1Como entender uma parte do território brasileiro e suas particularidades? Neste artigo, propomos fazê-lo a partir de um dos processos que marcam a conjuntura histórica atual: a digitalização do território. Ou seja, compreender como os lugares são atingidos diferencialmente pela digitalização, num contexto no qual as práticas sociais e econômicas demandam crescentemente condições de conectividade efetivas e eficientes.
2Dividimos o texto em quatro partes. Depois de esboçar uma consideração geral sobre as manifestações da digitalização do território, analisamos o desenvolvimento deste processo no estado de São Paulo, para observar seu caráter diferencial do ponto de vista geográfico.
3Milton Santos, ao discutir as técnicas da informação no seu livro A Natureza do Espaço (1996), aponta o computador como símbolo do período técnico-científico informacional, base da telemática e da teleinformática, e destaca sua influência no uso do espaço e do tempo. Nos dias de hoje, um outro objeto técnico ganha centralidade – o telefone celular, cujo uso causa transformações na cidade e no campo, no urbano e no rural. Este dispositivo móvel foi evoluindo desde a primeira geração (1G) nos anos 1980 até a mudança da telefonia celular analógica à digital nos anos 1990 com a segunda geração (2G), que levaria às seguintes gerações (3G, 4G e 5G) a oferecer velocidades de conexão mais rápidas, uma maior capacidade de transmissão de dados e uma maior quantidade de dispositivos conectados. As tecnologias ligadas às redes de internet ampliam largamente a circulação de informações e potencializam as interações espaciais.
4O antigo celular, com poucas funcionalidades, foi convertido no smartphone, com várias opções operacionais e, a partir desse momento, capaz de conectar-se à internet, ler e editar arquivos de texto, dentre outros serviços. No ano 2000, a Ericsson introduziu a tecnologia bluetooth para a conexão sem fio entre dispositivos (celulares, notebooks, impressoras, câmeras etc.) por meio de uma frequência de rádio de curto alcance. Em 2007, com sua entrada na telefonia celular, a Apple substituiu o teclado convencional pelo touchscreen (tecnologia que detecta o toque dos dedos) e criou um sistema operacional com vários recursos de um computador com aplicativos, configurando os smartphones – pequenos terminais multimídias com capacidade para se conectarem a Internet com a mesma velocidade de um computador convencional (Bertollo, 2019).
5Junto com a popularização desses aparelhos e a facilidade de conexão que as tecnologias de rede sem fio oferecem, o uso de aplicativos destinados às mais variadas funções começa a irromper no dia a dia; numerosas atividades são realizadas por meio de softwares específicos destinados a finanças, transporte, entregas, alojamento, educação, saúde, esportes, rastreamento, relacionamento e incontáveis outras que captam, processam e transmitem dados (Steda, 2021). As plataformas, que permitem a exploração econômica dos dados, surgem como um novo modelo de negócios onde atuam como intermediárias entre os diferentes grupos que se interconectam nas redes, sendo mais eficientes quanto mais usuários elas possuem. Configura-se, desse modo, o chamado capitalismo de plataforma (Srnicek, 2017), que estimula o regime de acumulação econômica a partir desse modelo. Nesse contexto, o volume de dados cresce exponencialmente e provoca a necessidade de seu armazenamento; assim, ganham destaque os data centers, objetos técnicos criados para armazenar e disponibilizar dados e informações, que precisam estar protegidos por protocolos de segurança física e digital (Simões, 2023).
6Estas são algumas das manifestações do processo que denominamos como digitalização do território (Arroyo, 2021), deflagrado com maior intensidade e capilaridade a partir dos anos 2000, em razão da complexidade que gradativamente adquire a tecnosfera e de uma psicosfera correlata que enfatiza no plano simbólico a adesão a esse novo ambiente, ambas componentes do meio técnico-científico informacional. Dentre os objetos técnicos, sobressem os atrelados à infraestrutura digital (redes de Internet de banda larga fixa e móvel, pontos de troca de tráfego, data centers, cabos submarinos etc.) bem como os associados à massificação dos dispositivos de acesso (computadores de mesa, computadores portáteis, tablets e smartphones).
7Apesar de tratar-se de uma rede de redes integrada mundialmente que possibilita a conectividade de extremo a extremo do planeta para fins de envio, transmissão e recepção dos fluxos de informação, é necessário salientar a importância e predominância da dimensão nacional para que as interações se realizem. Como explicam Turner e Johnson (2017), a base de sustentação da rede de redes reside na interconexão das infraestruturas nacionais de informação. Estas infraestruturas representam o amálgama de todas as infraestruturas eletrônicas de informação interligadas localizadas dentro das fronteiras de um determinado Estado-nação. Por exemplo, os sistemas de cabos oceânicos continuam a ser fundamentais para o sistema global de comunicações, transportando cerca de 95% do tráfego internacional, mas as rotas dessas redes são definidas pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, que permite a quem as implanta evitar constrangimentos geopolíticos, definindo as fronteiras marítimas dos Estados e até que limite qualquer Estado pode controlar a operação dessas redes. De igual modo, os sistemas globais de satélites também contam com um forte componente nacional por meio da sua dependência de infraestruturas de informação nacionais para o componente terrestre do seu funcionamento. A regulamentação dos serviços de satélite tem sido efetuada por meio da União Internacional das Telecomunicações (UIT), que procura manter o acesso e a interoperabilidade através de acordos internacionais baseados em declarações e tratados da ONU.
8Cabe registrar, também, que a tendência à monopolização está presente na digitalização do território. Grandes empresas como Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet/Google e Meta ampliam o controle de mercado digital no mundo com a adoção de práticas monopolistas e atingem um gigantismo corporativo. Segundo Dowbor (2020), esse gigantismo consiste essencialmente na rede de controle que lhes permite extrair dividendos; o valor dessas corporações é calculado pelo valor de suas ações no mercado que, por sua vez, depende dos dividendos dos acionistas. Essas empresas não apenas monopolizam a exploração comercial dos dados como também ganham uma centralidade política na disputa do poder mundial. Conforme comentam Peck e Phillips (2020, p.82), as empresas gigantes do setor de tecnologia têm sido eficazes em suas defesas do princípio de autorregulação, sendo protegidas por operações de lobby, “mas também por espessas cortinas de determinismo tecnológico e futurismo, sustentadas por (novos) circuitos culturais do capitalismo”. Este movimento está associado a um crescente grau de concentração e centralização de capital, com uma base técnica altamente oligopolizada sob comando de poucos agentes hegemônicos, e com uma psicosfera que reforça as relações de poder vigentes.
9Ao mesmo tempo, surge a expressão “gig economy” que compreende os mercados de trabalho caracterizados pelo predomínio de contratos independentes que acontecem por meio de e em plataformas digitais. Woodcock e Grahman (2020) discutem criticamente esse tipo de organização e avaliam como a tecnologia digital está mudando a natureza do trabalho. A chamada “gig economy” favorece o desenvolvimento de um trabalho mais flexível do que aquele existente nas demais formas tradicionalmente estabelecidas, oportunizando uma quebra de paradigma da relação de emprego padrão fundada em um contrato mais longínquo e estável, com condições de trabalho e segurança social asseguradas pela legislação e pela negociação coletiva. Os autores apontam a existência de um paradoxo nesse cenário digital: um momento de novas oportunidades concomitante com uma deterioração nas condições de trabalho e uma intensificação da precarização do trabalho.
10Tozi (2022) sugere que está se perfilando um uso algorítmico do território, na medida em que o algoritmo, símbolo da fase de plataformização das relações socioespaciais, não é apenas um protocolo de funcionamento ou uma técnica neutra, mas um objeto informacional impregnado pela intencionalidade dos agentes que o desenvolveram. De fato, o poder de tratamento da informação por algoritmos outorga uma nova capacidade à gestão corporativa, que precisa de planos amplos de investimento para instalar a infraestrutura adequada, ou seja, uma tecnosfera capaz de dar suporte e possibilitar a expansão dessa atividade, principalmente para as grandes empresas. Por sua vez, Pasti (2022) explica que diversos estudos anunciam a “dataficação”, como a transformação da ação social em dados online quantificados, permitindo, assim, o monitoramento em tempo real e a análise preditiva. Para este autor, a dataficação, com a concentração de poder em plataformas digitais de grandes corporações, acompanha também a ampliação da desinformação massiva. Atrelado a isto estaria a propagação de informações falsas, fenômeno analisado por Egler e Barbosa (2020) que, ao identificar os atores da tecnopolítica, examinam a divisão do trabalho para a produção e difusão de fake news (influenciadores, produtores de conteúdo, difusores), os programas de informática que produzem representações simbólicas fictícias e a utilização de robôs para ampliar a difusão de mensagens, principalmente para forjar discussões artificiais.
11Se diferentes forças verticais moldam o espaço geográfico contemporâneo nesta era digital para impor seus interesses e manter sua hegemonia, também se abrem possibilidades para articulações horizontais em rede, formas colaborativas de produção e gestão, políticas alternativas que procuram outros usos da técnica, valorizando o plural, o coletivo, o comum. Nessa perspectiva, Israel (2019) discute as geometrias do poder e as disputas instaladas no processo de apropriação da Internet por parte do Estado, do mercado e da sociedade civil.
- 1 No Brasil, em 2004, o número de linhas telefônicas móveis ultrapassou as fixas. Hoje existem 480 mi (...)
12Os fluxos materiais de mercadorias exigem infraestruturas com funções determinadas para facilitar o escoamento (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias, hidrovias, dutos, armazenagens etc.), mas também existem fluxos imateriais que precisam de fixos especializados para se realizar. Às redes técnicas existentes se agregam as redes digitais, um conjunto de infraestruturas físicas e lógicas que permitem transportar pacotes de dados, interligar objetos e pessoas e objetos entre si, para atender a demanda crescente da sociedade contemporânea por conectividade. Cabos de fibra ótica terrestres e submarinos, antenas, satélites, ondas eletromagnéticas, tecnologias de conexão (wifi, redes 2G, 3G, 4G e 5G) compõem a base técnica indispensável para interconectar essa infinidade de pontos representados pelos dispositivos finais (smartphones, notebooks, tablets, computadores, equipamentos em rede)1.
13No estado de São Paulo existem modernos sistemas de engenharia associados ao transporte de mercadorias que servem para aumentar o valor dessa porção do território brasileiro; dentre eles destacam-se os portos e aeroportos que atendem às exigências do comércio internacional. Os portos marítimos mais importantes instalados no litoral paulista são o Porto de Santos e o Porto de São Sebastião, cujas hinterlândias extrapolam as fronteiras estaduais e estão servidas por uma rede de acessos composta por diversos modais de transportes (ferroviário, rodoviário e dutoviário). Concorrendo em muitos casos com a atividade dos portos, os aeroportos, por sua vez, fazem parte do conjunto de fixos produtivos que servem para valorizar o território por meio de terminais exclusivos de cargas destinados a dinamizar as operações de embarque, desembarque e manipulação e transferência das mercadorias. Neste sentido, sobressaem os aeroportos que possuem terminais de carga com estrutura apta para importação e exportação, denominadas TECAs (Terminais de Carga Aérea): Viracopos, em Campinas, e Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, além do Aeroporto de Congonhas na cidade de São Paulo. O Aeroporto de São José dos Campos também apresenta função cargueira, com um voo regular operado duas vezes por semana, facilitando as importações na região do Vale do Paraíba, principalmente de cargas gerais e produtos eletrônicos, além de insumos para o circuito aeroespacial.
14O transporte terrestre de cargas conta com uma malha rodoviária de envergadura composta por eixos estruturantes que atravessam o território estadual, destacando-se os seguintes: Rodovia dos Bandeirantes, Rodovia Anhanguera, Rodovia Castello Branco, Rodovia Raposo Tavares, Rodovia Washington Luís, Rodovia Marechal Rondon, Rodovia Régis Bittencourt e Rodovia Dutra (Mapa 1). Soma-se a isto a malha ferroviária de cargas que transporta especialmente matérias primas até o porto de Santos (grãos, açúcar, minérios), além de carga geral e outros produtos para as indústrias de processamento.
Mapa 1. Estado de São Paulo: distribuição de Estações ERB e data-centers
15Junto a essas infraestruturas, destaca-se a presença das Estações Rádio Base espalhadas em todo o território estadual (mapa1). Trata-se de antenas (transmissoras e receptoras) que se comunicam com os aparelhos telefônicos móveis e realizam o enlace com a central de comutação e controle, responsável pela validação dos assinantes, processamento de chamadas, interface com a rede fixa de telefonia, entre muitas outras funções. A disposição das ERBs no Estado de São Paulo acompanha a distribuição da população, com uma alta concentração de antenas na Região Metropolitana de São Paulo (39,4%), seguida pelas regiões metropolitanas de Campinas (6,8%), Baixada Santista (6,8%), Vale do Paraíba (6,2%) e Sorocaba (5,0%), o que sugere uma quantidade mais elevada de pessoas conectadas nessas regiões. Também se registra um número considerável de antenas em outros pontos da rede urbana paulista (Piracicaba, São Carlos, Araraquara, Ribeirão Preto, Franca, Bauru, Marília, Presidente Prudente, Araçatuba).
- 2 Consta no artigo 27 dessa nova lei (2022) que a Prefeitura de São Paulo, como forma de viabilizar a (...)
16O município de São Paulo conta com uma grande quantidade de ERBs mas, conforme aponta Rodrigues (2023), existem grandes áreas desassistidas como os extremos Leste e Sul, perante uma alta prevalência de antenas de telefonia celular no centro expandido da cidade; ou seja, observa-se uma desigualdade digital marcante, com uma parcela da população sem nenhum acesso à Internet e uma outra completamente conectada. Este problema permanece, conforme aponta o autor, apesar de o processo de distribuição das antenas de telefonia móvel ter passado por intensas discussões políticas, com a participação do governo municipal, empresas operadoras, movimentos e associações de moradores, em diversos momentos desde a promulgação da Lei de Antenas do município em 2004 até a aprovação da nova lei em 20222.
17Se, por um lado, a rede de antenas se explica pela alta difusão do telefone celular, destinado a diversos usos pela população (sociais, econômicos, culturais), por outro, existem objetos técnicos mais sofisticados, que atendem especialmente às grandes empresas. Trata-se dos data centers, infraestruturas que abrigam servidores, sistemas de armazenamento e demais equipamentos para o processamento, armazenamento e distribuição de dados, utilizando tecnologias avançadas como robôs, sensores e fibras óticas de alto desempenho. Estão disseminados de forma muito desigual no território paulista (Mapa 1), com uma alta concentração nas regiões metropolitanas de São Paulo (67%) e de Campinas (23%), o que pode ser explicado principalmente pela forte presença de grandes empresas de diversos segmentos e de instituições e centros de tecnologia e pesquisa, além de densas redes de conectividade de alta velocidade.
18Para Simões (2023), a lógica espacial das empresas de serviços de data centers e suas ações decorrentes são efetivadas através de análises matematizadas complexas e seleção de pontos no território mais funcionais e economicamente eficazes às operações corporativas. Segundo esclarece o autor, há uma série de exigências territoriais que a instalação desses objetos demanda, como o fornecimento estável e abundante de energia elétrica para suas operações, alta disponibilidade hídrica para resfriamento dos sistemas eletrônicos e redes de fibra ótica especiais nas redes de comunicação. O grau de especialização envolvido na configuração e na administração de data centers resulta num tipo de produção associada a grandes investimentos financeiros e informacionais, apontando para um uso corporativo do território.
19Além dos objetos diretamente atrelados à digitalização do território, como por exemplo ERBs e data centers, que servem à circulação de dados e informações, encontra-se uma diversidade de agentes que promovem e incorporam este processo diretamente nas atividades econômicas – na agricultura, na indústria, no comércio, no transporte, na logística, nas finanças – tornando mais complexa a divisão territorial do trabalho. Sem dúvida, o caso mais evidente é a emergência do comércio eletrônico, que irrompe com força nas primeiras décadas do século XXI e reorganiza fixos e fluxos preexistentes assim como exige uma renovação da tecnosfera.
20Como bem explica Venceslau (2023), há uma miríade de empresas de informação, finanças e logística que atuam para que o comércio eletrônico se realize de maneira cada vez mais eficiente e competitiva (empresas especializadas em robotização de vendas, gestão de relacionamento, avaliação, certificação, hospedagem de websites, solução de busca e recomendação de preços, monitoramento de precificação, solução em experiência do usuário, desenvolvimento de marketplace, integração multicanal, publicidade programática, marketing digital, solução em mídia social, gerenciamento de dados, emissão e administração de cartão, bandeira de cartão, conciliação de pagamentos, tecnologia de frete, dentre muitas outras). A pesquisa do autor evidencia que essa diversidade de empresas destinadas ao comércio eletrônico está presente no estado de São Paulo, com uma predominância no município de São Paulo; e alguns desses serviços também se localizam em outras cidades paulistas como Campinas, Ribeirão Preto, Franca, Marília, São Carlos, São José dos Campos.
21Menção especial merecem as empresas de logística, baseadas em tecnologias de informação, gestão e controle de fluxos (softwares de gerenciamento de armazém e de transporte, terminais de coletores de dados por etiquetas de radiofrequência e outros). Lima (2023) mostra como os centros de distribuição estão cada dia mais digitalizados; muitos deles dispõem de robôs móveis autônomos para executar atividades repetitivas e óculos inteligentes para realidade aumentada, que projetam o conteúdo digital no ambiente físico, sendo utilizados sobretudo para separação de pedidos. Os centros de distribuição de grandes grupos econômicos industriais e comerciais estão sediados na Macrometrópole de São Paulo, principalmente nos municípios de Barueri, Jandira, Itapevi, Embu das Artes, Guarulhos, Cajamar, Jundiaí, Louveira, Campinas; dentre eles, destaca-se Cajamar por seu alto grau de especialização em logística. Além das boas condições de fluidez para a circulação das mercadorias, um conjunto de incentivos oferecidos às empresas pelos governos municipais explica essa localização (Lima, 2023).
22Nas atividades econômicas, a inovação está cada dia mais associada à digitalização, sobretudo no ambiente corporativo. O anuário Valor Inovação Brasil 2024 aponta as 150 empresas mais inovadoras do país em 25 setores da economia (as companhias que conquistam o topo do ranking reservam até 5% da receita para investir em inovação). Interessa frisar que as ferramentas mais utilizadas pelas empresas desse levantamento são: big data/analytics (92%), inteligência artificial (88%), machine learning (82%), internet das coisas (61%), realidade virtual/aumentada (49%), blockchain (27%), computação quântica (4%), outras (51%) (Valor, 2024).
23Ao mesmo tempo, no ambiente da inovação, soma-se outro tipo de agentes, vinculados diretamente à pesquisa, que também contribuem com o desenvolvimento e uso das tecnologias de informação e comunicação. No estado de São Paulo, verifica-se a existência de uma variedade deles: centros de pesquisa, parques tecnológicos, aceleradores de incubadoras, universidades e instituições de fomento associadas (Mapa 2).
Mapa 2. Estado de São Paulo: distribuição geográfica dos ativos de inovação
24Os parques tecnológicos e as incubadoras de empresas são iniciativas que fazem parte do Sistema Paulista de Ambientes de Inovação, criado em 2014 pelo governo do estado de São Paulo, e recebem apoio estatal para incentivar os investimentos em invocação tecnológica. Os parques oferecem oportunidades para as empresas transformarem pesquisa em produto, aproximando as universidades e os institutos de pesquisa das empresas do setor produtivo. As incubadoras oferecem espaço físico para instalação de novas empresas voltadas ao desenvolvimento de produtos e processos intensivos em conhecimento. Finatti (2017) e Baldoni (2019) discutem os diversos ativos que participam no processo de desenvolvimento territorial pautado pelas atividades de ciência, tecnologia e inovação.
25A pesquisa básica é realizada majoritariamente pelas universidades públicas nas áreas das ciências exatas, ciências biológicas, engenharias, ciências da saúde, ciências agrárias e ciências sociais. As universidades paulistas (USP, Unicamp, Unesp, Unifesp, UFSCar e UFABC), além da dotação de infraestruturas de pesquisa e laboratórios para desenvolver suas atividades, têm um papel de destaque na formação de recursos humanos qualificados nos níveis de graduação e pós-graduação. Participam de processos de inovação e na geração de conhecimento aplicado a tecnologias que envolvem robótica, automação, sensores e nanotecnologias, entre outras, e algumas delas têm uma relação intensa com os parques e as incubadoras.
26Os Centros de Pesquisa vinculados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e à Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) contemplam diversas atividades nessa direção, com unidades em alguns pontos do território paulista. Dentre as competências tecnológicas definidas pela Embrapii aparecem: ciência de dados, computação industrial, comunicações digitais, equipamentos para internet e computação móvel, inteligência artificial, mobilidade e sistemas inteligentes, sistemas inteligentes de energia. Por sua vez, a Embrapa promove o desenvolvimento e uso de software e aplicativos específicos, como por exemplo uma ferramenta digital para facilitar a recomendação de uso de biofertilizante na produção de milho de pequenos produtores rurais, ou um aplicativo móvel para auxiliar na identificação de problemas fitossanitários (pragas e doenças) de diversas culturas.
27As startups são empresas geralmente de base tecnológica, com uso intensivo das tecnologias de informação, que buscam apresentar inovações nos produtos e serviços que desenvolvem. Com o aumento constante do uso de smartphones e aplicativos de mensagens instantâneas, as startups procuram formas de utilizar essas plataformas para otimizar seus processos e melhorar a comunicação com seus clientes, inclusive várias delas já trabalham com soluções de inteligência artificial. Nesse ambiente, surgem as incubadoras que impulsionam a criação de pequenas empresas ou microempresas, auxiliando-as nas primeiras etapas de lançamento de seus negócios; por sua vez, as aceleradoras apoiam startups financeiramente, oferecem consultoria e treinamento durante um período específico, recebendo em troca uma participação acionária.
28No relatório da organização internacional Startup Genome, que analisa de forma abrangente os ecossistemas de startups em todo o mundo, a cidade de São Paulo é o único ecossistema da América Latina entre os 30 primeiros colocados no mapeamento global, ocupando o 26° lugar (Sebrae, 2023). Existem startups que trabalham em diferentes áreas, como finanças, marketing, recursos humanos, saúde, educação, agronegócio, logística, serviços de venda e locação de imóveis, dentre outras. O Sebrae for Startups, iniciativa do Sebrae-SP de apoio a ambientes de inovação, promove ações de estímulo às startups no estado de São Paulo. Do mesmo modo, o Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) da Fapesp tem apoiado mais de 2.000 empresas ao longo dos últimos 27 anos, localizadas em São Paulo, Ribeirão Preto, São José dos Campos, Campinas, Piracicaba, Araraquara, São Carlos e mais de 160 municípios paulistas (Fapesp, 2024).
29Ao longo do século XX, o estado de São Paulo contou com um significativo volume de investimentos públicos e privados que fortaleceram a expansão da atividade econômica e, concomitantemente, propiciaram a construção de sistemas de engenharia destinados a facilitar a fluidez territorial. Construíram-se infraestruturas para fluxos materiais e imateriais que se atualizam nas primeiras décadas do século XXI à medida que o processo de digitalização avança e surgem novas exigências de conectividade. Esta dinâmica, ao mesmo tempo que denota o papel central de São Paulo na divisão territorial do trabalho em escala nacional, também revela a existência de diferenciações que se configuram ao interior do estado. A concentração de ativos de inovação atribui aos lugares onde se localizam uma condição estratégica diferencial em relação a outros pontos do território paulista (mapa 2).
30A primazia em torno da capital do estado se mantém, confirmando outros estudos que se debruçam sobre esta questão (Lencioni, 2015; Tunes, 2023). A cidade de São Paulo concentra um alto número de startups, aceleradoras, incubadoras, centros de pesquisa, escritórios de instituições de fomento, além de abrigar as sedes dos maiores grupos empresariais nacionais e internacionais que atuam em diversos setores econômicos. Outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo que merecem destaque são Barueri, Santo André, São Caetano, São Bernardo e Guarulhos. Barueri contém um centro empresarial moderno nos bairros Alphaville e Tamboré, com sedes e filiais de grandes empresas como Azul Linhas Aéreas, Cielo, HP Brasil, Philips do Brasil, entre outras, que se agrega ao tecido já consolidado dos municípios do ABC e Guarulhos.
31A Região Metropolitana de Campinas congrega um importante conjunto de instituições voltadas para ciência, tecnologia e inovação, incluindo universidades, centros de pesquisa, parques tecnológicos, startups. Cabe mencionar os Polos I e II de Alta Tecnologia de Campinas, localizados próximos à Unicamp, que abrigam centros de excelência como o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, o Centro Avançado de Tecnologias Estratégicas de Micro e Nanofabricação para Inovação Tecnológica, além de institutos de pesquisa de grandes empresas (Ericsson, Motorola, Samsung, Cargill). Há uma significativa presença de corporações de tecnologia da informação e comunicação bem como de outros segmentos (Alcatel-Lucent, Basf, Bayer, IBM, DELL, Unilever, Bosch, Pirelli, Honda, White Martins, entre outras). Além do município de Campinas, sobressaem Paulínia, Hortolândia, Sumaré, Indaiatuba.
32O município de São José dos Campos distingue-se pela instalação na década de 1950 do Instituto Tecnológico de Aeronáutica, do Centro Técnico Aeroespacial e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; desde então se consolida como um polo de indústrias aeroespaciais, de telecomunicações e automotivas. Atualmente o Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos é o gestor do Cluster Aeroespacial Brasileiro que tem como empresa âncora a Embraer, além de contar com empresas atuantes nos setores de instrumentação eletrônica, geoprocessamento, biomedicina, recursos hídricos e saneamento ambiental. A Região Metropolitana de São José dos Campos se destaca pelas exportações de produtos de alta e média intensidade tecnológica: aviões, automóveis, partes de motores e geradores, acumuladores elétricos de chumbo, embreagens e parte de tratores.
33Sorocaba e Piracicaba completam os destaques da Macrometrópole Paulista em termos de aglomeração de ativos de inovação. O Parque Tecnológico de Sorocaba alberga laboratórios, centro de desenvolvimento de aplicativos, incubadora de startups, com serviços de orientação para elaboração de projetos, propriedade intelectual, desenvolvimento de produtos, apoio jurídico e captação de recursos. O foco principal do parque é a indústria metal-mecânica, eletrônica, automotiva, tecnologia de informação e comunicação. O município congrega várias indústrias, dentre elas Toyota, Flextronic, Azza Telecom, Prysmian Cabos e Sistemas. Por sua vez, o município de Piracicaba, que se distingue pela produção sucroalcooleira, também conta com um parque tecnológico e abriga indústrias dos setores metalúrgico, mecânico, têxtil e combustíveis. Dentre as várias instituições de ensino e pesquisa no campo de ciência e tecnologia de alta complexidade, ressalta-se a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo.
34Além dessas áreas que compõem a Macrometrópole, alguns municípios do interior paulista, como Ribeirão Preto e São Carlos, possuem uma concentração relevante de ativos inovadores, vinculados a suas atividades econômicas; por sua vez, outros municípios, em menor escala, também acusam a presença desses ativos. É o caso de São José de Rio Preto, Franca, Bauru, Marília e Presidente Prudente.
35As feições da urbanização paulista e a consolidação das centralidades preexistentes se explicam, entre outros fatores, pelo dinamismo do processo de digitalização. A densidade técnica e informacional dessas áreas representa uma vantagem para o funcionamento das empresas ali localizadas. Cabe ressaltar, igualmente, a importância da fluidez territorial, já que esta condição precisa estar garantida para qualquer tipo de aglomeração econômica pois somente com boas redes de circulação material e imaterial, a movimentação de mercadorias e os fluxos de excedente econômico podem se realizar.
36As empresas mais modernas, de alta e média intensidade tecnológica, compõem um quadro bastante diversificado, no qual coexistem empresas com diferenças de tamanho, origem do capital, permanência na atividade e disponibilidade de recursos financeiros e técnicos. De qualquer modo, todas se retroalimentam com o ambiente de inovação existente em São Paulo.
37Trata-se de um processo que aprofunda a diferenciação geográfica do estado com áreas mais complexas perante outras com uma presença de tecnologias de informação padronizadas e rotineiras. Nesse contexto, a Macrometrópole Paulista tem uma função centralizadora de fluxos que a torna ainda mais atrativa ao capital. A divisão territorial do trabalho atrelada ao processo de digitalização, ao mesmo tempo em que promove uma dispersão geográfica das atividades econômicas, favorece as forças da concentração.