- 1 Para Marx (1988), investimentos em capital constante (meios de produção) em detrimento do capital v (...)
1Ao relacionar o crescimento e distribuição da população urbana na Amazônia com as frentes de expansão e as densidades técnicas do território, busca-se compreender avanços seletivos do meio técnico-científico e informacional na região (Santos e Silveira, 2001) e a composição orgânica do seu território1, que definem nela uma geografia do desenvolvimento desigual (Smith, 2024) visualizada em sub-regiões.
- 2 Região de planejamento que inclui Pará (PA), Amazonas (AM), Amapá (AP), Roraima (RR), Acre (AC), Ro (...)
2Atenta-se, assim, para a apreensão de sua diversidade territorial e urbana ou urbanodiversidade, que não se confunde com tamanhos de cidades, mas reconhece sobretudo formas e conteúdos socioespaciais em suas relações com a dinâmica territorial. Para isso, mobiliza-se literatura específica sobre a região, bem como dados demográficos recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2022, 2026), tendo como referência o recorte da Amazônia Legal e suas cidades2 (Mapa 1).
Mapa 1. Amazônia Legal: estados da federação e cidades
3Consideram-se, para isso, diferentes níveis de cidades (metrópoles, cidades intermediárias de porte médio e cidades de menor porte com importância regional), de forma a visualizar a urbanização do território (Santos, 1993) que, para além do peso da população urbana, leva em conta suas importâncias, papéis, relações e nexos de modernização territorial dentro e fora da região.
4No tocante à variação da população urbana na Amazônia Legal, a região tende a apresentar diferenciação, ganhando cada vez mais expressão o crescimento da população urbana em Estados até então menos povoadas, como o Amazonas e Roraima, que, junto com o Mato Grosso, apresentaram recentemente as maiores variações (Tabela 1).
Tabela 1. Amazônia Legal: estados e população urbana (2010-2022)
|
Estados
|
2010
|
2022
|
Δ%
2010-2022
|
|
Pop. Abs.
|
%
|
Pop. Abs.
|
%
|
|
|
Acre
|
532.279
|
72,57
|
617.942
|
74,45
|
16,10%
|
|
Amapá
|
601.036
|
89,78
|
651.254
|
88,76
|
8,36%
|
|
Amazonas
|
2.755.490
|
79,10
|
3.264.974
|
82,83
|
18,49%
|
|
Pará
|
5.191.559
|
68,49
|
6.095.530
|
75,07
|
17,42%
|
|
Rondônia
|
1.149.180
|
73,56
|
1.241.672
|
78,53
|
8,05%
|
|
Roraima
|
344.859
|
76,56
|
497.770
|
78,18
|
44,35%
|
|
Tocantins
|
1.090.106
|
78,80
|
1.252.807
|
82,89
|
14,93%
|
|
Maranhão
|
4.147.149
|
63,08
|
4.100.487
|
72,74
|
-1,13%
|
|
Mato Grosso
|
2.482.801
|
81,81
|
3.156.529
|
86,28
|
27,14%
|
Fonte: IBGE (2010, 2022). Elaboração: Helbert Michel Pampolha de Oliveira.
5O perfil da população urbana serve, assim, como ponto de partida para visualizar a urbanização do território, que se expressa de modo diferenciado em pelo menos quatro sub-regiões, sendo a Amazônia ocidental (AM, RR, AC), articulada sobretudo pelos rios e aerovias, a menos impactada pelos novos processos capitalistas. Nela se vê avanços do crescimento populacional urbano, ainda que a presença de cidades seja mais rarefeita.
6O mesmo não ocorre com as demais sub-regiões. A Amazônia centro-oriental (PA, AP), encontra-se bem mais transformada por processos capitalistas recentes, com articulações das cidades por vários modais de transporte (rios, rodovias e aerovias), constatando-se nela um maior grau de urbanização. O mesmo se vê na Amazônia oriental (MA, TO), transformada por frentes de expansão e pela presença de várias cidades que pouco se conectam por via fluvial, dada a articulação que possuem por rodovias, ferrovias e aerovias. Por fim, a Amazônia meridional (MT, RO), integrada sobretudo por rodovias e aerovias, encontra-se também fortemente impactada por frentes econômicas modernas, refletidas em suas cidades e nos índices de crescimento da população urbana.
7A dinâmica territorial que confere particularidade a cada uma das sub-regiões também concorre para a importância das cidades e para a maior ou menor presença da população urbana em cada uma delas. De forma a visualizar esse perfil, consideraremos, com base no último censo (IBGE, 2026), os maiores contingentes urbanos, partindo de uma amostragem de municípios com população urbana acima de 50.000 habitantes.
8A partir dos dados, pode-se agrupar esses municípios em três grupos: os formadores de áreas metropolitanas (com mais de 1 milhão de habitantes), os que possuem aglomerações urbanas de porte médio (entre 100 mil e 500 mil habitantes) e os que abrigam concentrações urbanas de menor porte (entre 50 e 100 mil habitantes).
- 3 Os municípios que integram as regiões metropolitanas são os oficialmente reconhecidos, o que não si (...)
9Cada uma das sub-regiões mencionadas tem como referência uma metrópole, constituída em região metropolitana (RM) (Tabela 2) e com relativa influência nas sub-regiões onde se situam. São elas: a Grande Manaus (AM), a Grande Belém (PA), a Grande São Luís (MA) e a Grande Cuiabá (MT)3.
Tabela 2. Amazônia Legal: municípios e população das regiões metropolitanas e de seus estados-2022
|
RMs
(Estados da Federação)
|
Municípios
|
Pop. Estadual (A)
|
Pop. Metropolitana (B)
|
B/A
|
|
Grande Manaus ou Região Metropolitana de Manaus - RMM
(Amazonas)
|
Manaus, Autazes, Careiro,
Careiro da Várzea, Iranduba, Itacoatiara, Itapiranga, Manacapuru,
Manaquiri, Novo Airão, Presidente Figueiredo, Rio Preto da Eva, Silves
|
3.941.613
|
2.532.519
|
64,26%
|
|
Grande Belém ou Região Metropolitana de Belém - RMB (Pará)
|
Belém, Ananindeua, Barcarena, Benevides,
Castanhal, Marituba, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará
|
8.120.131
|
2.370.545
|
29,19%
|
|
Grande São Luís ou Região Metropolitana de São Luís - RMSL
(Maranhão)
|
São Luís, Alcântara, Axixá,
Bacabeira, Cachoeira Grande, Icatu, Paço do Lumiar, Morros, Presidente Juscelino, Raposa, Rosário,
Santa Rita, São José de Ribamar
|
6.776.699
|
1.646.005
|
24,30%
|
|
Grande Cuiabá ou Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá - RMVRC (Mato Grosso)
|
Cuiabá, Acorizal, Campo Verde, Chapada dos Guimarães, Nossa Senhora do Livramento, Santo Antônio de Leverger, Várzea Grande
|
3.658.649
|
1.047.730
|
28,63%
|
Fonte: IBGE (2026).
- 4 A RMM foi oficialmente reconhecida com um grande número de municípios, mas a maioria sem inserção n (...)
10Na tabela, destaca-se a concentração populacional na Região Metropolitana de Manaus. Nesse caso, a metropolização se circunscreve especialmente a Manaus e Iranduba, em detrimento dos demais Municípios ditos metropolitanos4. Tal concentração decorre de um processo histórico iniciado ainda na década de 1960, quando foi criada a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) pelo governo federal e a instalação do Polo Industrial de Manaus (PIM) e da Zona Franca de Manaus (ZFM), com incentivos e isenções fiscais para empreendimentos que promoveram a localização de várias atividades na capital amazonense em detrimento da dinamização econômica no interior do Amazonas. Esses fatores também atraíram mão de obra de dentro e de fora do Estado, conferindo o atual perfil dessa urbanização concentrada, confirmada nos dados do último censo. Neste caso, a região (Amazônia ocidental) cresce demografica e economicamente bem menos que sua metrópole regional.
Foto 1. Manaus: metrópole da Amazônia ocidental
11Diferentemente, a Região Metropolitana de Belém, mesmo apresentando relativa concentração populacional, não teve os mesmos incentivos fiscais e perfil de atividades direcionadas para seus Municípios. Sua dinâmica metropolitana, anterior à de Manaus, estende-se por municípios vizinhos, conurbados ou não com a capital paraense, mas que conformam uma unidade metropolitana de fluxos contínuos e contíguos. Além disso, a Amazônia centro-oriental tem apresentado maior tendência de crescimento que a sua metrópole regional, pois se trata de uma porção territorial fortemente impactada por frentes de expansão econômica desde a segunda metade do século XX. Tais frentes adentraram espaços relativamente distantes da capital paraense, o que faz com que as principais taxas de crescimento demográfico estejam fora de Belém (IBGE, 2026) e a concentração urbana sub-regional esteja mais dispersa por todo o seu vasto território.
Foto 2. Belém: metrópole da Amazônia centro-oriental
(Saint-Clair Trindade Jr., nov. 2024).
12Com relação à Grande São Luís, os Municípios de Axixá, Icatu, Morros, Presidente Juscelino e Cachoeira Grande revelam certa dificuldade de acompanhar de perto a dinâmica metropolitana, dado o relativo distanciamento da capital maranhense e da insuficiência de estrutura urbana e serviços essenciais comuns (Pereira Jr. e Trindade Jr., 2021). A metropolização é mais visível na Ilha de São Luís, onde se encontram São Luís, Paço do Lumiar, São José de Ribamar e Raposa, estendendo-se a municípios não insulares (Bacabeira, Rosário e Santa Rita) que possuem mais conectividade com os da parte insular. Nessa sub-região amazônica, os dados do IBGE (2026) sugerem que o crescimento econômico e populacional é relativamente equivalente na RMSL e fora dela.
13A Região Metropolitana de Cuiabá, por sua vez, tem seu peso populacional mais relacionado à Cuiabá e à Várzea Grande, mostrando que nesses Municípios o processo de metropolização na Amazônia meridional é mais intenso, mas em estreita relação com a dinâmica territorial sub-regional. O Mato Grosso, com percentuais de concentração metropolitana mais parecida com o Pará e Maranhão, e bem diferente do Amazonas, sugere que a dinâmica territorial e populacional tende a acompanhar processos econômicos que vêm acontecendo tanto dentro dos limites da RMVRC como para além dela, alcançando outros estados e a Bolívia (Vilarinho Neto, 2009). Isso é compreensível, pois o Mato Grosso tem vivenciado nas últimas décadas forte tendência de modernização no campo, com destaque para a produção de grãos destinados à exportação, responsável por incrementar o dinamismo econômico e populacional de cidades do interior que dão apoio a esse tipo de produção (Maitelli e Zamparoni, 2007). Em razão disso, metrópole e sub-região apresentam ritmos de crescimento não muito distantes entre si.
14Dessa forma, importa considerar não só o perfil demográfico das metrópoles regionais, mas também o modelo de ocupação territorial de suas sub-regiões que, por sua vez, têm reflexos na dinâmica metropolitana. Outrossim, esse entendimento ajuda a pensar a importância delas no contexto amazônico e a inserção de elementos outros que remetem à complexidade e às densidades técnicas diferenciadas do espaço regional.
15Para compreender a urbanização para além das metrópoles é preciso considerar processos de diferenciação interna definida em especial por políticas de integração da Amazônia às demais regiões brasileiras a partir dos anos 1960, que conferiram às cidades de porte médio (entre 100 e 500 mil habitantes) papéis importantes na dinâmica territorial.
16Com essas políticas, a rede urbana foi alterada, tornando-se mais visível o papel de intermediação de algumas cidades, responsáveis por abrigar significativo contingente populacional, especialmente o que chegava de outras regiões ou que provinha de áreas rurais e pequenas cidades da própria Amazônia, conferindo a algumas delas hoje novos perfis demográficos (Tabela 3), novos papéis e mudanças em suas estruturas urbanas.
Tabela 3. Amazônia Legal: municípios com população urbana entre 100.000 e 500.000 hab.-2022
|
Município (Estado)
|
Sub-região
da
Amazônia
|
Pop. urbana
|
Pop. urbana sede
municipal
|
Pop. total
|
%
Pop.
urbana sede municipal
|
|
Boa Vista (RR)
|
Ocidental
|
402.169
|
402.169
|
413.486
|
97,26
|
|
Macapá (AP)
|
Centro-oriental
|
418.800
|
398.490
|
442.933
|
89,97
|
|
Porto Velho (RO)
|
Meridional
|
426.299
|
393.950
|
460.434
|
85,56
|
|
Rio Branco (AC)
|
Ocidental
|
341.025
|
341.025
|
364.756
|
93,49
|
|
Palmas (TO)
|
Oriental
|
296.241
|
291.175
|
302.692
|
96,20
|
|
Imperatriz (MA)
|
Oriental
|
262.000
|
262.000
|
273.110
|
95,93
|
|
Parauapebas (PA)
|
Centro-oriental
|
258.225
|
258.225
|
267.836
|
96,41
|
|
Santarém (PA)
|
Centro-oriental
|
264.507
|
255.578
|
331.942
|
76,99
|
|
Marabá (PA)
|
Centro-oriental
|
239.719
|
239.719
|
266.533
|
89,94
|
|
Rondonópolis (MT)
|
Meridional
|
236.494
|
192.958
|
244.911
|
78,79
|
|
Sinop (MT)
|
Meridional
|
190.451
|
190.451
|
196.312
|
97,01
|
|
Araguaína (TO)
|
Oriental
|
166.572
|
166.572
|
171.301
|
97,24
|
|
Ji-Paraná (RO)
|
Meridional
|
112.983
|
111.566
|
124.333
|
89,73
|
|
Sorriso (MT)
|
Meridional
|
104.672
|
103.010
|
110.635
|
93,11
|
|
Itaituba (PA)
|
Centro-oriental
|
107.284
|
99.532
|
123.314
|
80,71
|
|
Santana (AP)
|
Centro-oriental
|
103.232
|
98.759
|
107.618
|
91,77
|
|
Altamira (PA)
|
Centro-oriental
|
104.202
|
93.614
|
126.279
|
74,13
|
|
|
|
|
|
|
Fonte: IBGE (2026). Organização: Gabriel Carvalho da Silva Leite.
17Cruzando-se dados de população com a dinâmica territorial, pode-se reconhecer alguns tipos de cidades, a saber: capitais estaduais ou centros de gestão político-administrativa, centros econômicos rodoviários ou rurópolis, centros econômicos flúvio-rodoviários ou de tradição ribeirinha e cidades de responsabilidade corporativa.
- 5 O dinamismo urbano da capital amapaense é extensivo a Santana, Município vizinho, cuja população ul (...)
18As capitais estaduais tiveram seus papéis de intermediação definidos, em grande medida, pelo fato de concentrarem atividades político-administrativas, posteriormente associadas a outras centralidades de natureza econômica. É o caso de Porto Velho (RO), na Amazônia meridional; de Rio Branco (AC) e Boa Vista (RR), na Amazônia ocidental; e de Macapá (AP)5, na Amazônia centro-oriental. Essas cidades, hoje de porte médio, foram antes sedes de territórios federais. Tal condição esteve associada a objetivos estratégicos, pois se tratava de territórios limítrofes a países da Pan-Amazônia, a serem, no discurso oficial, desenvolvidos, protegidos e efetivamente ocupados em face de possíveis interesses geopolíticos/econômicos externos.
- 6 Esse impulso foi reforçado quando os territórios federais se tornaram estados com a Constituição Fe (...)
19Tanto Macapá (AP) como Boa Vista (RR), Porto Velho (RO) e Rio Branco (AC), que incrementaram seus dinamismos em décadas mais recentes, associadas a atividades econômicas diversas no seu interior ou em sua área de influência, tiveram, portanto, um primeiro impulso de suas centralidades antes da segunda metade do século XX6, quando frações do território brasileiro se tornaram territórios federais, constituindo, nas bordas do espaço amazônico, uma outra lógica de ordenamento territorial que associava a urbanização do território à presença direta do governo federal na região, tornando essas cidades centros urbanos equipados com serviços públicos e infraestrutura que lhes conferiam sobretudo centralidades político-administrativas.
20Diferem de Palmas, capital do Tocantins, Estado também criado pela Constituição de 1988, mas que não resultou de território federal, e sim da força do poder local que se constituiu ao norte de Goiás, responsável também por sua separação desse mesmo Estado. A origem desse poder está ligada ao controle fundiário e a frentes agropecuárias, que também contribuíram para que o novo estado integrasse a região Norte do País.
21Após sua criação, projetou-se Palmas para ser sua capital e, à semelhança das capitais antes mencionadas, teve na centralidade político-administrativa uma das razões para assumir hoje a condição de cidade intermediária de porte médio; papel este reforçado por outras centralidades econômicas ligadas à modernização agrária do interior do Estado, ao dinamismo dos fluxos rodoviários e à proximidade e conexões com o Centro-Sul brasileiro e Nordeste; de tal forma que parte do Tocantins inclui-se na Matopiba, sub-região cujo nome compõe-se pelas letras iniciais dos Estados formadores (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), com forte presença do agronegócio.
Foto 3 Palmas: projetada para ser a capital do Tocantins
(Saint-Clair Trindade Jr., out, 2023)
22Ponto em comum entre todas essas cidades é o fato de serem sedes de Estados da federação, assumirem papéis burocrático-administrativos e econômicos, receberem investimentos governamentais mais expressivos em infraestrutura e serviços públicos e se consolidarem como importantes centros de decisões político-administrativas.
- 7 Nesta análise adotamos o nome rurópolis para cidades inseridas nas políticas de ordenamento territo (...)
- 8 Incluía agrovilas, núcleos menores, com raio imediato de influência; agropólis, núcleos intermediár (...)
23As demais cidades de porte médio tendem a apresentar outras formas de intermediação regional. Algumas cresceram devido a articulações intrarregionais e inter-regionais impulsionadas pela abertura de rodovias combinadas a frentes de expansão e/ou modernização agrárias, notadamente a partir da segunda metade do século XX. Denominaremos essas cidades de centros urbanos rodoviários ou rurópolis, para usarmos termo proposto pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em sua política de colonização apoiada no chamado “urbanismo rural” 7. Seu propósito era povoar a região ao longo de rodovias recém-abertas, considerando uma hierarquia de localidades centrais distribuídas ao longo delas e com influências/alcances diferenciados8.
24Esse urbanismo considerava núcleos existentes e criava outros onde existisse um suposto “vazio demográfico”. Garantia, assim, a colonização agrária e o assentamento de migrantes e seguia interesses do governo militar da época, mas foi adotado também por empresas colonizadoras privadas. Nele, pouca atenção se deu à história local e da população recém-chegada; tanto assim que o crescimento de algumas cidades, ou a ausência dele, alterou a concepção de hierarquia prevista. Mesmo assim promoveu certos núcleos à condição de cidades intermediárias, algumas hoje de porte médio, como Altamira (PA) e Marabá (PA), na Amazônia centro-oriental; Araguaína (TO) e Imperatriz (MA), na Amazônia oriental; e Ji-Paraná (RO), Rondonópolis (MT), Sinop (MT) e Sorriso (MT), na Amazônia meridional.
25Em comum, tem-se o fato de terem sido impulsionadas por eixos rodoviários, tornando-se referências para várias frentes de expansão; recebido investimentos diversos, públicos e/ou privados; e serem bases de novos poderes locais, capazes de alterar estruturas de antigas oligarquias existentes. Como exemplos dessas novas forças, tem-se Marabá e Imperatriz, vislumbradas como capitais de novos estados, Carajás e Maranhão do Sul, a serem instalados no sul/sudeste do Pará e no sul do Maranhão, respectivamente.
26Para além dessas cidades, há outro grupo que podemos denominar de centros urbanos econômicos flúvio-rodoviários, impactados por rodovias de integração, mas que não perderam suas tradições ribeirinhas, como Santarém (PA) e Itaituba (PA), na Amazônia centro-oriental, localizadas às margens do Tapajós, afluente do Amazonas, mas altamente conectadas por rodovias, como a Transamazônica (BR-230) e a Cuiabá-Santarém (BR-163), inserindo-se em ordenamentos territoriais híbridos, cujo dinamismo foi dado por frentes econômicas diversas. Ademais, têm articulações extrarregionais e sistemas logísticos flúvio-rodoviários que, nos dois casos, favorecem, dentre outros produtos de grande aceitação no mercado global, a circulação de grãos, como a soja.
27A exemplo do outro grupo de cidades mencionadas, dada a importância assumida no contexto regional, são alvos de investimentos diversificados, notadamente privados, mas também de natureza pública; bem como, são cidades cujas sub-regiões têm sofrido rearranjos políticos que articulam antigos e novos agentes de importância na produção do espaço e na constituição do poder local e sub-regional. É o caso de Santarém, pensada para ser a capital do Estado do Tapajós, fruto da mobilização de agentes econômicos e políticos da porção oeste do Pará que postulam essa separação.
Foto 4. Santarém: portos de uso regional e graneleiro
28Outro grupo de cidades com papel de intermediação regional pode ser denominado de cidades de responsabilidade corporativa, como é o caso de Parauapebas (PA) e Altamira (PA); esta última também já inserida em grupo anterior. Caracterizam-se por serem originadas e/ou impulsionadas pela presença de grandes corporações em seus territórios municipais, tornando-se centros urbanos de atendimento/apoio a demandas precipuamente externas à região, dada a presença direta ou indireta de grandes empresas que atuam a partir delas, como é o caso da mineradora Vale S.A., que criou uma company town em Parauapebas (PA) para fins de exploração de minérios, como o ferro, e da Norte Energia S.A., em Altamira (PA). A última empresa tem sob seu controle a grande usina hidrelétrica de Belo Monte, responsável pela barragem do rio Xingu, afluente do Amazonas; empreendimento este que, mesmo estando situado em Vitória do Xingu, vizinho de Altamira, fez desta última uma referência de centralidade para as atividades de construção e de funcionamento da grande usina.
29São cidades cujas empresas as colocam em situação de forte conexão com espaços extrarregionais e que, em grande medida, promoveram seus processos de urbanização e de concentração populacional urbana, dada a importância de investimentos e oportunidades de trabalho, responsáveis por atrair significativa quantidade de mão de obra, nem sempre incorporada a postos de trabalho oferecidos direta ou indiretamente pelas corporações que fizeram delas suas bases de referência.
30Além dos níveis de cidades já mencionados, há municípios que possuem núcleos urbanos com população entre 50 e 100 mil habitantes (Tabela 4), podendo ser agrupados em diferentes tipos: “cidades do campo” (Santos, 1993), cidades de responsabilidade corporativa, cidades logístico-portuárias e cidades de responsabilidade socioterritorial.
Tabela 4. Amazônia Legal: municípios com população urbana entre 50.000 e 100.000 hab.-2022
|
Município (Estado)
|
Sub-região
da Amazônia
|
Pop. urbana
|
Pop. urbana sede
municipal
|
Pop. total
|
%
Pop. urbana sede municipal
|
|
Paragominas (PA)
|
Centro-oriental
|
96.150
|
96.150
|
105.550
|
91,09
|
|
Tangará da Serra (MT)
|
Meridional
|
97.939
|
95.842
|
106.434
|
90,05
|
|
Abaetetuba (PA)
|
Centro-oriental
|
98.390
|
95.424
|
158.188
|
60,32
|
|
Açailândia (MA)
|
Oriental
|
94.580
|
94.580
|
106.550
|
88,77
|
|
Vilhena (RO)
|
Meridional
|
90.305
|
90.305
|
95.832
|
94,23
|
|
Balsas (MA)
|
Oriental
|
89.502
|
89.502
|
101.767
|
87,95
|
|
Tucuruí (PA)
|
Centro-oriental
|
85.560
|
85.560
|
91.306
|
93,71
|
|
Ariquemes (RO)
|
Meridional
|
83.952
|
83.952
|
96.833
|
86,70
|
|
Codó (MA)
|
Oriental
|
83.203
|
83.132
|
114.275
|
72,75
|
|
Gurupi (TO)
|
Oriental
|
83.125
|
83.125
|
85.125
|
97,65
|
|
Bacabal (MA)
|
Oriental
|
83.031
|
83.031
|
103.711
|
80,06
|
|
Redenção (PA)
|
Centro-oriental
|
81.630
|
81.630
|
85.597
|
95,37
|
|
Primavera do Leste (MT)
|
Meridional
|
81.543
|
81.543
|
85.146
|
95,77
|
|
Lucas do Rio Verde (MT)
|
Meridional
|
80.626
|
80.249
|
83.798
|
95,76
|
|
Bragança (PA)
|
Centro-oriental
|
87.608
|
78.066
|
123.082
|
63,43
|
|
Cáceres (MT)
|
Meridional
|
79.388
|
76.657
|
89.681
|
85,48
|
|
Santa Inês (MA)
|
Oriental
|
76.145
|
76.145
|
85.014
|
89,57
|
|
Parintins (AM)
|
Ocidental
|
79.675
|
72.165
|
96.372
|
74,88
|
|
Cacoal (RO)
|
Meridional
|
71.907
|
69.690
|
86.887
|
80,21
|
|
Canaã dos Carajás (PA)
|
Centro-oriental
|
69.332
|
69.332
|
77.079
|
89,95
|
|
Cruzeiro do Sul (AC)
|
Ocidental
|
68.215
|
68.215
|
91.888
|
74,24
|
|
Manacapuru (AM)
|
Ocidental
|
66.353
|
66.353
|
101.883
|
65,13
|
|
Itacoatiara (AM)
|
Ocidental
|
73.023
|
64.987
|
103.598
|
62,73
|
|
Barra do Garças (MT)
|
Meridional
|
62.270
|
61.164
|
69.210
|
88,37
|
|
Tefé (AM)
|
Ocidental
|
59.584
|
59.584
|
73.669
|
80,88
|
|
Barra do Corda (MA)
|
Oriental
|
58.268
|
58.268
|
84.532
|
68,93
|
|
Capanema (PA)
|
Centro-oriental
|
59.704
|
57.517
|
70.394
|
81,71
|
|
Pinheiro (MA)
|
Oriental
|
56.660
|
56.596
|
84.621
|
66,88
|
|
Tabatinga (AM)
|
Ocidental
|
55.680
|
55.680
|
66.764
|
83,40
|
|
Breves (PA)
|
Centro-oriental
|
55.509
|
55.297
|
106.968
|
51,69
|
|
Tailândia (PA)
|
Centro-oriental
|
62.871
|
54.272
|
72.493
|
74,87
|
|
Coari (AM)
|
Ocidental
|
52.896
|
52.896
|
70.616
|
74,91
|
|
Alta Floresta (MT)
|
Meridional
|
51.412
|
51.412
|
58.613
|
87,71
|
|
Cametá (PA)
|
Centro-oriental
|
68.213
|
51.092
|
134.184
|
38,08
|
|
Paraíso do Tocantins (TO)
|
Oriental
|
50.619
|
50.619
|
52.360
|
96,67
|
Fonte: IBGE (2026). Organização: Gabriel Carvalho da Silva Leite.
31Na Amazônia meridional, o corredor da BR-364 reflete o confronto entre modernização territorial e agropecuária tradicional/sistema agroflorestal. Aí, Vilhena (RO), Ariquemes (RO) e Cacoal (RO) tiveram urbanização impulsionada pela expansão da fronteira econômica desde os anos 1970 e 1980, com projetos de colonização do INCRA voltados a pequenos produtores migrantes. Com o tempo, a aglutinação dos pequenos lotes originais fez surgir fazendas voltadas à pecuária e a atividades modernas, promovendo tensão entre o que existia e as novas atividades (Becker, 2004; Silva, 2011).
32Ainda na Amazônia meridional, outra frente de urbanização tem acompanhado o incremento da produção intensiva em tecnologia agroindustrial, conforme ocorre na zona do agronegócio mato-grossense. Nela, alguns núcleos urbanos (Lucas do Rio Verde e Primavera do Leste) servem de referência para atividades como soja, milho e algodão; assim como Alta Floresta, que, além daqueles produtos, tem na pecuária uma das razões de seu dinamismo territorial (Maitelli, 2007), com repercussões no urbano. São cidades cujos Municípios integram corredores rodoviários, como o da BR-163 (Cuiabá-Santarém), constituída como nova fronteira do capital (Bernardes, 2007), e outras frentes dentro do Mato Grosso, como Tangará da Serra (soja, milho, algodão e cana-de-açúcar), Cáceres (soja, pecuária e turismo) e Barra do Garças (pecuária de corte e turismo), que justificam a dinâmica urbana e a diversificação de atividades econômicas em suas sedes há algum tempo, conforme mostra Vilarinho Neto (2009).
33Essa mesma tendência se estende para a Amazônia centro-oriental. Nela, municípios com população urbana em destaque se dinamizaram devido à expansão da fronteira econômica no território paraense, tornando suas sedes prestadoras de serviços e de comércios para a produção que se realiza no campo. Também se diferenciam pelo perfil de renda da população e pelos índices de desenvolvimento, se comparadas a outras cidades de mesmo nível e, ainda, pela origem geográfica variada de sua população, como sulistas e nordestinos (Becker, 2004). Exemplos de cidades com esse perfil são Paragominas (PA), estudada por Souza (2007), e Redenção (PA), estudada por Santos (2020). Processo parecido ocorre com Tailândia (PA), cuja população urbana também tem se destacado em área de expansão de fronteira econômica.
34Na Amazônia oriental, tendência semelhante se vê em Barra do Corda (MA) (soja e turismo) e Balsas (MA), esta que tem na modernização do campo (soja, algodão, milho, pecuária) fatores responsáveis pelo dinamismo de sua sede municipal, com presença de empresas de apoio a estoques, fabricação de ração, bancos, vendas de máquinas, implementos etc., e, por isso, destaca-se fora dos limites da RMSL, conforme dados do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (Imesc, 2023).
35Codó (MA), parcialmente inserido na Amazônia Legal, também se situa entre os dez municípios com maior dinamismo econômico no Maranhão devido ao turismo e a atividades do agronegócio, mas que apresenta recorrência de conflitos fundiários dentre os que integram a região do Matopiba (Leite, Sátiro e Sauer, 2024), da qual fazem parte, igualmente, Barra do Corda, Bacabal, Balsas e Açailândia, situados em fronteira do agronegócio, marcada pela expropriação, exploração e acentuada acumulação de capital.
36Ainda na Amazônia oriental, mas no Estado do Tocantins, municípios situados no corredor sul-norte de ocupação, eixo Araguaia-Tocantins, como Gurupi e Paraíso do Tocantins, também têm tido na expansão da agropecuária elementos de dinamismo territorial e de incremento da população nesse Estado. O destaque, nesse caso, também são os grãos, que se expandem em área de predomínio de cerrados, e cujo processo de ocupação foi estimulado por rodovias, como a Belém-Brasília (BR-010), sofrendo influências de metrópoles não amazônicas (Becker, 2004).
37Tais cidades podem ser nomeadas de “cidades do campo”, nos termos de Santos (1993), pois a concentração de atividades nelas atendem a demandas do agronegócio e turismo que ocorrem em seu entorno ou, também, como “cidades do agronegócio”, nos termos de Elias (2022), em razão da estreita relação com a modernização do campo e seus negócios agrários que respondem a comandos de mercados globais.
38Chamam a atenção também quanto à presença da população urbana, munícipios direta ou indiretamente impactados por grandes projetos e por mineronegócios e/ou logísticos. Na Amazônia oriental, tem-se Santa Inês, no noroeste maranhense, e Açailândia, no sudoeste do Estado, que, conforme os dados oficiais (Imesc, 2023), posicionam-se entre os principais municípios do Maranhão em densidade populacional e dinamismo econômico. Suas sedes, além da expansão do agronegócio nas últimas décadas, foram impactadas pela Ferrovia de Carajás, que liga as minas, no Pará, exploradas pela Vale S.A., aos portos de São Luís (MA), formando entroncamentos de fluxos, cuja importância logística associa-se a atividades outras (produção, comércio, serviços), imprimindo-lhes dinamismo.
39Nesse contexto, de exploração mineral, algumas cidades assumem claramente o papel de cidades e urbanização corporativas (Santos, 1993), dada a forte dependência em relação às corporações empresariais nelas instaladas. Bom exemplo é Canaã dos Carajás (PA), na Amazônia centro-oriental, conectada à Ferrovia de Carajás por meio de um ramal voltado exclusivamente ao escoamento da produção mineral, quando a Vale S.A. estendeu sua atividade de exploração de Parauapebas para esse Município. Nele hoje está a maior mina do mundo a céu aberto, a S11D, instalada entre 2011 e 2016; momento em que o dinamismo foi mais intenso, tornando-o o Município brasileiro com maior taxa de crescimento populacional entre os dois últimos censos (IBGE, 2010, 2026).
Foto 5. Canaã: a mineração como indutora de crescimento
(Saint-Clair Trindade Jr., ago. 2025)
40Ainda na Amazônia centro-oriental, Tucuruí vem há algum tempo apresentando perfil urbano diretamente relacionado ao empreendimento hidrelétrico instalado, sob a responsabilidade da estatal Eletronorte (Centrais Elétricas da Região Norte do Brasil S/A). Trata-se de um Município fortemente impactado pela criação do lago, formado com o represamento do rio Tocantins, e cuja cidade, devido à infraestrutura instalada, inclusive com a criação de company town, e à oferta de trabalhos, teve seu crescimento populacional e urbano incrementado nas últimas décadas, tornando-se referência de centralidade urbana para as populações rurais e urbanas que “convergem para o lago” (Rocha, 2008) e que dependem de recursos, programas, convênios e benefícios outros proporcionados pelo grande empreendimento. O incremento populacional e urbano tende ainda a se fortalecer, considerando a efetivação da hidrovia do Tocantins com fins de circulação de commodities que descem o rio rumo a portos estuarinos amazônicos.
41Na Amazônia ocidental, o status de cidade corporativa pode ser atribuído a Coari (AM). Conforme mostra Santana (2022), diferentemente do Pará, o Amazonas teve um processo de expansão econômica que não priorizou a construção de estradas e company towns. Foi o caso do Polo Urucu, voltado à exploração de gás e petróleo, que provocou a concentração de mão de obra e crescimento populacional em Coari, distante mais de 200 km da base de produção sob o controle da Petrobrás (Petróleo Brasileiro S.A.) e que foi interligada àquele polo pelo gasoduto Urucu-Coari-Manaus, quando a busca por emprego e renda se manteve crescente. Tal fato justifica o quantitativo atual, que coloca o Município como uma das maiores populações urbanas do Amazonas, mesmo hoje com a saída gradativa da Petrobrás, mas com a presença de outras empresas.
42Ainda na Amazônia ocidental, é preciso mencionar Manacapuru (AM), também impactada pelo gasoduto da Petrobrás, e Itacoatiara (AM); ambas com crescimento urbano atribuído à relativa proximidade de Manaus e integrantes da RMM. Na verdade, Manacapuru (AM) sempre apresentou destaque na rede urbana estadual, mas teve seu crescimento incrementado pelo fluxo econômico com a capital amazonense, após a construção da Ponte sobre o Rio Negro (Sousa, 2015), estreitando ainda mais as conexões rodoviárias com Manaus, antes dependente do transporte fluvial ou rodofluvial.
43Itacoatiara, também pouco inserida na metropolização de Manaus, vem assumindo, desde a criação da Suframa, importância em razão de políticas desenvolvimentistas, a exemplo da instalação de empresas madeireiras. Hoje reafirma, cada vez mais, importante papel logístico. Define-se como ponto estratégico de conexão na calha Madeira-Amazonas, facilitando a logística de muitas empresas para o escoamento da produção e comercialização de mercadorias (Mendes, 2023), como acontece com os grãos, vindos sobretudo da Amazônia meridional. Sua localização, na confluência dos dois rios, torna-a estratégica para a circulação de produtos que, procedentes do Madeira, seguem pelo Amazonas rumo a grandes mercados mundiais.
44Situação parecida é constatada na Amazônia centro-oriental, mais próxima da desembocadura do Atlântico, onde Abaetetuba aparece com um percentual relativamente expressivo de população urbana para os parâmetros amazônicos. Com forte influência de Belém, dada sua proximidade, é um Município limítrofe de Barcarena (PA), integrante da RMB, onde processos decorrentes da instalação do complexo urbano-industrial e logístico-portuário tiveram também repercussões locais. Naquela cidade reside parte da mão de obra empregada nas novas ocupações que passaram a ser ofertadas em Barcarena, sendo comum o movimento pendular de trabalhadores entre os dois Municípios. Como uma espécie de extensão do sistema logístico-portuário de Barcarena, onde se encontra o Porto de Vila do Conde, exportador de grãos, minérios etc., também em Abaetetuba se verifica ultimamente a implantação de portos com vistas à exportação de grãos que descem pelo rio Amazonas em direção aos grandes mercados mundiais.
45Há, ainda, municípios que não se encontram necessariamente inseridos em frentes de modernização ou corredores de exportação, mas cuja presença da população urbana se destaca. Eles podem ser subdivididos em dois grupos, os de influência rodoviária e os de influência ribeirinha, ambos com sedes que assumem importância sub-regional.
46Na Amazônia centro-oriental, esse perfil pode ser reconhecido em cidades como Bragança e Capanema, no nordeste paraense, e mais especificamente na região Bragantina. Trata-se de realidades que mesclam valores e tradições de populações locais e migrantes, especialmente nordestinos assentados ao longo da extinta ferrovia Belém-Bragança no período áureo da borracha. Elas contribuíram para o perfil atual das duas cidades, que se tornaram localidades centrais dessa sub-região, conectadas hoje por rodovias, com dinâmicas que combinam produção econômica tradicional e modernização pontual de algumas atividades voltadas para mercados mais dinâmicos.
47Na Amazônia oriental, o dinamismo de Pinheiro (MA) é atribuído às atividades de comércios e serviços e à agropecuária praticada na zona rural da microrregião em que se insere, a Baixada Maranhense, uma das mais pobres de todo o Maranhão, mas sendo a cidade que apresenta o melhor índice de desenvolvimento dessa sub-região (Imesc, 2023). Por isso, tornou-se referência para os demais municípios que a compõem, por concentrar equipamentos, serviços e atividades nem sempre encontrados nas demais cidades; fatores esses que justificam o destaque de sua população urbana na Amazônia maranhense.
48Outro grupo inclui realidades de forte tradição ribeirinha e inseridas em contextos socioespaciais de pouco dinamismo econômico, onde os índices de desenvolvimento humano são relativamente baixos. Mesmo com pontuais repercussões de frentes econômicas, suas sedes atendem a demandas de atividades, serviços e produtos de uma área de influência relativamente extensa. Quando conectadas por estradas, ainda assim não tiveram rompidos os vínculos com o modo de vida ribeirinho e suas demandas.
49Na Amazônia centro-oriental, Breves, com economia baseada sobretudo em produtos da floresta, tornou-se a maior cidade do arquipélago do Marajó, uma das sub-regiões mais pobres da Amazônia e que, talvez por isso, tenha se tornado ponto de destino de uma população que busca melhores condições de vida em sua sede municipal.
50Ainda na Amazônia centro-oriental, Cametá, com economia de base mais tradicional e de pouca modernização, atende a uma grande quantidade de população rural e urbana (vilas) dispersa ao longo do Baixo Tocantins, uma sub-região situada entre dois grandes projetos (Usina Hidrelétrica de Tucuruí e o complexo urbano-industrial e logístico-portuário de Barcarena), pouco beneficiada pela modernização econômica desses projetos e que deles sofreu impactos diretos e indiretos. Com isso, aquela cidade se tornou ponto de referência para o atendimento de atividades econômicas e sociais de grande necessidade de uma população fortemente marcada pela relação que estabelece com o rio e com a floresta.
51Na Amazônia ocidental duas cidades apresentam perfis semelhantes aos das cidades ribeirinhas da Amazônia paraense. A primeira delas é Tefé, tida como o principal núcleo urbano do Médio Solimões, cujo tamanho populacional, dimensão física e baixa densidade técnica territorial dizem pouco sobre o papel a ela reservado e a importância que desempenha nessa sub-região, um vasto entorno de tradição ribeirinha que dela e praticamente só dela depende, conforme mostra Queiroz (2017).
52Ainda nessa sub-região, na porção leste do Amazonas, às proximidades da divisa com o Pará, Parintins assume importância na oferta de serviços públicos e privados que atendem a populações amazonenses e paraenses próximas, de onde também recebe migrantes (Schor, Oliveira e Bartoli, 2022). Trata-se de cidade ribeirinha com várias particularidades, reconhecidas nas formas de circulação intrarregional e nas práticas econômicas e culturais locais. Ainda assim, constatam-se nexos de difusão de valores urbanos, especialmente no seu Festival Folclórico de Boi-Bumbá, que atrai turistas de vários lugares do País e do mundo, sendo, em razão do seu potencial de atratividade, incluída em roteiros de transatlânticos que se dirigem a Manaus.
53Também na Amazônia ocidental, tem-se Cruzeiro do Sul (AC). Localizada no vale do Juruá, afluente do Solimões, é a segunda cidade acreana mais populosa e tem sua dinâmica econômica em função da agropecuária e da economia agroflorestal/extrativista em sua área de influência, possuindo importante centralidade para essa porção territorial, relativamente distante da capital e de outros centros econômicos regionais. Apesar de suas articulações rodoviárias, é uma cidade que não perdeu até hoje sua condição ribeirinha, com conexões fluviais dentro do Brasil e no vizinho Peru (Carvalho, 2020; Santos, 2024).
54Por fim, cabe menção, nessa mesma sub-região, à cidade de Tabatinga que, apesar de apresentar atualmente um contingente populacional de 55.680 habitantes (IBGE, 2026), não pode ser considerada isoladamente, por estar conurbada a Letícia (Colômbia), que hoje tem estimativa populacional de 45.000 habitantes (Cámara de Comercio del Amazonas, 2022), assumindo, juntas, destacada centralidade sub-regional fronteiriça.
Foto 6. Tabatinga: cidade fronteiriça Brasil-Colômbia
(Saint-Clair Trindade Jr., set. 2024)
55Tabatinga atende não só o Município do qual é sede, mas também a outros da calha do Solimões e da tríplice fronteira (Brasil, Peru e Colômbia) e que lhe conferiram destaque em contexto sub-regional, consolidando sua posição na rede urbana amazônica (Nogueira, 2008). Trata-se de cidade com relações estabelecidas em amplo território e que tem em seus arranjos institucionais a presença das forças armadas, responsável, em grande medida, pela infraestrutura urbana e serviços instalados (Oliveira, 2008).
56Ponto em comum entre essas cidades é o fato de serem referências urbanas de apoio a populações espalhadas por extensas sub-regiões com difícil acesso a bens e serviços, uma vez que nem todos os serviços e benefícios sociais a elas costumam chegar nessas porções da Amazônia onde as frentes de expansão recentes não são dominantes. Daí se dizer que elas sejam verdadeiramente de “responsabilidade territorial” (Bitoun, 2009), muito mais que cidades de responsabilidade econômico-corporativa, mesmo que atributos destas últimas possam nelas estar pontual ou ocasionalmente presentes.
57Pode-se considerar que os dados analisados e contextualizados tendem a confirmar processos que já vinham sendo observados no espaço amazônico em décadas anteriores. Destaca-se a presença de aglomerações urbanas que se afirmam como metrópoles regionais devido à concentração de capitais, à densidade técnica e por serem espaços de comando no interior da região, difundindo processos de nível nacional/global, assim como valores e comportamentos urbanos em suas respectivas sub-regiões.
58Também, a maior presença de núcleos intermediários na rede urbana regional mostra que a urbanização do território e a difusão do urbano encontra apoio em várias cidades com papel de intermediação no interior da região. Muitas delas, com status de porte médio, ratificam a desconcentração de processos, agentes e atividades que difundem o meio técnico-científico informacional e uma psicosfera urbana (Santos, 1993) propícia à propagação de novos valores. Estes se interiorizam em porções do espaço dominadas por nexos da indústria, da logística e do agromineronegócio, que se espacializam em infraestruturas, equipamentos urbanos e serviços, conferindo maior densidade técnica ao território e consolidando novas formas de consumo nas cidades da floresta e do cerrado.
59Reforça-se, com isso, em diversos planos, o papel da Amazônia na divisão do trabalho, refletida na maior composição orgânica do seu território (Santos, 1993), como se vê no chamado “arco do desmatamento”, o de maior densidade urbana, mas que aos poucos chega à Amazônia ocidental e alcança cidades de menor porte em todos os espaços sub-regionais. Trata-se, nesse caso, de crescimento demográfico extensivo a pequenas cidades que remete à presença de atividades especializadas e a impactos da modernização e instalação de infraestruturas difusas, mas que revelam também outras formas de centralidade ao alçar certas localidades à condição de cidades de “responsabilidade territorial” (Bitoun, 2009), em contraponto às “cidades econômicas” (Santos, 1993).
60O reconhecimento dessas diferentes expressões do urbano na Amazônia ou, em outros termos, da urbanodiversidade regional, ajuda a construir um olhar menos homogêneo sobre ela, associando sua diversidade urbana à sua formação territorial, técnica, econômica, social e culturalmente diferenciada. Assim entendida, a realidade regional sinaliza para a necessidade de se estabelecer uma compreensão menos uniforme quanto à produção de seu espaço; assim como, passa a exigir políticas territoriais diferenciadas e mais alinhadas às suas particularidades/singularidades, especialmente se admitirmos a existência de centralidades urbanas que não estão mormente voltadas para grandes mercados e para demandas externas, como é comum nas metrópoles regionais, nas cidades-empresa, nas cidades logístico-portuárias e nas do agromineronegócio.
61São cidades que, além da força do mercado, possuem centralidades socioterritoriais e que, no sentido de reafirmarem tais centralidades, demandam políticas públicas de natureza precipuamente cidadã. Assumem, assim, a condição de centros de atendimento a demandas socioterritoriais sub-regionais e que possuem intensa interação com o entorno, requerendo apoio de investimentos do setor público. E, ainda que possam ser bases de antigos poderes locais, são também espaços, em potencial, de novas formas de territorialidade e de cidadania.