1O jornalismo local é uma forma clássica de jornalismo que desempenha um papel fundamental na resposta às necessidades informacionais das comunidades locais (Nielsen, 2015). O conceito refere-se a notícias focadas em comunidades geográficas específicas, mas as transformações digitais desafiam as fronteiras do que significa “local” e do que significa ser um produtor de informação credível. Estes meios têm a capacidade de moldar a forma como os membros da comunidade percecionam a sua área próxima (Weber & Mathews, 2024). Para além disso, não apenas ajudam os cidadãos a lidar com as atividades quotidianas, como também fomentam a participação política (Park et al., 2023) e o envolvimento cívico e comunitário (Hess, 2016).
2Contudo, assiste-se ao surgimento de “desertos de notícias”, entendidos como a ausência de oferta de notícias locais em determinadas áreas (Abernathy, 2020). Esta questão é multidimensional e tem um grande impacto, provavelmente devido ao uso de palavras altamente descritivas: um lugar que é um deserto no que respeita a notícias. A literatura descreve uma preocupação crescente com as implicações políticas destes espaços, uma vez que outros serviços de informação não conseguem substituir os meios de comunicação locais tradicionais (Barclay et al., 2024). A este respeito, a ausência de jornalismo local não está apenas relacionada com a existência de órgãos de comunicação locais, mas também com a regularidade de publicação dessas redações (Jerónimo, Ramos, & Torre, 2022).
3A oferta de notícias locais parece estar em risco, mas, ao mesmo tempo, o propósito desta prática é valorizado na era digital como um compromisso contínuo com a comunidade, definido por Gulyas e Hess (2024) como os três “C” do jornalismo local digital (comunidade, compromisso e continuidade). Para além do compromisso social, a inovação tecnológica é essencial para os meios de proximidade (López-Golán et al., 2024). A proximidade refere-se à relação entre as notícias e o público, que é tradicionalmente geográfica, mas também social e cultural. Todas estas mudanças revelam até que ponto o jornalismo local é um setor em transformação, baseado numa forte relação com a audiência.
4A produção de notícias locais está a sofrer transformações à medida que a prática jornalística é reconfigurada pela tecnologia e pela emergência de novos atores (Holton & Belair-Gagnon, 2018; Negreira-Rey et al., 2024). Investigações anteriores sobre jornalismo local estudaram de forma abrangente as questões e desafios que afetam o setor (Mota, 2023), os hiperlocais e os desertos de notícias (Negreira-Rey & López-García, 2021; Rodríguez-Urra et al., 2024), a noção de local e de lugar em tempos de tecnologia (Napoli, 2019) ou, a partir desta última perspetiva, a crescente importância dos laços emocionais e culturais associados ao conceito de “lugar” (Tampone, 2024). Também foram estudadas as tendências no jornalismo local devido ao impacto dos média digitais (Nielsen, 2015), mas existe falta de informação sobre como a academia está a abordar as mudanças na produção de notícias digitais a nível local.
5Tendo isto em conta, este trabalho tem como objetivo fornecer uma revisão sistemática da literatura sobre a produção de notícias locais, com foco na investigação realizada ao longo de 10 anos, entre 2012 e 2022, uma década marcada pela digitalização dos ambientes informacionais que alterou o vínculo com as audiências (Heiselberg & Hopmann, 2024). A importância do jornalismo local para o bem-estar das comunidades, e também para a democracia local, desencadeia a necessidade de compreender as tendências de investigação sobre este tema. A nossa revisão insere-se numa linha crescente de estudos sobre investigação em comunicação (Keating et al., 2022), lançando luz sobre as preocupações e práticas da produção académica.
6Os meios de comunicação locais prestam um serviço fundamental à comunidade, o que explica a sua resiliência face ao impacto da digitalização (Hess & Waller, 2017). Os média locais apresentam uma identificação com o público ao abordarem temas de interesse. Além disso, o foco em histórias próximas e úteis assegura uma ligação robusta com o contexto geossociopolítico (Gulyas & Baines, 2020; Huxford, 2007). Os jornalistas locais garantem o acesso a fontes não elitistas, ajudando a ampliar a pluralidade das fontes de informação (Splendore, 2020).
7No entanto, desde a consolidação das tecnologias digitais, muitas organizações noticiosas em todo o mundo enfrentam um declínio de receitas e de leitores, que colocam em risco a atividade do jornalismo local (Magasic & Hess, 2021). À medida que a presença do jornalismo local se torna escassa em alguns territórios, a literatura dedica grande atenção ao aparecimento de “desertos de notícias”, nos quais a ausência de informação local tem impacto na vida dos membros da comunidade (Mathews, 2022). Este fenómeno sobrepõe-se também ao aumento da desinformação no espaço local. Numa era digital, vários meios recorrem a conteúdos não verificados para melhor alcançarem o público (Jenkins & Jerónimo, 2021).
8Estudos anteriores detetaram uma quebra na coesão social causada por uma maior desconfiança entre comunidades locais (Barclay et al., 2024), mas alguns dos problemas do jornalismo local são de longa data. Os órgãos de comunicação locais estão frequentemente demasiado próximos das fontes e são dependentes das instituições, mas também dependem de agências de notícias para outros temas (Czarniawska, 2011). Assim, os média locais enfrentam problemas que vão para além do desaparecimento dos meios de comunicação locais e da transformação dos modelos de negócio, devido ao padrão de poucos anunciantes e à fraca receita económica.
9Todavia, as mudanças na produção de notícias locais, entendida como o processo de criação de notícias, são cruciais para compreender o estado atual do jornalismo local. As organizações noticiosas locais tendem a ser inovadoras e abertas à experimentação (Leupold et al., 2018), estando propensas a introduzir diferentes formatos. Importa salientar que estes projetos são, na sua maioria, liderados por empreendedores com um forte compromisso com os seus territórios (Wahl-Jorgensen, 2024).
10Na mesma linha, estudos recentes oscilam entre a procura por fontes de receita e de recursos financeiros (Neff & Pickard, 2023) e a análise da aproximação às audiências, que podem estar mais disponíveis do que nunca (Standaert et al., 2023). Neste enquadramento, colocamos duas questões de investigação (QI) que estruturam a nossa revisão sistemática da literatura sobre a produção de notícias locais digitais:
-
QI1: como pode ser caracterizada a investigação sobre a produção de notícias locais em termos das revistas científicas em que é publicada, dos contextos geográficos abordados, do país de origem dos autores e da sua abordagem analítica?
-
QI2: quais são os principais tópicos, ângulos de abordagem e métodos adotados na exploração do conceito de “jornalismo local”?
11A metodologia Prisma foi escolhida para esta revisão sistemática, uma vez que é um método que ajuda a identificar o estado do conhecimento numa área e a reconhecer futuras linhas de investigação (Page et al., 2021). Apoiada em cinco critérios de exclusão, a revisão incidiu sobre duas bases de dados: Web of Science Core Collection e Scopus, abrangendo um corpus de 69 artigos. Estas bases de dados foram selecionadas, porque oferecem uma cobertura extensiva nas ciências sociais e nos estudos de comunicação. Além disso, ambas são reconhecidas pela sua elevada qualidade e disponibilizam estratégias de pesquisa normalizadas. A sua ampla cobertura temporal possibilita a revisão de tendências de investigação longitudinais, como a que aqui se apresenta.
12Foi realizada uma pesquisa por palavras-chave e a extração de dados decorreu entre 21 de julho e 29 de agosto de 2022. Os critérios de inclusão compreenderam a adequação às palavras-chave e às categorias escolhidas, a pertença ao intervalo temporal proposto (2012–2022) e a publicação ser em inglês. Os critérios de exclusão incluíram resultados duplicados em ambas as bases de dados e palavras-chave, bem como enquadramentos demasiado específicos (ver Tabela 1).
Tabela 1. Critérios de inclusão e exclusão
|
Incluídos se
|
Excluídos se
|
|
O texto discute e aborda preocupações relativas à produção de notícias locais, à digitalização nos média locais, às condições de trabalho dos jornalistas nos média locais, aos processos de produção de notícias afetados pelo digital.
|
O mesmo texto foi encontrado em ambas as bases de dados, sendo classificado como texto duplicado.
|
|
O texto enquadrou-se nas seguintes categorias selecionadas: “comunicação”, “educação”, “investigação educacional”, “ciências sociais interdisciplinar”, “cinema rádio televisão”.
|
O mesmo texto foi encontrado para mais do que uma palavra-chave, sendo classificado pela melhor correspondência de palavras-chave (a palavra-chave que melhor se adequava à publicação).
|
|
É publicado como um artigo de revista, um artigo de conferência, um livro ou um capítulo de livro.
|
O texto analisa outros temas relacionados com as notícias locais, mas não com a produção de notícias locais.
|
|
O texto foi publicado no intervalo de 10 anos escolhido (2012–2022).
|
O texto centra-se em realidades locais muito específicas (por exemplo, a influência da China nos média locais sul-africanos, a história do desenvolvimento dos média locais russos).
|
|
O artigo está publicado em inglês.
|
O texto centra-se principalmente em tópicos específicos ao analisar os meios de comunicação locais, como o género, a etnia, o ambiente, a censura, entre outros.
|
13Foram pesquisadas, no total, 14 combinações de palavras-chave na Web of Science e na Scopus, resultando em 862 entradas. Deste total, 288 referências foram excluídas por serem duplicadas. Assim, obtiveram-se 574 referências.
14O passo seguinte consistiu na consideração dos resumos, bem como numa leitura breve e superficial. A aplicação sistemática dos critérios de exclusão reduziu significativamente a amostra para 175 artigos. Textos que eram relevantes para este estudo, mas que surgiram duplicados na pesquisa por mais do que uma palavra-chave, foram também excluídos, sendo considerada apenas uma entrada, correspondente à palavra-chave mais adequada para essa publicação. Após a aplicação dos critérios de exclusão, foi obtido um total de 69 artigos de investigação (Tabela 2).
Tabela 2. Resultados da pesquisa por base de dados
|
Palavra-chave 1/ palavra-chave 2
|
Inclusão/exclusão
|
Scopus
|
Web of Science
|
Total
|
|
1
|
jornalismo local
|
Incluídos
|
44
|
4
|
48
|
|
Excluídos
|
108
|
114
|
222
|
|
2
|
jornalistas locais + condições de trabalho
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
3
|
2
|
5
|
|
3
|
jornalistas locais + produção de notícias
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
5
|
4
|
9
|
|
4
|
jornalistas locais + digital
|
Incluídos
|
1
|
0
|
1
|
|
Excluídos
|
10
|
11
|
21
|
|
5
|
jornalismo local + condições de trabalho
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
0
|
1
|
1
|
|
6
|
jornalismo local + produção de notícias
|
Incluídos
|
2
|
0
|
2
|
|
Excluídos
|
7
|
6
|
13
|
|
7
|
jornalismo local + digital
|
Incluídos
|
9
|
6
|
15
|
|
Excluídos
|
24
|
34
|
58
|
|
8
|
jornalistas + jornalismo de proximidade
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
1
|
0
|
1
|
|
9
|
produção de notícias + média locais
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
10
|
8
|
18
|
|
10
|
condições de trabalho + média locais
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
2
|
1
|
3
|
|
11
|
digital + média locais
|
Incluídos
|
1
|
0
|
1
|
|
Excluídos
|
55
|
61
|
116
|
|
12
|
notícias locais + digital
|
Incluídos
|
1
|
0
|
1
|
|
Excluídos
|
83
|
86
|
169
|
|
13
|
notícias locais + jornalistas
|
Incluídos
|
1
|
0
|
1
|
|
Excluídos
|
87
|
66
|
153
|
|
14
|
jornalismo de proximidade + média locais
|
Incluídos
|
0
|
0
|
0
|
|
Excluídos
|
2
|
1
|
3
|
|
Total
|
Incluídos
|
59
|
10
|
69
|
|
Excluídos
|
397
|
395
|
792
|
15Foi desenvolvido um modelo de análise para investigar e compreender os conceitos, abordagens e metodologias da produção jornalística local (ver Tabela 3). O conteúdo foi abordado com base nos princípios da análise temática (Braun & Clarke, 2006), que gera códigos e temas após a familiarização com os dados.
Tabela 3. Modelo de análise de revisão sistemática da literatura
|
Conteúdo
|
Características técnicas
|
|
Qual é o tema principal do artigo?
|
Ano de publicação
|
|
Qual o ângulo de abordagem do conceito de “jornalismo local”?
|
Campos de estudo
|
|
Que metodologias, métodos e/ou técnicas são aplicadas no estudo?
|
Nome da revista/livro/conferência
|
|
País de publicação
|
|
Contexto geográfico abordado
|
|
Autores
|
16No total, a nossa análise abrange 69 artigos sobre a produção de notícias locais publicados por revistas, livros e atas indexados na Web of Science e na Scopus. Os periódicos com mais artigos publicados estão indexados no Q1: Journalism (oito), Journalism Practice (oito) e Digital Journalism (cinco). No entanto, a amostra é bastante fragmentada (Tabela 4), o que demonstra o quanto diferentes publicações abordam a produção de notícias locais, que parece ser um tema interessante para a literatura. Além disso, os periódicos em áreas geográficas específicas também são relevantes. Neste sentido, destaca-se a Nordicom Review (quatro artigos), juntamente com a Australian Journalism Review (três) e a Media International Australia (dois). Outra constatação é a presença de livros, sendo relevante o The Routledge Companion to Local Media and Journalism (Guia Routledge da Média Local e do Jornalismo), com quatro capítulos.
Tabela 4. Artigos publicados por revista/livro/atas
|
Revista/livro/atas
|
Número de itens de pesquisa
|
|
Australian Journalism Review
|
3
|
|
Brazilian Journalism Research
|
1
|
|
Digital Journalism
|
5
|
|
Estudos em Comunicação
|
1
|
|
European Journal of Communication
|
2
|
|
Index on Censorship
|
1
|
|
Journalism & Mass Communication Quarterly
|
2
|
|
Journal of Applied Journalism and Media Studies
|
3
|
|
Journal of Information Policy
|
1
|
|
Journal of Law and Courts
|
1
|
|
Journal of Media Business Studies
|
1
|
|
Journal of Urban Affairs
|
1
|
|
Journalism
|
8
|
|
Journalistic Metamorphosis. Media Transformation in the Digital Age (livro)
|
1
|
|
Journalism Practice
|
8
|
|
Journalism Studies
|
4
|
|
KnE Social Sciences/ICoSaPS Conference Proceedings (atas)
|
1
|
|
Local Democracy, Journalism and Public Relations: The Changing Dynamics in Local Media and Public Sector Communications (livro)
|
1
|
|
Media and Communication
|
1
|
|
Media History
|
1
|
|
Media International Australia
|
2
|
|
Media Trust in a Digital World: Communication at Crossroads (livro)
|
1
|
|
New Media for Educational Change (atas)
|
1
|
|
News Hole: The Demise of Local Journalism and Political Engagement (livro)
|
1
|
|
Nordicom Review
|
4
|
|
Observatorio
|
1
|
|
Online Journal of Communication and Media Technologies
|
1
|
|
Publications
|
2
|
|
Review of International Geographical Education Online
|
1
|
|
Revista Latina de Comunicación Social
|
1
|
|
The Routledge Companion to Local Media and Journalism (livro)
|
4
|
|
The Routledge Handbook of Developments in Digital Journalism Studies (livro)
|
1
|
|
Total Journalism. Models, Techniques and Challenges (livro)
|
1
|
|
WebSci’13: Proceedings of the 5th Annual ACM Web Science Conference (atas)
|
1
|
17A distribuição dos itens da pesquisa por ano foi a seguinte: 2013 (n = 2), 2015 (n = 2), 2016 (n = 10), 2017 (n = 3), 2018 (n = 8), 2019 (n = 10), 2020 (n = 11), 2021 (n = 10) e 2022 (n = 13). A investigação publicada aumentou ao longo do tempo. Isto provavelmente significa uma maior consciencialização sobre o jornalismo local, embora o crescimento de toda a produção académica em estudos de comunicação também possa ter um papel nesta evolução.
18Em relação ao país de afiliação do primeiro autor, os dados mostram em que contexto académico é dada atenção à produção de notícias locais (Tabela 5). Os autores de países anglo-saxónicos (Austrália, Reino Unido e, especialmente, Estados Unidos) constituem metade da amostra. Da mesma forma, os países nórdicos (seis artigos da Suécia, seis da Noruega e um da Finlândia) e a Espanha (seis) são nações onde a publicação académica de jornalismo local é habitual.
Tabela 5. Artigos por afiliação (país)
|
Afiliação (país)
|
Número de itens de pesquisa
|
|
Austrália
|
11
|
|
Brasil
|
1
|
|
Finlândia
|
1
|
|
Alemanha
|
2
|
|
Hong Kong
|
1
|
|
Indonésia
|
2
|
|
Itália
|
2
|
|
Nova Zelândia
|
2
|
|
Noruega
|
6
|
|
Portugal
|
2
|
|
Espanha
|
6
|
|
Suécia
|
6
|
|
Suiça
|
3
|
|
Países Baixos
|
2
|
|
Reino Unido
|
7
|
|
Estados Unidos da América
|
15
|
19Por sua vez, o contexto geográfico abordado (Tabela 6) ilustra como as análises de comparação cruzada são as preferidas (15 artigos), juntamente com os Estados Unidos (14) como objeto de estudo. No entanto, a Austrália (10) e os países nórdicos (12 no total) também são dignos de nota. Isto está alinhado com as descobertas sobre a afiliação a países. Particularmente, o grande número de artigos sobre produção de notícias locais publicados pela Australian Journalism Review, Media International Australia e Nordicom Review ajuda a compreender este fenómeno, embora nem todos os itens de investigação sobre estes países sejam publicados por estas revistas. Em contraste, a Espanha não é examinada como um único tópico. Os autores espanhóis preferem aplicar a análise de comparação cruzada, o que também se verifica entre académicos do Brasil, Finlândia ou Holanda.
Tabela 6. Artigos por contexto geográfico abordado (país)
|
Contexto geográfico (país)
|
Número de itens de pesquisa
|
|
Austrália
|
10
|
|
Comparação cruzada
|
15
|
|
Chéquia
|
1
|
|
Alemanha
|
3
|
|
Indonésia
|
2
|
|
Itália
|
1
|
|
Coreia
|
1
|
|
Nova Zelândia
|
1
|
|
Noruega
|
6
|
|
Portugal
|
3
|
|
Suécia
|
6
|
|
Suiça
|
1
|
|
Reino Unido
|
5
|
|
Estados Unidos da América
|
14
|
20Em relação à abordagem analítica, 50 trabalhos publicados eram empíricos e 19 conceptuais. O termo “conceptual” refere-se a artigos que discutem teorias ou tendências, sem um adequado desenho de investigação. Além disso, os artigos empíricos podem ser divididos em qualitativos (n = 23), quantitativos (n = 15) e métodos mistos (n = 12). Esta descoberta opõe-se à tendência de investigação quantitativa que domina os estudos de comunicação (Rivas-de-Roca, 2023), mostrando como as entrevistas em profundidade ou os grupos de foco são ainda muito úteis para explorar o jornalismo local. Autores como Carson et al. (2016), Mihailidis e Gamwell (2020) ou Jenkins e Graves (2022) já utilizaram estes métodos. Neste sentido, as rotinas das redações são especialmente estudadas através destes métodos.
21Ao longo da amostra, foram identificados cinco padrões temáticos diferentes. Esta investigação baseia-se na presença de tendências na revisão bibliográfica, o que está em linha com estudos anteriores que descreveram sistematicamente as características da investigação quando se lida com algum tipo de média local (Negreira-Rey & López-García, 2021). De acordo com esta revisão, os seus padrões temáticos são os seguintes: mudanças digitais no ecossistema dos média locais, jornalistas locais e as suas condições de trabalho, modelos de negócio, abordagem do público, missão social e lacuna informacional (“desertos de notícias”). A Figura 1 ilustra a frequência dos padrões temáticos de publicação.
Figura 1. Padrões temáticos de publicação (número de artigos)
22Nos últimos anos, o negócio das notícias locais passou por mudanças profundas devido à transformação digital. As plataformas de redes sociais tornaram-se uma arena de comunicação em massa; entretanto, surgiram novos modelos mediáticos na internet, como os média hiperlocais (Carson et al., 2016). Dos artigos considerados, 21 analisam todas estas mudanças, cujas tendências de contribuição são apresentadas a seguir.
23Em primeiro lugar, existe uma preocupação com o modo como a vaga digital implica o declínio dos jornais tradicionais (Wood, 2016), mas a maioria dos trabalhos de investigação concentrou-se nas possibilidades abertas por esta transformação. As start-up são identificadas como o tipo de organização noticiosa em maior crescimento (Brouwers, 2018), sendo os empreendedores dos média hiperlocais um dos principais exemplos (Hujanen et al., 2021; Stúr et al., 2018). De acordo com investigações qualitativas sobre o tema em estudo, estes jornalistas consideram o seu papel essencial para a comunidade, pois fornecem informação digital sobre locais tipicamente esquecidos (Stúr et al., 2018).
24Além disso, as tecnologias digitais são avaliadas como uma inovação capaz de remodelar a relação com o público. Especificamente, Hess e Waller (2020) desenvolvem um quadro para compreender a inovação em organizações noticiosas rurais. Ao conectarem-se melhor com os interesses da população, as tecnologias podem reforçar a viabilidade dos meios de comunicação locais.
25Outra tendência de investigação é o estudo da adaptação dos média tradicionais ao ambiente digital (Galletero Campos & Jerónimo, 2019). A adoção destas práticas é por vezes lenta, mas diferentes tecnologias têm entrado nas redações, desde a geolocalização (Santos Gonçalves et al., 2021) à emissão online (Jorge & Brito Batista, 2021). As plataformas de redes sociais também foram consideradas, mas existem conclusões ambivalentes sobre a sua capacidade de servirem como fontes jornalísticas para jornais locais, dependendo de fatores geográficos (Skogerbø & Krumsvik, 2015).
26Seguindo esta linha, os benefícios da tecnologia para o trabalho dos jornalistas não devem ser tomados como garantidos. Um estudo significativo sobre as práticas digitais de jornais de mercados pequenos mostra como os atores envolvidos têm diferentes níveis de experiência e de proximidade com os cidadãos (Ali et al., 2019). Assim, as possibilidades abertas pela vaga digital não são iguais para todos os meios de comunicação locais.
27Isto levou-nos a refletir sobre a tensão entre as tecnologias digitais como inovação, que aproxima o público das redações, e a erosão dos meios de comunicação locais devido a pressões económicas. Como referido, o público apresenta diferentes formas de apropriação da tecnologia. Algumas comunidades podem ser particularmente afetadas, o que exige um esforço dos académicos para compreenderem as suas características.
28As mudanças no ecossistema mediático alteraram as condições de trabalho dos jornalistas locais, sendo avaliadas por alguns como o fim de uma carreira legítima no jornalismo local (Morton et al., 2019). No entanto, apenas sete artigos da amostra abordam esta questão.
29As tecnologias digitais geram condições de trabalho particulares. Especificamente, as pressões de tempo da comunicação online afetam as condições materiais do trabalho jornalístico (Metyková & Waschková Císařová, 2020). Os espaços da atividade jornalística são remodelados, contribuindo para uma perda de autonomia no local de trabalho. Outros artigos exploratórios, como Wenzel (2020) ou Mathews (2022), seguem esta abordagem pessimista, utilizando olhares etnográficos para examinar tais transformações.
30Apesar das mudanças digitais, Jerónimo, Correia e Gradim (2022) revelam que a ação dos jornalistas locais não é tão próxima do público quanto se poderia esperar. Além disso, há uma perda notável de empregos em comunidades rurais e regionais, ao ponto de os jornalistas se mostrarem bastante preocupados com a qualidade das notícias ou com os recursos das redações locais (Zion et al., 2016). No que diz respeito aos meios de comunicação locais online, Splendore (2020) destaca a predominância de fontes institucionais, ilustrando não só a sua presença massiva, mas também uma certa pluralização da produção noticiosa digital através de fontes não elitistas.
31A opinião dos stakeholders (partes interessadas) também é considerada (Firmstone, 2016). A partir de entrevistas em profundidade, Firmstone (2016) mostra uma fragmentação do jornalismo local, cujos papéis normativos são agora desempenhados por muitos fornecedores de notícias diferentes. No entanto, existe uma lacuna na literatura, uma vez que poucas pesquisas abordaram as perspetivas destes stakeholders ou as perceções dos jornalistas relativamente às condições materiais e ao seu serviço à comunidade. Isto é relevante, uma vez que os ideais normativos do jornalismo local como pedra angular da democracia podem colidir com as condições reais de trabalho.
32O financiamento dos meios de comunicação locais é geralmente precário (Deuze & Witschge, 2020), fomentando a necessidade de garantir um modelo de negócio sustentável. Neste âmbito, os oito artigos sobre modelos de negócio avaliaram o valor social das notícias locais como crucial na decisão de pagar por elas. Por exemplo, Kim et al. (2022) destacam a importância de estimular a regularidade do consumo de notícias online para fornecer valor a temas como o desporto. Entretanto, a disposição para pagar também está ligada à natureza das histórias, uma vez que estas não estão disponíveis noutros locais (Goyanes, 2015). A relação entre o valor percebido das notícias locais e a decisão de pagar por elas foi também estudada por Olsen (2020).
33Além disso, as estratégias de paywall são identificadas como a principal via de monetização, mas pouca investigação explora realmente o funcionamento destas receitas de subscrição a nível local, em comparação com os abundantes estudos sobre órgãos nacionais de maior dimensão. Um artigo qualitativo sobre jornais locais noruegueses sugeriu que os paywall são uma estratégia dirigida a leitores já existentes, fornecendo produtos diferenciados (Olsen & Solvoll, 2018), mas não se podem retirar conclusões gerais a partir de um único estudo.
34Outros trabalhos examinaram os modelos de negócio sob a perspetiva da inovação. Novas estratégias de conteúdos, como formatos multimédia, podem sobrepor-se a modelos de pagamento, para delinear um caminho estratégico que desperte o interesse do público (Wilczek et al., 2021). Por seu lado, Jenkins e Graves (2022) focam-se em colaborações locais. Mais uma vez, aplica-se aqui um estudo de caso qualitativo para compreender os tipos de práticas colaborativas que definem as notícias locais, pouco consideradas pela literatura em comparação com posições competitivas.
35De acordo com as publicações analisadas, fica claro que os modelos de negócio estão a passar por mudanças profundas. Comparada com a permanência de normas e práticas, Harnischmacher (2015) sublinha que a estrutura organizacional dos meios de comunicação locais é especialmente afetada pela transformação digital. Os meios procuram garantir a sua sobrevivência através de receitas de subscrição que podem associar-se a novas estratégias de conteúdos. Verificámos que grande parte da investigação continua ancorada em modelos de negócio tradicionais, enquanto é dada insuficiente atenção às diversas formas que o jornalismo local assume atualmente. Isto limita o desenvolvimento teórico e conduz frequentemente a uma compreensão fragmentada do que constitui o jornalismo local.
36Tanto quanto sabemos, as ecologias mediáticas locais tendem a ser mais orientadas para a audiência, uma vez que jornalistas e cidadãos coexistem no mesmo espaço. As tecnologias digitais também podem ser utilizadas para possibilitar relações participativas, o que levou à publicação de 10 artigos que examinam as perspetivas do público. Este apoio dos cidadãos seria fundamental para manter a sustentabilidade social e económica dos meios noticiosos.
37Com base em dados de inquéritos a cidadãos e jornalistas locais, Nettlefold e Pecl (2022) mostram como expandir audiências e reforçar a confiança. Este tipo de jornalismo local orientado para o público proporciona peças noticiosas interessantes que constroem confiança, graças a elevados níveis de transparência (Nettlefold, 2019). Seguindo este padrão, outro inquérito revela que a probabilidade de apoiar um órgão de comunicação local depende da presença de valores comunitários, como o sentimento de pertença (Park et al., 2022). Do mesmo modo, uma investigação longitudinal nos Países Baixos sugere que temas e abordagens locais específicos moldam um “jornalismo valioso”, promovendo uma experiência noticiosa enriquecedora (Costera Meijer, 2020). Assim, o consumo de notícias, e até a disposição para pagar por elas, é determinado pela capacidade de publicar questões relevantes para o público.
38Relativamente ao retrato das audiências das notícias locais, alguns estudos qualitativos tentaram lançar luz sobre as suas características. A partir de grupos focais em várias comunidades, McCollough et al. (2017) identificaram o indivíduo local nos Estados Unidos como um consumidor de notícias autossuficiente que recorre também a redes interpessoais. Contudo, há falta de jornalismo cidadão. A abordagem desenvolvida por estes autores vai além do impacto da tecnologia no jornalismo local, oferecendo resultados sobre práticas e crenças.
39Além disso, estudos anteriores sobrepõem audiências ao conceito de “participação”. O significado de “participação” é plural e atualmente definido pelas redes sociais. Um estudo qualitativo inicial sobre estas plataformas mostra que a participação permitida pelas redes sociais não renovou o papel dos jornalistas (Carlsson & Nilsson, 2016). Os profissionais entrevistados apontam que as redes sociais podem incluir audiências, mas também são avaliadas como uma ameaça para o setor.
40A literatura reconhece uma relação complexa entre os média noticiosos e as plataformas digitais (redes sociais). Estas contradições sublinham a necessidade de uma investigação mais aprofundada. Ainda assim, Nygren (2019) demonstrou, através de inquéritos na Suécia, como os média hiperlocais em crescimento conseguiram expandir o seu impacto utilizando o Facebook. Embora estes órgãos não tenham uma posição central nas ecologias mediáticas locais, conseguem encontrar as audiências nas redes sociais.
41Num contexto de ampla disponibilidade de média, a literatura presta especial atenção à missão social dos meios de comunicação locais e ao surgimento dos “desertos de notícias”, entendidos como lugares cujo modo de vida não é coberto por órgãos de comunicação específicos. No total analisado, 23 artigos tratam da relação entre esta missão comunitária e a lacuna informacional dos “desertos de notícias”, seguindo uma temática detetada em revisões recentes da literatura (Negreira-Rey & López-García, 2021).
42Como referido, o papel dos meios locais prende-se com o serviço à comunidade. Nesse sentido, existem estudos conceptuais que utilizam trabalho de campo qualitativo para definir os jornalistas locais como “guardiões da comunidade”, que defendem a reputação da área e protegem os responsáveis locais (Mathews, 2022). Este corporativismo contrasta com a função de vigilância (watchdog). A função de monitorizar o poder foi predominante durante o século XX, mas está agora em declínio, colocando em risco a responsabilização democrática dos governos locais e regionais (Clark, 2021).
43Associada à disrupção desta missão social, uma análise de conteúdo realizada em jornais de cidades alemãs (Leupold et al., 2018) observou que a coesão social proporcionada pelos média locais difere consoante o tipo de jornal. Essa coesão significa que os leitores se sentem parte da mesma comunidade, o que está menos presente nos tabloides. A oferta de notícias locais foi também estudada por autores como Napoli et al. (2018), que usaram a página inicial dos websites dos órgãos como indicador da sua qualidade. Esta ferramenta analítica procura identificar os fatores estruturais que se correlacionam com um jornalismo local robusto, mas foi pouco considerada até 2022.
44Outro conceito destacado pela literatura é o de “capital social”. Através de um estudo-piloto na Austrália e no Canadá, Richards (2013) conceptualiza “capital social” como o resultado da conectividade facilitada pelos média locais. Jornalistas e cidadãos estão inseridos numa relação próxima em que a fiabilidade é fundamental, gerando cooperação para melhorar o futuro das comunidades.
45Para além das características que compõem a missão social do jornalismo local, a falta de meios locais significaria que este serviço não é cumprido. Existe uma preocupação crescente com este problema, sobretudo nos Estados Unidos, onde surge o conceito de “desertos de notícias”. Napoli et al. (2019) desenvolveram um método para quantificar estes “desertos de notícias”, categorizados como comunidades com acesso limitado a informação jornalística que cubra as suas áreas. Este problema implica várias dimensões, desde a infraestrutura até à disponibilidade de fontes jornalísticas ou ao número de notícias.
46Uma vez que diferentes territórios em todo o mundo sofrem de lacunas informacionais devido à crise da imprensa local tradicional, vários estudos abordaram o problema noutros contextos, como a Austrália ou a Suécia. Por exemplo, Magasic e Hess (2021) ilustram como os residentes de uma cidade de New South Wales (Austrália) sentem falta dos jornais que encerraram. O seu estudo etnográfico mostra ainda que as redes sociais não são suficientes para preencher esse vazio informativo, especialmente no que toca à defesa da comunidade e à promoção do envolvimento político.
47Na Suécia, Karlsson e Rowe (2019) compararam a cobertura noticiosa de municípios com e sem jornalistas permanentes. Os resultados indicam que a ausência de jornalistas provoca uma menor atenção a essas comunidades e aos seus atores institucionais. Os autores discutem amplamente as implicações da escassa presença de média locais, refletindo sobre o impacto da ausência jornalística na capacidade dos cidadãos de se manterem parte da comunidade; entretanto, o jornalismo hiperlocal pode, em parte, colmatar essa lacuna.
48De acordo com a revisão de literatura, a missão social do jornalismo local está ameaçada pelo encerramento de jornais. Em tempos de forte concorrência mediática, os académicos estão conscientes deste problema, mas reconhecem o valor de histórias originais que respondem às preocupações das pessoas. Este continua a ser o propósito da produção adequada de notícias locais, ainda que os fatores que favorecem a existência do jornalismo local sejam desigualmente teorizados.
49A produção de notícias locais é um tema que recebeu atenção crescente no período de 2012 a 2022. As mudanças na produção noticiosa são notáveis, em particular no que respeita à transformação digital. Do mesmo modo, o valor do jornalismo local para as comunidades é amplamente reconhecido. Neste enquadramento, este estudo procurou oferecer uma revisão sistemática da literatura sobre a produção de notícias locais, explorando a sua distribuição e as tendências de investigação na Web of Science Core Collection e na Scopus. Com base na metodologia Prisma, a nossa revisão fornece duas contribuições inter-relacionadas que respondem às QI.
50Em primeiro lugar, aprofundamos a compreensão de como tem sido conduzida a investigação sobre a produção de notícias locais, considerando revistas científicas, contextos geográficos, país de origem dos autores, abordagem analítica e métodos. Os artigos académicos sobre este tema aumentaram ao longo dessa década, sendo publicados em revistas altamente reconhecidas, especialmente Journalism e Journalism Practice. No entanto, a amostra de revistas é fragmentada, uma vez que inclui muitos editores diferentes. São priorizadas as comparações internacionais, mas os Estados Unidos, a Austrália e as nações nórdicas são os territórios mais estudados. Este resultado está relacionado com a afiliação dos autores ou até com a origem geográfica das próprias revistas.
51Além disso, metade da amostra foi produzida por autores anglo-saxónicos, provenientes maioritariamente dos Estados Unidos. Para além disso, a publicação sobre produção de notícias locais é também frequente noutros contextos, como os países nórdicos e Espanha. Todos estes autores tendem a desenvolver artigos empíricos, em que as abordagens qualitativas são dominantes, embora tenham sido também detetadas outras abordagens analíticas.
52A nossa segunda contribuição fornece evidência sobre a presença de cinco padrões temáticos na revisão da literatura: mudanças digitais no ecossistema dos média locais, jornalistas locais e as suas condições de trabalho, modelos de negócio, abordagem às audiências e missão social e lacuna informacional (“desertos de notícias”). Estes tópicos estão interligados, mas encontrámos algumas características específicas. Os artigos sobre mudanças digitais centram-se em como a digitalização é um caminho para a inovação, que também traz desafios. As condições de trabalho dos jornalistas referem-se ao estado da profissão, incluindo as rotinas das redações ou o desenvolvimento de uma carreira jornalística.
53Por seu lado, alguns artigos abordam os modelos de negócio como mecanismo de financiamento dos meios locais, que vão desde estratégias de paywall até colaborações. Outro conceito-chave é o de “audiência”, examinando aspetos como a orientação comunitária ou a participação. Por fim, há um grande número de artigos sobre “desertos de notícias”. Esta ausência de meios locais tem consequências para a democracia que são amplamente estudadas, ao ponto de ser o padrão temático mais frequente, seguido das mudanças digitais no ecossistema mediático local. Embora esta revisão sistemática da literatura se refira ao período 2012–2022, é possível avançar que a investigação sobre “desertos de notícias” continuou a crescer em 2023 e 2024. Atualmente, é um dos principais tópicos de investigação nos média locais, especialmente na Europa, onde só começou a ser estudado nos últimos anos (Verza et al., 2024).
54Todas estas abordagens tratam a transformação do setor de determinada forma, o que constitui uma tendência crescente na década analisada. Da mesma forma, a literatura recente também reconhece o valor das notícias locais para a comunidade. Isto liga-se a abordagens clássicas sobre como o jornalismo de proximidade é alimentado por um compromisso duradouro com o território em que os meios estão localizados (Camponez, 2002). Num contexto de sobrecarga informacional, o jornalismo local permite aos cidadãos participar nas questões que moldam o seu quotidiano (Engan, 2015), cuja importância parece ter aumentado ao longo da década de 2012–2022.
55A qualidade dos artigos publicados é avaliada como elevada, não apenas por serem publicados em revistas de topo, mas também devido à multiplicidade de métodos utilizados (análise de conteúdo, etnografia, etc.). Especificamente, os métodos qualitativos são preferidos em toda a amostra, para analisar tanto jornalistas como o público.
56O âmbito deste estudo deverá ser aprofundado em investigações futuras, recorrendo a amostras mais abrangentes e, por exemplo, à inclusão de bases de dados adicionais ou de artigos que examinem notícias locais em articulação com diferentes práticas. Poderiam ainda ser exploradas outras variáveis, como o papel das culturas jornalísticas. Neste contexto, os jornalistas são influenciados pelas experiências das comunidades (Vos & Hanusch, 2024), um aspeto que poderia ser analisado a nível local. Além disso, o avanço da inteligência artificial desde 2022 tem colocado novos desafios; contudo, o seu impacto no panorama das notícias locais permanece limitado devido às restrições dos meios de comunicação (Gonçalves & Morais, 2024).
57Em suma, há um reconhecimento académico considerável sobre a produção de notícias locais nas principais bases de dados. Num contexto de transformação na produção noticiosa, foram identificados padrões temáticos distintos. Entre as questões a serem consideradas, destaca-se a incerteza acerca da sustentabilidade deste conjunto de artigos ao longo do tempo, bem como a influência que esse fenómeno exerce em função da lógica predominante nos estudos de comunicação. Foram identificadas tendências de investigação ao longo de uma década, revelando um foco consistente em países economicamente desenvolvidos. Assim, torna-se evidente a existência de um ponto cego relativamente à cobertura jornalística local de inúmeros territórios a nível global.
Os autores agradecem à Fundação para a Ciência e a Tecnologia pelo financiamento do MediaTrust.Lab (http://doi.org/10.54499/PTDC/COM-JOR/3866/2020), projeto que promoveu esta revisão; o contrato de Pedro Jerónimo (https://doi.org/10.54499/ CEECINST/00016/2021/CP2828/CT0004); a bolsa de doutorado de Luísa Torre (2023.05397.BD); e o LabCom (http://doi.org/10.54499/UIDB/00661/2020), centro de pesquisa ao qual dois dos autores são afiliados.