1Ao longo dos últimos anos o desmatamento vem apresentando uma tendência geral de crescimento no Brasil, se intensificando drasticamente nos últimos anos, conforme descrito por Melo (2022). Na Amazônia brasileira, a degradação ambiental, liderada pelo desmatamento, gera consequências gravíssimas, tanto em escala local, envolvendo perda de biodiversidade e mudanças no regime hidrológico, quanto em escala global, relativas às mudanças climáticas, derivadas do aquecimento global (Fearnside, 2022).
2É importante ressaltar que a floresta úmida tropical desempenha inúmeros serviços ecossistêmicos, dentre eles o armazenamento de carbono que tem relação direta com a regulação do clima global (Peters et alii., 2023), cujas perturbações evidenciam-se com os eventos climáticos extremos, como secas prologadas, inundações e temperaturas atípicas que são resultantes das atividades humanas.
3Segundo Vieira, Toledo e Higuchi (2018), em geral, na Amazônia, essas modificações já teriam atingido um nível de irreversibilidade. Para RAISG (2020) a forma predatória do uso dos recursos naturais foi determinante nas transformações da paisagem de toda região amazônica. Não obstante, os povos da Amazônia resistem a essas mudanças de diferentes formas e em diferentes locais dessa região, manifestando-se a relevância de analisar os processos locais de enfrentamento da problemática focalizada.
4Por outro lado, diante dessas questões ambientais e perante a importância sistêmica das florestas tropicais, em particular da Amazônia no cenário nacional e mundial, diferentes países e esferas governamentais buscam estratégias para atenuar os problemas ambientais, principalmente, em decorrência da emergência das mudanças climáticas (Rodrigues et alii., 2019).
5Assim, a recuperação florestal tornou-se relevante nas agendas políticas e científicas em nível internacional por ser considerada como uma alternativa para mitigar a crescente degradação ambiental, visto que há urgência em retroceder o desmatamento (Bessa et alii., 2019; Peters et alii., 2023). Para Melo (2022, p.8) esse processo “é, na atualidade, uma necessidade para manutenção da integridade do ecossistema global”. Ainda, Arroyo-Rodríguez et alii. (2015) ressaltam que a recuperação das paisagens em florestas tropicais é um fenômeno motivado por uma infinidade de fatores, operando em múltiplas escalas espaço-temporais.
6As alterações da paisagem, estabelecidas pelo desmatamento ou pela recuperação florestal, geram diferentes trajetórias em escalas espacial e temporal em uma mesma a área ao longo do tempo (Chazdon, 2012). Essas transformações, muitas vezes não são identificadas por um olhar reducionista, tendo em vista que as interações entre elementos naturais e sociais na paisagem ocorrem tanto em escala macro como em escalas locais (Maximiano, 2004).
7Com base nessa perspectiva sistêmica, considerando diversas escalas espaço-temporais existentes, abordamos, nesse estudo, a recuperação das paisagens florestais em um município do Nordeste Paraense, mesorregião do estado do Pará. Essa região, corresponde a uma das áreas de colonização mais antiga da Amazônia brasileira, cujos processos de ocupação apresentam o desmatamento como principal vetor, desde o início do século XX, o que contribui para profundas transformações da paisagem no decorrer do tempo (Brienza Junior, 2007).
8No município de Irituia – integrante da referida mesorregião -, alguns estudos (Braga, Navegantes-Alves e Coudel, 2020; Carneiro e Navegantes-Alves, 2019) evidenciam que determinadas práticas agroecológicas, realizadas na escala dos estabelecimentos agrícolas, colaboram para a recuperação florestal nas propriedades de agricultores familiares. No entanto, é necessário ampliar a escala de estudo para refletir sobre os efeitos dessas práticas na escala da paisagem, surgindo assim a questão norteadora desse estudo: essas distintas práticas agroecológicas empregadas nos sistemas de produção familiares têm permitido uma recuperação florestal em escala municipal?
9Assim, considerando que segundo Lui e Molina (2009) as relações ecológicas e sociais e seus efeitos contribuem para os padrões da paisagem atual, o estudo tem como objetivo analisar os aspectos históricos e espaciais que caracterizaram e diferenciaram o sistema agrário do município de Irituia em relação aos outros municípios do Nordeste do Pará, enfocando os processos de desmatamento e recuperação florestal.
10O estudo tem como base o enfoque sistêmico, partindo de uma abordagem mais abrangente para uma mais local. A área do estudo engloba o Nordeste Paraense e, também, enfatiza o município de Irituia onde se aprofunda acerca dos aspectos históricos e espaciais que caracterizam e diferenciaram as áreas.
11A mesorregião Nordeste Paraense compreende uma área de 83.316 km², representando 11% de todo o estado com uma população estimada em 2.058.140 habitantes (Nascimento, 2022) em 49 municípios que formam a mais antiga fronteira de colonização do estado do Pará (Figura 1). O processo histórico de colonização dessa mesorregião é marcado pela construção da estrada de ferro Belém-Bragança (1908) (Cordeiro, Arbage e Schwartz, 2017) e pela abertura das grandes rodovias como a Belém-Brasília (BR 10) e Capitão Pedro Teixeira (BR 316), por volta de 1950 a 1980.
12O município de Irituia (figura 1), integrante dessa mesorregião, surgiu por meio de uma carta de sesmarias em 1725, tendo como foco principal o estímulo à agricultura devido o potencial agrícola da terra (Diniz, 2005; Galvão, 2019). O município apresenta uma área de 1.385,209 km², com uma população estimada, no censo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022, em 30.955 indivíduos (IBGE, 2022).
Figura 1- Mapa de localização do Nordeste Paraense e do município de Irituia
Fonte: Santos, 2024.
13Analisou-se a dinâmica agrária de Irituia, em suas semelhanças e particularidades em relação aos outros municípios do Nordeste do Pará, com a finalidade de estabelecer os processos históricos de desmatamento e recuperação florestal que levaram ao contexto agrário atual. Consideramos que a construção do conhecimento deve incluir variáveis que se apresentam em diferentes escalas de tempo e espaço, ou seja, a reflexão, conforme abordado por Nogueira (2007), parte não somente da singularidade, mas também da generalidade, analisando-se, assim, múltiplas escalas que compõem os processos.
14A metodologia das análises do sistema agrários foi orientada pelo Guia metodológico da FAO que usa métodos com base em passos progressivos constituídos, inicialmente, do “geral para o particular”. Segundo esse guia, em cada momento os eventos devem ser associados às fases predecessoras, construindo assim “uma síntese cada vez mais aprofundada da realidade observada” (Garcia Filho, 1999, p.11)
15Assim, neste artigo, busca-se a reconstituição dos processos históricos de ocupação que ocorreram no espaço e no tempo, enfatizando os processos que corroboraram com o desmatamento e a recuperação florestal, modificando e culminando no padrão das paisagens atuais da mesorregião do Nordeste Paraense e do município de Irituia.
16Por meio de uma abordagem sistêmica, analisou-se as dinâmicas dos sistemas agrários que se sucederam ao longo da história, utilizando os métodos de análise documental, entrevistas históricas e análise espacial. Assim, como apontado por Mazoyer e Roudart (2010, p. 75), as análises dos sistemas agrários possibilitam a compreensão do movimento geral da agricultura, “historicamente constituído e geograficamente localizado”.
17O método de análise documental consiste na exploração de documentos, contemporâneos ou retrospectivos, considerados cientificamente autênticos, sendo utilizados para identificar tendências, interesses e outros comportamentos (Boas e Souza., 2020). Conforme os autores, esse método pode envolver documentos que não receberam qualquer tratamento analítico e/ou documentos que de alguma forma já foram analisados.
18As entrevistas históricas buscam a identificação de eventos ocorridos, ao longo do tempo, e seus efeitos no processo histórico de uma determinada área. Segundo Navegantes-Alves et alii. (2012, p. 247), esse método, geralmente, é utilizado “com referência a uma ampla escala de estudo, como uma localidade ou uma região”, o que é primordial para este artigo, considerando as escalas abordadas.
19Assim, entrevistaram-se 9 informantes-chaves reconhecidamente conhecedores da história agrária do município e/ou da região, como técnicos de instituições públicas ligados às questões agrícolas e ambientais e lideranças de movimentos sociais de áreas distintas do município, buscando maior abrangência, haja visto que cada sub-região do município teve seu processo histórico consolidado em temporalidades distintas.
20Para análise espacial, foram utilizadas informações multi-temporais derivadas de sensoriamento remoto com intuito de averiguar espacialmente a trajetória de recuperação florestal desde uma escala mais ampla da paisagem, no caso o Nordeste Paraense, reduzindo para a Microrregião do Guamá até uma escala mais fina, focalizando o município de Irituia.
21A análise multi-temporal por sensoriamento remoto, conforme indica Hessel et alii. (2012), permite a compreensão do processo histórico de ocupação do espaço geográfico, entendendo as mudanças da paisagem a partir da observação das alterações passadas e atuais na cobertura da terra (Batistella e Moran, 2005). Analisou-se a evolução espacial do desmatamento e da cobertura florestal em um recorte de tempo de 30 anos referente aos anos de 1990 a 2020.
22A inclusão da Microrregião do Guamá (composta por 13 municípios, com 28.439,60 km², incluindo Irituia) nesta fase do estudo, ocorreu devido a busca de um refinamento da pesquisa, pois a redução direta da escala de paisagem da mesorregião (uma área extensa) para um município poderia trazer inseguranças no resultado, e com a inclusão da Microrregião tem-se maiores informações do entorno do município, ampliando a compreensão do contexto na qual este está inserido.
23As informações das trajetórias de recuperação florestal e desmatamento foram obtidas a partir do conjunto de dados da mudança da cobertura florestal em florestas tropicais úmidas do European Commission’s Joint Research Centre – JRC. Este apresenta a extensão das florestas tropicais úmidas e os distúrbios (desmatamento, degradação e recuperação florestal) que ocorreram, ao longo dos anos, por meio de series temporais LandSat (JRC, 2023), classificadas 6 categorias:
24- Classe 1, Floresta Tropical Úmida Não Perturbada que diz respeito a uma floresta perene ou semiperene fechada sem qualquer perturbação (degradação ou desmatamento) observada durante todo o período definido pela disponibilidade de dados do Landsat;
25- Classe 2, Floresta Tropical Úmida Degradada é uma floresta perene ou semi-perene que foi temporariamente perturbada durante um período máximo de 2,5 anos (900 dias) com a última observação de perturbação observada o mais tardar no ano de 2020;
26- Classe 3, Recrescimento da Floresta refere-se a uma transição de duas fases de floresta úmida para (i) terra desmatada e então (ii) rebrota vegetativa;
27- Classe 4, Terra Desmatada é à conversão permanente de floresta em terra não florestada;
28- Classe 5, Água Permanente e Sazonal;
29- Classe 6, Outra Cobertura do Solo, esta classe refere-se à cobertura não florestal.
30Para este estudo, usaram-se as quatro classes iniciais (Classe 1, 2, 3 e 4) relacionadas ao desmatamento e a recuperação florestal, sendo calculado as áreas de cada uma das classes, buscando identificar como estas se comportam no espaço ao longo do tempo.
31As análises espaciais foram realizadas na plataforma do Google Earth Engine – GEE. Os mapas demonstrativos da trajetória do Nordeste Paraense e do município de Irituia foram elaborados no software de Sistema de Informação Geográfica QGis, utilizando um intervalo de 10 anos (1990, 2000, 2010 e 2020).
32Os dados obtidos nas análises foram submetidos ao teste estatístico de regressão, sendo determinado o modelo exponencial. Foram testados outros modelos como o linear e o quadrado, contudo o exponencial demonstrou-se mais adequado para a representatividade dos dados. As análises ocorreram no software Estatístico R.
33A análise dos dados da mudança da cobertura florestal permite constatar, claramente, a intensificação do desmatamento no Nordeste Paraense ao longo dos 30 anos estudados (entre 1990 e 2020), sobretudo, no que diz respeito à conversão da classe floresta tropical úmida em outros tipos de uso da terra, como retratado na Figura 2.
Figura 2- Mudança da cobertura florestal no Nordeste Paraense, entre os anos de 1990 e 2020.
Fonte: Santos, 2023.
34De maneira geral, o desmatamento no Nordeste do Pará concentra-se nas áreas próximas às rodovias. Porém, de modo distinto, na zona Oeste, nas proximidades do Rio Tocantins, o desmatamento é menos expressivo quando comparado com os municípios a Leste.
35Essa diferença da dinâmica da paisagem regional corresponde à dicotomia apresentada por Théry (2005) entre Amazônia dos rios e Amazônia das estradas, marcadas por diferentes processos de colonização regional. Isso se traduz nas temporalidades, tendo-se do lado dos rios, uma região de ocupação mais antiga, composta por populações tradicionais que mantém uma convivência mais harmônica com a floresta, correspondendo claramente a uma menor dinâmica de desmatamento no Baixo Tocantins. Já, ao longo das estradas, observa-se uma ocupação mais recente, marcada pela presença de colonos que se instalam às suas margens, geralmente acompanhada de intenso desmatamento para formação de pastagens, cultivos de ciclo curto (as roças) ou uma combinação dessas formas de uso da terra, o que é muito expressivo na maior parte do Nordeste do Pará.
36Contudo, é fundamental considerar as diferentes temporalidades do desmatamento, uma vez que seu início antecede o período analisado. O avanço da ocupação humana na chamada 'Amazônia dos rios', anterior à década de 1960, resultou em uma maior degradação das florestas nessas áreas. Posteriormente, com a construção de rodovias federais e estaduais, a dinâmica de ocupação e desmatamento passou a se concentrar na 'Amazônia das estradas'. Assim, “passou-se de um espaço reticular a outro, da Amazônia estruturada em função das vias navegáveis, drenando os fluxos para o Leste, a uma região dominada pelas estradas que levam ao Sul-Sudeste” (Théry, 2005, p.39).
37Na figura 2, é possível, ainda, observar na classe “outras coberturas terrestres” que, até 1990, as áreas antropizadas eram mais expressivas no Leste do Nordeste Paraense, área onde se localiza o município de Bragança. Esta área abrangeu intensa interferência da ferrovia Belém-Bragança (funcional entre1883-1908) que permitia, de acordo com Alves (2018), atrair “migrantes às áreas desocupadas do nordeste do Pará”, pelo governo da Província do Pará.
38A estrada de ferro Belém-Bragança originou uma intensa onda de desmatamento no Nordeste Paraense (Poccard-Chapuis et al., 2020), pois facilitou o assentamento de colônias e núcleos agrícolas, colaborando com a entrada de uma agricultura extensiva no Nordeste Paraense. Assim, Prost (1998), em seu livro sobre a História do Pará, destaca a existência de estrada de rodagem situada na extensão do rio Guamá que ligava a cidade de Bragança à vila de Ourém e de Irituia, entre outras.
39Nessa mesma linha, ao sudoeste do Nordeste Paraense, tem-se uma área de intensa modificação da paisagem ao longo dos anos estudados, correspondendo à área do entorno das Rodovias PA-150 e PA-427, construídas por volta das décadas de 1970 a 1980 (Monteiro e Silva, 2021; Pontes e Rosário, 2020), nos municípios de Tailândia e Moju. Esses dois municípios estão localizados na área denominada de Arco do desmatamento da Amazônia, uma região que detém altos índices de desmatamento e grande concentração de estradas abertas às margens da floresta Amazônica, consequentemente, permitindo o avanço da fronteira agrícola (Castro, 2008; ISA, 2019).
40É expressivo o aumento do desmatamento nas áreas de Tailândia, Moju e entorno a partir de 2000, período em que Nahum e Santos (2015) relatam também a ocorrência do boom do dendê na Amazônia (2004 a 2013), que se concentrou justamente nestes municípios. Almeida Vieira e Ferraz (2020) evidenciam que a implantação do dendê nos municípios de Moju, Acará e Tailândia acarretaram a perda de 30% da floresta primária desses municípios no período de 1991 a 2013.
41Ao reduzir-se a escala de análise, vimos que o município de Irituia apresentou uma conversão expressiva de floresta tropical úmida para a classe desmatamento de aproximadamente de 80%, no período de 1990 a 2020 (figura 3). Conforme relatos dos entrevistados nas entrevistas históricas, há duas atividades que colaboram, significativamente, com o desmatamento em Irituia: a extração de madeira e a pecuária, atreladas a abertura da rodovia federal – BR 010 - e da rodovia estadual – PA 253 - na década de 1960 e 1970.
42Figura 3- Mudança da cobertura florestal no Município de Irituia – PA, entre 1990 e 2020.
Fonte: Santos, 2023.
43A atividade madeireira foi intensificada, em um primeiro momento, com a abertura das estradas de rodagem durante a década de 1960 a 1970, gerando um aumento desenfreado da extração das árvores de interesse comercial. Antes da abertura dessas estradas, os atores entrevistados relatam que as árvores retiradas eram específicas, pois a única forma de saída era pelos rios.
44Logo em seguida, houve uma segunda fase do desmatamento caracterizada pelo uso da mecanização para supressão da vegetação na área, ou seja, a introdução de tratores e motosserras, sendo apontado por nossos interlocutores como um importante fator para o aumento do desmatamento na região. Já Barros e Verissimo (2002) apontam processos mais amplos que interferiram na progressão da extração de madeira no estado do Pará, a partir da década de 1960, em função tanto do aumento da imigração, em decorrência da abertura das estradas, quanto da exaustão dos recursos florestais das regiões do Sul e Sudeste do Brasil. Identificamos e reconhecemos também estes aspectos interferindo no avanço do desmatamento em Irituia.
45Já, a pecuária foi introduzida no município, primeiramente, com a abertura das rodovias (BR-010 e PA-253) por volta de 1960 e 1970, tendo um maior destaque para a PA-253 (“rodovia da laranja” – Irituia) que, conforme os entrevistados, colaborou significativamente para o êxodo rural dos munícipes que vendiam suas terras para os grandes fazendeiros que adquiriam a área, desmatavam e, em sequência, queimavam como forma de preparo de área para o estabelecimento das pastagens. Cordeiro, Arbage e Schwartz (2017) relatam que a construção de determinadas rodovias, como a BR-010, provocou grande emigração das populações rurais tradicionais do Nordeste Paraense devido ao intenso movimento migratório para novas fronteiras agrícolas.
46Porém, esse processo intensificou-se em Irituia em maior escala a partir de 1990, pois os empresários (fazendeiros) eram financiados pelo Fundo Constitucional de Financiamento do Norte – FNO. Hoornaert (1992) e Loureiro e Pinto (2005) explanam que a Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia - SUDAM buscava atrair grupos empresariais nacionais e estrangeiros para a região Amazônica, oferecendo-lhes inúmeras vantagens fiscais, principalmente, para a pecuária, a extração madeireira e a mineração, as quais demandam de grandes áreas e exploração de recursos naturais.
47Os agricultores familiares, muitas vezes imigrantes oriundos de regiões com tradições pecuárias, também tiveram acesso ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar-PRONAF, criado em 1995 e tendo a sua parte de contribuição para o desmatamento por meio da implantação da pecuária em suas propriedades. Pessôa (2007), em sua análise no município de Mãe do Rio (município vizinho), observou que o volume de investimento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), voltado para a pecuária bovina, era muito superior às atividades de custeio como o plantio de mandioca, atividade mais tradicional na região e amplamente praticada por populações e comunidades tradicionais.
48A partir das análises espaciais, obtiveram-se os gráficos da figura 4, representando a trajetória da cobertura florestal no modelo de regressão exponencial tanto para Nordeste Paraense quanto para a microrregião do Guamá e o município de Irituia.
Figura 4- Gráficos referente as trajetórias da cobertura florestal do Nordeste Paraense, microrregião do Guamá e município de Irituia, no período de 1990-2020
(1) floresta tropical úmida não perturbada; (2) floresta degradada; (3) áreas desmatadas; e (4) recrescimento florestal.
Fonte: Santos, 2023.
49Observa-se, no gráfico (1- figura 4), que de forma geral, a porcentagem de floresta tropical úmida apresenta drástica redução ao longo do período estudado. De 1990 a 2020, a redução no Nordeste Paraense é de 35%, na Microrregião do Guamá de 39% e no município de Irituia de 38%, ressaltando que a dinâmica de desmatamento em toda essa região é anterior ao período temporal determinado neste estudo.
50No gráfico (2- figura 4), é possível observar que a floresta degradada no Nordeste Paraense e na Microrregião do Guamá está em crescimento contínuo de 1990 a 2020, tendo aumento aproximadamente de 12% em cada região.
51Contudo, o município de Irituia apresenta uma tendência oposta, com redução de 6% na floresta degradada de 2013 a 2020, sendo observado nas análises que a classe de floresta degradada passou para a classe de desmatamento.
52É importante salientar que, no Nordeste Paraense por volta dos anos 2010, mais precisamente em 2012, nota-se que a classe desmatamento passa adentrar nas áreas de floresta degradada (figura 3) devido a grande diminuição das florestas tropicais úmida. No município de Irituia, a trajetória se assemelha; porém, a entrada do desmatamento nas áreas de floresta degradada inicia-se uma década antes do que foi demonstrado no Nordeste Paraense e, ainda, a soma anual dos polígonos de cada classe demonstra que o aumento do desmatamento vem se concentrando nas áreas de floresta degradada.
53Com base nas entrevistas realizadas, é possível observar que, em algumas regiões do município de Irituia, a transição da categoria de floresta degradada para desmatamento pode estar associada à adesão ao Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) por parte dos agricultores familiares locais.
54Essa adesão teve início por volta de 1995 e considera-se que muitas das áreas onde os agricultores introduziram a pecuária eram, em grande parte, cobertas por vegetação secundária, referida por eles como "capoeirão" – áreas que anteriormente eram florestas tropicais úmidas e foram desmatadas. Atualmente, poucas áreas de agricultura familiar mantêm a atividade de pecuária estabelecida naquela época.
55Conforme retratado nas entrevistas, inicialmente os agricultores utilizavam apenas o sistema de corte e queima para o preparo de suas áreas, retirando a floresta tropical úmida para a introdução de suas roças, e hoje utilizando área de capoeirão (vegetação secundaria consolidada). Assim, foi relatado, durante as entrevistas, que houve uma queimada sem precedentes no município todo em 1987, derivada de um verão intenso e do escape de fogo dos sistemas de corte e queima, o que foi responsável por destruição de grande parte da cobertura florestal do município.
56Conforme Cavalcanti (1996), em 1986 a 1987, foi observado a presença do fenômeno El Niño. Para Silva et alii. (2021), na região Amazônica, a agricultura familiar com o sistema de corte e queima colaborou, significativamente, com o desmatamento, mesmo não sendo seu maior responsável.
57A trajetória do desmatamento, demonstrada no gráfico (3- figura 4), é marcada por constante aumento. Contudo, no município de Irituia, nota-se que o mesmo já está chegando ao seu máximo como mostrado no vértice da função, fato observado, também, na figura 3 que mostra a vasta degradação da cobertura florestal no município.
58Na Microrregião do Guamá e Nordeste Paraense é possível observar nos pontos do gráfico uma inflexão nos índices de desmatamento por volta de 2012 a 2015, período de ocorrência da terceira fase do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm) que, conforme informações obtidas pelo Projeto PRODES, colaborou para a redução drástica na taxa de desmatamento na Amazônia (Brasil, 2017), atestando a importância das políticas implantadas na época.
59No gráfico (4- figura 4), nota-se que o aumento da classe de recrescimento florestal ocorre de forma geral nas áreas estudadas. No Nordeste Paraense e na Microrregião do Guamá, esse recrescimento florestal se destaca, principalmente, a partir de 2018, indicando aumento respectivo de 43% e 39% da série histórica. De acordo com Barbosa et alii. (2021), esse aumento na vegetação secundária no Nordeste Paraense, nesse período, está relacionado ao crescimento de áreas para o desenvolvimento da cultura do dendê, em alguns municípios dessa região.
60Em Irituia, a taxa de recrescimento florestal é mais acentuada, registrando um aumento de 8% ao longo do período de 1990 a 2020. Observa-se que, a partir de 2010, essa classe começa a se destacar no município. No entanto, o aumento mais significativo ocorreu a partir de 2016, pois, em 2015, a área em recrescimento florestal em Irituia representava apenas 1% da área total do município. Esse recrescimento florestal aumentou para 7% em 2020, refletindo um incremento de 81%.
61Os dados apresentados na Figura 4 (gráficos 3 e 4) revelam, claramente, que a evolução da paisagem na Mesorregião do Nordeste Paraense assemelha-se à da Microrregião do Guamá em relação aos padrões de desmatamento e recuperação florestal. No entanto, embora pertencente a essas regiões, Irituia segue uma trajetória paisagística distinta que é caracterizada por elevados índices de desmatamento inicial, mas, posteriormente, destaca-se no recrescimento florestal.
62Este fenômeno é evidenciado pelo coeficiente angular – medida que caracteriza a declividade de uma reta – extraído nas análises, onde Irituia apresenta um coeficiente superior (1,595e-01) em comparação com o Nordeste Paraense (1,267e-01), indicando que a classe de recrescimento florestal no município tem uma tendência mais acentuada do que na Mesorregião.
63O comportamento da trajetória do desmatamento no município de Irituia assemelha-se à teoria de transição florestal, baseada na curva ambiental de Kuznets, conforme discutida por Shafik e Bandyopadhyay (1992) bem como por Barros, Freita Jr. e Hilgemberg (2019). Essa teoria sugere uma relação em forma de "U" invertido entre o crescimento econômico e a degradação ambiental (Grossman e Krueger, 1991).
64Inicialmente, o crescimento econômico leva ao crescimento da degradação ambiental, devido à disponibilidade de recursos naturais. No entanto, ao longo do tempo, essa dinâmica se inverte, pois, mesmo com o crescimento da renda, inicia-se uma redução da degradação do meio ambiente de modo que, conforme Davis (2012), a recomposição ecológica passa a se regenerar naturalmente expandindo a quantidade de floresta. Assim, em Irituia observa-se que a curva do desmatamento tem declinado visivelmente, consequência da redução dos recursos naturais fortemente explorados ao longo dos anos analisados. Posteriormente, como demonstrado nas figuras 3 e 4, há uma recomposição da cobertura florestal no município.
65Ressalta-se ainda que a trajetória da paisagem do município de Irituia passou pelos três estágios da teoria de transição florestal, difundida por Peters et alii. (2023), onde, inicialmente, tem-se uma área em que a floresta, em grande parte, se encontra não perturbada e com alto grau de cobertura. Em seguida, ocorre uma elevada perda de cobertura florestal, principalmente, devido às atividades de extração de madeira e pecuária, práticas precursoras do desmatamento no município. Posteriormente, há uma estabilização da cobertura florestal, seguida por aumento da vegetação, indicando recuperação florestal, como evidenciado na figura 4 (gráfico 4), onde o recrescimento florestal em Irituia se destaca na paisagem do município.
66De acordo com os dados expostos da figura 4, fica evidente que a trajetória da paisagem é similar tanto na Mesorregião do Nordeste Paraense quanto na Microrregião do Guamá no que diz respeito ao comportamento do desmatamento e recuperação florestal, mesmo tendo maior escala devido a quantidade de municípios que os compõe. Apesar de fazer parte dessas regiões, Irituia apresenta uma trajetória distinta, destacando-se, especialmente, na recuperação florestal.
67Esse fato já foi abordado por alguns autores como Braga, Navegantes-Alves e Coudel (2020) que indicam que os sistemas de produção vinculados aos SAFs em Irituia apontam para um incremento de sustentabilidade, diferenciando-se dos outros municípios do Nordeste Paraense. Oliveira (2006) descreve que novos arranjos produtivos (quintais e Sistemas Agroflorestais) introduzidos na unidade de produção familiar em Irituia tem contribuído para o aumento da cobertura florestal.
68Costa e Navegantes-Alves (2020) reiteram que a recuperação florestal realizada por agricultores familiares em Irituia tem se destacado no Nordeste Paraense. Assim, a trajetória identificada nesse município condiz com que Chazdon (2012) indica, em seus estudos sobre as transformações da paisagem em floresta tropicais, que as modificações antrópicas e culturais moldam o legado de períodos sucessivos de colonização, exploração, cultivo, abandono e recrescimento da paisagem.
69Nesse contexto, é relevante considerar os fatores socioculturais que podem ter influenciado a trajetória diferenciada de Irituia. Os entrevistados destacam a atuação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), vinculadas à Igreja Católica, na difusão de ideias e práticas agroecológicas, por meio de intercâmbios e formações iniciados por volta de 1990. Essa atuação, conforme Petersen e Silveira (2007), incentivava a cooperação e a inovação no meio rural, em contraposição à Revolução Verde, que propunha a intensificação da produção agrícola por meio do uso massivo de insumos químicos e da mecanização. Em Irituia, esse processo pode ter contribuído para a construção de um capital social agroecológico, fortalecido por cooperativas e redes de troca — aspectos que ajudam a explicar sua trajetória singular, embora demandem análises mais aprofundadas.
70Ainda, conforme os entrevistados, o recrescimento florestal no município de Irituia obteve impulso a partir de 2010, como observado na Figura 4 (gráfico 4). Nesse período, houve a criação da Cooperativa D’Irituia, que conta com 41 cooperados e teve papel fundamental no processo de introdução dos Sistemas Agroflorestais (SAF) de forma mais abrangente. Alguns citam que a Secretaria Municipal de Agricultura de Irituia – SEMAGRI -, também, teve papel significativo para a troca de conhecimentos entre os agricultores de Irituia com os do município de Tomé-Açu – município conhecido como referência no desenvolvimento de tecnologias no cultivo de SAFs (Campos et alii., 2022). A partir dessas interações e visitas, os agricultores de Irituia perceberam a viabilidade da implantação de SAFs em suas propriedades.
71Outro fator preponderante para o recrescimento florestal no município foi o Programa de Desenvolvimento Socioambiental da Produção Familiar Rural (PROAMBIENTE), do governo federal do Brasil, que buscou implementar Pagamentos por Serviços Ambientais. No entanto, esse programa não foi relatado nas entrevistas, mas observado em outras pesquisas por vários autores como Oliveira (2006), e Silva et alii., (2019) que discorrem sobre a importância deste programa para a conservação dos recursos naturais e a implementação de SAF como transição agroecológica para uma agricultura sustentável na produção familiar rural em Irituia.
72A trajetória de uso e ocupação do solo no Nordeste Paraense tem raízes profundas nos processos de colonização, que, ao longo dos séculos, promoveram a conversão sistemática das florestas em áreas destinadas à exploração econômica. O município de Irituia, ainda que em escala menor, compartilha dessa mesma dinâmica histórica marcada pelo desmatamento impulsionado por políticas estatais que privilegiaram atividades como a extração madeireira e a pecuária.
73Contudo, Irituia se destaca na região por apresentar, nas últimas décadas, uma reversão parcial desse processo, com avanços significativos no recrescimento florestal, sendo esse recrescimento superior ao registrado no restante do Nordeste Paraense. Essa recuperação não resulta do abandono de terras, como em outras regiões da Amazônia, mas sim da adoção consciente, ativa e organizada de práticas sustentáveis por parte de agricultores(as) familiares, influenciados por movimentos sociais, iniciativas cooperativas e políticas públicas adequadas ao contexto local.
74Dessa forma, a recuperação florestal em Irituia deve ser compreendida como resultado de um processo histórico contínuo, que só recentemente ganhou maior visibilidade. Mesmo em recortes territoriais mais restritos, como a Microrregião do Guamá, o município segue se destacando, o que reforça a especificidade e a solidez desse movimento.
75Portanto, recomenda-se que estudos futuros aprofundem o papel dos movimentos sociais, religiosos e das instituições locais na configuração territorial amazônica. Além disso, políticas públicas voltadas à agroecologia e ao desenvolvimento rural sustentável devem priorizar o fortalecimento dessas redes como estratégia central para promover transformações duradouras e inclusivas na região.