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Dossiê Sergipe Alagoas

O Estado de Alagoas no contexto regional nordestino

The state of Alagoas in the Nordeste regional context
L’état d'Alagoas dans le contexte régional du Nordeste
Paulo Rogério de Freitas Silva et Silvana Quintella Cavalcanti Calheiros

Résumés

Le thème que nous avons choisi de développer fait référence à l’ordre spatial en vigueur dans l’État d’Alagoas, situé au nord-est du Brésil, et promeut un voyage à travers les cinq siècles de formation territoriale de cet espace. Pour développer ce processus, nous nous appuyons sur la suggestion d'un ordre spatial, dans le but de comprendre les actions humaines qui interviennent dans l'ordre spatial actuel d'Alagoas. Il s’agit de caractériser une situation où les objets ont tendance à remplir certaines fonctions dans chaque domaine et dont les processus sont largement soumis au rôle régulateur des institutions et des entreprises. À cet égard, nous partons de la discussion sur l’urbanisation en tant que processus ayant atteint la société et le territoire au cours de ce siècle, après une longue période d’urbanisation sélective, à la fois sociale et territoriale. L'urbanisation en tant que processus, où le lieu de résidence des travailleurs, y compris des travailleurs agricoles, devient de plus en plus urbain et où les turbulences démographiques et l'externalisation sont des faits notables. Cette recherche a le caractère d’investigation documentaire et bibliographique, il s’agit d’une recherche qualitative sur les agents et les finalités immédiates de la création de centres urbains, analysant les processus déterminants de cette genèse. Nous prévoyons que la genèse urbaine d’Alagoas se produira en plus grand nombre au départ dans la Zona da Mata et la côte au détriment de Sertão ou d’Agreste et que, ayant une économie sans production, avec des localités qui produisent à peine pour la génération de richesses.

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Texte intégral

1Iniciamos destacando que para apreendermos os alicerces do Estado de Alagoas, amparamo-nos na sugestão de ordem espacial, aspirando entender as ações humanas que intervêm na ordem espacial vigente em Alagoas. Ordem espacial esta que Santos e Silveira (2008) se refere ao espaço explicado pelo seu uso.

2Acreditamos que, conforme propõem Santos e Silveira (2008), o (...) espaço se constitui de um conjunto indissociável de sistemas de objetos e de ações, [...]. Trata-se de caracterizar uma situação que, em cada área, os objetos tendem a exercer certas funções e os respectivos processos são, em grande parte, submetidos ao papel regulador de instituições e empresas. Assim, cremos que esse papel regulador aqui proposto como teoria tenha influenciado a ordem espacial de Alagoas na prática.

3Por isso, estamos propondo pensar sobre o nosso tema como uma ordem espacial vigente no Estado de Alagoas a partir do papel regulador de instituições e empresas, que desencadeou essa ordem no Estado entre os séculos XVI e XXI.

4Metodologicamente, destacamos que para entendermos a ordem espacial vigente em Alagoas, remetemo-nos inicialmente à gênese dos núcleos embrionários preexistentes, difundindo os processos determinantes para essa gênese e também para o acometimento de letargia e/ou impulsão, assim buscando demonstrar como se processou a formação territorial do Estado de Alagoas (Mapa 1), no que se refere à atual configuração com seus 102 municípios (Mapa 2) cidades, mesorregiões geográficas, microrregiões geográficas, regiões geográficas intermediárias e regiões geográficas imediatas.

5Então, justificamos que um aspecto que estimulou a elaboração desse texto se refere à questão que envolve a investigação da origem dos lugares, isto é, a criação urbana, como afirma Santos (2005), quando este autor se refere às primeiras “cidades” brasileiras.

6Destacamos que, dependendo dos fatores determinantes que processem essa origem ou criação urbana e que intervenha no íntimo desse núcleo, esse possa ou não se tornar

Mapa 1 - Localização do Estado de Alagoas – Brasil

Mapa 1 - Localização do Estado de Alagoas – Brasil

Fonte: Acervo do LGA - IGDema - Ufal, mar. de 2003

Mapa 2 - Alagoas - Político-Administrativo

Mapa 2 - Alagoas - Político-Administrativo

Fonte: Adaptado da Enciclopédia de Municípios de Alagoas. Instituto Arnon de Mello, maio de 2016.

7povoados, vilas e até cidades, pois não são todos os núcleos embrionários que instituem a essência urbana em seu interior ou que produzem um espaço urbano; espaço urbano aqui empregado no ponto de vista de Corrêa (1989).

8Acrescentamos que essa discussão está amparada na proposta teórica de Corrêa (2001), quando se refere à complexidade genética do urbano e cita a rede urbana brasileira como constituída por um conjunto de centros datados de diversos momentos. Recorremos também à concepção de Santos (2005), quando este destaca que, no Brasil, o processo pretérito de criação urbana pode ser definido como de geração de cidades semelhante a um processo de urbanização. De modo inclusivo, Santos (2005) destaca que: “No começo, a ‘cidade’ era bem mais que uma emanação do poder longínquo, uma vontade de marcar presença num país distante.”

9Ao mesmo tempo, Santos e Silveira (2008), destacam que no Brasil: “relacionadas com as demandas do exterior, formam-se zonas econômicas e criam-se famílias e gerações de cidades testemunhando uma sucessão de divisões territoriais do trabalho fundadas em graus diversos de tecnificação.”

A organização territorial de Alagoas

10Inicialmente, destacamos que para tratar da formação do urbano em Alagoas, é obrigatório recuar aos séculos XVI e XVII, quando surgiram, pioneiramente, segundo Lindoso (2000): Penedo em 1570, às margens do Rio São Francisco; Porto Calvo em 1590, no Norte de Alagoas; e em 1636, denominada de Vila Santa Madalena da Lagoa do Sul, atual Marechal Deodoro, no centro de Alagoas – todos na Zona da Mata, mesorregião leste alagoano. Destacamos que Alagoas, antes, era parte da capitania de Pernambuco e a localização desses polos de colonização era estratégica no sul da capitania, na busca de impedir a incursão territorial, principalmente, dos holandeses.

11Baseados em Reis Filho (1968), destacamos que as vilas eram quase todas fundadas pelos donatários das capitanias e as cidades eram quase todas fundadas pela Coroa, o que as diferenciavam na ordem de criação relacionada também ao status. Os três polos pioneiros de colonização no que se refere ao atual território alagoano foram instalados pelos donatários e que somente por outras ações impulsionadoras foram alçadas a condição de cidades. No período em foco, nenhum centro urbano na atual Alagoas teve sua gênese induzida pela Coroa, diferente de Olinda e Salvador.

12Estes lugares ao longo de seu percurso foram acometidos de impulsão e posteriormente de repulsão e hoje são cidades, mas perderam status pioneiros e até condição de capital, a exemplo de Marechal Deodoro que foi a primeira capital de Alagoas – com o nome de Alagoas da Lagoa do Sul e antes de Santa Maria Madalena da Lagoa do Sul – assim como outros pequenos núcleos embrionários preexistentes. Permaneceu letárgico Santa Luzia do Norte, hoje, cidade dormitório da Região Metropolitana de Maceió.

13Nessa perspectiva, amparamo-nos em Santos (2005), quando se refere às cidades do período colonial que “avultaram” – o que nos confere o uso deste termo como sinônimo de acometimento de impulso e nova lógica ao processo para justificar o estudo de impulsão ou de letargia de alguns lugares alagoanos aqui em debate no período colonial. Destacamos também que as emancipações políticas desses lugares pioneiros ocorreram na condição de vilas como sedes municipais, pois no Brasil colonial e imperial, as vilas podiam também ser sedes de municípios. Foi somente a partir do Decreto-lei n° 311, de 02 de março de 1937, que se decreta que a sede do município tem categoria de cidade e lhe dá o nome.

14Nesse ínterim, destacamos também o Rio São Francisco e os municípios que o rio margeia e a importância que este recurso natural teve no processo de urbanização do Estado de Alagoas. Assinalamos que no passado, os rios eram as estradas e o Rio São Francisco era considerado uma dessas importantes rotas.

15Nessa perspectiva, é importante ressaltar que em Alagoas, há lugares que surgiram ou foram implantados muito antes de cidades que hoje são importantes na rede urbana do Nordeste brasileiro, o que nos leva a crer que algumas forças condenaram alguns lugares a letargia.

16Assinalamos assim, que os alicerces do Estado de Alagoas, isto é, as ações humanas que intervieram na ordem espacial vigente em Alagoas confundem-se com a história da ocupação do território brasileiro.

17Destacamos que foi através do litoral que começou todo o processo de ocupação colonial do Brasil. No início, toda a exploração e ocupação foram em torno das feitorias que eram postos de operações comerciais no clássico sentido mercantilista.

18No entanto, é com a instalação das Capitanias Hereditárias que o processo de colonização se efetiva, sendo que o cultivo da cana-de-açúcar, como atividade econômica básica, estimulou os primeiros colonizadores a ocuparem a faixa costeira e a construir engenhos, permitindo assim a fixação do colonizador a terra e a concentração demográfica, tendo esse agrupamento se processado inicialmente em Pernambuco e no recôncavo baiano, sendo que parte do sul da Capitania de Pernambuco é o atual Estado de Alagoas que se emancipou em 1817.

19Nessas circunstâncias, destacamos que o processo de ocupação foi ao longo do tempo se efetivando e obedecendo a uma variação de estágios político-econômicos e grau variado de organização.

O primeiro estágio do povoamento em Alagoas:

20Até a primeira metade do século XVI, o território que compõe o atual Estado de Alagoas era ocupado por tribos da nação Tupi-Guarani onde se destacam as subfamílias Cariris, Chucurus, Umaris, Xicos, Carapatos e Aconãs (Mapa 3).

Mapa 3 - Alagoas - Grupos Indígenas no século XVI

Mapa 3 - Alagoas - Grupos Indígenas no século XVI

Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.

21Os primeiros indícios de transformações a partir das atividades determinadas pela colonização nesse espaço geográfico vão ocorrer após o segundo quartel do século XVI, com o início do povoamento do território alagoano pelo colonizador, como pode ser constatado com base em Diégues Junior (1980),

Somente na segunda metade do século XVI, quando se verifica a excursão de Jerônimo de Albuquerque contra os Caetés que haviam sacrificado o Bispo D. Fernandes Sardinha, é que começam as explorações desta região. Até então, o território de Alagoas era quase ignorado, tanto que Frei Vicente, ao registrar a morte do Bispo, refere-se vagamente ao lugar como situado entre Baía (Bahia) e Pernambuco.

22Ainda conforme Diégues Junior (1980), destacamos que esse processo colonizador assim ocorreu:

É possível admitir-se que haja partido de três focos iniciais o povoamento do território alagoano. Um assentou no norte e teve Porto Calvo como núcleo de irradiação. O segundo se situa no centro do litoral e se desenvolveu em torno das lagoas, que deram nome ao povoado inicial: Alagoa ou Alagoa do Sul ou Alagoa do Norte. Prolongou-se pelo Vale do Mundaú, a cujas margens assentaram os fundamentos da economia local: os engenhos de açúcar. O terceiro foco situou-se ao sul; Penedo é o seu centro da expansão.

23O estabelecimento desses núcleos e seu povoamento se fizeram, segundo Altavilla (1988), alicerçados em bases sólidas do ponto de vista econômico: a agricultura da cana-de-açúcar localizada no norte e no centro litorâneo; os campos de pecuária, no sul.

24Em torno desses núcleos é que tem início a organização do território correspondente a atual Alagoas, evidenciando que esta vai ocorrer com características determinadas pela agricultura e pecuária. Estima-se que nos séculos XVI o atual território alagoano abrangia uma área de 1.900km², que no século XVII, saltou para 6.700 km², ou seja, um aumento de 3,5 vezes Nesse ínterim, pequenas povoações surgiram no litoral como Bom Jesus de Camaragibe, São Bento, Maceió, Nossa Senhora do O, Santo Antônio de Meirim e Poxim.(Mapa 4)

Mapa 4 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVI e XVII

Mapa 4 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVI e XVII

Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.

25No século XVII essa ocupação chegou a 13.000km², quase o dobro do século anterior, e desta forma se interiorizando ainda mais (Mapa 5).

26Nos séculos XVII e XVIII, a madeira, as terras férteis, a busca de ouro e prata, os constantes saqueamentos e o contrabando do pau-brasil, segundo Altavilla (1988), foram os motivos que levaram os três núcleos pioneiros a permanecerem preferencialmente na região da mata e a margem do Rio São Francisco, cabendo ao litoral a função de produção e escoamento da madeira e do açúcar para comercialização

Mapa 5 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVIII

Mapa 5 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVIII

Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.

27na sede da Capitania, assim como intermediar o povoamento e a ocupação do restante do território estabelecendo todo movimento de relações comerciais com a Coroa Portuguesa.

28Durante esses primeiros três séculos, foi observado que mesmo com o desmatamento, a continuada exploração dos recursos naturais de base extrativista, a expressiva população presente no litoral, a intensidade de atuação e a rapidez com que essas modificações se processam foram pouco significativas.

29Assinalamos, nesse período, a instalação dos polos de colonização em 1580, as emancipações políticas desses polos pioneiros na condição de distritos em 1636 e o estabelecimento da comarca em 1706, no início do século XVIII.

O segundo momento do povoamento no século XIX

30No século XIX, essa ocupação alcançou apenas 15.500 km², com Alagoas já independente, se deu a configuração definitiva do seu território, desmembrado da capitania de Pernambuco (Mapa 6).

Mapa 6 - Alagoas - Ocupação no século XIX

Mapa 6 - Alagoas - Ocupação no século XIX

Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.

31Segundo Altavilla (1988), em 1815, a povoação de Maceió foi desmembrada da Vila de Alagoas, atual Marechal Deodoro e ampliada com sete léguas ao longo do litoral. Esse desmembramento e ampliação, ordenado por D. João VI, visavam à formação de uma base para o povoamento e colonização da região da mata em direção à região da praia. Em 1817, ocorreu a emancipação política da comarca, que com a independência do Brasil em 1822, passa a ser denominada de província de Alagoas.

32A rapidez com que ocorrem as mudanças nessa área a partir de então é vista pelo número de vilas que se estabeleceram, pois segundo Sant’Ana (1970), das oito vilas existentes no período em Alagoas, quatro se localizavam a beira mar – Maceió, Porto Calvo, Porto de Pedras e Poxim.

33Além da indústria do açúcar, as atividades que se destacaram no Estado, segundo Sant’Ana (1970), foram a indústria da construção naval, quando oito estaleiros foram instalados e em torno destes surgiram núcleos embrionários que se transformaram em cidades tais como Barra de São Miguel e São Luiz do Quintunde; a indústria têxtil, localizada em torno das lagoas Mundaú e Manguaba, assim como também em São Miguel dos Campos e em Maceió.

34Em 1870, a população de Alagoas era composta por 341.316 habitantes, sendo que 98.565 se encontravam no litoral, representando 29% da população do Estado. Cidade como Maceió, segundo Tenório (1978), já apresentava no segundo quartel desse século com cerca de 53 ruas e várias povoações ou arrabaldes em torno do seu perímetro urbano.

35A intensidade de atuação e a rapidez com que essas modificações se processaram foram em relação ao momento anterior de forma mais significativas.

Da transformação acelerada até os dias atuais:

36A modernização tecnológica dos meios de produção, a melhoria do sistema de produção e o continuado crescimento populacional e urbano despontam como os principais indicadores da transformação recente nesse espaço.

37A modernização tecnológica teve início com o aparecimento da usina de açúcar, em substituição ao que chamou Sant’Ana (1970), de “obsoletos engenhos”, muito embora fosse preciso três décadas para que em Alagoas as usinas superassem os banguês – denominação para os antigos engenhos.

38No entanto, esse avanço tecnológico industrial não foi acompanhado pelo campo, obrigando as usinas a aumentarem gradativamente os seus domínios territoriais, adquirindo áreas para expansão da cana-de-açúcar, numa tentativa de restabelecer o equilíbrio de relações técnicas entre o campo e a fábrica. Somente após a terceira década do século XX, que sinais de modernidade passam a ocorrer no campo (Diégues Junior, 1980).

39Mas, o indicador que melhor expressa o início da transformação recente nessa área é a implantação e melhoria do sistema viário, principalmente o terrestre, segundo Tenório (1978). Assim, antes do início da terceira década do século XX, foram construídos mais de 400 quilômetros de estradas ligando Maceió à sede dos municípios e ao Estado de Pernambuco pelo litoral, facilitando o transporte de carga, de passageiros e, principalmente, do açúcar.

40Por outro lado, a navegação a vapor já encontrava dificuldade de maior penetração devido ao intenso assoreamento nos rios e lagoas, que atualmente apenas canoas e lanchas conseguiam transitar, principalmente nas lagoas Mundaú e Manguaba (Diégues Junior, 1980).

41Entretanto, é a partir de 1950 que se observa uma transformação mais intensa no espaço geográfico do litoral alagoano, com a expansão da cana-de-açúcar sobre os tabuleiros costeiros. Se ao longo de toda a história, a vegetação natural dos tabuleiros litorâneos constituídos por florestas tropicais foi sacrificada para obtenção da madeira, combustível e carvão, a partir dessa época, passa a ser alvo da expansão agrícola, principalmente do cultivo da cana-de-açúcar.

42Essa expansão da cana-de-açúcar localizada nas várzeas e encostas da Zona da Mata foi aos poucos sendo transferida para os tabuleiros costeiros. Segundo Haynes (1970), em Alagoas, o primeiro uso satisfatório do plantio da cana-de-açúcar nos tabuleiros ocorreu em 1956.

43Tavares (1975 p:123) notifica que em 1968 a reserva florestal de Alagoas foi estimada em 200.000 hectares denunciando que parte dessas florestas “[...] estivessem sendo derrubadas em corte raso para em seu lugar se instalarem lavouras”, acrescentando que “algumas florestas estudadas tenham sido substituídas pelos canaviais”.

44Os fatores que levaram o cultivo da cana-de-açúcar para os tabuleiros foram a modernização da agroindústria açucareira, pela ampliação da capacidade de produção exigindo maior área cultivada nos anos sessenta e posteriormente na década de setenta devido à criação do PROALCOOL – Programa Nacional do Álcool (FIPLAN, 1978).

45Comparando mapeamentos realizados com base em fotografias aéreas de 1965 e imagem de satélite de 1989 da cobertura vegetal da área do complexo Lagunar Mundaú – Manguaba, verificou-se esse avanço da cana-de-açúcar nos tabuleiros nesse período. Os tabuleiros litorâneos que em 1965 eram cobertos por remanescentes de matas costeiras, deram lugar à expansão da cana-de-açúcar a partir de 1989 (Calheiros,1994).

46Calheiros (1994) atesta que através de um trabalho de reconhecimento realizado no litoral de Alagoas em setembro de 1990, verificou-se que a cana-de-açúcar ultrapassou os limites fisiográficos dos tabuleiros, chegando ao limite oeste desta área litorânea.

47Em decorrência não só da produção de açúcar, mas com a criação do PROALCOOL – Programa Nacional do Álcool, na década de 1970, responsável pela expansão da cana-de-açúcar, observou-se que ocorreu a implantação de unidades autônomas e anexas de produção de álcool na área dos municípios litorâneos, destacando-se no litoral norte as destilarias anexas da Usina Camaragibe e Santo Antônio e a Destilaria Maciape; no centro do litoral, a Destilaria Anexa da Usina Sumaúma e a Destilaria Autônoma Roteiro e; no litoral sul, a Destilaria Anexa Coruripe e Autônoma Paisa (Calheiros, 1994).

48Nessa mesma década, o parque industrial alagoano passava por mudanças importantes em suas características. Segundo Lima (1982), até 1970, as inversões se deram principalmente no ramo da indústria mecânica ligada principalmente à modernização do cultivo e beneficiamento da cana-de-açúcar.

49Porém, a partir de 1970, com a implantação da SALGEMA Indústria Química S.A, ocorreram mudanças substanciais em Alagoas, quando essa indústria química se instala na cidade de Maceió. (Alagoas, 1984).

50De início, essa indústria pretendia exportar cloro de Alagoas para o mercado do centro sul do país. Na dificuldade de colocação do produto “in natura” no mercado, a solução foi a implantação de um Polo Cloro-Álcool-Químico de Alagoas na década de 1980.

51Este polo industrial, além das alterações provocadas pela sua localização, obrigou o estabelecimento de uma infraestrutura viária. Para interligar a indústria de transformação do sal-gema com o Polo Cloro-Álcool-Químico e este a rodovia BR-101, foi construída a rodovia AL-101, cujo trajeto pela planície litorânea obrigou a edificação de duas pontes sobre os canais das lagoas Mundaú e Manguaba. Sua continuidade se fez sobre os terraços flúvio-marinhos, até o acesso ao polo com a rodovia BR-101, seguindo até a Barra de São Miguel.

52Somando a essas intervenções, a partir da década de 1980, com a concepção de um polo turístico em Alagoas, ocorreu o estímulo para a instalação de uma infraestrutura turística, tanto em Maceió, como em todo o litoral do Estado, promovendo o crescimento dessa importante atividade que se desenvolvia baseada no turismo de sol e mar.

53Baseados em Gomes (2001), destacamos que mesmo com essa realidade apresentada, Alagoas ainda tem uma economia definida como economia sem produção, com localidades que quase não produzem para a geração de riquezas. Cenário este que demanda determinadas reflexões para o seu entendimento diferenciado.

54Avultamos que Maceió é polo atrativo, tanto como centro comercial, como também como centro prestador de serviços, em especial na área de saúde e educação. Tal fato gera fluxo de pessoas, assim como uma convergência de interesses políticos-institucionais dos municípios que compõem a região metropolitana e o Estado de Alagoas (SILVA, 2017).

55No que se refere à hierarquia dos municípios alagoanos, segundo o IBGE (2008), apontamos que Maceió é considerado como Capital Regional A; seguida como Capital Regional C: Arapiraca; Centro Sub-Regional B: Santana de Ipanema; Centros de Zona A: Palmeira dos Índios, Penedo, São Miguel dos Campos e União dos Palmares; Centros de Zona B: Batalha, Delmiro Gouveia, Olho d'Água das Flores, Pão de Açúcar e Porto Calvo.(Mapa 7)

Mapa 7 - Alagoas - Hierarquia dos municípios segundo IBGE em 2008

Mapa 7 - Alagoas - Hierarquia dos municípios segundo IBGE em 2008

Fonte: IBGE9(2008) Regiões de Influências das Cidades 2007 - REGIC. Rio de janeiro: IBGE, 2008.

56Ao observarmos a imagem 01, é possível visualizar a configuração do Estado de Alagoas no que se refere à dimensão territorial e às mesorregiões, verificando que no mesmo se distribuem 26 municípios na mesorregião do Sertão Alagoano, 24 municípios na mesorregião do Agreste Alagoano e 52 municípios na mesorregião do Leste Alagoano.

57Observa-se que os três municípios com maior número de vínculos se destacam como centros das três mesorregiões – Leste Alagoano, Agreste Alagoano e Sertão Alagoano, sucessivamente; e estabelecem um eixo no sentido da penetração no território alagoano na direção litoral-interior, seguidos de municípios distribuídos nas três mesorregiões, com destaque para o Leste Alagoano.

58Verificamos em Araújo, Gomes e Santos Filho (2013), que a situação recente da economia alagoana e dos 102 municípios está diretamente relacionada à formação econômica do Brasil nos séculos XVI e XVII, através da empresa agrícola exportadora.

59Também, Araújo Gomes e Santos Filho (2013) atestam que os municípios do Sertão alagoano são caracterizados como economias sem produção em função da ausência de atividade industrial e agropecuária. Os municípios quase não têm dinâmica econômica

Mapa 8: O estado de Alagoas no contexto regional nordestino

Mapa 8: O estado de Alagoas no contexto regional nordestino

Fonte: Silva, A. N. e Silva, P. R. de F. Relatório Final PIBIC - UFAL 2015-2016.

60já que a produção de bens é muito reduzida e os mesmos são dependentes da renda dos aposentados e dos repasses do fundo de participação dos municípios por não haver arrecadação própria. Os aposentados representam uma classe média e os funcionários públicos pagos com a receita do fundo de participação dos municípios são os detentores de renda, gerando um comércio local.

61Acrescentamos também baseados em Carvalho, (2014) que: “sem os programas estatais, os municípios de Alagoas não teriam movimento comercial; o quadro de miséria seria muito maior e a tensão social e a violência seriam explosivas.”

Considerações finais

62O Estado de Alagoas possui uma ordem espacial composta por 102 municípios, três mesorregiões, treze microrregiões, duas regiões geográficas imediatas, onze regiões geográficas imediatas e nove regiões metropolitanas, configurando uma sobreposição de regionalizações e territorializações no Estado.

63Há uma relativa distribuição da hierarquia urbana no território alagoano, sendo que Maceió e sua Região Metropolitana estão no topo da hierarquia e bem à frente dos demais no que se refere à demografia, oferta de serviços, equipamentos, entre outros. A mesma vem se desenvolvendo como centro econômico do Estado tradicionalmente concentradora da renda e população, destacando-se no setor de serviços, porém sem dinâmica suficiente para absorver o grande contingente de trabalhadores que migram para a cidade, devido à crise na produção sucroalcooleira e às estiagens constantes no polígono das secas entre outras questões que envolvem o Sertão, tal como referente às questões fundiárias.

64Já Arapiraca é seguida por Palmeira dos Índios, ambas localizadas no Agreste e Santana do Ipanema, no Sertão. A importância de Arapiraca no centro geográfico do Estado é uma mudança no cenário urbano estadual que a torna um importante polo de serviços e comércio, uma cidade definida como média. A permanência da importância de Palmeira dos Índios no Agreste e de Santana do Ipanema no Sertão demonstra que, apesar da diminuição do valor das mesmas, essas cidades continuam figurando como polos importantes. A ascendência de Delmiro Gouveia no Sertão, como um dos municípios classificados como polo de importância, ocorre mesmo não concentrando atividade agrícola e pecuária significativas, mas porque tem renda proveniente dos royalties da Chesf e tem um polo de serviços com o campus da UFAL do Sertão, de bancos e de um comércio que influencia sua hinterlândia.

65Vale salientar que essa hierarquia não é rígida e os avanços ocorridos nas redes de transporte e comunicações repercutem na redefinição dessa hierarquia num futuro próximo. Porém, ao que tudo indica, o quadro de desigualdade socioespacial permanece em Alagoas, onde a urbanização do presente tem essa marca histórica da pobreza e onde as dinâmicas econômicas do presente determinam novas desigualdades, gerando um debate necessário.

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Table des illustrations

Titre Mapa 1 - Localização do Estado de Alagoas – Brasil
Crédits Fonte: Acervo do LGA - IGDema - Ufal, mar. de 2003
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-1.png
Fichier image/png, 247k
Titre Mapa 2 - Alagoas - Político-Administrativo
Crédits Fonte: Adaptado da Enciclopédia de Municípios de Alagoas. Instituto Arnon de Mello, maio de 2016.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-2.jpg
Fichier image/jpeg, 348k
Titre Mapa 3 - Alagoas - Grupos Indígenas no século XVI
Crédits Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-3.jpg
Fichier image/jpeg, 284k
Titre Mapa 4 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVI e XVII
Crédits Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-4.png
Fichier image/png, 1,5M
Titre Mapa 5 - Alagoas - Ocupação nos séculos XVIII
Crédits Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-5.jpg
Fichier image/jpeg, 320k
Titre Mapa 6 - Alagoas - Ocupação no século XIX
Crédits Fonte: Adaptado do Guia do meio ambiente: litoral de Alagoas. In: SALLES, Valéria (Plan. e Coord.). 3. ed. Maceió: Projeto IMA-GTZ, 1995.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-6.jpg
Fichier image/jpeg, 328k
Titre Mapa 7 - Alagoas - Hierarquia dos municípios segundo IBGE em 2008
Crédits Fonte: IBGE9(2008) Regiões de Influências das Cidades 2007 - REGIC. Rio de janeiro: IBGE, 2008.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-7.jpg
Fichier image/jpeg, 284k
Titre Mapa 8: O estado de Alagoas no contexto regional nordestino
Crédits Fonte: Silva, A. N. e Silva, P. R. de F. Relatório Final PIBIC - UFAL 2015-2016.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/21096/img-8.png
Fichier image/png, 371k
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Pour citer cet article

Référence électronique

Paulo Rogério de Freitas Silva et Silvana Quintella Cavalcanti Calheiros, « O Estado de Alagoas no contexto regional nordestino »Confins [En ligne], 41 | 2019, mis en ligne le 14 septembre 2019, consulté le 12 août 2026. URL : http://journals.openedition.org/confins/21096 ; DOI : https://doi.org/10.4000/confins.21096

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Auteurs

Paulo Rogério de Freitas Silva

Universidade Federal de Alagoas (UFAL)/Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio-Ambiente (IGDEMA), paulgeografia@gmail.com

Silvana Quintella Cavalcanti Calheiros

Universidade Federal de Alagoas (UFAL)/Instituto de Geografia, Desenvolvimento e Meio-Ambiente (IGDEMA), ,qsilvana@uol.com.br

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Droits d’auteur

CC-BY-NC-SA-4.0

Le texte seul est utilisable sous licence CC BY-NC-SA 4.0. Les autres éléments (illustrations, fichiers annexes importés) sont susceptibles d’être soumis à des autorisations d’usage spécifiques.

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