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Dossiê especial n°70

Geografia e Geopolítica da América do Sul: reconfiguração regional e os novos rumos da integração

Géographie et géopolitique de l'Amérique du Sud : reconfiguration régionale et nouvelles orientations de l'intégration
Geography and Geopolitics of South America: regional reconfiguration and new directions for integration
Wanderley Messias da Costa

Résumés

L’intégration régionale sud-américaine est une expérience multilatérale de plus de trois décennies et a été largement analysée dans la littérature académique en géographie et au-delà. En combinant des approches issues de la géographie régionale et économique avec la géopolitique, le texte examine cette trajectoire en mettant l’accent sur les changements de la dernière décennie, au cours de laquelle, à bien des égards, les interactions transfrontalières ont perdu de leur dynamisme. Ce déclin de l’intégration régionale a été principalement attribué à la crise du Mercosur, aux divergences politiques entre les gouvernements nationaux du sous-continent et à la croissance rapide, ces dernières années, du commerce extérieur de leurs pays avec la Chine. Malgré ce contexte de crise, l’étude souligne que l’un des principaux projets de corridors bi-océaniques prévus dans le cadre de l’IIRSA a été achevé et qu’un autre est en cours de construction. En outre, elle indique que dans le Cône Sud et, en particulier, dans les relations Brésil–Paraguay et argentine–Chili, plusieurs projets d’interconnexions transfrontalières en cours ont favorisé un approfondissement de l’intégration aux échelles sous-régionales et locales. Enfin, dans une approche typiquement géopolitique, le texte examine les impacts de la nouvelle Stratégie de sécurité nationale des États-Unis sur l’hémisphère Sud et principalement sur l’Amérique du Sud.

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Texte intégral

1Como destacado em nosso estudo anterior (Costa 2009), a América do Sul constitui um notável laboratório para estudos em Geografia e Geopolítica sobre experiências do mundo atual envolvendo arranjos multilaterais de integração voltados para a criação de blocos regionais, a exemplo do Mercosul, do Nafta e da Comunidade Europeia, os três instituídos no início dos anos 1990

  • 1 Ver a respeito as coletâneas: Ruiz, J. B.; Posada, E. V (Org), Repensar la Integración en América L (...)

2No caso do tema em foco, inúmeros estudos têm abordado a trajetória de três décadas da integração regional sul-americana, examinando sobretudo seus aspectos políticos (relações internacionais expressas em acordos e arranjos de cooperação), econômicos (comércio internacional e investimentos intrabloco e extrabloco), geográficos stricto sensu (diferenciação espacial, estruturas de circulação, dinâmicas regionais e processos de integração nas escalas do subcontinente e das áreas de fronteira) e geopolíticos (convergências, divergências e conflitos entre os Estados nacionais sul-americanos, a forte influência atual das grandes potências na região e a crise da integração regional)1.

3Em seus aspectos mais relevantes, o marco histórico dessa trajetória de integração é o Tratado de Assunção que criou o Mercosul em 1991, celebrado entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, ao qual mais tarde aderiram Venezuela e Bolívia e que instituiu o bloco de livre-comércio e mecanismos complementares de cooperação regional em diversas áreas econômicas e extraeconômicas. Outro arranjo multilateral, este de natureza político-territorial, foi a criação da Iniciativa para a Integração Regional Sul-Americana (IIRSA) em 2000 que contou com a adesão de todos os países do subcontinente, voltado sobretudo para investimentos conjuntos em infraestruturas transfronteiriças de circulação.

4A criação da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) em 2008 foi o mais ambicioso desses projetos, integrando todos os países da região num arranjo centrado basicamente no objetivo estratégico de coesão e concertação política que visava projetar a América do Sul como plataforma regional de alcance global e, notadamente, hemisférica ou continental, tema que será retomado mais adiante. Por último, duas outras iniciativas desse tipo, mas nesses casos com impactos de integração de escala sub-regional. A primeira foi a criação do Pacto Andino em 1969 (mais tarde renomeado Comunidade Andina), integrado inicialmente por Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, do qual saíram anos depois Chile e Venezuela. A segunda foi a criação da Aliança do Pacífico em 2011, integrada por Chile, Colômbia, Peru e México, neste caso constituindo um típico bloco econômico de livre-comércio e não exclusivamente sul-americano.

5Como se vê, o ritmo de criação de instituições multilaterais demonstra que a América do Sul tem sido objeto de um forte ativismo diplomático voltado para a cooperação regional. Apesar desse esforço conjunto, entretanto, em linhas gerais a quase totalidade dos estudos reunidos nessas citadas coletâneas publicadas nos últimos anos sobre essa complexa trajetória de integração sul-americana, aponta para um quadro em que ao lado dos evidentes avanços obtidos em diversas áreas ao longo das três últimas décadas, o que tem predominado na atualidade é uma forte tendência de estagnação. Sob muitos aspectos, tanto na economia, como na política e nos enlaces extrarregionais, são claros os sinais da crise do subcontinente que se expressa, sobretudo, na perda de coesão interna e na dispersão das relações externas.

  • 2 Sobre as instabilidades da atual conjuntura mundial examinadas de uma perspectiva geopolítica, ver (...)

6É no contexto dessa complexa e imprevisível conjuntura política e geopolítica mundial de meados da década de 2020 que mescla os avanços obtidos no passado com as crises e instabilidades do presente e os temores quanto ao futuro que será examinado em seguida, de modo não exaustivo, os rumos e as tendências atuais da integração da América do Sul2.

Avanços e Limitações dos Organismos Regionais de Integração

7A criação de blocos regionais de comércio, em especial nos anos 1990, é um dos reflexos da liberalização da economia mundial e a abertura comercial (redução de barreiras tarifárias e não-tarifárias) após o fim da Guerra Fria, simbolizadas pela criação da OMC em 1995 e a Rodada Doha iniciada em 2001. Na América Latina, essas mudanças foram teórica e tecnicamente trabalhadas e amplamente disseminadas pela CEPAL nas esferas do planejamento econômico regional e nacional. Nesse movimento de aggiornamento, procurou-se superar o antigo paradigma da teoria da dependência baseada na estratégia de substituição de importações na industrialização dos países da região pelo regionalismo aberto, impulsionado pelos novos ventos do liberalismo econômico e a globalização.

8Desse modo, a integração regional foi assumida como uma estratégia baseada em retirar o máximo proveito da mundialização do comércio e da interdependência entre países e regiões e, ao mesmo tempo, promover a Inter complementaridade interna e a maior competitividade internacional dos países integrantes do bloco. Como mencionado, as criações do Mercosul, União Europeia e Nafta no início dos anos 1990 bem simbolizam essa nova tendência global nos arranjos regionais, ainda que se possa identificar diferenças importantes entre eles. De comum eles adotaram como mecanismos fundamentais, no âmbito regional, a remoção das respectivas tarifas nacionais e a instituição do livre-comércio intrabloco para a maioria dos bens e serviços e, no internacional, a fixação de uma tarifa externa comum para as importações dos países do bloco, neste caso, procurando evitar o antigo protecionismo e ajustar-se à nova tendência de liberalização do comércio mundial.

9No entanto, as diferenças superam em muito as semelhanças entre esses três modelos de integração. Primeiro, pelas particularidades das três regiões e seus países. O Nafta é formado por apenas três países, sendo um deles os EUA, reconhecidamente a maior economia do mundo e que lidera o bloco. A União Europeia, criada com 12 membros (hoje conta com 27) possui pelo menos 50 anos de história de integração regional e conta entre seus membros com um seleto grupo de países altamente desenvolvidos e industrializados. No caso do Mercosul, como reiteradamente apontado, o bloco ainda hoje é caracterizado pelos baixos indicadores de desenvolvimento econômico e social da maioria de seus membros, um quadro agravado pela acentuada assimetria entre eles, em que sobressai a preeminência econômica do Brasil.

10Há outras diferenças importantes. O Nafta é um típico bloco de livre comércio, mas que conta com um fortíssimo componente de integração produtiva-industrial transfronteiriça, sobretudo entre EUA e México, processo impulsionado desde os anos 1960 pela Lei da Maquila que permitiu o livre fluxo de investimentos industriais estado unidenses , especialmente nas regiões mexicanas de fronteira. A União Europeia, desde sua criação, procurou superar seu antigo status de bloco econômico para constituir-se como organização política e econômica de alcance global, com um original e ambicioso arranjo institucional centrado numa inédita governança supranacional, até hoje a única experiência desse tipo no mundo. Essa governança regional conta com um “Poder Executivo” (a Comissão Europeia), um “Poder Legislativo” (o Parlamento Europeu) e um “Poder Político” (o Conselho Europeu formado pelos Chefes de Estado ou de Governo), este último o preeminente dentre eles.

11Quanto ao Mercosul, o mais importante arranjo regional sul-americano (73% do território e 70% do PIB do subcontinente), trata-se de um modelo híbrido de integração em que nele se encontram algumas das características dos dois outros. Apesar de constituído como bloco de livre-comércio, desde sua origem seus criadores pretenderam dotá-lo de dispositivos de regulação e mecanismos que lhe propiciassem atuar também em áreas não exclusivamente de comércio exterior.

12À semelhança do Nafta, foram instituídos dispositivos específicos para incentivar a integração produtiva transfronteiriça, caso da União Aduaneira e, replicando aqui a experiência da União Europeia, foram adotados mecanismos específicos voltados para a integração regional extraeconômica, abrangendo áreas relevantes como a livre-circulação de pessoas no âmbito do Mercosul e de seus países-associados (Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname), que se estende assim a praticamente toda a América do Sul. Além disso, foram celebrados diversos acordos complementares para fomentar a cooperação em educação superior, ciência e tecnologia e cultura.

13Com o objetivo explícito de reduzir as assimetrias intrabloco, em 2004 foi criado o Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul (FOCEM) - que também replica aqui a experiência europeia com seus Fundos Estruturais e de Investimentos -, voltado especialmente para investimentos em infraestrutura, planos de desenvolvimento regional e urbano e de revitalização das regiões deprimidas de países membros do bloco. Ao mesmo tempo, utilizou-se largamente dos acordos de preferências tarifárias celebrados pelos 13 países integrantes da Associação Latino-americana de Integração (ALADI) e, desse modo, o Mercosul tornou-se de fato um estratégico centro de gravidade capaz de estender seu mercado comum para praticamente todo o subcontinente.

14Outra experiência importante de integração regional no subcontinente foi a criação da UNASUL, em 2008, a partir da articulação liderada pelos presidentes do Brasil (Lula), da Argentina (Nestor Kirchner) e da Venezuela (Hugo Chavez), um ambicioso projeto de inspiração basicamente política (e geopolítica) que teve como objetivo principal contrastar a forte influência do poder imperial dos Estados Unidos na América Latina e, especialmente, na América do Sul. Trata-se de organização desenhada para integrar os 12 países da região em torno de objetivos comuns de natureza econômica, política, social, cultural e de segurança e defesa. Conta, em sua estrutura principal, com a Cúpula Sul-Americana – formada pelos chefes de Estado –, uma Secretaria - Geral, com sede em Quito, no Equador, além do Conselho de Defesa Sul-Americano e a IIRSA (renomeada como COSIPLAN).

15Ao lado disso, esse novo organismo deveria atuar de forma abrangente e coordenar de fato todos os demais projetos de integração da região, a exemplo do próprio Mercosul e da Comunidade Andina de Nações (CAN). No front externo, sua maior ambição era a de estruturar uma articulação política subcontinental com densidade suficiente para projetar-se internacionalmente, tendo como espaço de referência mais amplo o continente americano e como foco principal a América Latina. Em outros termos, e ainda que não explicitado em seus documentos e decisões formais, o discurso político dominante dos governos no comando do empreendimento deixava claro que seu objetivo estratégico era o de construir e consolidar no futuro uma organização interamericana, isto é, para além do subcontinente, que fosse capaz de representar uma alternativa à atuação da Organização dos Estados Americanos (OEA), criada no contexto da Guerra Fria e ainda hoje fortemente influenciada pela política externa dos Estados Unidos no continente.

16Além do incontrastável peso específico do Brasil na região, da forte liderança e do engajamento do presidente Lula, deve-se destacar o protagonismo da Venezuela nesse processo, por três razões principais. Primeira, pela natureza anfíbia do país – ao mesmo tempo sul-americano e caribenho –, condição geopolítica singular que lhe confere posição de Estado pivô na articulação dessas duas sub-regiões, nas quais possui sólido enraizamento. Segunda, pela demonstrada capacidade de articulação política de Hugo Chávez junto aos governos de diversos países das duas sub-regiões, que se refletiram, por exemplo, na decisão de retirar o país da CAN em 2006, seguida pela criação da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), bem como na inspiração de diversos projetos da Unasul e do Mercosul. E em terceiro, pela conjuntura econômica favorável até os primeiros anos da década de 2010, sobretudo para os dois países na liderança do projeto.

17No caso do Brasil, os analistas da sua inserção mundial no período são praticamente unânimes na avaliação de que o país deu um notável salto na sua projeção internacional – política externa, cooperação econômica e investimentos produtivos – não apenas em seu entorno regional (América do Sul e Atlântico Sul), mas além dele, especialmente na América Latina como um todo e na África e, ao mesmo tempo, ampliou consideravelmente a escala de sua política externa mediante bem-sucedidas articulações de âmbito global, a exemplo da sua efetiva participação na criação do BRICS (formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).

18No entanto, esse percurso ascendente da integração sul-americana liderada pioneiramente pelo Mercosul e em seguida pela Unasul foi duramente impactado pelos eventos e mudanças de natureza ao mesmo tempo política, econômica e geopolítica de larga escala a partir do início dos anos 2010. No caso da Unasul, seu processo de esvaziamento teve início nos anos seguintes ao término do Governo Lula em 2010 e à morte do venezuelano Hugo Chavez em 2013 e acentuou-se no final dessa década com as profundas crises econômicas e as mudanças de governos da Venezuela, Brasil e Argentina, um quadro de desagregação em que esse organismo regional foi praticamente extinto.

19Outro evento de grande repercussão sobre esses dois organismos regionais foi o lançamento da Aliança do Pacífico em abril de 2011, zona de livre-comércio formada por Chile, Peru, Colômbia, Costa Rica (que aderiu em 2013) e México, que representou um brusco movimento centrífugo de conteúdo ao mesmo tempo econômico, político e geopolítico com potencial de reduzir o poder de atração do Mercosul e, especialmente, de provocar grave impacto sobre a Unasul, um bloco ainda em fase de consolidação. Essa nova articulação regional, ainda que na superfície possa ser considerada como mais um entre os diversos projetos do gênero, pode expressar movimentos de outra natureza, certamente mais complexos. Por isso deve-se abordá-la focando o olhar em seu conteúdo propriamente geopolítico e estratégico, isto é, na conjunção de linhas de força e de antagonismos novos e recorrentes que estão atuando sistematicamente nos espaços sul-americano e continental. Dessa forma, destaca-se em primeiro lugar que uma característica comum de todos seus países é sua projeção em direção ao Pacífico – hoje sob forte poder de atração da Ásia e especialmente da China – e não à vertente Atlântica, ainda que Colômbia e México possuam territórios bioceânicos.

20Quanto ao Mercosul, sua trajetória de sucesso durou cerca de 20 anos, o que é bem ilustrado pelo fato de que no auge de seu desempenho, 25% das exportações totais e cerca de 45% do valor total dos bens industriais do Brasil eram destinados aos países do bloco (principalmente a Argentina), bem como mais de 45% das exportações argentinas (principalmente o Brasil). Ao lado disso, cresceu o intercâmbio comercial e os investimentos produtivos transfronteiriços na maioria dos países sul-americanos e, ao mesmo tempo, esse novo dinamismo econômico impulsionou os investimentos na expansão da infraestrutura regional de circulação liderados pela IIRSA.

21Desde meados dos anos 2010, entretanto, ocorreu a inflexão desse percurso e teve início seu declínio que se prolonga até a grave crise dos dias atuais que se reflete, especialmente, no seu principal objetivo original, que é o de alavancar o comércio exterior intrabloco e, complementarmente, estimular os investimentos produtivos transfronteiriços e reduzir as profundas assimetrias internas. Prova disso (CEPAL 2025) é que o total do comércio de bens e serviços intrabloco em 2024 foi de US$ 53.8 bilhões, o que representa cerca de 12% do total do comércio exterior dos membros do bloco (US$ 452 bilhões), índice que aponta para um quadro de retrocesso sistêmico do bloco, em contraste com os apresentados em 2024 pela União Europeia (60%), T-MEC (30%) e ASEAN (58%).

22As principais causas dessa crise são bem conhecidas pelos analistas e foram abordadas em seus contornos gerais em artigo anterior (Costa 2018). A primeira delas está relacionada às limitações intrínsecas do modelo de arranjo institucional do Mercosul, que possui gestão do tipo basicamente intergovernamental e hiper presidencialista, não dispondo, portanto, de uma governança supranacional – como a vigente na União Europeia – que lhe permitisse atuar com relativa autonomia face às flutuações político-ideológicas dos governos nacionais de seus países-membros. A segunda está relacionada à criação da Unasul em 2008, que ao pretender coordenar politicamente – e por cima - todas as demais experiências precedentes e futuras de arranjo regional, rebaixou na prática para o segundo plano a prioridade até então conferida ao Mercosul.

23Por último, há também importantes causas econômicas ou político-econômicas que devem ser consideradas, como é o caso da prolongada crise econômica da Argentina no período e, principalmente, o acelerado crescimento do comércio exterior dos países do bloco com a China, justamente no período desde o início dos anos 2010. No caso do Brasil, o total de suas exportações anuais para esse país mais que dobrou e o de suas importações teve crescimento de mais de 70% nos últimos 12 anos e, em 2025 a corrente de seu comércio com a China (US$ 171 bilhões) representou 31% do total do comércio exterior brasileiro (US$ 630 bilhões).

24Destaque-se que os impactos desse forte crescimento da influência chinesa sobre o Mercosul na última década também têm sido observados na maioria dos demais países da América do Sul. Esse processo tem impulsionado importantes mudanças de ordem econômica – e geopolítica, como se verá adiante – na repartição territorial e regional das esferas de influência, tanto no caso do Brasil, que sofreu acentuado declínio no Mercosul, como dos EUA em praticamente todo o subcontinente, ambos substituídos pela China (Figura 1).

Fig. 1 - Principais Destinos das Exportações dos Países Sul-Americanos

Fig. 1 - Principais Destinos das Exportações dos Países Sul-Americanos

Fontes: Info Brasil e Comex, citado in https://www.threads.com/​@flaviogeopessoa/​post/​DFeBPOEvaap

25Nesse cenário de dificuldades, a aprovação do Acordo Mercosul – União Europeia pelo seu Conselho Europeu no final de 2025 – após mais de 25 anos de negociações – que criará uma vasta e relevante zona de livre-comércio entre os dois blocos, tem condições de impulsionar a recuperação do combalido Mercosul, ressalvando que, neste momento, ainda pairam incertezas quanto ao início de sua implementação efetiva, devido à complexidade jurídica e política de sua tramitação no âmbito das demais instâncias decisórias europeias.

Redes de Circulação e Integração na Escala Continental

26Na perspectiva da Geografia Regional e Política, o longo e tortuoso processo de integração sul-americana na escala continental pode ser abordado, grosso modo, pela sua configuração territorial que se expressa basicamente em dois grandes compartimentos e suas respectivas sub-regiões. O primeiro é o Setentrional, que em sua maior parte é formado pela bacia Amazônica, além do litoral noroeste do Pacífico, a secção noroeste da Cordilheira dos Andes, o Planalto das Guianas e o Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. O outro é o Meridional, que em grande parte coincide com a bacia do Prata, além do litoral sul-ocidental do Pacífico, a secção sudoeste da Cordilheira dos Andes, o litoral sudeste e sul-oriental do Atlântico, a Patagônia e a Terra do Fogo.

27No primeiro, os grandes projetos de interconexão (todos rodoviários) que até o momento foram implantados possuem um pressuposto estratégico e um design comuns que se materializam no formato de corredores, eixos ou rotas que visam, principalmente, estabelecer a interligação de dois pontos terminais de longa distância, sempre procurando articular alguma parte da imensa hinterlândia – em sua maior proporção, situada no Brasil – ao Pacífico (rodovia Brasil-Peru) ou ao Caribe (rodovias Manaus-Caracas, Boa Vista-Georgetown e Macapá-Guiana Francesa). Eles expressam concepções clássicas de integração regional inspiradas na Geopolítica tradicional que privilegia a ocupação e a defesa do território – caso da Rodovia Transamazônica do Regime Militar brasileiro - e os eixos viários como indutores do progresso econômico para regiões periféricas e remotas, a exemplo dos Eixos Nacionais de Desenvolvimento (END) do Programa Brasil em Ação no governo Fernando Henrique Cardoso.

28Em seus longos percursos, esses corredores de escala continental de modo geral conectam importantes polos urbanos e econômicos em suas extremidades, mas, a partir daí, atravessam vastas regiões de população rarefeita, incipiente rede urbana e atividades econômicas dispersas e de fraco desempenho, um aspecto bem destacado no estudo sobre as tendências atuais de regionalização da América do Sul e seus "espaços vazios" (Théry e de Mello-Théry, 2022) sobre as tendências atuais de regionalização da América do Sul e seus “espaços vazios” interiores. No seu excelente mapa de população e densidade demográfica, esses espaços isolados ou semi-isolados estão bem representados e os mais importantes são facilmente observáveis: de sul para o norte, a Patagônia, o Chaco, o Pantanal e a Gran Amazonía.

29Daí porque, e especialmente no caso da Gran Amazonía (7.5 milhões de Km²), o planejamento, a implantação e a gestão desses macros eixos viários de conteúdo estratégico ou mais propriamente geopolítico dependem, sobretudo, da ação isolada, compartilhada ou concertada dos Estados nacionais e de sua capacidade de formar ou acessar fundos financeiros públicos e privados para fazer frente aos elevados custos de implantação e manutenção dessas infraestruturas de circulação.

30O quadro geral da integração física na escala continental nas duas últimas décadas reflete o desempenho dos mais de 500 projetos constantes do portfólio da IIRSA/COSIPLAN, em que sobressaem aqueles de maior visibilidade, como os grandes eixos rodoviários de conexão, a exemplo das chamadas Rotas Bioceânicas. Observe-se, entretanto, que apesar de contarem com coordenação e investimentos públicos nacionais e financiamentos multilaterais – BID, FONPLATA e Caixa Andina de Fomento, principalmente -, em sua grande maioria são projetos de rodovias voltadas ao atendimento de demandas regionais e sub-regionais de conexões internas dos países, ao lado daquelas projetadas para viabilizar interligações binacionais ou transfronteiriças. Por essa razão, tem sido muito destacada a recente conclusão da Rota Bioceânica Brasil-Peru (Estrada do Pacífico), que articula a BR-317 e a BR-364 (Mato Grosso-Rondônia e Acre) à tríplice fronteira Brasil-Peru-Bolívia, transpõe os Andes e alcança os portos peruanos do Pacífico (Figura 2).

Figura 2 – Estrada do Pacífico (Brasil – Peru)

Figura 2 – Estrada do Pacífico (Brasil – Peru)

Fonte: ac24horas, https://ac24horas.com/​2020/​09/​17/​a-estrada-do-pacifico-no-comercio-exterior-do-acre/​

31Desde sua conclusão, entretanto, o baixo volume de tráfego de veículos de carga da rodovia indica que ela não tem atendido à expectativa inicial de servir como corredor de exportação (de grãos principalmente) entre o Brasil e os portos peruanos do Pacífico e destes à Ásia. Nesse sentido, essa rodovia também padece do conhecido mal dos grandes eixos rodoviários amazônicos, a exemplo de suas similares mais antigas, como a Manaus-Caracas e a Transamazônica. No caso em tela, isso se deve também a fatores adversos intrínsecos à região, como a longa distância (2.600 km de Porto Velho a San Juan) e as dificuldades de transposição dos Andes (trechos com mais de 4.000 m de altitude), além dos impactos de eventos climáticos extremos que resultam em alto custo de manutenção, quadro que é agravado pelo baixo volume das transações comerciais entre os dois países.

32Esse quadro tende a se alterar com a efetivação de dois grandes projetos apoiados pela China, no âmbito do seu megaprograma conhecido como Nova Rota da Seda e seu agressivo e diversificado portfólio de investimentos na América do Sul nos últimos anos, principalmente em energia, exploração mineral e projetos de infraestrutura portuária e viária. O primeiro deles foi a inauguração no final de 2024 da primeira etapa de um grande e moderno terminal portuário – o porto de Chancay - no litoral peruano, um empreendimento da gigante chinesa Cosco Shipping em parceria com uma empresa estatal peruana, cujo projeto completo prevê investimentos totais estimados em US$ 3.5 bilhões. Esse novo terminal foi projetado para operar com grandes navios de contêiners, além de granéis líquidos e sólidos, especialmente minérios e grãos. Neste último caso, o foco é viabilizar o escoamento e as exportações de grãos, sobretudo soja, para a Ásia (principalmente a China), das importantes regiões produtoras do Centro-Oeste brasileiro.

33O segundo desses investimentos, estreitamente vinculado ao primeiro, é o megaprojeto recém-anunciado que visa superar o problema das restrições à circulação de veículos de carga pela rodovia do Pacífico mediante a construção de uma via ferroviária - a Ferrovia do Pacífico - um novo corredor bioceânico Brasil-Peru, no âmbito do acordo de cooperação firmado entre a China e os dois países. Seu traçado de aproximadamente 2.400 Km está previsto para fazer a conexão entre o porto de Chancay (Peru) e a Ferrovia de Integração do Centro-Oeste (FICO) no Mato Grosso, na altura do Município de Lucas do Rio Verde. Em direção ao Leste, esse eixo faz entroncamento com a Ferrovia Norte-Sul (Tocantins), conecta-se à Ferrovia de Integração Oeste-Lese (FIOL) e nela alcança o litoral brasileiro em Ilhéus (Bahia). Esse percurso total está estimado em aproximadamente 4.400 Km (Figura 3).

Figura 3 – Ferrovia do Pacífico

Figura 3 – Ferrovia do Pacífico

Fonte: MT/Dnit, citado por https://rotabioceanicanews.com.br/​ferrovia-bioceanica-bahia-rondonia-pacifico-mas-nao-so/​

34O segundo Corredor Bioceânico – este localizado no Cone Sul - é a rodovia que está sendo implantada entre Brasil e Chile que fará a ligação entre o porto brasileiro de Santos no Atlântico e portos chilenos do Pacífico, integrando Brasil, Paraguai, Argentina e Chile. Com um total de 3.500 Km, o trecho que está sendo construído entre a fronteira Brasil - Paraguai e o litoral chileno é de 2.000 Km e ele viabilizará as conexões entre Mato Grosso do Sul (no Pantanal), o Chaco paraguaio e os Andes, um dos temas abordados pelo dossiê sobre o Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (Huertas e Monteiro, 2025). Em seu percurso total, esse corredor interligará as cidades de Santos, São Paulo, Campo Grande e Porto Murtinho (Brasil), Carmelo Peralta, Mariscal Estigarribia e Pozo Hondo (Paraguai), San Salvador Jujuy e Paso de Jama (Argentina) e os portos chilenos de Antofagasta, Mejillones e Iquique.

35A ponte sobre o rio Paraguai que fará a transposição da fronteira entre Brasil e Paraguai (Porto Murtinho e Carmelo Peralta) encontra-se em fase de conclusão, bem como os trechos da rodovia em território paraguaio. Esse corredor tem potencial para impulsionar a exportação da produção agropecuária do Mato Grosso do Sul (Brasil) e do Paraguai (principalmente grãos e carne bovina) para os mercados asiáticos. Além disso, terá impactos positivos diretos para o Paraguai, primeiro porque abre-lhe uma outra saída para o mar, nesse caso, em direção ao Pacífico e, ao lado isso, o governo paraguaio prevê que essa integração rodoviária dará forte impulso na atração de investimentos especialmente para o Chaco, reconhecidamente a mais isolada e menos desenvolvida região do país (Figura 4).

Figura 4 - Corredor Bioceânico Brasil – Paraguai – Argentina - Chile

Figura 4 - Corredor Bioceânico Brasil – Paraguai – Argentina - Chile

Fonte: Revista Foco, https://foco.lanacion.com.py/​2023/​10/​09/​ruta-que-une-oceanos/​

O Adensamento Atual das Interações Transfronteiriças no Cone Sul

36Como destacado no nosso estudo (Costa 2022) sobre as tendências atuais da integração sul-americana o Cone Sul - que em sua grande parte coincide com a Bacia do Prata e o que denominamos de core area do Mercosul – é atualmente a região em que mais se expandem e intensificam interações transfronteiriças em todas as modalidades e escalas.

37A sub-região da Tríplice Fronteira Brasil-Paraguai-Argentina (Foz de Iguaçu - Ciudad del Este - Puerto Iguazú) mantém sua posição de mais importante dessa modalidade de integração fronteiriça do subcontinente e, nos últimos anos, tem sido acentuada a tendência de aprofundamento de seus enlaces de vizinhança, sobretudo aqueles entre Brasil e Paraguai. Evidência disso é que o trânsito diário na antiga Ponte da Amizade entre as duas cidades é de cerca de 100 mil pessoas e 45 mil veículos por dia – com grandes congestionamentos – o que levou à decisão conjunta de construir nas proximidades uma nova e mais moderna ponte (Foz do Iguaçu – Presidente Franco), inaugurada no final de 2025 (Figura 5), empreendimento custeado integralmente pela Itaipu Binacional, assim como a ponte de Porto Murtinho – Carmelo Peralta sobre o rio Paraguai.

Figura 5 - Ponte Foz de Iguaçu – Presidente Franco

Figura 5 - Ponte Foz de Iguaçu – Presidente Franco

Fonte: Governo do Estado do Paraná, https://www.bemparana.com.br/​noticias/​parana/​ponte-da-integracao-veja-o-estagio-atual-das-obras-no-parana-e-quando-sera-liberada/​

38Outra ilustração do aprofundamento atual dessa integração (também abordado no referido estudo) - é a acelerada expansão de instalação de empresas industriais brasileiras de variados tipos e portes no Paraguai, movimento fortemente estimulado pelos benefícios fiscais previstos na Lei da Maquila paraguaia, replicando a antiga e bem-sucedida experiência mexicana. Ela prevê a isenção total de impostos na importação de máquinas e equipamentos e do Imposto de Renda e apenas 1% de imposto de exportação, um forte atrativo a que se soma o baixo custo operacional do país para atividades industriais. Como resultado, estima-se que mais de 200 indústrias brasileiras tenham se transferido para o Paraguai nos últimos anos, e esse processo tem se intensificado principalmente nas cidades fronteiriças de Ciudad del Este, Hernandarias e Pedro Juan Caballero e até mesmo na distante região metropolitana de Assunção.

39Mais ao Sul do subcontinente, apesar da perda de fôlego da IIRSA, como visto, tem ocorrido algum avanço em novas conexões e interações transfronteiriças – ou a intensificação de antigas – de escala mais ampliada, com especial destaque para os enlaces entre Argentina e Chile. Além do mencionado corredor bioceânico, esses dois países têm atuado fortemente em iniciativas conjuntas, que abrangem sobretudo projetos visando a integração física (viária e energética).

40O mais importante e emblemático desses projetos é a construção do Túnel Binacional de Águas Negras nos Andes, no principal paso fronteiriço entre os dois países (San Juan – Coquimbo), em substituição ao antigo (Cristo Redentor), um projeto da IIRSA (Eixo Mercosul – Chile), agora viabilizado com recursos assegurados e em fase de licitação. Com ele, aumentará a fluidez do tráfego de veículos de carga e de passageiros no estratégico corredor Buenos Aires – Mendoza – Santiago, bem como o tradicional fluxo de mercadorias entre Chile e Brasil, neste caso pelas suas interligações com a movimentada conexão fronteiriça de Paso de Los Libres - Uruguaiana. Outro projeto em fase de planejamento e que bem ilustra a forte tendência atual de estreitamento da integração Argentina – Chile é o da revitalização da antiga Ferrovia Transandina Los Andes – Mendoza, desativada desde 1984, que prevê ainda a construção de um ramal conectando-a a Neuquén, no norte da Patagônia, hoje a mais importante região produtora e exportadora de petróleo e gás da Argentina.

  • 3 Benedetti, A.; Laguado, I., El espacio fronterizo argentino – chileno. Definición de categorias ope (...)

41Nas escalas sub-regionais e locais, as antigas e novas interligações entre Argentina e Chile se processam ao longo de mais de 5.3 mil Km de fronteiras comuns – quase todas elas na Cordilheira dos Andes -, através de 72 pasos, uma destacada particularidade em todo o mundo pelas longas distâncias e complexidade das interações (Velut, 2009). Cerca de 42 dos pasos são mais utilizados e em sua maioria permitem o trânsito de veículos e, em alguns, existem postos de controle fronteiriço em ambos os lados. Em seu detalhado estudo sobre essas interações fronteiriças, Alejandro Benedetti e Iñigo Laguado3, destacam que muitos deles estão localizados em vales e desfiladeiros da cordilheira e, não raro, em altitudes superiores a 4.000 metros. Além disso, tendo em vista as limitações impostas pelo meio físico, a ocupação humana é de modo geral rarefeita e com o predomínio de núcleos urbanos de pequeno porte (Figura 6).

Figura 6 - Fronteira Chile - Argentina

Figura 6 - Fronteira Chile - Argentina

Fonte: Benedetti, A. e Laguado, I., (2013, https://www.colef.mx/​deap/​wp-content/​uploads/​2015/​02/​2013.-Benedetti-y-Laguado-EFACH.pdf

42Do lado argentino, especialmente, esse padrão de integração fronteiriça está sendo alterado pelos impactos dos novos projetos de interligação no âmbito do Eixo Mendoza – Santiago, como visto, bem como do acelerado crescimento atual da produção de petróleo e gás de xisto (shale gas) no campo de Vaca Muerta na província de Neuquén, norte da Patagônia. A descoberta de imensas reservas desses combustíveis e o início de sua exploração em larga escala na década de 2010 nessa região é uma das prioridades do governo argentino e têm atraído vultosos investimentos de um grupo de petroleiras globais, o que tem impulsionado o acelerado crescimento do volume produzido nos últimos anos.

43Com isso, o país tornou-se autossuficiente nesses combustíveis e, em 2025, obteve superavit de US$ 6 bilhões em sua balança energética. No caso do gás, principalmente, parte importante dessa produção tem sido destinada à exportação que se realiza através de extensa rede de gasodutos transfronteiriços, três deles na direção do Chile, país com grave carência desse tipo de combustível. Outro grande gasoduto (Nestor Kirchner) está em construção e fará a interligação de Vaca Muerta com o Gasoduto Norte e, mediante conexões, com o antigo e extenso Gasoduto Brasil – Bolívia (3.1 mil Km) através da fronteira com o Brasil em Paso de Los Libres – Uruguaiana e, em seguida, Porto Alegre. Em síntese, são os impactos do dinamismo atual da indústria de petróleo e gás e da integração energética na reconfiguração territorial de escala regional no sul do subcontinente (Figura 7).

Figura 7 - Rede de Gasodutos Argentinos e suas Projeções Externas

Figura 7 - Rede de Gasodutos Argentinos e suas Projeções Externas

Fonte: CGC – Corporación América, https://cgc.energy/​eng/​midstream-business/​

Os Impactos da atual US National Security Strategy na América do Sul

44Há pelo menos um século e meio que a geopolítica do continente americano tem sido profundamente influenciada pela abrangente e contínua hegemonia dos EUA. Inicialmente, em sua vertente imperialista clássica, sintetizada na Doutrina Monroe de 1823 no contexto da descolonização dos países do Continente, depois aprofundada e radicalizada no início do século XX pelo chamado Corolário Roosevelt. Essa nova doutrina exprime a consolidação da expansão territorial do país ao longo do século XIX, com a aquisição da Louisiana e mais tarde as anexações das províncias mexicanas, as expropriações das terras indígenas e a abrangente colonização que alcançou as bordas do Pacífico. Além disso, em sua guerra com a Espanha, a incorporação de territórios como Porto Rico e Guantánamo (Cuba), no Caribe, além das Filipinas, no Pacífico.

45O Estado-unidense Alfred Mahan, oficial da Marinha e renomado clássico do pensamento geopolítico com sua teoria sobre o Poder Marítimo (1890), foi o mais importante estrategista e policy-maker dessa primeira fase da expansão imperial dos EUA para além de seu território continental, elaborando as bases para a construção do poder naval e da expansão marítima do país, especialmente em direção ao Pacífico. Ao mesmo tempo, ele foi o idealizador da delimitação do que podemos designar de perímetro estratégico primordial dessa primeira e emergente potência mundial fora do continente europeu. Daí sua vigorosa campanha em defesa da construção do Canal do Panamá e, com sua inauguração em 1916, estavam consolidados, além da configuração do país como uma Ilha–Continente, os limites externos do núcleo duro de seu Entorno Regional Estratégico que do ponto de vista da projeção de poder e de domínio e controle, incorporou na prática toda a América Central e o Caribe, este “o seu” Mare Nostrum, equivalente ao Mediterrâneo para os romanos.

46Daí porque, o exame do exercício dessa hegemonia no imenso e diferenciado espaço continental da América deve ser feito por uma abordagem geopolítica ancorada na Geografia (física, regional, econômica etc.), evitando assim agrupar todos os países situados ao sul dos EUA em uma única região supostamente homogênea com geografias, histórias e culturas comuns, como é o caso da sua usual e convencional denominação como América Latina. Observe-se a posição e a situação de cada um desses países e é evidente que o México, por exemplo, é um país singular pela sua cultura e seus mais de 3 mil Km de fronteiras com os EUA, ou o Brasil, um país – baleia como Canadá e EUA, que além de lusófono, tem 214 milhões de habitantes e cerca de 17 mil Km de fronteiras terrestres com 10 países. Observar também de perto a América Central e o Caribe com sua constelação de países independentes e protetorados e imensa diversidade de povos, línguas e culturas. Enfim, é preciso levar em conta que essas singularidades estão longe de constituírem uma circunstância trivial nos estudos sobre o passado ou os dias de hoje.

47Dessa perspectiva, ressalta a particularidade da América do Sul, que possui posição mais distante do tradicional hard core no espaço de projeção de poder dos EUA, condição bem observada por Nicholas Spykman (1942) e Robert Kaplan (2012), dois outros geopolíticos Estados-unidenses que se referem ao subcontinente – principalmente Brasil, Argentina e Chile - como de difícil domínio e controle ou como excessivamente “distante e isolado” dos EUA e da Europa. Além disso, a par das diferenças históricas, culturais e geopolíticas entre seus 12 países, o subcontinente possui importante identidade própria construída na sua original trajetória de experiências de integração regional, como já examinado.

48Ainda que não tenha sido objeto de intervenções militares, a América do Sul possui longo histórico de intervenções políticas diretas e indiretas dos EUA, com especial destaque para o apoio aos regimes militares em diversos dos seus países nos anos 1960-1970, principalmente. Ao lado disso, há décadas que exercem forte influência sobre a economia da maioria dos países da região e, até recentemente, eram seu principal parceiro comercial, hoje substituído pela China, como visto. Da perspectiva das relações na esfera especificamente político-estratégica e militar, desde a Segunda Guerra, especialmente, quase todos os países do subcontinente mantêm alguma modalidade de cooperação em segurança e defesa com os EUA e, em determinados casos, ela envolve apoio financeiro e logístico-militar.

49Registre-se que permanecem ativos na região antigos fóruns multilaterais da área de segurança e defesa liderados pelos EUA, a exemplo do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca – TIAR (1947) e da Conferência de Ministros da Defesa das Américas (1994), além daqueles específicos como Conferência de Exércitos Americanos, Sistema de Cooperação das Forças Aéreas Americanas, Conferência Naval Interamericana, Simposium Internacional de Forças Marítimas, Junta de Defesa Interamericana e Colégio de Defesa Interamericana. Como discutido em nosso estudo anterior, mesmo com a predominância de um típico movimento pendular nos países sul-americanos nas duas últimas décadas, com a alternância de governos de inspirações político-ideológicas até mesmo antagônicas, ao lado dos claros sinais de declínio de sua influência econômica (vis a vis a China), mantém-se de modo geral a forte influência dos EUA no campo político-estratégico ou de segurança e defesa.

50No momento, entretanto, essas configurações mais ou menos antigas do continente e suas três Américas estão sofrendo os impactos dos novos rumos da política externa dos EUA neste segundo governo Trump explicitados na recém-publicada Estratégia Nacional de Segurança que, em sua essência, é imperialista, unilateralista e uma afronta ao Direito Internacional. Pela primeira vez, os Estados-unidenses posicionaram o Hemisfério Ocidental entre as suas prioridades internacionais em segurança e defesa e, nele, o espaço estratégico por excelência é o Continente Americano – com suas três Américas e o Caribe - que se estende por 15 mil km desde a Groenlândia no Norte ao Cabo Horn no Sul. A essência dessa estratégia - “restaurar a preeminência dos EUA no Continente” -, a rigor não é nova, razão pela qual seus princípios e objetivos centrais foram sintetizados no que é denominado como Corolário Trump à Doutrina Monroe, ainda que pelas suas características intrínsecas, seja mais adequado associá-la ao Corolário Roosevelt com seu autoconcedido poder imperial de intervenção – inclusive militar - no Continente, sobretudo na América Central e Caribe e na América do Sul.

51Um dos aspectos de fato novos nessa estratégia é, primeiro, que o Corolário Trump propõe desde logo uma abrangente reconfiguração geopolítica das Américas, ao ampliar os limites do Entorno Regional Estratégico dos EUA para todo o Continente, sem distinção de regiões e países mais ou menos prioritários. Outro deles é a prioridade conferida a um redobrado esforço de convencimento – por persuasão ou dissuasão – dos países do Hemisfério (leia-se a América) para que reduzam seus laços de “dependência” econômica, tecnológica ou militar de grandes potências concorrentes, numa clara alusão sobretudo à China e sua crescente influência em quase todos os países e à Rússia, mais concentrada no apoio militar a alguns países. Destaque-se que nesse último aspecto reside o enunciado mais ameaçador do documento, ao explicitar que os EUA estão dispostos a impedir que seus competidores não-hemisféricos posicionem instalações ou dispositivos militares ou que pretendam controlar por qualquer meio “ativos estratégicos” em qualquer um dos países da região.

52No que se refere à América do Sul especialmente, neste momento os pilares mais sólidos de apoio aos EUA são, pela ordem, Argentina, Chile, Equador e Paraguai. Por outro lado, os alvos prioritários para a aplicação ou experimentação dessa nova geopolítica hemisférica norte-americana são, pela ordem, a Venezuela, a Colômbia e o Brasil. No caso da Venezuela, desde sua ruptura com os EUA promovida pelo governo Chavez, o país aprofundou suas alianças com a Rússia (econômica e militar) e com a China (econômica) e atuou fortemente para formar uma coalização de países em torno de sua estratégia de autonomia. Além disso, apesar de possuir as maiores reservas de petróleo do mundo, durante o governo de Maduro o país mergulhou em profunda crise política, social e econômica e encontrava-se politicamente isolado na comunidade internacional, quadro que favoreceu a estratégia intervencionista norte-americana que nesse caso optou pela dissuasão e a coerção. Ela centrou-se no emprego da força militar e uma prolongada “guerra de desgaste” ao país, incluindo um cerco naval -, sob o pretexto de combate ao narcotráfico liderado por cartéis venezuelanos. O desfecho final dessa ofensiva militar foi o sequestro de Maduro e de sua esposa em um fulminante ataque de forças especiais norte-americanas a um quartel-general de Caracas. Desde então, o governo do país encontra-se sob severa vigilância militar, submetido a um inusual sistema de administração “compartilhada” com o governo Trump e com as operações de exploração e exportação de seu petróleo sob controle total dos EUA.

53Quanto à Colômbia, como a Venezuela um país da América do Sul Setentrional com importante projeção no Caribe, sua história recente de relações com os EUA é tipicamente pendular, mas com uma particularidade importante. Ele é o único país que contou com um abrangente projeto de cooperação militar – o Plano Colômbia – com a duração de 15 anos (2000 – 2015) e voltado principalmente para o combate às FARC e ao narcotráfico, envolvendo diversas modalidades de apoio como recursos financeiros, treinamento e a operação conjunta de três bases militares. Com a celebração do acordo de paz com as FARC, o término da vigência dessa cooperação militar e, em seguida, a ascensão do atual governo colombiano, ocorreu uma acentuada redução da tradicional influência norte-americana no país. Com Trump e sua nova estratégia, esse cenário tem mudado rapidamente, especialmente porque, a exemplo da Venezuela, ataques militares a supostas embarcações do narcotráfico também foram desferidos no litoral do Pacífico colombiano. No momento, em clima de distensão, mas ainda sob forte pressão dissuasória dos EUA, os dois governos deram início a uma rodada de negociações em torno de possíveis projetos de cooperação visando o combate conjunto ao narcotráfico.

54Por último, os impactos sobre o Brasil dessa nova e sob muitos aspectos imprevisível ofensiva política e diplomática do governo Trump com as duras medidas (sanções políticas e tarifárias e restrições à imigração) adotadas contra o país em meados de 2025. Diante desse quadro inicial e de seus desdobramentos posteriores, pode-se traçar dois cenários principais, em que o primeiro é desfavorável. Praticamente toda a atual política externa do Brasil caminha no sentido contrário ao dos interesses estratégicos Estados-unidenses, sobretudo aqueles expressos pelo governo Trump, destacando o forte alinhamento político e econômico do país com a China e a Rússia, o apoio ao Irã, a Cuba e especialmente aos governos Chavez-Maduro da Venezuela, além da sua franca hostilidade a Israel. Esse antagonismo se expressa também na forte atuação brasileira junto ao BRICS que visa fortalecer esse bloco enquanto um contraponto aos EUA/OTAN na atual geopolítica global.

55Um segundo cenário, potencialmente favorável, reflete os desdobramentos posteriores a essas medidas, com o início de rodadas de negociação entre os dois governos e a decisão de Trump de retirar parte substantiva das sanções políticas e tarifárias por ele impostas ao Brasil. É muito provável que tenha pesado nessa mudança de postura a percepção de que o Brasil é um país emergente importante (a 11ª economia mundial), detentor de vastas reservas de recursos naturais (destaques para minérios e petróleo), com sólida inserção internacional, reconhecida liderança na América do Sul e, de resto, um tradicional aliado. Entre os temas ora em discussão, pelo lado brasileiro, os objetivos principais são o de remover por completo todas as restrições ao país, negociar eventuais projetos bilaterais de cooperação econômica e restaurar plenamente a normalidade das relações diplomáticas entre os dois. Pelo lado Estados-unidense manter o diálogo e as negociações, procurando barganhar a retirada das restrições com eventuais concessões brasileiras, tais como o apoio ao seu combate (inclusive por meios militares) ao narcotráfico no subcontinente e sua atuação na Venezuela. Outro objetivo, já tornado público, é o de obter do governo brasileiro amplo (se não exclusivo) acesso por meio de concessões - ou eventualmente joint ventures - à exploração e o processamento de recursos naturais estratégicos brasileiros, especialmente das chamadas terras raras, em que o país detém a segunda maior reserva do mundo.

56Em síntese, nas suas atuais relações com o Brasil, assim como nos casos de Venezuela e Colômbia, é muito provável que os EUA optarão por manter o diálogo e avançar nas negociações, mas sempre em sintonia fina com a fundamental estratégia anunciada e praticada pelos corolários Roosevelt e Trump, isto é, a permanente combinação de força e cooperação ou dissuasão e persuasão.

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Bibliographie

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VELUT, S., Argentine – « Chili: Une si longue frontière »,

Confins Nº 7, 2009.
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Notes

1 Ver a respeito as coletâneas: Ruiz, J. B.; Posada, E. V (Org), Repensar la Integración en América Latina: los casos del Mercosur y la Alianza del Pacífico. Bogotá, Ediciones Universidad Cooperativa de Colombia, 2019; Aronskind, R. (Org), La Integración Regional en America Latina: leciones de una experiencia compleja. Buenos Aires, Ediciones UNGS, 2021; Costa, W.M.; Vasconcellos, D. (Org.), Geografia e Geopolítica da América do Sul: integração e conflitos. São Paulo, Humanitas, 2018 e Costa, W. M.; Garcia, T. S. L. (Org)., América do Sul: geopolítica, arranjos regionais e relações internacionais. São Paulo: Edições E-book, FFLCH/USP, 2022.

2 Sobre as instabilidades da atual conjuntura mundial examinadas de uma perspectiva geopolítica, ver Costa 2025 (indicado na bibliografia).

3 Benedetti, A.; Laguado, I., El espacio fronterizo argentino – chileno. Definición de categorias operativas y premera aproximación descritiva. In Núñes, A.; Arenas, F.; Sánchez, R. (Eds). Fronteras, Territorios y Montañas. La Cordillera de Los Andes como espacio cultural. Santiago de Chile, Serie GEOlibros nº 16, Instituto de Geografía, PUC de Chile, 2013.

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Table des illustrations

Titre Fig. 1 - Principais Destinos das Exportações dos Países Sul-Americanos
Crédits Fontes: Info Brasil e Comex, citado in https://www.threads.com/​@flaviogeopessoa/​post/​DFeBPOEvaap
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-1.png
Fichier image/png, 237k
Titre Figura 2 – Estrada do Pacífico (Brasil – Peru)
Crédits Fonte: ac24horas, https://ac24horas.com/​2020/​09/​17/​a-estrada-do-pacifico-no-comercio-exterior-do-acre/​
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-2.jpg
Fichier image/jpeg, 272k
Titre Figura 3 – Ferrovia do Pacífico
Crédits Fonte: MT/Dnit, citado por https://rotabioceanicanews.com.br/​ferrovia-bioceanica-bahia-rondonia-pacifico-mas-nao-so/​
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-3.png
Fichier image/png, 230k
Titre Figura 4 - Corredor Bioceânico Brasil – Paraguai – Argentina - Chile
Crédits Fonte: Revista Foco, https://foco.lanacion.com.py/​2023/​10/​09/​ruta-que-une-oceanos/​
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-4.png
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Titre Figura 5 - Ponte Foz de Iguaçu – Presidente Franco
Crédits Fonte: Governo do Estado do Paraná, https://www.bemparana.com.br/​noticias/​parana/​ponte-da-integracao-veja-o-estagio-atual-das-obras-no-parana-e-quando-sera-liberada/​
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-5.jpg
Fichier image/jpeg, 303k
Titre Figura 6 - Fronteira Chile - Argentina
Crédits Fonte: Benedetti, A. e Laguado, I., (2013, https://www.colef.mx/​deap/​wp-content/​uploads/​2015/​02/​2013.-Benedetti-y-Laguado-EFACH.pdf
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-6.png
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Titre Figura 7 - Rede de Gasodutos Argentinos e suas Projeções Externas
Crédits Fonte: CGC – Corporación América, https://cgc.energy/​eng/​midstream-business/​
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/67383/img-7.png
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Pour citer cet article

Référence électronique

Wanderley Messias da Costa, « Geografia e Geopolítica da América do Sul: reconfiguração regional e os novos rumos da integração »Confins [En ligne], 70 | 2026, mis en ligne le 26 mars 2026, consulté le 18 juillet 2026. URL : http://journals.openedition.org/confins/67383 ; DOI : https://doi.org/10.4000/15zio

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Auteur

Wanderley Messias da Costa

Professor na USP, wander@usp.br

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