1Na era digital, as redes sociais transformaram o modo como os protestos são organizados e divulgados além-fronteiras. No Sul Global, plataformas como X, Facebook e YouTube permitem uma resistência cívica que combina ativismo de rua com ativismo digital (Tufekci, 2017). Estas plataformas dão aos grupos locais a possibilidade de contornarem os média tradicionais e alcançarem um público mais vasto, por vezes adquirindo visibilidade global (Papacharissi, 2015). Contudo, a mera participação não assegura visibilidade equitativa, pois a atenção muitas vezes reproduz desigualdades relacionadas com a localização geográfica, o idioma e o acesso (Arora, 2019; Udupa, 2019). Este problema é particularmente visível em democracias pós-coloniais como a Índia, onde o reconhecimento varia consoante a região e a identidade linguística. Comunidades rurais, costeiras e não urbanas têm frequentemente dificuldade em obter visibilidade tanto nos média convencionais como nos digitais. Infraestruturas deficitárias, barreiras linguísticas (incluindo dialetos indígenas da mesma língua e limitações no inglês) e a centralidade urbana dos média restringem a capacidade de apresentarem as suas preocupações como reivindicações legítimas de cidadania. A comunicação digital reforça, assim, uma hierarquia territorial, em que algumas regiões alcançam atenção global, enquanto outras permanecem marginais.
2Este estudo assenta em alguns conceitos, como a “participação digital”, que inclui ações quotidianas — como partilhar, contextualizar e mobilizar — que influenciam as discussões públicas (Tufekci, 2017). A “visibilidade digital” refere-se à forma como as plataformas priorizam e destacam questões com base no envolvimento e nas dinâmicas de rede (Gillespie, 2018). A “cidadania digital” diz respeito à obtenção de reconhecimento e legitimidade nestes espaços online (Isin & Ruppert, 2020). Ao passo que a “desigualdade territorial” evidencia as diferenças em termos de infraestrutura, uso da língua, representação mediática e legitimidade cultural entre regiões (Arora, 2019; Udupa, 2019).
3Neste contexto, o estudo compara dois grandes movimentos de justiça ambiental em Tamil Nadu, na Índia: o protesto antinuclear de Kudankulam (2011–2013) e o protesto anti-Sterlite de Thoothukudi (2018). Ambos abordaram danos ecológicos e recorreram a plataformas digitais, mas os seus percursos online foram muito distintos (Joynes & Dwivedy, 2025). Kudankulam, situado numa região rural e costeira com infraestrutura limitada, teve dificuldades em obter reconhecimento nacional e foi frequentemente desacreditado. Thoothukudi, situado num centro urbano-industrial, ganhou visibilidade viral após o tiroteio policial que matou 13 civis, amplificado por jornalistas, celebridades e redes globais de direitos humanos (Arora, 2019; Udupa, 2019). Símbolos emocionais, como fotografias de mártires, imagens de funerais e hashtags, aumentaram o seu alcance, enquanto a estrutura técnica da comunicação em Kudankulam limitou o envolvimento (Papacharissi, 2015; Tufekci, 2017). Estes contrastes evidenciam uma lacuna na investigação: o ativismo digital tende a desconsiderar a desigualdade territorial e a justiça ambiental ignora frequentemente a legitimidade comunicativa (Nixon, 2011; Schlosberg, 2007). Este estudo procura preencher essa lacuna.
4O estudo apresenta três argumentos principais. Primeiro, a visibilidade digital é influenciada pela participação, mas também pelas emoções, símbolos e gatekeeping (mecanismos de controlo de acesso). Segundo, a visibilidade distribui-se de forma desigual entre as regiões, favorecendo contextos urbanos e industriais e marginalizando as áreas rurais e costeiras. Terceiro, a comunicação digital constitui uma forma de identidade territorial e de cidadania, conferindo reconhecimento a algumas regiões e tornando outras invisíveis.
5Assim, a principal questão de investigação é: por que motivo o protesto de Thoothukudi atingiu ampla visibilidade digital, enquanto o protesto de Kudankulam permaneceu marginalizado? E o que revela isto sobre a relação entre comunicação digital, desigualdade territorial e cidadania na Índia?
6Ao situar o ativismo digital no contexto da comunicação territorial, este artigo contribui para as discussões sobre globalização, participação cívica e diversidade cultural em contextos urbanos e regionais. Além disso, destaca que a luta pela justiça ambiental no Sul Global envolve não só questões ecológicas, mas também questões sobre quem é reconhecido, quem é ouvido e que territórios são valorizados no panorama simbólico do mundo digital. Este estudo apresenta a “desigualdade territorial” como um conceito central na investigação sobre comunicação e ativismo digital. Revela que o reconhecimento, a legitimidade e o poder simbólico distribuem-se de forma desigual entre regiões, mesmo dentro do mesmo grupo linguístico. Ao enquadrar os protestos ambientais em Tamil Nadu neste contexto, o artigo contribui para as discussões sobre cidadania digital, ao demonstrar como os sistemas de comunicação e as narrativas emocionais influenciam a perceção das lutas como questões públicas legítimas.
7Para evitar fragmentação, esta secção está organizada em quatro grupos temáticos que se relacionam diretamente com os objetivos do estudo: (a) ativismo digital e desigualdades, (b) estratégias afetivas de envolvimento nos protestos digitais, (c) justiça ambiental e comunicação mediática, e (d) desigualdade territorial e poder simbólico. Esta estrutura clarifica de que forma cada vertente contribui para a análise comparativa dos dois movimentos. Estas abordagens demonstram que a visibilidade dos protestos digitais resulta da interação de múltiplos fatores — incluindo o acesso digital, a mobilização emocional, a contextualização e a legitimidade simbólica — e não de um único elemento isolado (Cammaerts, 2015; Papacharissi, 2015). Esta dinâmica é particularmente relevante em contextos pós-coloniais multilingues, onde a língua, a geografia e o poder institucional definem quem se torna visível.
8O ativismo digital tem sido amplamente celebrado por amplificar vozes marginalizadas e por permitir formas de comunicação que contornam os gatekeepers (controladores de acesso) tradicionais (Bennett & Segerberg, 2012). No entanto, a investigação demonstra que a visibilidade online continua a ser desigual e condicionada por hierarquias de poder preexistentes (Cammaerts, 2015). As plataformas digitais operam no âmbito de economias da atenção, em que a visibilidade depende não apenas das potencialidades tecnológicas, mas também da filtragem algorítmica, da ressonância emocional e da validação por parte de atores influentes (Gillespie, 2018; Poell & van Dijck, 2015).
9Investigação recente sugere que a incorporação de mecanismos de participação digital nem sempre conduz a um maior envolvimento do público ou a uma maior visibilidade. Um estudo sobre sites noticiosos portugueses de grande audiência não identificou uma relação direta entre o número de ferramentas participativas e os níveis de interação dos utilizadores; pelo contrário, o público envolveu-se mais com os média que percecionava como credíveis e de relevância jornalística. O que sugere que a visibilidade nos espaços digitais depende menos de características técnicas e mais da confiança estabelecida, da autoridade da marca e dos hábitos dos utilizadores. Estes resultados sustentam a ideia de que os públicos digitais não estão igualmente capacitados, mesmo quando as plataformas aparentam oferecer mais oportunidades de participação (Sixto-García et al., 2024).
10Outros estudos demonstram que a visibilidade digital é determinada pelas práticas de comunicação. Joynes e Vijay Kumar (2025) evidenciam o uso de plataformas digitais por atores institucionais e estatais para estabelecer credibilidade, contextualizar seletivamente narrativas e gerir a perceção do público. Este estudo revela que a visibilidade online não depende apenas da estrutura das plataformas, mas também do esforço coordenado de comunicação. Isto reforça a ideia de que os públicos digitais continuam organizados hierarquicamente, mesmo em contextos que aparentam ser abertos e participativos.
11Na Índia, estas desigualdades são particularmente evidentes. Arora (2019) sublinha que a narrativa da “Índia digital” oculta divisões profundas relacionadas com casta, classe e geografia. Udupa (2019) mostra que os espaços digitais privilegiam utilizadores metropolitanos, de castas superiores e falantes de hindi ou inglês, marginalizando frequentemente o ativismo expresso em línguas regionais. Sindakis e Showkat (2024) demonstram também que movimentos rurais e costeiros deparam-se com limitações de infraestruturas, reconhecimento restrito e barreiras linguísticas, fatores que diminuem a sua visibilidade. Estes resultados sugerem que as plataformas digitais não são espaços neutros, mas arenas contestadas, onde a visibilidade é desigual e deve ser ativamente conquistada.
12Estes fatores são determinantes para compreender os protestos em Kudankulam e Thoothukudi. Embora ambos os movimentos tenham recorrido aos média digitais, diferenças de localização, língua, acesso a infraestruturas e proximidade de atores institucionais traduziram-se em pontos de partida desiguais na esfera pública digital.
13A visibilidade nos espaços digitais depende não só do acesso, mas também da forma como os protestos são enquadrados emocional e narrativamente. As narrativas influenciam a legitimidade, a empatia e a ligação do público, determinando se um movimento cresce ou se desvanece (Papacharissi, 2015; Waisbord, 2013; Waisbord & Mellado, 2014). O conceito de “públicos afetivos”, de Papacharissi (2015), sublinha que conteúdos emocionalmente intensos (tristeza, indignação ou esperança) podem reunir utilizadores em comunidades de apoio.
14Para os movimentos ambientais, a comunicação emocional é crucial, uma vez que os danos ecológicos são frequentemente invisíveis ou manifestam-se durante longos períodos. Riscos abstratos, como radiação, geram menor envolvimento emocional (McDonald, 2013; Nelkin, 1981), enquanto imagens de sofrimento ou repressão despertam um sentido de urgência e incentivam a partilha rápida. Tufekci (2017) argumenta que protestos digitais bem-sucedidos destacam as suas causas ao partilhar histórias de injustiça e sacrifício. A narrativa emocional, recorrendo a hashtags, imagens de mártires ou vídeos virais, é fundamental para alcançar visibilidade (Papacharissi, 2015; Waisbord, 2011). Por outro lado, movimentos que se baseiam em mensagens técnicas ou orientadas por especialistas dificilmente geram empatia imediata (Gamson & Modigliani, 1989; McDonald, 2013).
15A investigação sobre justiça ambiental revela que os danos ecológicos afetam desproporcionalmente comunidades marginalizadas, definidas por casta, classe, etnia e localização geográfica (Nixon, 2011; Schlosberg, 2007). Nixon (2011) refere-se a este fenómeno como “violência lenta”. Este tipo de dano ocorre frequentemente de forma gradual e impercetível, dificultando a captação de atenção num panorama mediático acelerado, focado em crises urgentes.
16A investigação pós-colonial destaca que projetos de desenvolvimento apoiados pelo Estado, como a infraestrutura nuclear, recebem muitas vezes cobertura mediática positiva ou acrítica, ignorando frequentemente pontos de vista contrários (Reddy, 2019). Por outro lado, protestos ambientais que se articulam com narrativas globais sobre responsabilidade corporativa tendem a receber maior atenção. Os média convencionais desempenham um papel fundamental na legitimação destes movimentos. Como argumentam Hutchins e Lester (2006), as lutas de base ganham reconhecimento ao se integrarem no “espaço dos fluxos mediáticos” (p. 437).
17A investigação sobre ativismo transfronteiriço demonstra como redes de ativistas recorrem a estratégias simbólicas, informativas e de influência para elevar questões locais a uma proeminência internacional (Keck & Sikkink, 2014). Movimentos digitais recentes sublinham também a importância crescente de influenciadores e celebridades na divulgação das mensagens dos protestos. Por exemplo, durante o protesto dos agricultores na Índia, a participação de figuras públicas aumentou significativamente a visibilidade global e aproximou as preocupações locais das audiências internacionais (Mishra et al., 2021). Estes estudos destacam a importância dos sistemas mediáticos, das redes de defesa de interesses e das figuras de destaque na determinação de que movimentos ambientais recebem reconhecimento.
18Os estudos pós-coloniais da comunicação salientam que os sistemas mediáticos globais organizam-se de forma hierárquica, privilegiando as línguas dominantes e os centros urbanos, relegando para segundo plano as vozes de regiões marginalizadas (Thussu, 2000, 2009). Em países multilíngues como a Índia, as hierarquias territoriais e linguísticas cruzam-se, produzindo formas de apagamento simbólico. Protestos expressos sobretudo em tâmil ou noutras línguas regionais podem ser claros a nível local, mas permanecem maioritariamente invisíveis nas escalas nacional e global, a menos que sejam traduzidos ou mediados por atores bilingues (Arora, 2019; Udupa, 2019).
19Sundar (2016) sublinha que a exclusão simbólica não se manifesta apenas através de uma cobertura limitada, mas reflete também uma incapacidade mais profunda de reconhecer as lutas regionais como reivindicações legítimas de cidadania. Em contrapartida, conteúdos produzidos em inglês ou em formatos bilingues tendem a alcançar uma circulação mais ampla, a estabelecer ligações com redes diaspóricas e com os média internacionais, reforçando, assim, hierarquias sociais e territoriais já existentes.
20A desigualdade territorial não é apenas uma lacuna comunicacional; reflete hierarquias simbólicas mais profundas. A investigação sobre branding territorial urbano mostra como a comunicação digital contribui para a construção de representações simbólicas dos territórios. Uma análise dos vídeos de branding de São Paulo, produzidos entre 2014 e 2019, revela que as autoridades municipais mobilizaram consistentemente temas como o multiculturalismo, a identidade cosmopolita, a diversidade cultural e a abertura. Estas narrativas procuraram posicionar a cidade como uma referência nacional, mesmo num contexto de mudanças na liderança política. Estes resultados ilustram como a comunicação planeada sustenta narrativas simbólicas estáveis sobre os locais, reforçando a sua posição no seio de hierarquias territoriais mais amplas (Andrade, Sampaio, Garcia, Cairrão, et al., 2024). O conceito de “poder simbólico”, de Bourdieu (1991), explica por que razão algumas regiões e identidades ganham legitimidade, enquanto outras não. Tais assimetrias dificultam a emergência de movimentos em territórios rurais e costeiros, como Kudankulam.
21A investigação sobre governação urbana demonstra ainda que a comunicação digital influencia a identidade territorial e o poder simbólico para além dos contextos de protesto. Estudos sobre governos municipais brasileiros mostram como as estratégias digitais articulam o envolvimento dos cidadãos com o branding territorial (Andrade, Sampaio, Garcia, & Fonseca, 2024), apresentando as cidades como espaços atrativos e ligados, enquanto gerem ativamente a sua imagem pública. Isto sugere que a visibilidade digital não se limita à circulação de informação, mas constitui um processo simbólico, que permite a perceção e valorização dos territórios. Estes contributos sustentam a ideia de que a comunicação digital desempenha um papel central na produção de legitimidade territorial — seja através de iniciativas de branding promovidas pelo Estado, seja, como se observa neste estudo, por meio de protestos de base que reconfiguram as perceções sobre regiões específicas.
22Embora a investigação existente forneça contributos relevantes sobre ativismo digital, mobilização emocional, justiça ambiental e poder simbólico, são raros os estudos que comparam movimentos de protesto dentro da mesma língua e cultura, mas que diferem nos seus níveis de visibilidade digital. Esta lacuna é particularmente significativa em contextos pós-coloniais multilingues, como a Índia, onde desigualdades territoriais, hierarquias linguísticas e legitimidade simbólica influenciam a forma como as lutas ambientais são reconhecidas. O presente estudo analisa os movimentos de Kudankulam e Thoothukudi, dois protestos originários do mesmo estado, com a mesma base cultural e comunidade linguística. Oferece uma comparação única, ao mostrar que os resultados em termos de visibilidade variam não devido a diferenças culturais, mas por alterações no enquadramento simbólico, no posicionamento territorial, no acesso a recursos e no impacto emocional. Esta análise enriquece a investigação sobre o ativismo digital na Índia, evidenciando como a desigualdade territorial opera num espaço cultural partilhado, convertendo-se em resultados comunicacionais assimétricos mesmo para movimentos que abordam questões ecológicas semelhantes.
23Este estudo apresenta um enquadramento teórico centrado na visibilidade digital e nas desigualdades territoriais, para explicar os diferentes níveis de visibilidade digital alcançados pelo movimento antinuclear de Kudankulam e pelo protesto anti-Sterlite de Thoothukudi. O enquadramento articula cinco áreas de investigação: ativismo digital, justiça ambiental, framing (enquadramento) mediático, gatekeeping (mecanismos de controlo de acesso) digital e poder simbólico. Este quadro analítico permite compreender de que modo as práticas comunicacionais interagem com a língua, a geografia e a política na configuração da visibilidade das lutas territoriais.
24A investigação sobre ativismo digital destaca a emergência da ação conectiva, na qual a participação ocorre através de práticas em rede — como hashtags, retweets e narrativas digitais — em vez de formas de liderança centralizadas (Bennett & Segerberg, 2012). Estas interações contribuem para a formação de comunidades emocionais baseadas em narrativas fortes (Papacharissi, 2015). No entanto, a visibilidade no seio destes espaços é desigual. Os algoritmos das plataformas, as lacunas de infraestruturas e as hierarquias sociais condicionam quais são as vozes que alcançam maior projeção pública (Cammaerts, 2015; Udupa, 2019). Deste modo, movimentos enraizados em contextos rurais e expressos em línguas regionais em Tamil Nadu tendem a encontrar obstáculos na projeção junto de públicos nacionais e globais, apesar do forte apoio local.
25A perspetiva da justiça ambiental insere estes protestos num contexto mais amplo de desigualdades na forma como os danos ecológicos são percecionados e articulados. O enquadramento de Schlosberg (2007), que distingue dimensões distributivas, processuais e de reconhecimento da justiça, mostra que as comunidades afetadas procuram não apenas proteção face aos danos, mas também reconhecimento e uma participação equitativa nos processos de decisão. O conceito de “violência lenta”, proposto por Nixon (2011), ajuda a explicar por que razão os riscos nucleares de longo prazo em Kudankulam suscitaram pouca atenção, enquanto a violência policial imediata e visível em Thoothukudi desencadeou uma indignação generalizada. Deste modo, a visibilidade emerge como uma questão simultaneamente de justiça ambiental e de justiça comunicacional, com impacto na perceção sobre que danos são considerados urgentes e quais tendem a ser negligenciados.
26A teoria do framing (enquadramento) revela de que maneira as interpretações influenciam a perceção pública dos eventos. Frames (enquadramentos) que destacam sofrimento visível, injustiça e urgência moral tendem a circular mais facilmente nos ambientes digitais do que mensagens técnicas ou abstratas (Entman, 1993; Waisbord, 2011). Esta diferença torna-se evidente ao comparar as discussões técnicas sobre radiação associadas a Kudankulam com as narrativas emocionalmente intensas sobre os danos corporativos e a violência estatal no caso de Thoothukudi. Este contraste ilustra como o framing afeta tanto o envolvimento do público como a legitimidade percecionada dos protestos.
27Embora as plataformas digitais aumentem as possibilidades de participação, os mecanismos de gatekeeping continuam a influenciar a visibilidade. A hierarquização algorítmica promove conteúdos com elevados níveis de envolvimento, enquanto os média tradicionais podem amplificar ou ignorar determinados movimentos. Gatekeepers em rede — como jornalistas, influenciadores e organizações não governamentais — desempenham um papel decisivo na definição das causas que recebem atenção pública (Napoli, 2019). Para os protestos de base, a visibilidade depende não apenas da participação, mas também da adequação das suas narrativas à lógica das plataformas e do apoio de figuras com capital simbólico.
28O poder simbólico (Bourdieu, 1991) revela as hierarquias sociais mais profundas que determinam quem é reconhecido como interlocutor legítimo no espaço público. Na Índia, o poder simbólico está estreitamente ligado à política da língua (Thussu, 2009). Movimentos que se expressam predominantemente em tâmil, sem tradução para inglês ou hindi, são frequentemente excluídos dos média nacionais (Sundar, 2016). Além disso, protestos contra projetos industriais ou nucleares apoiados pelo Estado tendem a ser rotulados como “antipatrióticos”, enquanto movimentos que se opõem a empresas privadas se articulam mais facilmente com frames globais de responsabilidade corporativa e racismo ambiental. Estas diferenças nos recursos simbólicos ajudam a explicar por que razão Thoothukudi alcança um reconhecimento mais amplo do que Kudankulam.
29A Figura 1 sintetiza este enquadramento. No centro encontram-se os conceitos de “visibilidade digital” e “desigualdades territoriais”. Em torno destes articulam-se cinco dimensões interligadas: “ativismo digital” (ação conetiva e públicos afetivos), “justiça ambiental” (dimensões distributiva, processual e de reconhecimento), “framing” (ressonância emocional e narrativa), “gatekeeping” (algorítmico, institucional e em rede) e “poder simbólico” (língua e legitimidade). Em conjunto, estes conceitos explicam por que razão dois protestos oriundos de contextos regionais e linguísticos semelhantes produziram níveis significativamente distintos de visibilidade digital.
Figura 1. Enquadramento teórico integrado — visibilidade digital e desigualdade territorial
30Este estudo procura explicar por que razão dois protestos ambientais de base popular em Tamil Nadu — o movimento antinuclear de Kudankulam e o movimento anti-Sterlite de Thoothukudi — alcançaram níveis distintos de visibilidade digital, apesar de partilharem objetivos semelhantes no domínio da justiça ambiental. Orientada por um enquadramento interdisciplinar, a investigação define quatro objetivos:
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identificar os fatores comunicativos e simbólicos que influenciam a visibilidade dos protestos;
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avaliar de que modo as narrativas são enquadradas a nível emocional, simbólico e digital;
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investigar as perceções do público relativamente a essas narrativas nas redes sociais; e
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analisar o papel do poder simbólico, dos mecanismos de gatekeeping e das dinâmicas das plataformas na amplificação ou marginalização das vozes de base popular.
31Uma análise quantitativa de conteúdo de 400 publicações testa seis hipóteses, conforme apresentado na Tabela 1.
Tabela 1. Hipóteses, dimensões analíticas, premissas e foco
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Dimensão analítica
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Hipótese
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Pressuposto /fundamentação
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Foco
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Ativismo digital e públicos afetivos
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H1: as publicações de Thoothukudi obtiveram níveis de envolvimento significativamente superiores aos de Kudankulam.
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O envolvimento reflete a atenção pública; acontecimentos dramáticos, como a violência do Estado, potenciam a viralidade (Tufekci, 2017).
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Métricas das plataformas: gostos, partilhas, comentários.
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H2: as publicações de Thoothukudi revelam maior intensidade emocional do que as de Kudankulam.
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Os públicos afetivos formam-se em torno do luto, da raiva e da indignação (Papacharissi, 2015).
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Tom emocional do texto, das legendas e dos hashtags.
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Framing e ressonância emocional
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H3: as publicações de Thoothukudi recorrem mais frequentemente a imagens simbólicas do que as de Kudankulam.
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Elementos visuais, como imagens de mártires ou velas, evocam testemunho moral e empatia, ao contrário de imagens técnicas associadas à energia nuclear (Cammaerts, 2015).
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Conteúdos de imagem/
vídeo: simbólicos versus técnicos.
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H5: as publicações que combinam elevada intensidade emocional com frames de injustiça geram maior envolvimento.
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A viralidade é influenciada por frames de injustiça com forte ressonância emocional (Gillespie, 2018; Poell & van Dijck, 2015).
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Interação entre emoção, frame de injustiça e níveis de envolvimento.
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Gatekeeping e poder simbólico
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H4: contas verificadas e organizações mediáticas amplificaram mais o protesto de Thoothukudi do que o de Kudankulam.
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O poder simbólico e o gatekeeping em rede amplificam algumas lutas mais do que outras (Bourdieu, 1991; Napoli, 2019).
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Credibilidade da fonte: utilizadores verificados, jornalistas, organizações não governamentais.
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H6: as publicações de Thoothukudi recorrem mais frequentemente a framings e hashtags internacionais do que as de Kudankulam.
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Frames transnacionais (crime corporativo, direitos humanos) tendem a obter maior visibilidade do que discursos centrados na segurança do Estado (Costanza-Chock, 2012).
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Uso de hashtags internacionais e referências a normas globais.
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32Em conjunto, estas hipóteses abrangem as dimensões narrativas, simbólicas e de amplificação da visibilidade dos protestos digitais.
33Este estudo recorre a uma metodologia mista, convergente e concomitante (Creswell & Clark, 2017), para explicar por que razão o movimento antinuclear de Kudankulam e o protesto anti-Sterlite de Thoothukudi alcançaram níveis distintos de visibilidade digital. Os padrões quantitativos da análise de conteúdo e a interpretação qualitativa das perceções da audiência foram recolhidos de forma simultânea e integrada, permitindo captar tanto as dinâmicas estruturais como os significados atribuídos às narrativas de protesto.
34A conceção convergente permite recolher dados quantitativos e qualitativos de forma simultânea, analisando-os separadamente e integrando-os posteriormente para explorar convergências ou divergências (Creswell & Clark, 2017). Esta abordagem é particularmente adequada a contextos de protesto pós-coloniais, onde a visibilidade numérica e o reconhecimento experiencial frequentemente divergem (Couldry, 2010; Udupa, 2019).
35O conjunto final de dados incluiu 400 publicações originais, 200 de cada protesto, com um número igual de publicações no X (200) e no Facebook (200). As publicações foram recolhidas nos períodos de maior atividade dos protestos (2011–2013 e 2018), utilizando hashtags relacionadas com os protestos (#StopSterlite, #JusticeForThoothukudi, #StopKudankulam, #Idinthakarai). Foram incluídas apenas publicações com conteúdo significativo gerado pelos utilizadores; foram excluídos retweets sem comentário, duplicados e material irrelevante. As publicações em tâmil representaram 57% do conjunto de dados, enquanto as em inglês correspondiam a 43%. Considerou-se que uma amostra de 400 publicações seria suficiente, uma vez que a saturação da codificação ocorreu cerca das 350 publicações, em linha com os padrões de análise de conteúdos digitais (Krippendorff, 2018; Neuendorf, 2010).
36As categorias de codificação incluíram: métricas de envolvimento (gostos, partilhas, retweets, comentários), tom emocional (raiva, luto, orgulho, medo), framing (injustiça, danos corporativos, antinacional), elementos visuais (imagens de mártires, gráficos técnicos, ícones simbólicos) e tipo de fonte (utilizador comum, ativista, jornalista, conta verificada).
37Todas as variáveis foram definidas conforme os métodos padrão de análise de conteúdos digitais (Krippendorff, 2018; Neuendorf, 2010). O envolvimento foi medido através da contagem de gostos, partilhas, retweets e comentários (Papacharissi, 2015). O tom emocional registou os sentimentos predominantes — raiva, tristeza, orgulho e medo —, enquanto a intensidade emocional foi classificada numa escala de 3 pontos, desde neutro/técnico até altamente expressivo (Tufekci, 2017). Por sua vez, o framing determinou o ângulo interpretativo principal da publicação, destacando injustiça, danos corporativos ou temáticas antinacionais, com base no modelo de Entman (1993). A força do frame avaliou a clareza, de 1 (fraca) a 3 (forte), com que a publicação expressava o problema, a causa e a reivindicação. Os elementos visuais incluíram imagens de mártires, gráficos técnicos, ícones simbólicos ou conteúdos apenas em texto. O tipo de fonte categorizou as publicações como provenientes de utilizadores comuns, ativistas/organizações não governamentais, jornalistas/média ou contas verificadas (Bennett & Segerberg, 2012).
38Para controlar efeitos específicos das plataformas, o tipo de plataforma (X e Facebook) foi incluído como variável de controlo em todos os modelos de regressão, assegurando que os efeitos sobre o envolvimento não fossem distorcidos por diferenças nas funcionalidades ou nos algoritmos. Foram ainda consideradas outras variáveis estruturais conhecidas por influenciar a visibilidade, incluindo língua (tâmil/inglês), tipo de média (texto, imagem, vídeo), horário da publicação e dimensão da conta, transformada logaritmicamente (número de seguidores). A fiabilidade da codificação destas variáveis foi elevada (κ ≥ 0,82), evidenciando forte consistência.
39Contudo, não foi possível aceder a dados sobre promoção paga nem métricas de amplificação algorítmica de publicações mais antigas em ambas as plataformas. Esta limitação pode explicar algumas diferenças de alcance e envolvimento e é aqui claramente reconhecida.
40Para complementar a análise de conteúdo, foram realizadas entrevistas semiestruturadas para examinar as perceções da audiência. A questão orientadora é a seguinte: como é que os utilizadores das redes sociais percecionam, respondem emocionalmente e interpretam as narrativas digitais dos protestos de Kudankulam e de Thoothukudi?
41Este eixo qualitativo permite compreender de que modo as audiências digitais participam na construção da visibilidade, situando a comunicação dos protestos em hierarquias mais amplas de reconhecimento em contextos pós-coloniais (Couldry, 2010; Papacharissi, 2015).
42Os participantes foram recrutados através de uma amostragem intencional, utilizando fóruns de ativismo digital em tâmil, grupos de Facebook e redes de WhatsApp. Para serem elegíveis, era necessário que tivessem (a) uma utilização ativa das redes sociais durante os períodos de protesto e (b) envolvimento prévio com conteúdos relacionados com Kudankulam ou Thoothukudi. Um total de 30 participantes (idades entre 18 e 55 anos), oriundos de contextos rurais e urbanos, reuniu estes critérios.
43As entrevistas semiestruturadas, com duração de 30 a 60 minutos e conduzidas em tâmil ou inglês, exploraram tópicos como visibilidade percebida, ligação emocional, confiança nas fontes, preferências linguísticas e práticas de envolvimento. Os dados foram analisados tematicamente, seguindo o enquadramento de Braun e Clarke (2006), com o apoio do software NVivo 15. Desta análise, emergiram cinco temas principais: visibilidade, ligação emocional, interpretação narrativa, confiança e barreiras estruturais.
44Todos os procedimentos respeitaram as normas éticas aplicáveis à investigação digital. Apenas foram utilizadas publicações de acesso público, sem registo de qualquer identificador pessoal. Os participantes das entrevistas deram consentimento informado e todas as transcrições foram anonimizadas.
45A análise quantitativa incidiu sobre a forma como o conteúdo dos protestos se difundiu, gerou envolvimento e foi enquadrado nas plataformas digitais. A análise qualitativa centrou-se na forma como os públicos interpretaram e se envolveram emocionalmente com estas narrativas. A triangulação foi alcançada através de uma matriz de apresentação conjunta, que comparou indicadores quantitativos — como níveis de envolvimento, intensidade emocional, elementos visuais simbólicos e presença de contas verificadas — com perceções qualitativas sobre visibilidade, sentido de urgência, confiança e supressão.
46A convergência verificou-se quando o conteúdo emocionalmente intenso e simbólico de Thoothukudi correspondia a métricas de maior envolvimento. A divergência surgiu nas perceções dos participantes sobre a supressão algorítmica, que não era evidente nos dados de envolvimento das plataformas. Esta triangulação de métodos mistos reforça esta análise, explicando não só o que estava visível online, mas também por que certas narrativas tiveram eco junto de alguns públicos, enquanto outras permaneceram marginais.
47Este estudo testou seis hipóteses (H1–H6) recorrendo a testes t para amostras independentes, testes do qui-quadrado e modelos de regressão múltipla. Para cada hipótese, foram avaliadas uma hipótese nula (H0) e uma hipótese alternativa (H1).
48H0: não existe uma diferença estatisticamente significativa no envolvimento médio (gostos/reações, partilhas/retweets e comentários) entre as publicações sobre Kudankulam e Thoothukudi.
49H1: as publicações de Thoothukudi registam níveis de envolvimento significativamente superiores aos de Kudankulam.
50Os testes t para amostras independentes revelaram diferenças estatisticamente significativas nos níveis de envolvimento entre os dois protestos (Tabela 2). As publicações relativas a Thoothukudi apresentaram médias substancialmente mais elevadas em todas as três métricas: gostos/reações (M = 372,23; DP = 294,36), partilhas/retweets (M = 293,36; DP = 275,58) e comentários (M = 44,94; DP = 105,72). Por outro lado, as publicações sobre Kudankulam registaram níveis de envolvimento significativamente mais baixos: gostos/reações (M = 6,38; DP = 12,12), partilhas/retweets (M = 11,42; DP = 38,53) e comentários (M = 3,68; DP = 11,44).
Tabela 2. Resultados dos testes t para amostras independentes das métricas de envolvimento (H1)
|
Métrica
|
Protesto
|
N
|
Média
|
Desviopadrão
|
t (gl)
|
valor de p
|
d de
Cohen
|
|
Gostos/reações
|
Kudankulam
|
199
|
6,38
|
12,12
|
-17,52 (327)
|
< 0,001
|
-1,98
|
|
Thoothukudi
|
130
|
372,23
|
294,36
|
|
|
|
|
Partilhas/retweets
|
Kudankulam
|
200
|
11,42
|
38,53
|
-14.27 (330)
|
< 0,001
|
-1,60
|
|
Thoothukudi
|
132
|
293,36
|
275,58
|
|
|
|
|
Comentários
|
Kudankulam
|
200
|
3,68
|
11,44
|
-5.49 (394)
|
< 0,001
|
-0,55
|
|
Thoothukudi
|
196
|
44,94
|
105,72
|
|
|
|
51Os testes t confirmaram estas diferenças: gostos/reações: t(327) = -17,52, p < 0,001, d = -1,98; partilhas/retweets: t(330) = -14,27, p < 0,001, d = -1,60; comentários: t(394) = -5,49, p < 0,001, d = -0,55. As dimensões do efeito foram elevadas para gostos/reações e partilhas/retweets, e moderadas para comentários. Assim, a hipótese nula (H0) é rejeitada. As publicações sobre Thoothukudi geraram significativamente mais envolvimento, evidenciando o impacto simbólico desigual das narrativas dos dois protestos.
52H0: a distribuição da intensidade emocional (baixa, moderada, elevada) não difere significativamente entre os dois protestos.
53H2: as publicações sobre Thoothukudi apresentam uma intensidade emocional significativamente superior às de Kudankulam.
54O teste do qui-quadrado de independência revelou uma associação forte e estatisticamente significativa entre o tipo de protesto e a intensidade emocional, χ²(2, N = 400) = 113,26, p < 0,001. Mais de metade das publicações relativas ao protesto de Thoothukudi (51%) enquadraram-se na categoria de intensidade “elevada”, que incluiu expressões de luto, raiva e indignação, bem como apelos à justiça. Por outro lado, a maioria das publicações sobre Kudankulam situou-se nas categorias de “baixa” (44%) e “moderada” (47,5%) intensidade emocional, com apenas 8,5% classificadas como de intensidade “elevada” (Tabela 3 e Tabela 4).
Tabela 3. Tabela de contingência entre protesto e intensidade emocional (H2)
|
Nome do protesto
|
Baixa
|
Moderada
|
Elevada
|
Total
|
|
Kudankulam
|
88
|
95
|
17
|
200
|
|
Thoothukudi
|
15
|
83
|
102
|
200
|
|
Total
|
103
|
178
|
119
|
400
|
Tabela 4. Resultados do teste do qui-quadrado para a intensidade emocional (H2)
|
Estatística de teste
|
Valor
|
Graus de liberdade
|
Significância (bilateral)
|
|
Qui-quadrado de Pearson
|
113,261
|
2
|
< 0,001
|
|
Razão de verosimilhança
|
125,458
|
2
|
< 0,001
|
|
Número de casos válidos
|
400
|
|
|
55Assim, H0 é rejeitada e a H2 é aceite. As publicações sobre Thoothukudi exibiram uma intensidade emocional significativamente superior às de Kudankulam.
56H0: a presença de elementos visuais simbólicos não está associada ao tipo de protesto.
57H3: os elementos visuais simbólicos surgem significativamente mais nas publicações sobre Thoothukudi do que nas de Kudankulam.
58O teste do qui-quadrado de independência revelou uma associação altamente significativa entre o tipo de protesto e o uso de elementos visuais simbólicos, χ²(1, N = 400) = 65,13, p < 0,001, φ = 0,40. Elementos visuais simbólicos estão presentes em 34,5% das publicações sobre Thoothukudi, em comparação com apenas 3% das publicações sobre Kudankulam. A discrepância é expressiva: cerca de uma em cada três publicações sobre Thoothukudi recorreu a imagens simbólicas — como retratos de mártires, procissões fúnebres ou ícones religiosos —, ao passo que este tipo de elemento visual esteve praticamente ausente no repertório digital de Kudankulam (Tabela 5 e Tabela 6).
Tabela 5. Tabela de contingência entre protesto e presença de elementos visuais simbólicos (H3)
|
Protesto
|
Elementos visuais ausentes
|
Elementos visuais presentes
|
Total
|
|
Kudankulam
|
194
|
6
|
200
|
|
Thoothukudi
|
131
|
69
|
200
|
|
Total
|
325
|
75
|
400
|
Tabela 6. Resultados do teste do qui-quadrado para elementos visuais simbólicos (H3)
|
Teste
|
Valor
|
Graus de liberdade
|
Significância (bilateral)
|
|
Qui-quadrado de Pearson
|
65,132
|
1
|
< 0,001
|
|
Correção de continuidade
|
63,081
|
1
|
< 0,001
|
|
Razão de verosimilhança
|
74,447
|
1
|
< 0,001
|
|
Casos válidos
|
400
|
|
|
59Deste modo, H0 é rejeitada e a hipótese alternativa é aceite. Os elementos visuais simbólicos foram substancialmente mais frequentes nas publicações sobre Thoothukudi.
60H0: as contas verificadas e associadas aos média publicaram de forma equivalente sobre ambos os protestos.
61H4: as contas verificadas e associadas aos média publicaram substancialmente mais sobre o protesto de Thoothukudi do que sobre o de Kudankulam.
62O teste do qui-quadrado de independência revelou uma associação estatisticamente significativa entre o tipo de protesto e a presença de publicações provenientes de contas verificadas ou associadas aos média, χ²(1, N = 400) = 39,81, p < 0,001, φ = 0,32. Entre as publicações sobre Thoothukudi, 68,5% foram feitas por utilizadores verificados ou atores institucionais (como jornalistas, organizações não governamentais ou órgãos de comunicação social), em contraste com apenas 37% das publicações sobre Kudankulam (Tabela 7 e Tabela 8).
Tabela 7. Tabela de contingência entre protesto e tipo de conta (H4)
|
Protesto
|
Utilizadores não verificados/ comuns
|
Contas verificadas/ média
|
Total
|
|
Kudankulam
|
126
|
74
|
200
|
|
Thoothukudi
|
63
|
137
|
200
|
|
Total
|
189
|
211
|
400
|
Tabela 8. Resultados do teste do qui-quadrado para contas verificadas (H4)
|
Teste
|
Valor
|
Graus de liberdade
|
Significância (bilateral)
|
|
Qui-quadrado de Pearson
|
39,810
|
1
|
< 0,001
|
|
Correção de continuidade
|
38,557
|
1
|
< 0,001
|
|
Razão de verosimilhança
|
40,508
|
1
|
< 0,001
|
|
Casos válidos
|
400
|
|
|
63Estes resultados indicam uma disparidade substancial nos atores que amplificaram cada protesto no espaço digital. A hipótese nula é rejeitada e a H4 é confirmada, evidenciando o papel central do gatekeeping na comunicação dos protestos. As contas verificadas e os média amplificaram o protesto de Thoothukudi de forma significativamente mais intensa do que o de Kudankulam.
64H0: a intensidade emocional e a força do frame não predizem de forma significativa o envolvimento (gostos/reações, partilhas/retweets, comentários).
65H5: a intensidade emocional e/ou a força do frame predizem de forma significativa o envolvimento.
66Foram estimados três modelos de regressão múltipla, tendo como variáveis dependentes os gostos/reações, as partilhas/retweets e os comentários. As variáveis independentes foram a pontuação de intensidade emocional e a pontuação de força do frame.
67O primeiro modelo revelou-se estatisticamente significativo (F = 16,03; p < 0,001), indicando que a intensidade emocional e a força do frame explicam conjuntamente uma parte relevante da variação nos gostos e reações (Tabela 9). O valor de R² foi de 0,084, o que significa que cerca de 8,4% da variância nos gostos e reações é explicada por estes dois fatores. Embora este valor possa parecer modesto, é considerado significativo em estudos sobre redes sociais, onde o envolvimento é influenciado por múltiplos fatores externos, como algoritmos, redes de circulação e temporalidade das publicações. A intensidade emocional apresentou um efeito positivo e estatisticamente significativo (B = 88,22, β = 0,245, t = 3,19, p = 0,002), indicando que o aumento da intensidade emocional está associado a um maior número de gostos e reações. Em termos substantivos, publicações com maior carga emocional tendem a receber mais aprovação por parte do público. A força do frame, por sua vez, não revelou um efeito significativo (B = 24,30, β = 0,070, t = 0,91, p = 0,364), sugerindo que a clareza ou robustez do enquadramento não prediz de forma relevante este tipo de envolvimento. Assim, a hipótese nula é rejeitada apenas parcialmente: a intensidade emocional é um preditor significativo do envolvimento, ao passo que a força do frame não o é.
Tabela 9. Resultados da regressão para gostos/reações
|
Preditor
|
B
|
Erropadrão
|
Beta
|
t
|
p
|
|
Intensidade emocional
|
88,22
|
27,66
|
0,245
|
3,19
|
0,002
|
|
Força do frame
|
24,30
|
26,72
|
0,070
|
0,91
|
0,364
|
Nota. Ajustamento do modelo: R² = 0,084, F(2, 326) = 16.03, p < 0,001.
68Os resultados da regressão da Tabela 10 indicam que a intensidade emocional tem uma forte relação preditiva com o número de partilhas/retweets. O coeficiente positivo (B = 113,18, β = 0,373, t = 4,95, p < 0,001) mostra que publicações com emoções fortes, como raiva, luto ou indignação, têm uma probabilidade significativamente maior de serem partilhadas. Por outro lado, a força do frame não teve um efeito significativo (B = -7,01, β = -0,023, t = -0,31, p = 0,760), o que sugere que a persuasão ou clareza argumentativa não influenciam o comportamento de partilha. O modelo global foi estatisticamente significativo (F(2, 329) = 23,99, p < 0,001) e explicou 12,7% da variância nas partilhas/retweets (R² = 0,127). Estes resultados indicam que os sinais emocionais são mais determinantes na circulação de conteúdos nas redes sociais do que a estrutura do argumento.
Tabela 10. Resultados da regressão para partilhas/retweets
|
Preditor
|
B
|
Erropadrão
|
Beta
|
t
|
p
|
|
Intensidade emocional
|
113,18
|
22,88
|
0,373
|
4,95
|
< 0,001
|
|
Força do frame
|
-7,01
|
22,90
|
-0,023
|
-0,31
|
0,760
|
Nota. Ajustamento do modelo: R² = 0,127, F(2, 329) = 23,99, p < 0,001.
69Os resultados da regressão apresentados na Tabela 11 demonstram que a intensidade emocional prevê a atividade de comentários. O coeficiente positivo (B = 34,70, β = 0,335, t = 4,71, p < 0,001) indica que publicações com emoções fortes, como raiva, luto ou solidariedade, receberam mais respostas por parte dos utilizadores. Por outro lado, a força do frame não teve um efeito significativo (B = -6,46, β = -0,060, t = -0,84, p = 0,400), sugerindo que a clareza ou persuasão da publicação não influenciou o comportamento de comentário. O modelo global foi significativo (F(2, 393) = 18,57, p < 0,001), e explica 8,6% da variância nos comentários (R² = 0,086). Estes resultados evidenciam que o apelo emocional é o principal motor do envolvimento em discussões nas redes sociais, mais do que o enquadramento argumentativo.
Tabela 11. Resultados da regressão para comentários
|
Preditor
|
B
|
Erropadrão
|
Beta
|
t
|
p
|
|
Intensidade emocional
|
34,70
|
7,37
|
0,335
|
4,71
|
< 0,001
|
|
Força do frame
|
-6,46
|
7,67
|
-0,060
|
-0,84
|
0,400
|
Nota. Ajustamento do modelo: R² = 0,086, F(2, 393) = 18.57, p < 0,001.
70De forma geral, os resultados indicam que a intensidade emocional apresenta um valor preditivo significativo para todas as formas de envolvimento analisadas: gostos e reações (p = 0,002), partilhas e retweets (p < 0,001) e comentários (p < 0,001). Por outro lado, a força do frame não exerce um efeito estatisticamente significativo sobre nenhuma das métricas de envolvimento (p = 0,364, 0,760 e 0,400, respetivamente). Assim, rejeita-se a hipótese nula (H0) no que respeita à intensidade emocional, mas mantém-se para a força do frame. A hipótese alternativa (H5) é, portanto, confirmada apenas no que diz respeito à intensidade emocional, sugerindo serem os estímulos emocionais — e não a estrutura argumentativa — que impulsionam o envolvimento dos utilizadores nas redes sociais.
71H0: as referências internacionais ocorrem igualmente em ambos os protestos.
72H6: as publicações sobre Thoothukudi contêm significativamente mais referências internacionais do que as de Kudankulam.
73A tabela de contingência e os resultados do teste do qui-quadrado mostram que, entre as 200 publicações por protesto, Kudankulam teve 12 publicações com referências internacionais, enquanto Thoothukudi teve 27. O teste de Pearson é estatisticamente significativo (χ² = 6,392, gl = 1, p = 0,011), com significância semelhante nos testes de correção de continuidade e razão de verosimilhança (Tabela 12 e Tabela 13). Estes resultados indicam que as referências internacionais não estão distribuídas de forma igual entre os dois protestos. Especificamente, as publicações sobre Thoothukudi contêm significativamente mais referências internacionais. Portanto, rejeita-se H0 e a hipótese alternativa (H6) é apoiada.
Tabela 12. Tabela de contingência de protesto e referências internacionais (H6)
|
Protesto
|
Sem referência internacional
|
Referência internacional
|
Total
|
|
Kudankulam
|
188
|
12
|
200
|
|
Thoothukudi
|
173
|
27
|
200
|
|
Total
|
361
|
39
|
400
|
Tabela 13. Resultados do teste do qui-quadrado para referências internacionais (H6)
|
Teste
|
Valor
|
Graus de liberdade
|
Significância (bilateral)
|
|
Qui-quadrado de Pearson
|
6,392
|
1
|
0,011
|
|
Correção de continuidade
|
5,569
|
1
|
0,018
|
|
Razão de verosimilhança
|
6,544
|
1
|
0,011
|
|
Casos válidos
|
400
|
|
|
74As hipóteses nulas foram rejeitadas para H1–H4 e H6, tendo-se verificado apoio parcial apenas para H5. Os resultados demonstram que a intensidade emocional, os elementos visuais simbólicos, a amplificação por contas verificadas e as referências internacionais contribuíram sistematicamente para a maior visibilidade digital de Thoothukudi. Por outro lado, o framing técnico de Kudankulam e os recursos simbólicos limitados resultaram num menor envolvimento e numa circulação algorítmica mais fraca. Estes resultados suportam a perspetiva de que a visibilidade digital não é incidental, mas estruturada por fatores emocionais, simbólicos e institucionais.
75Esta secção apresenta as principais descobertas da análise temática das entrevistas aos públicos. A análise revelou cinco temas dominantes, que ilustram como os participantes compreenderam, avaliaram e responderam emocionalmente aos dois movimentos de protesto nos espaços digitais. Estes temas emergiram das interpretações dos participantes e estão fundamentados no quadro teórico do estudo, que abrange ativismo digital, poder simbólico, framing mediático e justiça ambiental. Os resultados evidenciam ainda como as hierarquias territoriais, linguísticas e infraestruturais influenciaram a visibilidade desigual de Kudankulam e Thoothukudi online.
76Os participantes destacaram de forma consistente a desigual visibilidade entre os protestos de Thoothukudi e Kudankulam. Embora ambos abordassem questões urgentes de justiça ambiental e direitos humanos, Thoothukudi foi percecionado como altamente visível, sobretudo após o tiroteio policial que resultou na morte de 13 civis. Os participantes descreveram este acontecimento como um momento que “captou a atenção do país”. Vários entrevistados explicaram que Thoothukudi “parecia inevitável nas redes”, tendo um deles referido: “qualquer aplicação que eu abrisse, alguém tinha publicado algo sobre isso” (P12, homem, urbano, 24 anos, comunicação pessoal, 12 de maio de 2025).
77Por outro lado, Kudankulam foi amplamente percecionado como uma luta prolongada, sem um episódio dramático único, sendo por isso frequentemente ignorado pelos média nacionais. Os participantes referiram repetidamente que “quase não viam publicações sobre Kudankulam, a não ser que procurassem deliberadamente”, enquanto outros descreveram o protesto como “digitalmente silencioso” ou “invisível”. As proximidades espaciais e simbólicas influenciaram a visibilidade. Como afirmou uma participante, “os protestos urbano-industriais são notados; os das aldeias costeiras não” (P4, mulher, urbana, 33 anos, comunicação pessoal, 4 de abril de 2025). Na perspetiva dos públicos, a visibilidade depende não só da gravidade do problema, mas também da circulação mediática, dos algoritmos das plataformas e de economias de atenção centradas no espaço urbano.
78A intensidade emocional emergiu como um fator central do envolvimento dos públicos. Os entrevistados mostraram-se mais propensos a recordar, partilhar e discutir conteúdos que despertavam sentimentos fortes de raiva, luto ou solidariedade. As imagens poderosas associadas a Thoothukudi — incluindo retratos de mártires, cenas de funerais e representações da violência policial — desencadearam reações emocionais intensas, tornando o protesto imediato e pessoal. Como explicou um participante, “os disparos da polícia… atingiram-me emocionalmente. Foi por isso que partilhei de imediato” (P15, homem, urbano, 21 anos, comunicação pessoal, 16 de maio de 2025). Outro acrescentou: “havia luto em todo o lado nas publicações sobre Thoothukudi; era impossível ignorar” (P11, homem, rural, 35 anos, comunicação pessoal, 10 de maio de 2025).
79Por outro lado, Kudankulam recorreu sobretudo a elementos visuais de natureza técnica, como mapas e símbolos de radiação. Embora considerados informativos, estes conteúdos suscitaram menor envolvimento emocional. Uma participante observou: “Kudankulam era grave, mas as publicações eram demasiado técnicas. Não parecia urgente” (P7, mulher, rural, 32 anos, comunicação pessoal, 17 de abril de 2025). Esta diferença reforça a ideia de que a visibilidade do protesto em ambientes digitais depende não apenas de ser visto, mas também de produzir ressonância emocional.
80A clareza da narrativa e a escolha da língua revelaram-se determinantes para a compreensão e o envolvimento. Os participantes consideraram os conteúdos em tâmil mais autênticos e culturalmente próximos, o que favoreceu um sentimento de identificação. As publicações em inglês, por sua vez, permitiram uma circulação mais alargada. Contudo, muitos entrevistados descreveram essas versões como “higienizadas” ou “menos emocionais”.
81A clareza narrativa foi apontada como um elemento central: “Thoothukudi era simples — poluição corporativa, vítimas, disparos da polícia. A história era clara”, observou um participante (P10, homem, urbano, 30 anos, comunicação pessoal, 5 de maio de 2025). Já o enquadramento científico de Kudankulam exigia conhecimentos técnicos. Como explicou outro entrevistado, “as publicações falavam de radiação e de reatores; eu não compreendia totalmente o perigo” (P14, homem, rural, 38 anos, comunicação pessoal, 14 de maio de 2025). A clareza visual e as legendas concisas facilitaram a interpretação, ao passo que conteúdos abstratos ou excessivamente técnicos foram frequentemente ignorados.
82A confiança nas fontes de conteúdo influenciou os padrões de envolvimento. Utilizadores verificados, jornalistas e relatos de testemunhas oculares foram geralmente considerados credíveis, enquanto conteúdos percecionados como excessivamente emocionais ou não verificados suscitaram maior cautela. Como referiu um participante, “confiei mais nas publicações sobre Thoothukudi porque eram partilhadas por jornalistas e contas verificadas” (P12, comunicação pessoal, 12 de maio de 2025).
83O conteúdo relativo a Kudankulam circulou frequentemente em páginas locais, sem um reconhecimento mais amplo da sua credibilidade. “Algumas publicações sobre Kudankulam pareciam mensagens reenviadas. Não sabia o que era verdadeiro”, explicou um entrevistado (P6, homem, rural, 29 anos, comunicação pessoal, 13 de abril de 2025). O envolvimento também variou. Os utilizadores mais jovens interagiram de forma pública, comentando e partilhando, enquanto participantes mais velhos preferiram colocar “gosto” discretamente ou reenviar conteúdos em privado. Várias pessoas expressaram ainda a perceção de que o ativismo digital era “barulhento, mas vazio”, sugerindo uma confiança limitada na eficácia do envolvimento online.
84As desigualdades estruturais condicionaram a representação e o reconhecimento no espaço digital. Os participantes destacaram as dificuldades que as comunidades rurais, costeiras e minoritárias enfrentam para obter atenção, descrevendo Kudankulam como um caso de “negligência rural”, no qual os protestos foram frequentemente desvalorizados ou deslegitimados. Foram assinaladas diferenças marcadas entre contextos urbanos e rurais: “as pessoas na minha aldeia tinham uma ligação à internet instável. As informações sobre Kudankulam nunca circulavam rapidamente” (P8, homem, rural, 40 anos, comunicação pessoal, 19 de abril de 2025). Embora as redes sociais fossem vistas como acessíveis, favoreciam sobretudo as vozes das elites urbanas.
85A língua constituiu outra barreira relevante. “As publicações em inglês chegavam a mais pessoas. As mensagens apenas em tâmil ficavam confinadas aos nossos círculos” (P18, mulher, urbana, 27 anos, comunicação pessoal, 22 de maio de 2025). Os conteúdos provenientes de contextos costeiros e rurais tiveram dificuldade em ganhar tração sem tradução ou sem o apoio de celebridades e influenciadores. Os participantes referiram ainda formas de supressão digital, apontando para a remoção ou desvalorização algorítmica de conteúdos sensíveis. Para muitos, os espaços digitais em tâmil proporcionaram solidariedade, mas careceram de projeção nacional. Uma participante descreveu esta situação como “gritar para dentro de um poço” (P13, mulher, urbana, 37 anos, comunicação pessoal, 13 de maio de 2025).
86Em todos os temas abordados, os participantes sublinharam que a visibilidade dependia do impacto emocional, do alcance linguístico e da credibilidade das fontes. Thoothukudi pareceu “inevitável online” (P12, comunicação pessoal, 12 de maio de 2025), enquanto Kudankulam foi percecionado como “sério, mas não urgente”, devido ao seu framing técnico (P7, comunicação pessoal, 17 de abril de 2025). Os participantes observaram que “as publicações em inglês chegavam a mais pessoas” (P18, comunicação pessoal, 22 de maio de 2025), evidenciando a ligação entre conteúdos bilingues e uma circulação mais ampla. Estas respostas esclarecem os fatores, ao nível das audiências, que explicam os padrões desiguais de envolvimento observados nos resultados quantitativos (Tabela 14).
Tabela 14. Síntese da codificação temática
|
Tema
|
Subcódigo
|
Frequência do código
|
Participantes
|
Exemplo/interpretação
|
|
Visibilidade e perceção
|
Visibilidade de Kudankulam
|
42
|
23
|
Luta prolongada, mas amplamente ignorada pelos média nacionais.
|
|
Visibilidade de Thoothukudi
|
56
|
27
|
Dramática e amplamente reconhecida após os disparos policiais.
|
|
Influência dos média e das plataformas
|
31
|
20
|
Tendência metropolitana; protestos urbanos amplificados.
|
|
Avaliações comparativas
|
35
|
21
|
A tragédia é percecionada como mais relacionável do que riscos técnicos.
|
|
Ressonância emocional
|
Reações emocionais
|
61
|
29
|
Indignação e luto desencadeados por imagens de violência policial.
|
|
Gatilhos de conteúdo
|
40
|
22
|
Vídeos, imagens e hashtags estimularam a partilha emocional.
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Distanciamento/fadiga emocional
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18
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11
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Alguns participantes sentiram-se assoberbados ou desligados.
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Interpretação narrativa
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Clareza dos objetivos do protesto
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28
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17
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Objetivos de Thoothukudi percebidos como bem definidos e acionáveis.
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Enquadramento e simbolismo
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33
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20
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Velas, imagens de mártires e metáforas fúnebres.
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Língua e acessibilidade
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45
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24
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Conteúdos em tâmil considerados autênticos; inglês com maior alcance.
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Confiança e envolvimento
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Confiança na fonte
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30
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18
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Maior confiança em utilizadores verificados e testemunhas oculares.
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Tipo de participação
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39
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21
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Partilha privada comum; poucos comentários públicos.
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Razões para (não) envolvimento
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27
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16
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Medo de represálias, fadiga política ou dúvida quanto ao impacto.
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Barreiras estruturais e justiça
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Desigualdade digital
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25
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15
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Comunidades rurais e de baixos rendimentos careciam de infraestruturas.
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Marginalização linguística/regional
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33
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19
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Conteúdos apenas em tâmil tornam-se “invisíveis” fora do estado.
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Legitimidade percebida do protesto
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26
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Kudankulam deslegitimado; Thoothukudi visto como justo.
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Visibilidade local versus nacional
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37
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22
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Forte presença local, mas falta de atenção nacional.
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87Este estudo mostra como a visibilidade digital varia significativamente entre protestos ocorridos no mesmo estado e no seio da mesma comunidade linguística. O movimento de Thoothukudi registou níveis elevados de envolvimento devido ao recurso a imagens visualmente marcantes, a uma narrativa clara e direta e ao apoio de contas verificadas, em sintonia com as lógicas das plataformas digitais, que tendem a privilegiar conteúdos emocionalmente intensos e reativos. Já o protesto de Kudankulam, localizado numa área rural e costeira e centrado em discussões técnicas em torno da energia nuclear, atraiu uma atenção significativamente menor, apesar da gravidade das preocupações ambientais em causa.
88As perceções dos públicos reforçam esta explicação. Os participantes descreveram Thoothukudi como “inevitável” no espaço digital, devido à ampla circulação de imagens de violência policial. Enquanto que Kudankulam foi frequentemente percecionado como “silencioso” ou “invisível”.
89Os testemunhos recolhidos nas entrevistas revelam que dificuldades infraestruturais, a ausência de imagens emocionalmente mobilizadoras e um alcance bilingue limitado condicionaram a presença digital de Kudankulam. O que evidencia como fatores linguísticos e geográficos moldam a perceção de urgência.
90Os resultados quantitativos confirmam que a intensidade emocional é um preditor mais fiável do envolvimento do que explicações racionais ou técnicas. Esta constatação vai ao encontro de investigações mais amplas, que indicam que as plataformas digitais favorecem comunicações de elevada carga emocional. O conceito de “violência lenta”, de Nixon (2011), ajuda a explicar por que razão os riscos nucleares, menos visíveis e de evolução gradual, têm dificuldade em captar a atenção pública. Esta articulação evidencia a interseção entre justiça ambiental e desigualdades comunicacionais: danos que permanecem invisíveis têm menor probabilidade de serem reconhecidos e debatidos politicamente.
91Num plano mais amplo, os resultados sugerem que o sucesso do ativismo digital depende do acesso a recursos simbólicos e estruturais, incluindo a capacidade de comunicação bilingue, a proximidade a redes influentes e a possibilidade de amplificação das mensagens. A visibilidade digital funciona como uma forma de capital simbólico à qual nem todas as comunidades têm acesso, em condições de igualdade. Assim, a participação não garante, por si só, reconhecimento; e a desigualdade territorial continua a moldar quem é visto como uma voz democrática legítima no espaço digital.
92Ainda assim, importa adotar uma postura cautelosa. A ausência de metadados, como a dimensão das redes, o momento das publicações e os sinais algorítmicos, pode influenciar os padrões de visibilidade observados. As perceções dos participantes relativas a práticas de supressão de conteúdos não puderam ser confirmadas com dados quantitativos. Estas limitações sublinham a necessidade de maior transparência por parte das plataformas, para promover uma melhor compreensão das dinâmicas de visibilidade digital.
93A análise dos protestos de Kudankulam e Thoothukudi revela que a visibilidade digital é influenciada pela ligação emocional, pela legitimidade simbólica e pela infraestrutura de comunicação, e não apenas pela participação. Isto mostra que o reconhecimento nas plataformas digitais não é distribuído equitativamente entre divisões geográficas e linguísticas em sociedades pós-coloniais.
94O estudo apresenta três contributos principais para a investigação em comunicação:
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aprofunda a teoria do ativismo digital, mostrando que a visibilidade depende do poder simbólico e emocional, moldado pelas regras das plataformas;
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expande a investigação sobre justiça ambiental, ao salientar que o reconhecimento digital é crucial para comunidades que procuram legitimidade em debates democráticos;
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contribui para a investigação sobre cidadania digital, evidenciando como as narrativas de protesto produzem legitimidade territorial desigual, destacando determinadas áreas enquanto marginalizam outras.
95Estes contributos oferecem sugestões práticas para uma representação mediática mais inclusiva. Jornalistas, utilizadores de plataformas e grupos de defesa de interesses devem promover ativamente a partilha multilingue, a tradução para contextos nacionais e globais, e a visibilidade de protestos provenientes de áreas rurais e costeiras.
96O estudo apresenta limitações, dado que se centra em dois casos num único estado e não inclui plataformas baseadas em conteúdo visual, como Instagram e YouTube. Além disso, a ausência de metadados detalhados para publicações mais antigas condiciona as conclusões sobre o controlo algorítmico.
97Seria relevante que futuras investigações explorassem movimentos similares noutras regiões do Sul Global, procurando compreender a influência da infraestrutura, da governação das plataformas e das questões linguísticas na visibilidade e no reconhecimento cívico. Uma maior transparência nos algoritmos ajudaria a clarificar como os movimentos ambientais ganham ou perdem atenção nacional e global.
98Em última análise, os diferentes resultados destes protestos mostram que a justiça comunicacional é crucial para alcançar a justiça ambiental. Garantir visibilidade de áreas marginalizadas é essencial, para reforçar a cidadania inclusiva e permitir uma participação justa na tomada de decisões públicas.