Marcos Pedroso, Diretor de arte
- Traduction(s) :
- Marcos Pedroso, Directeur artistique [fr]
Texte intégral
Você trabalhou como diretor de arte em vários filmes de Karim Aïnouz : Madame Satã, O Céu de Suely, Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo, O Abismo Prateado, Praia do Futuro, Motel Destino. Como vocês se conheceram e como surgiu essa colaboração ?
Eu trabalho nos filmes do Karim desde o seu primeiro longa metragem de ficção que foi Madame Satã. Havia feito um filme anterior que foi muito bem recebido pela crítica, o Bicho de Sete Cabeças da Laís Bodansky e estava com um espetáculo em cartaz do Teatro da Vertigem, O Apocalipse 111. Karim viu esses trabalhos, me ligou e em cerca de cinco minutos éramos amigos rindo e sintonizados. Isso fazem uns 25 anos já.
Qual foi o método de trabalho sugerido por Karim na preparação dos seus filmes ? Você notou uma mudança entre o primeiro filme, Madame Satã e o ultimo dele, Motel Destino ?
Karim sempre foi um artista de uma bagagem muita ampla de formação e interesses estéticos, que vão de arquitetura, artes plásticas, moda, cinema, literatura e mais. Isso é muito estimulante para seu processo criativo e para quem colabora nesse processo. Sempre muito inquieto na busca dos seus desejos e com uma capacidade espantosa de cooptar os a sua volta com autentica empolgação e sedução. Continua sempre com essa características mas os anos e os diversos filmes aprimoraram sua empolgante vitalidade.
Karim Aïnouz costuma lhe dar diretrizes precisas a serem seguidas ou você tem sua própria criatividade ? Você pode dar alguns exemplos específicos ?
Karin trabalha com muita pesquisa, estudos e também experimentação, mas também tem uma grande habilidade de saber colher o que de melhor você tem para colaborar com o projeto. Embora saiba onde quer chegar, sempre esteve sensível ao processo colaborativo e flexível a novas idéias dentro do processo de construção do filme, em todas as áreas, assim como na Arte dos filmes. Em várias situações, remodelamos juntos locações, particularidades visuais de personagens, caracterizações de espaços e as vezes até nas narrativas, a partir de trocas e de novas opinões que surgem do processo e que ele acolheu. Em geral participo ativamente desde o roteiro na construção da narrativa visual, seja num estudo e procura de locações, seja numa elaboração de paleta cromática e caraterística de personagens. No Praia do Futuro, a partir de buscas por Berlin mudamos o trabalho do personagem de Wagner Moura que depois de uma descoberta se transforma em limpador de um aquário gigante, ou uma total invertida na geografia no Motel destino a partir de descoberta pré início de produção. São muitos exemplos e eles acontecem permanentemente.
Cada filme tem seus próprios desafios particulares : como foi por exemplo, criar o ambiente das ruas quentes da Lapa, a Montmartre dos trópicos, o Rio boêmio no filme Madame Satã ?
Reconstituir um Rio de Janeiro do começo do século XX foi um prazeroso processo de pesquisa iconográfica, histórica e mesmo um embate fisico com as grandes mudanças urbanas atuais e o resgate de um Rio charmoso, boêmio mas também complexo, multicultural e caótico do entre guerras. Sintetizar essa história no que ainda restava desse passado tão aclamado e que faz parte do imaginário carioca e brasileiro demandou esforço criativo, mas também alguma liberdade no recriá-lo buscando mais nos personagens e na construção narrativa o sentido visual do que exatamente descrever somente uma época. Sem duvidas as filmagens foram impregnadas por essa vida boêmia dos personagens, com uma maioria de set noturnos, muitas festas e shows do roteiro que embalaram um tanto a própria produção no cotidiano.
Como foi por exemplo, criar a sensação do calor insuportável do sertão e do tédio das longas noites no Céu de Suely ?
A sensação de calor constante e imensidão fazem parte inerente e real das locações e cenários do filme. Mas alguns elementos como maquiagem, uso de ventiladores sempre dentro do quadro, cenas curiosas como as atrizes frente a uma geladeira aberta se refrescando e outros artifícios enfatizaram essa realidade. A amplitude dos vazios espaciais, dos caminhos longos em distancias percorridas em moto ou a pé pelas personagens ajudaram nessa construção.
Quais foram as dificuldades ou os desafios que você encontrou ao filmar Motel Destino ?
A primeira grande preocupação era encontrar esse Motel onde o filme acontece quase todo. Ele deveria trazer verdade, contar e ajudar a narrativa, ser arquitetonicamente instigante para a história. Isso levou a uma longa pesquisa e depois um longo trabalho para adapta-lo a nossa história em desenho, cor e caracterização. Essa localização influiu diretamente em toda a geografia e topologia das outras locações transformando o filme em amplitudes espaciais e um novo lugar de ocorrência, tornou o filme mais praiano e ensolarado.
Se você tivesse que definir Karim em três palavras, o que diria ?
Inteligente, talentosíssimo e adorável.
Table des illustrations
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Pour citer cet article
Référence papier
Marcos Pedroso et Sylvie Debs, « Marcos Pedroso, Diretor de arte », Cinémas d’Amérique latine, 33 | 2025, 127-129.
Référence électronique
Marcos Pedroso et Sylvie Debs, « Marcos Pedroso, Diretor de arte », Cinémas d’Amérique latine [En ligne], 33 | 2025, mis en ligne le 24 janvier 2026, consulté le 14 octobre 2026. URL : http://journals.openedition.org/cinelatino/13886 ; DOI : https://doi.org/10.4000/15rc6
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