- 1 Em seu clássico livro sobre o “desenvolvimento financeiro”, Luigi Fray (1961) lembra que não é poss (...)
1Não é novidade que o sistema financeiro mundial, além de suas expressões nacionais, está sofrendo mudanças importantes, como vêm chamando atenção vários estudiosos do tema na geografia – como David Harvey (1982), Barney Warf (1989), Peter Dicken (2010) e Dariusz Wójcik (2011) – e na economia (Chesnais, 1997; Roberts, 2000; Guttmann, 2008). Do ponto de vista estrutural, para além dos elementos ligados à própria concentração e centralização do capital (Hilferding, [1910] 1985) 1, pode-se dizer que as principais causas destas mudanças são:
21. A introdução maciça de novos sistemas e objetos técnicos intensivos em informação, que mudou expressivamente a dinâmica dos mercados financeiros; esta difusão de elementos do meio técnico-científico informacional (Santos, 1996) nas atividades financeiras é denominada também de “digitalização” ou “informatização” das finanças e das moedas;
32. Uma nova divisão do trabalho se instala, com a entrada de novos agentes (como é o caso dos “grandes investidores institucionais” e das chamadas bigtechs e as fintechs), que por sua vez têm causado importantes alterações no jogo de forças entre as firmas que compõem o sistema financeiro, em sua dimensão internacional e em suas sub-dimensões nacionais (Lai e Samers, 2021). Esta nova divisão do trabalho também é definida como uma “desintermediação financeira”, quando as firmas financeiras tradicionais – principalmente os grandes bancos comerciais – sofrem maior competição destas novas empresas emergentes, incluindo aquelas que não são propriamente financeiras (como as bigtechs). Desta forma, tanto no mercado de capitais, quanto na “economia bancária”, alterações importantes vêm ocorrendo desde ao menos a década de 1970.
- 2 Milton Santos (1996, p. 171) nos mostra que esta nova qualidade dos objetos – a de serem “informaci (...)
4As mudanças introduzidas pelos objetos informacionais2, aliás, não atingem apenas a lógica de funcionamento dos mercados financeiros, como mostrou Milton Santos ainda na década de 1990 (Santos, 1996). Há transformações significativas ocorrendo nas formas do dinheiro (que se digitaliza), e em vários setores e circuitos econômicos, políticos e culturais, como é o caso dos transportes urbanos (com a “uberização” dos deslocamentos), da indústria da hoteleira/hospedagem (com a criação do AirBnb), do consumo de produtos culturais (com os novos canais de streaming para obras audiovisuais), redes sociais, além do próprio mercado editorial (que é cada vez mais pautado em e-books ou portais eletrônicos do que em livros/jornais físicos) (Alcarva, 2018). Esta lógica de utilização de novos objetos, softwares e aplicativos para a disponibilização de serviços e produtos em diferentes mercados é também conhecida como “plataformização da economia” ou “economia de plataforma” (Langley e Leyshon, 2016; Montenegro, 2020; Tozi, 2020).
5No caso específico das fintechs, são relativamente consensuais na literatura dois aspectos de sua evolução: 1. as duas primeiras firmas deste tipo são ligadas à poderosos sistemas de pagamento, ambas estadunidenses: a E-Bay (criada em 1995) e a Paypal (1998) (Fintechlab, 2017); 2. A crise de 2008 foi um acelerador do surgimento e difusão das fintechs no mundo como um todo (McMillan, 2018). O fenômeno das fintechs, portanto, é bastante recente.
6No Brasil, estas transformações do capitalismo financeiro vêm sendo analisadas por vários pesquisadores, que mostram que recentemente algumas mudanças importantes vêm se dando, também em função desta já mencionada incorporação maciça de elementos do meio técnico-científico informacional no mercado financeiro (e dos rearranjos provocados por esta difusão). O presente texto tem como principal objetivo analisar como as fintechs vem se propagando no território nacional, dando destaque principalmente a duas questões principais: 1. Alguns problemas ligados às dificuldades de definição do que são efetivamente as fintechs (questões epistemológicas); e 2. O mapeamento da topologia das 100 maiores fintechs no Brasil, no sentido de identificar porque há uma grande concentração delas no estado de São Paulo (e em sua Região Metropolitana).
7Como todo fenômeno novo, as fintechs trazem consigo algumas dificuldades adicionais para serem precisamente conceituadas (Contel, 2020b). Em termos práticos, estas indefinições revelam duas consequências importantes: 1. aspectos essenciais do fenômeno podem ser de mais difícil esclarecimento, dada a polissemia – ou imprecisão – dos seus “conceitos” básicos; e 2. Estas indefinições podem ser também prejudiciais para a produção de estatísticas e mapeamento das fintechs (Knight & Wójcik, 2020, 1493).
8A polissemia em torno do conceito ainda é relativamente significativa, e procuraremos nesta parte do texto explicitar algumas destas dificuldades. Do ponto de vista etimológico, é consensual que a palavra é na verdade um neologismo que surge de um acrônimo, criado em países de língua anglo-saxã, e que junta o prefixo “fin” (de “financial”) e “tech” (de “technology”). O termo só vai aparecer nos dicionários de economia e finanças no final da década de 2000 – especialmente após a crise do ano de 2008 –, o que demonstra também seu caráter recente.
9Em diferentes documentos oficiais do Banco Central do Brasil, as fintechs podem ser definidas como “startups intensivas no uso de tecnologia financeira” (BCB, 2017, 99), mas também da seguinte forma:
“Fintechs são empresas que introduzem inovações nos mercados financeiros por meio do uso intenso de tecnologia, com potencial para criar novos modelos de negócios. Atuam por meio de plataformas online e oferecem serviços digitais inovadores relacionados ao setor” (BCB, 2024)3.
10Estas duas definições nos trazem um sentido preciso do termo – ainda que pouco crítico –, pois identificam diretamente duas características essenciais das fintechs: 1. Elas são firmas ou organizações econômicas que prestam serviços financeiros; e 2. Estas firmas são extremamente intensivas no uso das técnicas da informação.
- 4 A principal fragilidade na definição das fintechs como um tipo de “tecnologia” deriva do anacronism (...)
11Como destaca Dariusz Wojcik, um dos principais estudiosos do tema hoje (Wojcik, 2020; 2021; 2022; Ioannous e Wojcik, 2022), há outros sentidos importantes que o termo ganhou, que associa ele mais à um novo tipo de tecnologia – ou um conjunto de sistemas técnicos – que são fundamentalmente utilizados para a prestação de serviços financeiros. Este seria o entendimento do Financial Stability Board, que define as Fintech simplesmente como uma “inovação ativada por tecnologia nos serviços financeiros” (‘technology-enabled innovation in financial services’). Definição semelhante teria sido dada também por um importante conjunto de autores que se debruçaram sobre o tema – Arner, Barveris e Buckley (2016) –, que se referem às fintechs como “a utilização da tecnologia para fornecer soluções financeiras” (“the use of technology to deliver financial solutions”). Esta nos parece ser também a forma com que trabalham o termo os geógrafos Hendrikse, Basssens e Meeteren (2018), que o definem muito perto de seu sentido etimológico: fintech significa simplesmente uma “tecnologia financeira” (“Financial Technology”) (Bassens e Hendrikse, Bassens e Meeteren, 2018, 160). Para os autores, “FinTech denotes the digital transformation of financial services, a process unfolding via the diffusion of Information and Communication Technology (ICT) applications in the field of finance” (op. cit., 160).4
12Segundo o próprio Dariusz Wójcik (2020), é possível definir fintech ainda de outras duas formas: elas podem ser tanto um “conjunto de inovações” como um “setor econômico”; em suas palavras, “I propose to define FinTech as a set of innovations and an economic sector that focus on the application of recently developed digital technologies to financial services” (op. cit., 568).
13A revisão bibliográfica de textos que tratam das fintechs permite, portanto, que elas sejam definidas de três formas principais: 1. Como firmas; 2. Como tecnologias; ou 3. Como um setor econômico.
14Quando realizamos uma incursão nos conteúdos produzidos em relatórios “técnicos”, ou documentos de associações ligadas à atuação das fintechs, é também possível identificar que existem diferentes formas de definição do que elas são “na prática” (isto é, como elas são classificadas em suas distintas formas de ação), e como houve um aumento deste tipo de firma em todas as economias do mundo.
15Em relatório publicado pelo Fundo Monetário Internacional (Bakker et al, 2023), foi identificado que houve uma aceleração recente do surgimento das fintechs na América Latina, por três motivos principais: 1. O acesso limitado a produtos e serviços financeiros por parte de vários agentes econômicos (restrições na oferta de crédito, principalmente); 2. Melhorias na infraestrutura digital dos países; e 3. Maior disponibilidade de capital de risco por parte das fintechs (para seu financiamento) (Bakker et al, 2023, 21). Os três principais tipos de fintechs surgidas teriam sido as de “pagamento”, os “bancos digitais” e as de “financiamento alternativo” (Bakker, op. cit., 8 e ss.). Já em relatório publicado pela consultoria Finnovista, junto com o Banco Interamericano de Desenvolvimento / BID (Finnovista, 2017), são mapeadas as fintechs existentes na América Latina, que eram 703 no total em 2017. Elas estavam distribuídas entre 15 dos 18 países pesquisados, sendo que o Brasil contribuiria com o maior número de empresas (230), seguido do México, com 180. Importante ressaltar que o relatório considera as fintechs como “startups” que prestam serviços financeiros, o que de certa forma “restringe” o número de ocorrências do fenômeno no sub-continente (Finnovista, 2017, 15). O relatório divide as fintechs existentes em “10 grandes segmentos”, conforme a seguinte ordem: 1. Plataformas de financiamento alternativo; 2. Fintechs de “pontuação” (“Plataformas por meio das quais as pessoas destinam recursos financeiros para indivíduos, projetos ou empresas em troca de produtos ou recompensas não-monetárias”); 3. Soluções de pagamento; 4. Gestão de finanças pessoais; 5. Gestão de finanças empresariais; 6. Gestão patrimonial; 7. Negociação de ativos financeiros e mercado de ações; 8. Empresas de tecnologia para instituições financeiras; 9. Bancos digitais; 10. Seguros (Finnovista, 2017, 13).
16Para cada uma destas categorias, há subdivisões que perfazem 36 diferentes tipos de Fintechs atuando, de acordo com a especificidade do produto ou serviço ofertado pela firma. Outro dado importante que o estudo traz é que 60% de todas as empresas de tipo Fintech que operam atualmente na América Latina “surgiram entre 2014 e 2016” (Finnovista, 2017, 16). Segundo relatório da Distrito (2022, 8), houve certo aumento da velocidade de surgimento das Fintechs no Brasil desde 2008, no seguinte “ritmo”: entre 2008 e 2011 foram criadas 24 fintechs por ano; entre 2012 e 2015 foram 68 fintechs por ano; e finalmente, entre 2016 e 2021, foram 154 fintechs por ano.
17No Brasil, uma importante fonte de dados e informações qualitativas sobre as fintechs é a associação Fintechlab, como mostra Pires (2024). A Fintechlab publicou em 2017 um estudo sobre a difusão das fintechs no Brasil e segundo o documento, no ano de 2015 haviam sido identificadas apenas 54 fintechs no país, número que passou para 244 na edição de 2017, e que em 2020 contava 689 fintechs em atividade (Fintechlab, 2020). Segundo o mesmo relatório, existiriam no país 10 tipos de fintechs (Fintechlab, 2017): 1. Pagamentos; 2. Gerenciamento financeiro; 3. Empréstimos; 4. Negociação de dívidas; 5. Investimentos; 6. Funding; 7. Eficiência financeira; 8. Seguros; 9. Cryptocurrency e Blockchain; 10. Câmbio.
18Das 689 fintechs identificadas para o ano de 2020, a maior parte delas estaria classificada no segmento “pagamentos” (28%), depois gerenciamento financeiro (financial/asset management), com 18%, seguido de empréstimos / concessão de crédito (17%) (Fintechlab, 2020). Os bancos digitais não eram numericamente tão importantes, mas alguns deles já eram considerados “unicórnios” e representavam certa ameaça à concorrência com os grandes bancos de varejo; no total havia 17 bancos digitais em funcionamento no ano de 2020 (Contel, 2020b).
19As mais completas análises “técnicas” sobre a realidade das fintechs no Brasil têm sido feitas por outra associação do setor, e publicadas no documento Distrito Fintech Report (2020; 2022; 2023). Estes relatórios são também uma das principais fontes de informações sobre o fenômeno no Brasil, e segundo a última versão publicada, os principais tipos de Fintechs podem ser assim definidos (Distrito, 2023, 17):
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Meios de pagamento: “Serviços, produtos e tecnologias de facilitação e processamento de pagamentos”
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Crédito: “Sistemas de oferta e concessão de crédito com base tecnológica”
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Dívidas: “Startups que lidam com dívidas do ponto de vista do credor e do devedor”
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Cartões: “Startups que oferecem cartões de diferentes tipos”
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Finanças pessoais: “Produtos e serviços que oferecem gestão, tracking e educação relativos à vida financeira da pessoa física”
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Serviços digitais: “Empresas que oferecem serviços financeiros e bancários administrados ou executados de forma digital”
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Câmbio: “Tecnologia e serviços para facilitar o fluxo de valores entre diferentes países e moedas”
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Criptomoeda: “Tecnologia blockchain e sua aplicação em moedas virtuais”
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Crowdfunding: “Plataformas e serviços que unem grupos heterogêneos de contribuintes financeiros para um propósito específico”
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Tecnologia: “Provedores de tecnologia de base para outras empresas e instituições financeiras”
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Backoffice: “Software e serviços para gerenciar diferentes áreas da vida financeira de empresas”
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Fidelização: “Plataformas e sistemas que visam gerar fidelização e retenção de funcionários e clientes”
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Investimentos: “Plataformas e serviços que permitem que usuários invistam dinheiro e obtenham retornos em diferentes classes de ativos”
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Risco e compliance: “Análise e comprovação de informações e dados de empresas, clientes e mais”.
20Divididas as fintechs nestes principais tipos de segmentos, o relatório mostra ainda que existiriam atualmente no Brasil 1450 fintechs em operação, sendo que a grande maioria delas teria sido criada nos últimos 5 anos: se no ano de 2000 haviam 45 fintechs no país, este número passa para 173 em 2010, depois dá um salto para 971 em 2018 e nos últimos anos teríamos a seguinte evolução: 1172 (2019), 1337 (2020), 1421 (2021), 1449 (2022) e finalmente 1450 em 2023 (Distrito, 2023, 19). Destacados estes números, o relatório indica ainda quais tipos de fintechs são mais importantes em termos de número de firmas envolvidas:
Gráfico 1: Brasil – Fintechs por categoria (em %)
Fonte: Distrito Report (2023, 18)
21Feita esta caracterização mais geral sobre as definições, os tipos e os números das fintechs no país, podemos nos perguntar: como evoluiu recentemente sua distribuição no território nacional? Como vem se dando o processo de “digitalização” da economia bancária no Brasil? Quais fatores explicam a concentração das atividades financeiras, e das próprias fintechs, no estado de São Paulo?
- 5 Para o autor, ao invés de trazer mais “racionalidade” aos mercados, estas mudanças trouxeram novas (...)
22Num livro em tom exagerado, mas ao mesmo tempo premonitório, Joel Kurtzmann (1994) mostrava que a natureza do dinheiro estava mudando radicalmente desde a década de 1970, principalmente em função da difusão de “vastas redes de computadores interligados”, que permitiram o surgimento daquilo que chamou de “dinheiro megabyte”: trata-se de “uma espécie inteiramente nova de dinheiro, que se baseia não no papel ou no metal, mas na tecnologia, na matemática e na ciência, e que percorre o mundo incessantemente numa velocidade semelhante à da luz. [...] Transformou-se em nada mais do que uma combinação de zeros e uns, que são as unidades fundamentais da computação” (Kurtzman, 1994, 15).5
23Conforme já mencionado, na base destas mudanças nos mercados monetários e financeiros está a difusão do chamado meio técnico-científico informacional (Santos, 1994; 1996), que empoderou certos tipos de agentes econômicos (e certos tipos de países/regiões) e penalizou aqueles que não dispõem de infraestruturas e equipamentos intensivos informação mais robustos. Como mostra também a bibliografia sobre esta “digitalização” das finanças, foi essencial para as grandes corporações a ascensão de uma regulação global de tipo neoliberal desta nova estrutura: portanto, para além das inovações técnicas, foi necessário que as normas fossem transformadas de maneira a permitir a livre circulação dos fluxos de investimento, de moedas e de ativos de toda sorte, sob pena dos lucros das grandes companhias (financeiras ou não) serem prejudicados.
24Para compreendermos melhor como vem se dando esta digitalização das finanças, apresentamos neste texto como o processo vem ocorrendo em relação aos canais de prestação de serviços bancários e dos instrumentos de pagamento no Brasil. Podemos de início trazer como exemplo duas variáveis empíricas, que foram parte central da vida bancária da população brasileira durante praticamente todo o século XX: as agências bancárias e os cheques de pagamento. O gráfico abaixo procura sintetizar os números da evolução recente destes dois “instrumentos” no território brasileiro.
Gráfico 1: Brasil – Evolução recente do número de agências bancárias e cheques emitidos – em milhões (2006-2023)
|
2006
|
2010
|
2015
|
2016
|
2017
|
2018
|
2019
|
2020
|
2021
|
2022
|
2023
|
|
Agências
|
13169
|
16980
|
20391
|
21019
|
21408
|
21189
|
20313
|
18911
|
17870
|
17436
|
17421
|
|
Cheques
|
1622
|
1518
|
1037
|
864
|
731
|
633
|
551
|
381
|
313
|
268
|
221
|
Fonte: Banco Central do Brasil: Diagnóstico do Sistema de Pagamentos de Varejo do Brasil (vários anos)
25Conforme mostram os dados acima, estes dois tipos de objetos que compuseram parte da "espinha dorsal” do sistema bancário nacional conheceram um processo recente de perda de dinamismo. A diminuição do uso do número de cheques é mais expressiva, já que de 1,6 bilhões de cheques por ano (2006), atualmente se emitem algo em torno de 221 milhões, um decréscimo de cerca de 86% do número inicial. Já as agências bancárias tiveram crescimento até o ano de 2017, quando atingem seu auge na topologia bancária brasileira, alcançando 21.408 unidades; desde então, este número vem decrescendo, e aparentemente está chegando em certo tipo de estabilidade (principalmente se olhamos para a pequena diferença entre os anos de 2022 e 2023).
26Este movimento de digitalização da moeda e das finanças – e de substituição de infraestruturas e objetos técnicos “analógicos” por instrumentos digitais – pode ser considerado, portanto, como uma das principais causas da difusão das fintechs, no Brasil e no mundo (Contel, 2020c). Para entrar no mercado de prestação de serviços deste tipo, não são mais necessárias infraestruturas “gigantescas”, como seria o caso há algumas décadas atrás, já que esta digitalização trouxe consigo também certa diminuição das chamadas “barreiras de entrada” no setor financeiro; firmas de menor dimensão – como é o caso da maior parte das fintechs – podem se aproveitar destas mudanças na estrutura do mercado financeiro e ascender nele através da prestação de serviços de forma “inovadora”, alcançando de maneira mais direta e eficiente os consumidores (principalmente as gerações mais jovens).
27Neste contexto de crescimento e difusão das fintechs no território brasileiro, como analisar sua distribuição geográfica, e qual o papel que o estado de São Paulo – e sua capital – tem jogado nesta nova divisão territorial do trabalho que está se desenvolvendo? Quais os principais fatores que explicam a localização das fintechs no espaço geográfico? Como São Paulo se destacou recentemente na alocação das principais fintechs atuantes no país?
28Haddad e Harnouf (2019) estudaram a difusão das fintechs numa escala global, procurando identificar os principais aspectos econômicos e tecnológicos que estão na base da formação/catalização da criação de fintechs em 55 países. Os autores mostram que os dois principais fatores mais gerais que estão na base desta difusão são: 1. o desenvolvimento econômico robusto dos países; e 2. a presença de capital de risco (venture capital) nestas economias. Mas não só estes fatores gerais são importantes; outros elementos específicos também têm um peso fundamental, sendo eles: 1. A presença de servidores de internet seguros; 2. A quantidade de assinaturas de telefones celulares; 3. Disponibilidade de mão de obra qualificada (especializada em técnicas da informação e comunicação); 4. Existência de demanda por serviços financeiros de empresas que não é atendida pelas firmas financeiras “tradicionais” (Haddad and Harnouf, 2019, 81)
29Lee e Shin (2018) também analisaram o tema, e mostram que o desenvolvimento das fintechs requer aquilo que chamaram de um “ecossistema favorável” e estável, permitindo assim a inovação, os estímulos econômicos, e colaboração e a competição eficiente entre as firmas financeiras. Este ecossistema seria composto de cinco elementos principais: 1. As próprias fintechs (sejam elas de pagamento, de gestão de patrimônio / wealth management, de empréstimos, financiamento coletivo / crowdfunding, investimentos no mercado de capital, e fintechs de seguros); 2. Os “desenvolvedores tecnológicos” (principalmente ligados a análise de big-data, computação na nuvem, criptomoedas, e desenvolvedores de mídias sociais); 3. O Governo, sobretudo na proposição de normas e de uma regulação favorável ao desenvolvimento de startups financeiras; 4. Clientes / demanda financeira não atendida, sejam eles indivíduos ou outras firmas; e finalmente 5. Instituições financeiras tradicionais (como bancos de varejo, companhias de seguro, corretores de bolsa de valores, etc.). As fintechs muitas vezes competem, outras vezes cooperam com estas firmas, e podem tanto oferecer serviços quanto comprar serviços delas.
30Para além destes elementos básicos para que as fintechs se desenvolvam, os autores mostram que é importante que existam ainda os seguintes fatores: 1. Infraestruturas tecnológicas modernas (principalmente redes de internet eficientes); 2. Empresas e mão-de-obra especializadas em big data; 3. Empresas e mão-de-obra especializadas em análise de dados (“data anlaytics”); 4. Difusão prévia de telefones celulares / smartphones (Lee e Shin, op. cit., 35).
31Já há alguns anos a literatura especializada na geografia econômica e na geografia urbana vem mostrando que o estado de São Paulo – e em especial a Região Metropolitana de São Paulo – concentram a maior parte destes atributos que estão na base da chamada “economia informacional” (Lojkine, 1992) ou “cognitiva” (Gaudin, 2004). Desde a consolidação de São Paulo como o estado que abriga a rede urbana mais dinâmica do território (assim como boa parte das cidades que possuem uma economia mais inovadora), um processo de auto-reforço deste dinamismo se instalou, contribuindo para que os elementos desta nova economia informacional – ou digital – também aqui se desenvolvesse com mais robustez (incluindo a difusão das atividades financeiras).
32A concentração de empresas financeiras no estado e em sua capital, a bem da verdade, tem origem antes mesmo do “período técnico-científico informacional”. Esta concentração vem sendo identificada pela geografia desde ao menos a década de 1950, quando Pierre Monbeig (1957a) escreveu seu clássico texto “Capital e Geografia”. Ao estudar também a difusão dos “bancos” e dos “investimentos” no país, o autor identificou que o enorme dinamismo dos circuitos exportadores do estado de São Paulo – junto com áreas específicas do norte do Paraná e do sul de Minas Gerais – criaram as condições para que a concentração de firmas financeiras se desse nessas áreas. Desde então as cidades paulistas passam a cumprir as “funções financeiras” necessárias para o desenvolvimento de seus respectivos hinterlands (Monbeig, 1957b).
33Roberto Lobato Corrêa (1989, 17), em texto não menos importante, analisou estatísticas do Banco Central do Brasil para os anos de 1961 e 1985, procurando verificar onde houve ampliação, redução ou eliminação das cidades que participavam deste processo de difusão da atividade bancária. As causas da expansão da atividade financeira – identificada sobretudo através da distribuição da redes de agências bancárias – seriam basicamente de três tipos 1. O desenvolvimento econômico e necessidade de financiamento/crédito por parte das firmas privadas; 2. O papel da inflação na expansão das redes de agências bancárias (muitas agências eram abertas para aumentar o “lucro inflacionário”); e 3. A necessidade dos agentes econômicos de manter os ativos líquidos (o que contribuía para aumentar os depósitos bancários) (Corrêa, 1989, 18).
34Para Corrêa, o dinamismo de São Paulo era identificado tanto pela difusão de uma série de bancos privados nas cidades do interior do estado, mas principalmente pela “proeminência” de sua capital neste processo de concentração bancária e financeira. Este poder financeiro derivava do fato de que na capital estavam instalados os seguintes tipos de firmas: 1. as sedes administrativas (headquarters) das empresas financeiras brasileiras, entre elas as mais importantes à época, como a sede do Unibanco, do Banco Real S.A, o Bradesco e o Banco ltaú S.A. (op. cit., 19). 2. São Paulo já era também nesta época o principal “centro intermediário de gestão internacional”, e que, portanto, abrigava as sub-sedes dos bancos estrangeiros atuantes no território; e 3. Por fim, o autor foi precoce em identificar a importância do que hoje chamamos de “serviços corporativos complexos” (Sassen, 1999), mostrando que em São Paulo localizavam-se à época “poderosas firmas internacionais de auditoria de empresas, como se exemplifica com a filial da firma nova-iorquina Price Waterhouse, auditora de importantes bancos” (Correa, op. cit., 20).
35Na literatura geográfica mais recente, é Milton Santos (1993; 1994) quem melhor explica por que São Paulo se tornou o epicentro do capitalismo brasileiro, assim como o grande “nó” dos macro-sistemas técnicos que conferem ao estado e à sua capital a “primazia” na rede urbana e na economia brasileira. Em seu A Urbanização Brasileira (Santos, 1993), o autor mostra a passagem do dinamismo da “metrópole industrial” para a “metrópole transacional”, isto é, aquela área onde o poder deriva do controle sobre a economia e o território, principalmente por sediar atividades hegemônicas (capazes da manipulação da informação) importantes para as diferentes etapas do processo produtivo. Na base deste poder está a variável-chave do atual período histórico, que é a informação (e seu controle):
“Ainda que o peso da atividade industrial seja muito expressivo na aglomeração paulistana, se a compararmos com o resto do País, não é essa função metropolitana que atualmente assegura a São Paulo qualquer papel diretor na dinâmica espacial brasileira. Esse papel é, por causa de suas atividades quaternárias de criação e controle, praticamente sem competidor no País, pois agora são os fluxos de informação que hierarquizam o sistema urbano. O papel de comando é devido a essas formas superiores de produção não-material, elas próprias sendo consequência da integração crescente do País a novas condições da vida internacional” (Santos, 1993, 92).
36Ainda segundo Santos (1993, 124), a Região Metropolitana da São Paulo passa a ser o centro que “promove a coleta de informações, as armazena, classifica, manipula e utiliza a serviço dos atores hegemônicos da economia, da sociedade, da cultura e da política”, praticamente sem competidores do mesmo “tamanho” no país.
37Este raciocínio é retomado em seu Por Economia Política da Cidade (Santos, 1994), onde o autor aprofunda a análise daqueles elementos centrais do “meio técnico-científico informacional” que se apresentam na Região Metropolitana, como a indústria cultural, a produção técnico-científica (incluindo a presença de universidades e seus laboratórios de pesquisa), as firmas de consultoria, publicidade e as de comunicações (ligadas à época, aos sistemas técnicos então considerados “contemporâneos”, como as chamadas telefônicas, os fluxos de telegramas, fax e telex) e toda sorte de infraestruturas e equipamentos que compõem o meio técnico-científico informacional. Foram estas condições que permitiram que a capital do estado de São Paulo permanecesse com o “comando do setor financeiro” nacional (Santos, 1994, 26).
38Esta capacidade de “atração” das atividades financeiras, descritas há tempos – com diferentes enfoques – pela geografia brasileira nos ajuda a entender a primazia que São Paulo exerce sobre o desenvolvimento recente das fintechs no país.
39No já mencionado relatório da consultoria Fintechlab (2017, 11), identifica-se que a cidade de São Paulo tem se destacado no desenvolvimento e localização das fintechs tanto pela presença destas infraestruturas modernas acima mencionadas, assim como pelas maiores facilidades para a captação de recursos por parte das empresas (seja pela maior presença de fundos de investimento, de gestores de venture capital, ou “fundos-anjo”). O relatório destaca também a própria proximidade com grandes bancos e outras corporações nacionais e internacionais como um fator importante deste desenvolvimento. No ano de 2017, São Paulo concentrava nada mais do que “65% do ecossistema de Fintechs brasileiro”, enquanto Rio de Janeiro abrigava 11% (em segundo lugar) e era seguido por Belo Horizonte (apenas 6% dos totais).
40Em relatório intitulado Distrito São Paulo Tech Report 2020 (Distrito, 2021) buscou-se compreender “a estrutura do ecossistema de inovação e tecnologia do estado de São Paulo”, com destaque para a atratividade do estado para as firmas do tipo fintech. O estudo elenca quatro fatores principais para explicar esta localização: 1. O Desenvolvimento e dinamismo econômico do estado; 2. O “Ecossistema de empresas” mais dinâmico; 3. A presença de instituições e firmas inovadoras em todas as atividades econômicas (desenvolvimento tecnológico); 4. Equipamentos e serviços de educação em todos os níveis (com destaque para instituições universitárias de ensino e pesquisa).
41Assim, o relatório da Distrito mostra ainda que a cidade de São Paulo é o principal “polo” de startups no estado, com 1.885 empresas deste tipo ali localizadas (cerca de 71% do total), seguida dos municípios de Campinas (133 startups), Barueri (74), Ribeirão Preto (71) e São José dos Campos (70) (Distrito, 2021, 23).
42Não existe no Brasil uma pesquisa censitária sobre o fenômeno das fintechs, e para que pudéssemos estabelecer um primeiro mapeamento da distribuição deste tipo de firma no território, nós nos valemos do já mencionado Distrito Report (2023), que trouxe dados sobre as 100 maiores fintechs brasileiras, que estariam assim distribuídas:
Fonte: Distrito Report (2023)
43Neste universo amostral das 100 maiores firmas, nada menos do que 75 delas se localizam na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que é seguida – de longe – pela cidade do Rio de Janeiro (onde estão 5 das maiores fintechs), e depois Curitiba e Belo Horizonte (ambas com 4 delas). Para procurarmos ter uma noção mais precisa das firmas que estão mapeadas acima, extraímos do banco de dados do Distrito Report (2023) uma amostra, que representa uma das principais categorias das fintechs, os chamados “serviços digitais” (onde se encontram também os “bancos digitais”).
Quadro 1: São Paulo: Localização das principais fintechs de serviços digitais (2023)
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Pinbank
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Av. Paulista, 1063, 4º andar, São Paulo SP
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SP
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Cora
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Rua Gomes de Carvalho, 1629 - 2º andar - Vila Olímpia - São Paulo/SP
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SP
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Recargapay
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Av. Brigadeiro Faria Lima, 4055 - 9º andar - Itaim Bibi - São Paulo/SP
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SP
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Next
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Rua Domingos Sérgio dos Anjos, 277 - Jardim Santo Elias, São Paulo - SP
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SP
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Neon
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Avenida Francisco Matarazzo, 1.350, 2º andar, Água Branca, São Paulo - SP
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SP
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Ame
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R. Fidêncio Ramos, 302 - Vila Olímpia, São Paulo – SP
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SP
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Grafeno
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Av. Brigadeiro Faria Lima, 1355 - Jardim Paulistano, São Paulo – SP
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SP
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Pag Bem
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Alameda Vicente Pinzon, 173 - Vila Olímpia, São Paulo – SP
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SP
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Will Bank
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R. Eugênio de Medeiros, 303 - Conjunto 1002 - Pinheiros, São Paulo - SP
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SP
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C6 Bank
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Av. Nove de Julho, 3186 - Jardim Paulista, São Paulo – SP
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SP
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Simples
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Rua Gomes de Carvalho, 1765 - conjunto 22 - Vila Olímpia - São Paulo/SP
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SP
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BanQI
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Avenida Rebouças, 3970, Pinheiros, São Paulo – SP
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SP
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Nubank
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R. Capote Valente, 39 - terreo - Pinheiros, São Paulo – SP
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SP
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Nomad
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R. Visconde de Nacar, 358 - Real Parque, São Paulo – SP
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SP
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Acesso Bank
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Av. Rebouças 1368, São Paulo, SP
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SP
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PJ Bank
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Al. Rio Negro, 585 - Alphaville Industrial, Barueri – SP
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SP
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Social Bank
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Alameda Arapoema, 438 - Tamboré, Barueri – SP
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SP
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Digio
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Alameda Xingu, 512 - Alphaville Industrial, Barueri – SP
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SP
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AGI
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Rua Sergio Fernandes B. Soares, 1000 - Distrito Industrial, Campinas - SP
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SP
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Saque e Pague
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Rua 18 de Novembro, 273 7° andar - Bairro Navegantes Porto Alegre – RS
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RS
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Fonte: Distrito Report (2023)
44Chama a atenção, em primeiro lugar, o fato de que 19 das 20 maiores fintechs de serviços digitais se encontram no estado de São Paulo, sendo que 15 estão no município de São Paulo, 3 em Barueri (que faz parte da RMSP) e uma em Campinas. A única grande empresa deste segmento que não fica no estado é a Saque e Pague, empresa sediada em Porto Alegre.
- 6 Segundo reportagem veiculada no Portal G1 de notícias, o Nubank teria chegado à segunda posição em (...)
45Desta lista acima, vale destacar também a importância do Nubank, o maior “banco digital” brasileiro, que possui atualmente valor de mercado próximo dos R$297 bilhões (mais do que o valor do Itaú-Unibanco, aquela que era a instituição financeira mais poderosa da economia brasileira até 2023)6. Criado em 2013 por tres executivos que tinham larga experiência no mercado financeiro (David Vélez, Cristina Junqueira e Adam Edward Wible), o Nubank cresceu exponencialmente – sobretudo depois da pandemia – e atualmente possui cerca de 93 milhões de clientes, além de estarem expandindo sua atividade para o México e Colômbia. Como mostra o Quadro 1, a sede do banco fica no em Pinheiros, tradicional bairro que também cresceu aceleradamente nos últimos anos, em função de um boom imobiliário causado pela revisão das normas de ocupação do solo do Plano Diretor da cidade.
46O que importa destacar é que estas firmas todas que se localizam próximas ao “complexo corporativo” da Região Metropolitana de São Paulo (Cordeiro, 1992), e seguem em grande parte a lógica da localização das demais firmas típicas do atual período técnico-científico informacional (sejam estas firmas financeiras ou não): para se instalarem e serem eficientes na sua atuação, em seu entorno imediato necessitam de um conjunto específico de infraestruturas e serviços corporativos, que tanto sua clientela quanto seus funcionários (principalmente os mais bem pagos) necessitam: sistemas de transportes eficientes e não-saturados; redes de transmissão de informação modernas e com grande capacidade; presença próxima de quantidade suficiente de mão-de-obra extremamente especializada; oferta de “amenidades urbanas” como bares e restaurantes bem conceituados, hotéis de prestígio, cinemas, teatros, galerias de arte, etc. (Cordeiro, op. cit.).
47O dinamismo do capitalismo financeiro brasileiro é conhecido e estudado desde o período de alta inflação e crescimento robusto da economia das nas décadas de 1960 e 70, quando houve expressivo desenvolvimento econômico e tecnológico dos bancos de varejo no país (Teixeira, 2000). Desde ao menos este período, todas as condições para que São Paulo (o estado como um todo, mas principalmente sua capital) se tornasse o epicentro do capitalismo brasileiro vêm sendo criadas. Dentre estas condições procuramos destacar aquelas que estão na base do chamado meio técnico-científico informacional, como os grandes macro-sistemas técnicos de transporte e de comunicações, as usinas de produção de energia e suas redes de transmissão, assim como toda a infraestrutura instalada no estado voltada para a produção de inovações técnico-científicas, como são as universidades públicas e os laboratórios de pesquisa das grandes corporações privadas. Este meio técnico-científico informacional mais denso e regularmente distribuído é que está na base da geração de excedentes por todos os tipos de firmas e setores econômicos que por aqui se desenvolveram (seja no setor agrícola, industrial ou de comércio e serviços), excedentes que por sua vez aceleram o desenvolvimento das mais complexas atividades financeiras no estado.
48À esta concentração histórica de sistemas técnicos e de empresas privadas (financeiras ou não) vieram a se somar, a partir das décadas de 1990 e 2000, toda uma série de novas redes-suporte e de instrumentos ainda mais intensivos em informação, como são os cabos de fibra ótica, as redes e provedores de internet, as torres de transmissão de telefonia celular, os data-centers, assim como a mais capilarizada rede de smartphones em uso no país. É justamente esta nova camada de um meio técnico extremamente intensivo em informação é que permitiu a difusão com mais força das fintechs no estado de São Paulo.
49Este é o quadro pelo qual é possível estabelecer uma explicação geográfica sobre a difusão recente no território brasileiro das fintechs. Não há estatísticas oficiais sobre este tipo de firma no país, também em função do fato de que a própria definição do termo está “em disputa”. Sobre sua difusão geográfica recente, ainda que a divisão do trabalho entre os agentes financeiros tenha ganhado uma nova dinâmica com o surgimento destas firmas, concordamos com Wójcik (2021, 879) quando o auto mostra que “a natureza disruptiva das fintechs não deve ser exagerada”.
50Ao que parece, está ocorrendo no Brasil uma readequação das posições e do poder das empresas que atuam no setor financeiro, mas sem nenhuma “destruição criativa” (ou mudança mais expressiva), que pudesse realmente significar uma democratização dos usos da finança e dos usos do território brasileiro (Contel, 2020c). Um novo tipo de desigualdade, uma “desigualdade técnico-financeira” (Boamah et al, 2021) vem se instalando no atual período, seja entre as nações ou “dentro” dos territórios nacionais. Entender estas dinâmicas pode ser bastante útil para serem identificadas possíveis formas de uso destas mesmas técnicas, destas mesmas firmas (incluindo as fintechs) para desenvolver outras formas mais justas e inclusivas de organização da sociedade, da economia e do espaço geográfico.