ZANELLO, Valeska – A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Appris, 2022. 144 p. ISBN 9786525033693.
Texto integral
1A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações é um pequeno livro, concebido como discussão introdutória aos estudos sobre género. A linguagem simples e objetiva utilizada evidencia uma tentativa de facilitação e dinamização da leitura e, por conseguinte, oferece uma oportunidade para uma melhor compreensão das assimetrias de género, visando um público pouco (ou nada) instruído sobre a questão. O texto discorre, essencialmente, sobre aquilo que a autora denomina como “letramento de género” numa visão pedagógica alicerçada em conceitos da teoria crítica feminista. Procura aprofundar o conhecimento acerca dos estudos sobre as mulheres, o feminismo e o género, e, assim, promover uma maior equidade social.
2A obra encontra-se dividida em quatro partes e, de forma sólida e sucinta, esmiúça os conceitos e fenómenos citados e expõe os complexos processos – de construção, difusão, socialização, legitimação e normalização – que agem sobre eles, procurando descortinar o impacto da sua ação nos quotidianos, a nível prático e não meramente teórico. A autora recorre a estratégias pouco ortodoxas – que podemos considerar até avant-garde – de exposição, estimulando o/a leitor/a a alargar os horizontes não apenas num momento ulterior, mas também durante a própria leitura. A propósito, podemos referir as diversas indicações a nível literário e cinematográfico; as hiperligações disponibilizadas – inclusive com recurso a QR Codes –, que sustentam a discussão e conectam o/a leitor/a, por meio de conteúdo audiovisual, a debates sobre a temática; e a interpretação minuciosa de outro tipo de conteúdos como, por exemplo, cartazes, capas de filmes, revistas e ilustrações.
3No capítulo um, intitulado “Raízes culturais do machismo: o papel da cultura na formação do gênero”, é amplamente sublinhada a cultura como determinante no processo de humanização, socialização e formação da identidade – o ser humano “nasce com uma abertura a ser” e “é definido pela ideia do se tornar” (p. 13). Valeska Zanello esclarece que o género é, precisamente, um dos aspetos ditos “socializados”, fenómeno que se relaciona com as designadas performances de género, pré-definidas e pré-atribuídas, e que ela procura desconstruir, avançando além do binarismo redutor e restritivo comumente adotado – por exemplo, sujeito político versus sujeito natural, ser inferior versus ser superior, homem versus mulher – e procurando ultrapassar a fixação biológica, também ela comum, e expandir a compreensão do género para além da genitália e da heterossexualidade normativa ou compulsória. Com o objetivo de empreender uma discussão sobre o conceito de género e suas transformações, a autora começa por enquadrar breve e historicamente as três primeiras ondas do feminismo no mundo ocidental, explorando o legado de cada uma. É destacada a última onda, que surge com a luta de pessoas que não se viam representadas nos papéis estandardizados e no binarismo tradicional, e é evidenciado o modo como a interpretação social das diferenças biológicas se metamorfoseou e foi determinante para o questionamento do processo de naturalização das diferenças sociais. O próprio sistema capitalista tirou partido dessa ideologia da diferença, legitimando também outro tipo de diferenças entre categorias sociais. Explica-se assim de que forma o sexismo e o racismo têm bases comuns, acrescentando à discussão o papel da interseccionalidade. Ancorada em estereótipos que visam o domínio dos corpos e respaldada por relações de poder e de privilégio, essa ideologia da diferença impõe “performances de gênero”, dicotomizadas em papéis para mulheres e para homens tendo em vista a aceitação social, a estabilidade e, em último caso, a incorporação de uma identidade, como se esta fosse estanque/imutável. Esses papéis são inculcados por meio de “tecnologias de gênero”, artefactos de controlo social utilizados para legitimar e preservar desigualdades, que atuam independentemente da nossa consciência sobre eles, como significantes naturalizados. Diante disto, Zanello conclui pela necessidade de conceber pesquisas de caráter interseccional, procurando uma leitura ampla do objeto investigado e a definição urgente de caminhos de superação das adversidades identificadas.
4O capítulo dois, designado “Mulheres e dispositivos amoroso e materno”, discorre sobre a ideia de “prateleira do amor”, referida no título da obra. Introduzindo a discussão sobre o processo de subjugação e objetificação da mulher, destaca os diversos arquétipos que são mais ou menos valorizados socialmente e que apelam à hierarquização das pessoas com base em padrões corporificados que podem ser mais ou menos “consumíveis” – corpos mais aprazíveis, mais desejáveis, da “mulher ideal”. Assim, é edificada uma sociedade de aparências, onde quem se conforma a um determinado padrão – corpóreo, comportamental, étnico/racial e de classe – é mais “aceitável” do que os seus “semelhantes”. A autora desenvolve, de seguida, uma discussão sobre aspetos como a gordofobia, o racismo, o etarismo e o capacitismo, que aprofundam representações simbólicas e as próprias assimetrias de género. O processo de subjugação e objetificação estabelece-se, precisamente, com base na imagem (social e individual) construída e por meio dos papéis a ela associados, de conflitos intragrupo/entre mulheres e de discursos e práticas de “vulgarização” propalados entre homens no engrenar do sentimento de camaradagem (ou “broderagem”). Zanello critica a ideia de que a felicidade e/ou segurança da mulher (a vários níveis) é alcançada através da tutela de um homem, salientando o ideário social da proteção concedida pelo matrimónio, o sonho da construção de família e a obediência aos arquétipos que naturalizam a vocação do feminino para o cuidado. Aqui, aborda a questão do “mito do amor materno” enquanto mecanismo de controlo – inclusive sexual, independentemente do sexo ou género. Esse mito retrata uma espécie de inclinação para a qual todas as mulheres estão (ou estariam) predispostas e que se encontra intrinsecamente associada à ideia de “culpa”, que deriva da pressão social internalizada e naturalizada. Esse mecanismo é inclusivamente utilizado por instituições governamentais e não governamentais (e.g., instituições de ensino, família, igreja) a fim de controlar os corpos. Estas instituições utilizam mitos nacionais – como o da mãe heroína –, atribuindo à mulher uma espécie de papel salvífico para garantir o reconhecimento social do seu “natural” papel de reprodução. Edifica-se, assim, a ideia de um “empoderamento colonizado” e intensifica-se a dupla jornada laboral das mulheres, a quem, além do trabalho assalariado, caberá também o trabalho doméstico, o cuidado com a prole e ainda a satisfação sexual do parceiro.
5No capítulo 3, “Homens e dispositivos da eficácia”, a autora retoma a discussão acerca da genderização dos processos de socialização, resgatando a ideia de que diferentes papéis e estereótipos são previamente atribuídos e difundidos em função do género. São disso exemplo a inculcação, nos homens, da virilidade e de uma postura de objetificação da mulher, não raramente com fundamentos homofóbicos. Isto significa que, desde a infância, os rapazes são socializados de acordo com padrões misóginos que, inevitavelmente, acabam por influenciar emoções e posturas (por exemplo, enfatizando a necessidade de controlo e supressão de sentimentos). As masculinidades são hierarquicamente moldadas não só em relação às mulheres, mas também intragrupo, em relação a outros homens. Por este meio, cria-se um dispositivo de eficácia: as características específicas do processo de socialização masculino aprimoram determinadas características, que, a prazo, se tornarão elemento central da identidade e conduzirão à obtenção de determinado status social. Este é estabelecido, essencialmente, com base no sucesso sexual, laboral e em função da riqueza acumulada, sendo estas as características que definem a “eficácia” ou “ineficácia” de um homem, medida numa escala imaginária, irreal e socialmente produzida. Neste contexto, o conceito de “masculinidade hegemónica”, amplamente explorado por Raewyn Connell no seu livro Masculinities (1993), é chamado ao debate com o intuito de refletir sobre essas características historicamente atribuídas aos homens. A existência de masculinidades subalternizadas ilustra a hierarquização intragrupo com base em características como idade, etnia/raça, religião, entre outras. Essa constatação promove a persecução de uma análise interseccional, ressalvando, porém, que nessa hierarquia, e ao encontro dos contributos de Gayatri Spivak no seu livro Can the Subaltern Speak? (1985), a mulher ocuparia o lugar de subalterno do subalterno. Ora, o processo de hierarquização poderá potenciar a formação de laços de lealdade e/ou silenciamento, de uma masculinidade interpretada como “homossociável”: por homens, com homens, sobre homens e para homens, estabelecendo uma “casa dos homens”. O pacto assim formado pode repercutir-se na perpetuação de diversas manifestações de violência, sobre as quais se debruça o quarto e último capítulo, intitulado “Cultura da objetificação (sexual), violência contra as mulheres e dispositivo de gênero”.
6Neste último capítulo, a autora retrata a realidade brasileira como sendo extremamente hostil para a mulher, refrescando a memória do/a leitor/a sobre Maria da Penha, mulher brutalmente vitimizada, que deu nome à primeira legislação de proteção da mulher no Brasil. São abordados conceitos fundamentais como os de ciclo da violência e de dessensibilização da violência, descrevendo como estas dinâmicas, que não se resumem à violência física mas incluem também a psicológica, sexual, patrimonial e moral, se estabelecem em diferentes contextos. A violência não ocorre apenas no contexto relacional/íntimo e a exposição constante a comportamentos abusivos conduz a um aumento da tolerância e, em última instância, à sua naturalização, legitimando-os e alimentando uma cultura do estupro. Embora a violência possua diversas formas, permeie diversos contextos e diversos tipos de relacionamento, não sendo perpetrada exclusivamente por homens contra mulheres, é aqui abordada predominantemente na perspetiva das relações entre homens e mulheres.
7No seu conjunto, a obra em análise destaca-se pela necessidade de desnaturalizar e desconstruir comportamentos e expectativas, incentivando a mulher a perseguir diferentes formas de realização pessoal/individual, encorajando-a a quebrar as amarras – simbólicas e latentes – que lhe são impostas e a questionar o mundo que lhe é dado como estabelecido, mas que não tem, necessariamente, de o ser. A educação e a consciencialização por meio do “letramento de género” auxilia a identificação, o rompimento e o combate ativo à violência, à desigualdade e à discriminação.
- Receção: 03.08.2023
- Aprovação: 23.10.2023
Para citar este artigo
Referência do documento impresso
Sérgio Antônio Silva Rêgo, Joana Teixeira Ferraz da Silva e Rafaela Sofia Gonçalves Ribeiro, «ZANELLO, Valeska – A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Appris, 2022. 144 p. ISBN 9786525033693.», Configurações, 33 | -0001, 97-102.
Referência eletrónica
Sérgio Antônio Silva Rêgo, Joana Teixeira Ferraz da Silva e Rafaela Sofia Gonçalves Ribeiro, «ZANELLO, Valeska – A prateleira do amor: sobre mulheres, homens e relações. Curitiba: Appris, 2022. 144 p. ISBN 9786525033693.», Configurações [Online], 33 | 2024, posto online no dia 26 junho 2024, consultado o 05 outubro 2026. URL: http://journals.openedition.org/configuracoes/20308; DOI: https://doi.org/10.4000/11w76
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