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Resenhas

Amazônia. Uma história das civilizações da floresta

Amazonie. Une histoire des civilisations de la forêt
Amazonia A History of the Forest Civilizations
Hervé Théry
Référence(s) :

Stéphen Rostain, Amazonie. Une histoire des civilisations de la forêt, Tallandier Humanités, 2026, 315 pages, ISBN 9791021052161

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Index de mots-clés :

Stephen Rostain, Amazonie, histoire, archéologie

Index géographique :

Amazônia

Índice de palavras-chaves:

Stephen Rostain, Amazônia, história, arqueologia
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Texte intégral

1Costuma-se dizer que a Amazônia não tem história, apenas lendas, mas hoje sabemos que inovações essenciais surgiram na Amazônia: a primeira cerâmica das Américas, a domesticação de dezenas de plantas, sistemas agrícolas sofisticados e cidades milenares que hoje estão sendo gradualmente redescobertas sob o dossel da floresta. Ela viveu uma epopeia humana que teve início há 13 mil anos e passou por desenvolvimentos únicos antes de ser brutalmente interrompida pela invasão dos conquistadores há 500 anos. Conhecemos a região por sua extrema biodiversidade vegetal e animal, mas muitas vezes esquecemos que a “grande floresta tropical” abrigou uma diversidade de populações igualmente notável, com 350 línguas indígenas ainda faladas. Neste livro, Stéphen Rostain narra essa longa história da Amazônia, aproveitando ao máximo as descobertas das últimas três décadas — notadamente a de antigas cidades-jardim no Equador — e transforma profundamente nossa visão dessa imensidão ameaçada.

2Stéphen Rostain é arqueólogo e diretor de pesquisa do CNRS. Trabalha há quase quarenta anos na Amazônia, principalmente na Guiana Francesa e no Equador. É autor de mais de 450 publicações, entre as quais Amazonie. Un jardin sauvage ou une forêt domestiquée. Essai d'écologie historique (Amazônia. Um jardim selvagem ou uma floresta domesticada. Ensaio de ecologia histórica, 2016, Actes Sud / Errance, 264 p.; Amazonie. Les 12 travaux des civilisations précolombiennes (Amazônia. As 12 obras das civilizações pré-colombianas), Paris, Belin, 2017, 352 p.; ; La forêt vierge d’Amazonie n’existe pas (A floresta virgem da Amazônia não existe), 2021, Le Pommier/Humensis, 357 p., e Histoire de l’Amazonie, (História da Amazônia), 2022, PUF, 126 p.

  • 1 “Resenha de dois livros de Stéphen Rostain”, 2017, Les nouvelles de l'archéologie 149, URL: http:// (...)

3Ao fazer uma resenha das duas primeiras obras, Geoffroy de Saulieu observou, com razão1, que “O estilo alegre do autor não diminui em nada a qualidade de suas exposições”, e ele ilustra esse tom “ligeiramente impertinente” com a frase “Imaginar a Amazônia pré-colombiana é um pouco como visitar a loja de porcelanas antes que o elefante entre nela”, que ele qualifica de “ideia genial”. De fato, “Ao adotar uma abordagem diferente em cada uma de suas obras, Stéphen Rostain busca fazer compreender a enorme importância da pegada ambiental das sociedades amazônicas injustamente esquecidas”, e esse é exatamente o caso desta obra. Isso fica bem evidente no início do incipit e na introdução, que reproduzimos a seguir, bem como em algumas das notáveis ilustrações da obra.

Incipit

4“Faz sentido falar da Amazônia no singular? Reduzir os habitantes originais da Amazônia à designação ‘indígena’ ou ‘autóctone’ realmente faz justiça à diversidade cultural? Fala-se muito sobre a incrível biodiversidade da maior floresta tropical do mundo, mas muitos relutam em reconhecer essa mesma variedade entre os povos que a habitam. O esquecimento do massacre humano causado pela chegada dos primeiros europeus, o rolo compressor da história colonial e a visão globalizante dos indígenas de hoje levaram a que se retivesse apenas o que os aproxima, o que os essencializa — e a que se ocultassem suas especificidades. Isso é um erro, e um grave equívoco histórico.

5Dizimados por doenças, massacrados ou reduzidos à escravidão, despojados de suas terras, privados de seus direitos humanos, os indígenas deveriam, além disso, ser classificados em uma unidade enganosa à custa de sua identidade?

6Os registros escritos não são suficientes para narrar o passado humano da maior floresta tropical do mundo. Para compreender plenamente essa história, é necessário recorrer a diversas disciplinas, que vão da arqueologia à biologia, passando pela história, geografia, antropologia, tradição oral indígena, paleoclimatologia, botânica, ecologia, pedologia, geomorfologia, sensoriamento remoto etc. Esse recurso a um leque tão amplo de ciências é indispensável para decifrar os vestígios do passado, por vezes camuflados no infinitamente pequeno ou mesmo no infinitamente grande. De fato, embora os vestígios do passado humano sejam, em primeiro lugar, os artefatos enterrados, muitas outras marcas da passagem dos antigos habitantes são detectáveis no solo, na vegetação, nas rochas e, de maneira mais geral, na paisagem. Este livro se propõe, portanto, a traçar um panorama das principais etapas do povoamento da Amazônia a partir de fontes diversas e a revelar os sinais tênues e muitas vezes desconhecidos da presença desses povos antigos. Essa diversidade de referências permite reconsiderar o que se acreditava saber sobre a Amazônia, ao mesmo tempo em que oferece um espectro mais amplo dos atores dessa história, entre os quais se destacam os povos indígenas.

7Essa memória recuperada remonta a milhares de anos, pelo menos 13.000 anos. Vários eventos cruciais ocorreram durante esse longo período, incluindo mudanças socioeconômicas fundamentais, inovações tecnológicas essenciais e formas díspares de gestão do ambiente tropical. A ruptura mais drástica nessa cronologia é constituída, no entanto, pela invasão europeia há pouco mais de quinhentos anos. Essa fratura na continuidade cultural continua sendo o fato mais marcante em muitos aspectos. Assim, a Amazônia — assim como o restante do continente americano — passou por dois movimentos migratórios fundamentais: o povoamento inicial vindo do norte e a invasão europeia vinda do leste. A arqueologia — entendida aqui em sua manifestação mais nobre, na qual trabalha lado a lado com outras disciplinas científicas, em particular a história e a ecologia — é uma das ferramentas mais eficazes para reconstituir essa história”.

Introdução

8“As enciclopédias e os livros acadêmicos sobre o passado da Amazônia apresentam, em geral, uma história resumida de apenas alguns séculos, desprovida de milênios de evolução humana anteriores à chegada dos europeus. Isso equivale, nem mais nem menos, a distorcer a verdade histórica.

9É possível distinguir duas ondas de povoamento humano. A primeira teve início há pelo menos 13 mil anos com os ameríndios vindos do norte; a segunda, claramente mais recente, começou com a invasão europeia há quinhentos anos. Esses dois grupos populacionais são radicalmente opostos em suas abordagens e em seus modos de interação com a maior floresta tropical do mundo. Enquanto os primeiros administraram seu ambiente, estabelecendo nele uma relação de mutualismo razoável entre o ser humano e a natureza, os segundos buscaram sobretudo explorá-lo brutalmente, sem se preocupar com as consequências dessa violência. O resultado hoje é um grave desequilíbrio ecológico.

10Esses dois períodos são muito diferentes para serem analisados com base nos mesmos critérios. Assim, após um povoamento inicial disperso, desenvolvem-se evoluções indígenas locais em todo o território, com especificidades em cada região que, no entanto, podem ser agrupadas em grandes inovações comuns. Por outro lado, a ocupação da floresta pelas populações ocidentais ocorre rapidamente e de maneira semelhante em praticamente todos os lugares, embora com variações locais.”

Imagens

Figura 1: Imagens pintadas

Figura 1: Imagens pintadas

Os tepuys abrigam cerca de 13.000 pinturas distribuídas por 60 sítios, inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2018. Algumas dessas pinturas datariam de cerca de 12.000 anos atrás. O tepuy de Cerro Azul, às margens do rio Guaviare, na Colômbia, conserva paredes pintadas com seres misteriosos, provavelmente originários dos mitos indígenas.

Figura 2: Imagem LiDAR da cidade-jardim arqueológica de Sangay

Figura 2: Imagem LiDAR da cidade-jardim arqueológica de Sangay

Vista em perspectiva, obtida por meio da tecnologia LiDAR, da cidade-jardim arqueológica de Sangay, à beira do penhasco do Upano, na Alta Amazônia equatoriana

Imagem 3: Reconstituição da cidade-jardim de Sangay

Imagem 3: Reconstituição da cidade-jardim de Sangay

Reconstrução da cidade-jardim de Sangay quando ainda era habitada, há 1.500 a 3.000 anos, ao longo do rio Upano, com o vulcão Sangay, muito ativo, localizado a poucos quilômetros ao norte. Aquarela de Stéphen Rostain.

Imagem 4: Campos elevados em Sinnamary, Guyane

Imagem 4: Campos elevados em Sinnamary, Guyane

Os indígenas americanos conseguiram colocar em cultivo áreas consideráveis antes da chegada dos europeus. Assim, a grande savana alagável a oeste de Sinnamary, na Guiana Francesa, estava coberta por um denso xadrez de centenas de pequenos campos elevados de formato arredondado.

Imagem 5: Geoglifos no Estado do Acre

Imagem 5: Geoglifos no Estado do Acre

Os sítios com valas, localmente chamados de geoglifos, do Estado do Acre, na Amazônia Ocidental do Brasil, são grandes recintos arredondados, ovais, quadrangulares ou com formas compostas e combinadas, com diâmetros que variam de 90 a 400 metros. Pouquíssimos vestígios de habitação foram encontrados nesse tipo de recinto. Sua função era, provavelmente, delimitar um espaço fechado para uso coletivo e cerimonial. Esses sítios datam do início de nossa era até 1300.

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Notes

1 “Resenha de dois livros de Stéphen Rostain”, 2017, Les nouvelles de l'archéologie 149, URL: http://journals.openedition.org/nda/3790 ; DOI: https://doi.org/10.4000/nda.3790

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Table des illustrations

Titre Figura 1: Imagens pintadas
Légende Os tepuys abrigam cerca de 13.000 pinturas distribuídas por 60 sítios, inscritos na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 2018. Algumas dessas pinturas datariam de cerca de 12.000 anos atrás. O tepuy de Cerro Azul, às margens do rio Guaviare, na Colômbia, conserva paredes pintadas com seres misteriosos, provavelmente originários dos mitos indígenas.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/71386/img-1.jpg
Fichier image/jpeg, 915k
Titre Figura 2: Imagem LiDAR da cidade-jardim arqueológica de Sangay
Légende Vista em perspectiva, obtida por meio da tecnologia LiDAR, da cidade-jardim arqueológica de Sangay, à beira do penhasco do Upano, na Alta Amazônia equatoriana
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/71386/img-2.jpg
Fichier image/jpeg, 714k
Titre Imagem 3: Reconstituição da cidade-jardim de Sangay
Légende Reconstrução da cidade-jardim de Sangay quando ainda era habitada, há 1.500 a 3.000 anos, ao longo do rio Upano, com o vulcão Sangay, muito ativo, localizado a poucos quilômetros ao norte. Aquarela de Stéphen Rostain.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/71386/img-3.jpg
Fichier image/jpeg, 1,0M
Titre Imagem 4: Campos elevados em Sinnamary, Guyane
Légende Os indígenas americanos conseguiram colocar em cultivo áreas consideráveis antes da chegada dos europeus. Assim, a grande savana alagável a oeste de Sinnamary, na Guiana Francesa, estava coberta por um denso xadrez de centenas de pequenos campos elevados de formato arredondado.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/71386/img-4.jpg
Fichier image/jpeg, 1,1M
Titre Imagem 5: Geoglifos no Estado do Acre
Légende Os sítios com valas, localmente chamados de geoglifos, do Estado do Acre, na Amazônia Ocidental do Brasil, são grandes recintos arredondados, ovais, quadrangulares ou com formas compostas e combinadas, com diâmetros que variam de 90 a 400 metros. Pouquíssimos vestígios de habitação foram encontrados nesse tipo de recinto. Sua função era, provavelmente, delimitar um espaço fechado para uso coletivo e cerimonial. Esses sítios datam do início de nossa era até 1300.
URL http://journals.openedition.org/confins/docannexe/image/71386/img-5.jpg
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Pour citer cet article

Référence électronique

Hervé Théry, « Amazônia. Uma história das civilizações da floresta »Confins [En ligne], 71 | 2026, mis en ligne le 30 juin 2026, consulté le 17 août 2026. URL : http://journals.openedition.org/confins/71386 ; DOI : https://doi.org/10.4000/16hta

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Auteur

Hervé Théry

Directeur de recherche émérite au CNRS-Creda, Professor na Universidade de São Paulo (USP-PPGH), hthery@aol.com

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