Da mesma forma que a narradora, que se propõe a arrumar o quarto da empregada, se depara com seu exato oposto (a desordem e a sujeira que ela esperava, de acordo com sua própria lógica, não existem e seu próprio mundo literalmente desmorona!), da mesma forma, as pessoas convidadas para fazer o filme ocupam posições que não existem no filme: a roteirista não escreve o roteiro, o câmera não fotografa, a atriz não interpreta, etc. Ao abrir a porta para o galpão criativo, as pessoas são confrontadas com o desconhecido, mas, ao contrário de G.H., elas não permanecem congeladas na soleira da porta: elas precisam entrar e confrontar o inexplorado que as aguarda. Assim como o colapso de sua representaçãodo mundo leva G.H. a uma desorganização gradual, dolorosa e total de sua vida, todos os “colaboradores” são convidados a desorganizar gradualmente seus conhecimentos e a abandonar seus hábitos. Acimade tudo, é uma questão de esquecer os modelos e pontos de referência do passado para estar disponível e aberto à experiência presente e futura.

  • 12 Lispector, C., op. cit., p. 36.
  • 13 Debs, S., “A vertigem da criação”, Caliban (Brésil), 2007, n° 10, p. 118-123.

11“É que em vez da penumbra confusa que esperava, eu esbarrava na visão de um quarto que era um quadrilátero debranca luz [...] Não contara é que aquela empregada, sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira e, numa ousadia de proprietária o tivesse espoliadoda sua função de deposito. Da porta, eu via agora um quarto que tinha uma ordem calma e vazia12”. É nesse “quadriláterode branca luz” que atores, técnicos e diretor de vem trabalhar juntos para explorar o texto e transpô-lo em imagens. Para Luiz Fernando Carvalho, conhecido por suas imagens barrocas13, esse é um grande desafio! Mas, sem dúvida, ele poderá dizer, como Clarice Lispector em seu aviso aos leitores: “A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.”

A oficina criativa de São Paulo.

A oficina criativa de São Paulo.
  • 14 Biógrafa de Clarice Lispector. Publicou Clarice: uma vida que se conta (EDUSP, 1995) et Clarice: Fo (...)

12Como sempre, os preparativos da equipe começaram com workshops teóricos, que consistiram em uma série de seminários apresentados por especialistas na obra do escritor: José Miguel Wisnik, Nadia Battelia Gotlib14, Yudith Rosenbaum, Franklin Leopoldo e Silva, Rafaela Zorzanelli e Flavia Trocoli. Os insights que eles fornecem, as interpretações que oferecem, os caminhos que exploram e as questões que levantam são motivos de reflexão para atores e técnicos. Seguindo um ritual consagrado, Luiz Fernando Carvalho começa dando as boas-vindas ao palestrante do dia por uma hora, indicando os pontos importantes a serem levantados para estimular a criatividade de sua equipe. Emseguida, ele apresenta seu convidado diante de toda a equipe e senta-se entreeles.

  • 15 Lispector, C., op. cit., p. 175.
  • 16 Dalboni M., Diário de um Filme - A Paixão Segundo G.H., Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2024,p. 9.

13Como Clarice Lispector era muito sensível às coincidências que pontuam a vida, todos são convidados a notar suas próprias coincidências com o livro. É assim que a atriz Maria Fernanda Cândido, que interpreta o papel principal, descobre que tem a mesma idade da escritora em 1964, quando o livro foi publicado, e que também é mãe de duas crianças da mesma idade de seus dois filhos. Morando em Paris, ela também compartilhou a experiência de ser estrangeira. Os limites entre a atriz e a pessoa, Clarice Lispector e a personagem tornam-se indistintos, ainda mais porque seus dois rostostêm uma semelhança impressionante: as mesmas maçãs do rosto acentuadas, os mesmos olhos amendoados. Essa mudança na identificação também é possível graças ao estilo fragmentário, poroso e transgressor de Clarice Lispector. Como diz G.H.: “Toda mulher é a mulher de todas as mulheres15”. Quando a atriz se refere a G.H., que supostamente está interpretando, el anão consegue defini-la como personagem, ou como G.H., mas se refere a ela como “aquela mulher16”, como a própria Clarice Lispector faz no romance.

As revelações do texto e sua tradução na imagem

14A partir desses vários diálogos, inúmeros elementos-chave emergem gradualmente e formam a espinha dorsal do filme. Por exemplo, o romance é altamente transgressor, tanto na forma quanto no conteúdo, e usa uma linguagem fragmentada, disruptiva e não linear. Os 32 fragmentos que compõem o livro também são circulares em sua natureza, com a última frase de um fragmento sendo também a primeira frasedo fragmento seguinte. O filme, portanto, seguirá essa circularidade, uma espiral traduzida na tela por uma visão de foco duplo, repetições e retomadas de planos, às vezes fragmentados como um caleidoscópio, também levados por um movimento circular na tentativa de capturar o tempo abstrato.

A Paixão segundo G.H. (2022) de Luiz Fernando Carvalho.

A Paixão segundo G.H. (2022) de Luiz Fernando Carvalho.
  • 17 Dalboni M., op. cit., p. 15.
  • 18 Lispector, C., op. cit., p. 37: “Estava quase em tamanho natural o contorso a carvão de um homem nu (...)

15A falta de compreensão de G.H. sobre o que está acontecendo com ela resultará em uma visão turva dos acontecimentos: será uma imagem ora desfocada, ora emfoco, uma imagem-miragem que busca seus contornos, tateando, como um olhar sonâmbulo. Para conseguir esse olhar sonâmbulo para o personagem, Luiz Fernando Carvalho começou a tomar medidas para encontrar a lente certa que lhe permitisse criar esse olhar para um filmede 35 mm. Surgiu também a questão da filmagem em 250 ou 500 ASA, sem falar no laboratório capaz de revelar o filme, já que não havia um único na América Latina. O diretor buscava “um olhar epidérmico para a G.H., algo que simulasse a distância entre a retina de um leitor e as páginas de um livro17”, e mandou construir uma lente especial, chamada de lente G.H., que é composta por duas características opostas: de um lado, uma lente grande-angular e, de outro e em conflito, uma teleobjetiva. Em outras palavras, de um lado há um mundo amplo, acessível e nítido e, do outro, um mundo fechado e difuso, produzindo uma ótica alterada, assim como o estado psicológico e emocional da personagem, alterado pela descoberta do mural18 e da barata no quarto de sua empregada. É uma forma ótica de traduzir o que G.H. está buscando quando olha para o mundo: dois pontos de vista simultâneos, um interno e outro externo.

  • 19 Ibid., p. 208.

16Na última releitura completa do roteiro, já na locação, Luiz Fernando Carvalho começou a indicar posições de câmera e enquadramentos a a serem respeitados, como uma imagem sempre frontal quando a voz de G.H. está refletindo sobre o passado recente, e uma imagem sempre diagonal quando G.H. está no meio de uma ação, como o encontro com a barata. Quando, a poucas páginas do final, o texto diz “Assim quero de mim mesma encontrar em mim a mulher de todas as mulheres19, para espanto de todos, o diretor diz que precisada atriz que representa a Janair nessa sequência. É uma forma de tornar visível por meio da imagem da empregada, da qual G.H. nem se lembrava o nome nem o rosto ou do que estava vestindo, tão invisibilizada Janair era pela escultora, que vivia em seu próprio mundo. Luiz Fernando Carvalho transformou-a invisibilidade em visibilidade radical através de super close-ups da empregada negra antes invisível. Este procedimento estético e político, transforma Janair em uma metáfora de todas as mulheres negras do Brasil, ex-escravizadas, figuras ancestrais que retornam, dando-lhe uma presença, um corpo. Para encarná-la, o cineasta convidou uma africana da Guiné, Samira Nancassa, cujo rosto exala a força e a beleza de uma rainha. A inversão da ordem mundial é, portanto, traduzida pela inversão da pirâmide social brasileira. A história completa o círculo: Janair, a empregada que decidiu despedir-se de sua patroa depois de deixar uma mensagem clara na paredede seu quarto, levou consigo todas as seguranças com as quais a escultora vivia em seu apartamento com vista para o mar de Copacabana. A presença de Janair na tela complementa sua abordagem revolucionária. Duas cenas são particularmente notáveis: aquela em que Janair olha fixamente para G.H., que está se esforçando para lembrar os traços de seu rosto, e aquela em que, de frente para G.H., Janair remove o turbante de sua cabeça, símbolo da opressão sofrida por todas as mulheres negras no Brasil até hoje.

A paixão segundo G.H.: o filme

  • 20 Dalboni M., op. cit., p. 64.

17A produção e o design dessas sequências são o próprio exemploda inesperada “reação criativa” ao texto. É fácil entender por que o diretor se recusa a permitirqualquer intermediário entre o texto e o filme. Da mesma forma, entendemos por que não haverá intermediário entre ele e a imagem: ele opera a câmera, en quanto dirige a atriz, que nunca saberá exatamente a partir de que momento ele estará filmando, ou até quando. Filmar o instante vital é o que busca o cineasta. Se em Clarice Lispector, o conceito pensar-sentir é crucial para alguma compreensão do mundo, Carvalho deixa-se guiar por uma espécie de conceito de filmar-sentir20, escreve Melina Dalboni em seu diário da filmagem.

18O filme, assim como o livro, estará sempre aberto a múltiplas leituras e questionamentos por partedoleitor e do espectador. Ao manter-se fiel à letra do texto, aproximando-se ao máximodo processo literário de Clarice Lispector e traduzindo-o em um processo fílmico autoral, Luiz Fernando Carvalho foibem-sucedido no desafio que propôs a si mesmo e a toda a equipe. A mesma tentativa de G.H. de entender o que aconteceu com ela, a mesma angústia que a acomete quando descobre o quarto da empregada, foram vividas e experimentadas por toda a equipe, desde o início na oficina de criação até a edição final e a filmagem. Luiz Fernando Carvalho teve a confiança e a coragem de entrar no desconhecido...

  • 21 Lispector, C., op. cit., p. 181.

19Ao rejeitar o modelo oficial do sistema audiovisual, o cineasta se abre para o misterioso jogo da imaginação, espaço potente entre o visível e o invisível, onde as revelações habitam. Sua busca obsessiva pela alquimia entre literatura e cinema é uma operação política, mas também um meio de alcançar o milagre do aqui e agora, em outras palavras, da vida. Assim como a resposta de G.H. à intenção que ela propôs no início, Luiz Fernando Carvalho poderia dizer no final do filme, mudando a palavra vida: “O cinema se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro21”.

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Notes

1 Debs S., “Du goût du public selon Luiz Fernando Carvalho”, Cinémas d’Amérique latine n°16, PUM, Toulouse, 2008, p. 74-86.

2 Moser B., Clarice Lispector, une biographie. Pourquoi ce monde, traduit de l’anglais (États-Unis) par Camille Chaplain, Des femmes, Paris, 2009, 439 p.

3 Tarkovski, A., Esculpir o tempo, Martins Fontes, São Paulo, 1998, p.162-163: “Durante as filmagens a equipe sempre trabalhou como um só homem. Isso porque, enquantonão estivermos, por assim dizer, ligadospor nossas artérias e nervos, enquanto nosso sanguenão começara circular por um mesmo sis- tema, é simplesmente impossível fazer um filme.”

4 Debs S., “A Pedra do Reino: do romance à televisão, de Ariano Suassuna a Luiz Fernando Carvalho”, p. 87-113, in Cinco vezes sertão, Literatura, cinema e outras escrituras, Claudio Novaes e Eliane Mara org., Quarteto, Salvador, 122 p.

5 https://luizfernandocarvalho.com/

6 Ver Luiz Joaquim, 26/10/2006, Olhar do cinema, https://www.cinemaescrito.com/2006/10/entrevista-luiz-fernando-carvalho/ (último acesso: 3/12/2024).

7 Lispector, C., A paixão segundo G.H., Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2019, p. 5.

8 HowlettJ., La Quinzaine littéraire, 1er-15 janvier 1979, https://www.desfemmes.fr/litterature/la-passion-selon-gh/ (último acesso: 3/12/23)

9 Lispector, C., op. cit., p. 9.

10 Ibid., p. 32.

11 As filmagens do filme estão programadas para o segundo semestre de 2024.

12 Lispector, C., op. cit., p. 36.

13 Debs, S., “A vertigem da criação”, Caliban (Brésil), 2007, n° 10, p. 118-123.

14 Biógrafa de Clarice Lispector. Publicou Clarice: uma vida que se conta (EDUSP, 1995) et Clarice: Fotobiografia (EDUSP, 2007).

15 Lispector, C., op. cit., p. 175.

16 Dalboni M., Diário de um Filme - A Paixão Segundo G.H., Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2024,p. 9.

17 Dalboni M., op. cit., p. 15.

18 Lispector, C., op. cit., p. 37: “Estava quase em tamanho natural o contorso a carvão de um homem nu, de uma mulher nua, e de um cão queera mais nudo que um cão.”

19 Ibid., p. 208.

20 Dalboni M., op. cit., p. 64.

21 Lispector, C., op. cit., p. 181.

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Table des illustrations

Titre Rodagem de A Paixão segundo G.H. (2022) de Luiz Fernando Carvalho
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Titre Luiz Fernando Carvalho (2022). Foto: Antônio Garcia Couto
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Pour citer cet article

Référence papier

Sylvie Debs, « A paixão segundo Luiz Fernando Carvalho », Cinémas d’Amérique latine, 32 | 2024, 108-121.

Référence électronique

Sylvie Debs, « A paixão segundo Luiz Fernando Carvalho », Cinémas d’Amérique latine [En ligne], 32 | 2024, mis en ligne le 23 novembre 2024, consulté le 07 octobre 2026. URL : http://journals.openedition.org/cinelatino/12419 ; DOI : https://doi.org/10.4000/156kp

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Auteur

Sylvie Debs

Professora na Universidade de Estrasburgo, especialista em cinema brasileiro, ex-adida cultural no Brasil e no México. Autora de inúmeros artigos, bem como dos seguintes livros no Brasil: Patativa do Assaré (2000), Cinema e literatura no Brasil. Os mitos do sertão: emergência de uma identidade nacional (2007), Cinema e cordel: jogo de espelhos (2014), Corisco e Dada: Apontamentos sobre o filme (2016). Tradutora na França de José Carlos Avellar, Glauber Rocha et Ismail Xavier.

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Droits d’auteur

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