1Nas últimas décadas, a proliferação do medo tem assumido uma relevância crescente no domínio dos estudos de comunicação (e.g., Doona, 2021; McCrow-Young & Mortensen, 2021). Os média, em particular, são frequentemente identificados como agentes-chave na disseminação desta emoção (Rincón & Rey, 2008). O medo apresenta características específicas que reforçam a sua capacidade de captar a atenção, tornando-se, assim, um recurso valioso para os média na estruturação da cobertura noticiosa (Furedi, 2018). Através deste processo, os média podem concentrar-se em determinados temas e conteúdos, priorizando-os nas respetivas agendas, muitas vezes em consonância com interesses institucionais ou comerciais (McCombs, 2004/2006; Saperas, 1987). Um estudo recente de Young e Watson (2024) demonstra ainda que a combinação de narrativas sensacionalistas sobre criminalidade intensifica o medo público de vitimização, promovendo atitudes favoráveis em relação a figuras percecionadas como capazes de neutralizar a ameaça.
2Investigadores de diferentes áreas disciplinares identificaram um conjunto de fatores que ajudam a explicar a relação duradoura e mutuamente reforçada entre os média e o medo, alargando o enfoque analítico a dimensões estruturais mais amplas. Para além do domínio mediático, as sociedades ocidentais são cada vez mais moldadas pelo que Beck (1999/2006) designa por “sociedade de risco” e pelo que Furedi (2018) descreve como uma “cultura do medo” — isto é, um clima social caracterizado por incerteza generalizada e por uma perceção de vulnerabilidade, no qual os indivíduos são continuamente confrontados com a possibilidade de ameaças iminentes e frequentemente indeterminadas (Altheide, 2017).
3Neste enquadramento, e atendendo ao potencial mobilizador de emoções intensas como o medo (Meana, 2008), os atores políticos também o têm instrumentalizado de forma estratégica (Hill et al., 2021). No contexto espanhol, a literatura existente destaca a forma como a extrema-direita tem capitalizado o medo (e.g., Bretones & Domínguez-Martí, 2023; Rebollo-Bueno, 2022), sendo que alguns estudos sugerem que esta estratégia se tem traduzido, em determinados momentos, em ganhos eleitorais (González-Castro, 2023).
4O presente estudo analisa a forma como os líderes dos principais partidos políticos espanhóis mobilizaram o medo nas suas estratégias de propaganda nas últimas cinco eleições legislativas. Avalia o esforço desenvolvido para promover um clima de alarme e para inscrever as suas narrativas na agenda mediática. Deste modo, apresenta perspetivas comparativas sobre a mobilização do medo por diferentes formações políticas, contribuindo para a compreensão das dinâmicas emocionais subjacentes à comunicação política contemporânea.
5O fenómeno da propaganda tem sido analisado a partir de diversas perspetivas teóricas (e.g., Herreros Arconada, 1989; Tarín-Sanz, 2018). No entanto, o presente estudo adota o enquadramento proposto por Pineda (2006), que define a propaganda como um processo comunicativo através do qual uma mensagem ideológica é transmitida com o objetivo de “ganhar, manter ou reforçar uma posição de poder” (p. 228). Esta conceptualização inscreve-se numa tradição mais ampla que entende a propaganda como intrinsecamente persuasiva (Jowett & O’Donnell, 2015; Qualter, 1962), reconhecendo as emoções como instrumentos fundamentais na prossecução dos seus objetivos (Pratkanis & Aronson, 1992/1994). À primeira vista, a utilização estratégica do medo — frequentemente classificado como emoção negativa — poderá parecer contraintuitiva no contexto da comunicação persuasiva orientada para a obtenção de resultados positivos. Contudo, o seu potencial persuasivo reside precisamente na motivação que desencadeia: o desejo de superar o medo, através da neutralização da ameaça ou da mitigação das suas consequências antecipadas.
As pessoas querem, de facto, ser “salvas” e “libertadas”, mas querem sê-lo do medo ( … ). É isto que torna as mensagens de medo tão persuasivas e relevantes para as políticas públicas e para o tecido da vida social. (Altheide, 2017, pp. 15–16)
6O medo constitui, na verdade, uma emoção primária essencial à sobrevivência humana (Sarráis Oteo, 2014), enraizada numa necessidade humana fundamental de vigilância face a potenciais ameaças, como forma de se proteger. É precisamente esta função evolutiva que confere ao medo um papel relevante nas estratégias de propaganda (López Zapico & Moreno Cantano, 2016). A articulação entre medo e propaganda concretiza-se através de diversas técnicas comunicativas, sendo a polarização uma das mais proeminentes (Huici Módenes, 2017). Esta abordagem visa impor uma visão maniqueísta da realidade, dividindo-a marcadamente em campos antagónicos — um “nós” versus “eles”, ou um “grupo interno virtuoso” contraposto a um “grupo externo malévolo” (Bauman, 2006/2007; Brown, 1963/1995).
7Associada a esta estratégia está a técnica de construção do inimigo, que enfatiza os atributos ameaçadores dos opositores, com vista à construção de uma imagem distorcida e, frequentemente, desumanizada dos adversários políticos ou de grupos sociais mais amplos visados pelo emissor (Bisquerra, 2017). Uma técnica adicional é a estratégia do “salvador”, na qual o propagandista se posiciona como o único ator credível capaz de proteger o público de ameaças iminentes (Charaudeau, 1997/2003; Eggs, 2011).
8Todavia, nem todos os fenómenos possuem igual potencial para suscitar medo politicamente mobilizador. As audiências são heterogéneas, e aquilo que desencadeia medo num segmento da população pode não produzir o mesmo efeito noutro. Numa perspetiva bourdieusiana, os propagandistas tendem a “estruturar o que já está estruturado” — isto é, amplificam ansiedades pré-existentes inscritas na experiência social. Deste modo, o medo do desconhecido pode ser instrumentalizado para legitimar agendas políticas xenófobas (Haner et al., 2019) ou utilizado para intensificar estados de pânico em contextos como pandemias, legitimando o reforço do controlo social ou a consolidação de antagonismos geopolíticos (Nguyet & Striphas, 2021).
9Embora inúmeros estudos tenham analisado a utilização de estratégias baseadas no medo na propaganda política, a presente investigação centra-se especificamente na sua transmissão digital — nomeadamente através de plataformas de redes sociais, em particular o X (anteriormente Twitter). Esta plataforma é amplamente considerada a “rede social política por excelência” (Fernández-Gómez et al., 2018, p. 20), sobretudo por acolher a maioria dos líderes e partidos políticos como utilizadores ativos.
10Uma das principais razões para a sua ampla adoção no campo político reside na sua capacidade de conformar simultaneamente a agenda mediática e o discurso público. O X destaca-se pela rápida disseminação de informação, o que o torna um amplificador privilegiado de mensagens políticas (Vázquez-Barrio & Campos-Zabala, 2020). Por esta razão, Herrero e Römer (2014) consideram-no “fundamental para compreender as dinâmicas da agenda pública e prever os temas com maior impacto na agenda mediática” (p. 93).
11Embora o debate académico sobre se são os média tradicionais ou os digitais quem exerce maior influência no processo de definição da agenda permaneça em aberto (Carrasco-Hermida, 2024), é cada vez mais evidente a dinâmica recíproca entre ambos. Na prática, os jornalistas recorrem frequentemente ao X para identificar temas em destaque, tal como o discurso na plataforma é, por sua vez, moldado pela cobertura nos média tradicionais (Martínez-Fresneda Osorio & Sánchez-Rodríguez, 2022).
12Para além deste debate, a opção de privilegiar o X neste estudo fundamenta-se em investigações recentes que associam a eficácia política do medo às características estruturais das redes sociais. Thorbjørnsrud e Figenschou (2022), por exemplo, atribuem a crescente dependência das plataformas digitais a uma crise mais ampla de confiança nos média tradicionais. Esta situação levou segmentos da população a preferirem as redes sociais para se “informarem” sobre fluxos migratórios, partindo do pressuposto de que os média convencionais ocultam a verdade relativamente à percecionada ameaça de substituição populacional. Nor e Gale (2021) identificaram uma tendência paralela no que diz respeito à denominada “islamização”. Por fim, Güler e Piazza (2024) concluem que o pensamento conspirativo e o medo têm maior probabilidade de se disseminar nos média que promovem elevados níveis de interação entre utilizadores — como as redes sociais digitais (Bustos-Díaz, 2024; Chaves-Montero, 2023).
13O conceito de “affordance” (possibilidades de ação) permite compreender de que modo a configuração das plataformas digitais condiciona a circulação de determinados discursos, uma vez que se refere a ambientes digitais nos quais se desenvolve a interação social e que são concebidos para orientar o comportamento dos utilizadores de formas específicas (e.g., Bras Ruiz, 2024; Davisson & Leone, 2018). O conceito foi inicialmente utilizado por Gibson (1979) para descrever ecossistemas animais, tendo posteriormente sido transposto para o domínio das novas tecnologias. No campo da comunicação política digital, esta perspetiva sublinha que as plataformas não constituem espaços neutros, mas antes ambientes sociotécnicos cujas características estruturais moldam a produção, a visibilidade e a disseminação de conteúdos.
14O X apresenta um conjunto de possibilidades de ação particularmente propícias à difusão de discursos assentes no medo — bem como de outras emoções negativas, como a raiva (Cook et al., 2012; García-Gavilanes et al., 2017). A rapidez com que as mensagens podem ser publicadas e redistribuídas, a visibilidade pública das interações e uma lógica algorítmica orientada para o envolvimento dos utilizadores tendem a privilegiar conteúdos breves e emocionalmente intensos (e.g., Uğur et al., 2025). Estas dinâmicas reforçam mensagens que evocam ameaça, risco ou urgência, facilitando a sua amplificação em contextos políticos altamente polarizados.
15Em plataformas altamente interativas como o X, estas dinâmicas criam ciclos de reforço que ampliam o alcance de discursos alarmistas e os integram de forma mais profunda no debate público, tornando a plataforma um espaço central para a análise do medo enquanto estratégia comunicativa. Tendo em conta o exposto, o objetivo geral deste estudo consiste em identificar as ameaças presentes nas conversas digitais iniciadas pelos líderes dos principais partidos políticos espanhóis. Este objetivo geral é complementado pelos seguintes objetivos específicos (OE):
16• OE1: identificar quais os líderes que mais mobilizam o medo no atual contexto político multipartidário;
17• OE2: identificar quais as ameaças e/ou perigos mais frequentemente invocados por cada líder político.
18Adicionalmente, considerando que o medo constitui uma emoção contextual (Rimé, 2009/2011), coloca-se a seguinte questão de investigação: serão os períodos eleitorais e não eleitorais fatores determinantes na instrumentalização de ameaças pelos líderes políticos espanhóis?
19Para responder aos objetivos e à questão de investigação, foi adotada uma metodologia quantitativa, especificamente a análise de conteúdo. Foi desenvolvida uma grelha de codificação de acordo com as orientações de Krippendorff (1980/1990) e Bardin (1977/1996), permitindo a recolha sistemática e a classificação dos dados. Foram operacionalizadas seis variáveis, organizadas em dois blocos analíticos: (a) a presença do medo e (b) o tema e o objetivo propagandístico.
20Tendo em conta a complexidade inerente à quantificação das emoções, os desencadeadores do medo foram categorizados com base em enquadramentos psicológicos, atribuindo-se particular ênfase à intenção comunicativa do emissor. Assim, a identificação de um desencadeador de medo foi considerada indicativa do uso estratégico desta emoção. As variáveis analíticas aplicadas neste estudo foram já utilizadas para fins semelhantes em investigação anterior (e.g., Rebollo-Bueno, 2025). Em termos específicos, o primeiro conjunto de variáveis visa quantificar a utilização do medo e a forma como este é referenciado pelos propagandistas. O segundo conjunto de variáveis permite, por sua vez, identificar os temas e os objetivos propagandísticos da fonte. Esta abordagem possibilita a identificação das estratégias de medo adotadas por cada um dos partidos políticos em análise, permitindo comparações sistemáticas entre eles. As variáveis encontram-se organizadas em duas dimensões de análise: presença da emoção e tema e objetivo propagandístico.
21Análise da presença da emoção:
-
- 1 Os perigos de natureza evolutiva específica correspondem àqueles que emergem à medida que os seres (...)
Desencadeadores do medo (Martín-Díaz, 2011): (a) perceção de perigo, (b) estímulos negativos intensos, (c) estímulos relevantes e novos, (d) perigos de natureza evolutiva específica1, (e) estímulos precedentes de interações sociais, (f) estímulos condicionados de natureza ameaçadora, (g) nenhum, (h) indeterminado, (i) outro(s) (campo aberto);
-
É o medo utilizado na mensagem?: (a) sim, (b) não, (c) indeterminado;
-
Perigo/ameaça utilizado para gerar medo (De-Castella & McGarty, 2011): (a) terrorismo, (b) desemprego, (c) imigração/migração, (d) crise económica/recessão, (e) alterações climáticas, (f) indeterminado, (g) outro(s) (campo aberto).
22Análise do tema e do objetivo propagandístico:
-
Tema (e.g., Aladro-Vico & Requeijo-Rey, 2020): (a) direitos dos animais, (b) direitos humanos/civis, (c) processos judiciais ou crimes, (d) economia e negócios, (e) educação, (f) cultura, (g) ambiente, (h) Europa, (i) governo, (j) saúde/bem-estar social, (k) imigração, (l) defesa/militar, (m) religião, (n) ciência e tecnologia, (o) conflitos/guerras, (p) notícias internacionais, (q) notícias nacionais, (r) infraestruturas, (s) campanhas e/ou partidos políticos, (t) normas/valores, (u) corrupção, (v) média, (w) nacionalismo/patriotismo espanhol, (x) nacionalismo/independentismo/separatismo catalão, (y) nacionalismo/independentismo/separatismo basco, (z) outro(s) nacionalismo(s)/ independentismo(s)/separatismo(s) não espanhol(óis), (aa) questões de género/feminismo, (ab) nenhum, (ac) indeterminado, (ad) outro(s);
-
Função/objetivo da mensagem (e.g., Bustos-Díaz & Ruiz-del-Olmo, 2016): (a) reflete uma notícia, (b) tomada de posição de um político individual, (c) tomada de posição de um partido político, (d) criticar/discutir um tema, (e) solicitar opinião pública, (f) dar aconselhamento/ajuda, (g) reconhecimento/agradecimento, (h) assunto pessoal, (i) humor, (j) destacar realizações, (k) nenhum, (l) indeterminado, (m) outro;
-
Meio de comunicação: variável aberta.
23Para verificar a fiabilidade do instrumento, foi realizado um teste de fiabilidade intercodificador utilizando o alfa de Krippendorff (1980/1990), tendo-se obtido α = 0,87, o que corresponde a uma concordância bruta estimada de aproximadamente 92%, indicando uma codificação forte e consistente em todas as variáveis. Os autores do artigo foram responsáveis pela codificação, desempenhando ambos o papel de codificadores. Para garantir a exatidão e a fiabilidade da codificação, e em conformidade com as recomendações de Krippendorff, a grelha de codificação e o respetivo manual de codificação foram testados por três indivíduos externos ao estudo, bem como pelos seus autores. Com base nos resultados do teste preliminar, as discrepâncias foram analisadas e discutidas, tendo o manual de codificação sido posteriormente revisto e ajustado, de modo a assegurar uma compreensão comum e inequívoca entre os codificadores. Como resultado, foi alcançado um nível ótimo de concordância no teste inicial, conforme os parâmetros de Krippendorff, em grande medida devido à clareza e robustez do manual de codificação. Para a análise dos dados, foram utilizados o Excel 16.65 e o IBM SPSS Statistics 26, o que permitiu a realização de análises de frequência e a aplicação do teste do qui-quadrado de Pearson, um procedimento estatístico de natureza não paramétrica. Este último foi utilizado para avaliar a existência de relações estatisticamente significativas entre as variáveis.
24A análise de conteúdo incidiu sobre publicações no X efectuadas pelos seis partidos políticos de âmbito estatal com representação no Congresso dos Deputados de Espanha: Partido Popular (PP), Partido Socialista Obrero Español (PSOE), Ciudadanos (Cs), Unidas Podemos (UP), Vox e Sumar. Embora o Cs não disponha atualmente de representação parlamentar e o Sumar tenha sido fundado apenas em 2023, a sua inclusão justifica-se pelo recorte temporal do estudo, que se inicia em 2014 — momento que marcou o início do novo contexto multipartidário em Espanha (Simón, 2018) — e se prolonga até às eleições gerais mais recentes, realizadas em julho de 2023.
25Foram consideradas apenas publicações que incluíam entrevistas e/ou excertos de entrevistas, uma vez que este género jornalístico permite aos atores políticos influenciar ativamente tanto o processo político como a agenda mediática (McNair, 2003). Cada entrevista completa e/ou excerto foi tratado como uma única unidade de análise.
26O estudo incide especificamente sobre as cinco eleições gerais realizadas desde 2014: (a) 20 de dezembro de 2015, (b) 26 de junho de 2016, (c) 28 de abril de 2019, (d) 10 de novembro de 2019 e (e) 23 de julho de 2023. Para recolher amostras do período eleitoral, foram selecionados 15 dias de campanha e 15 dias de pré-campanha. Para o período não eleitoral, a amostra incluiu 15 dias anteriores à convocatória oficial das eleições, tal como publicada no Boletim Oficial do Estado, e 15 dias posteriores à data das eleições. Cada período totaliza, assim, 30 dias. O corpus final é composto por 968 unidades de análise (ver Tabela 1).
Tabela 1. Unidades de análise por partido e por eleição
27A análise revela que o medo está presente em 29,64% da amostra, indicando que, embora a sua instrumentalização não seja predominante, constitui um elemento relevante. Além disso, como ilustrado na Tabela 2, o seu uso seguiu uma trajetória ascendente, passando de 1,4% nas eleições gerais de 2015 para 48,8% em 2023. Os partidos que recorrem com maior frequência a retórica baseada no medo são o Vox (43,2%), seguido pelo PP (38,6%), PSOE (36,2%) e Sumar (34,8%). Este dado é particularmente relevante, tendo em conta que o Sumar ultrapassou tanto o Cs como o UP na sua primeira e única participação eleitoral (2023).
Tabela 2. Frequência (%) do uso do medo em entrevistas ou excertos
28Além disso, embora os dados agregados revelem um uso quantitativamente transversal do medo no espetro ideológico, a análise temporal evidencia que o partido socialista incorporou esta estratégia mais tardiamente do que os partidos de direita. Este padrão é particularmente visível no mais recente ato eleitoral, em que a sua adoção se intensifica significativamente. O excerto seguinte, que inclui declarações de Santiago Abascal (Vox) na esRadio, constitui um exemplo ilustrativo da utilização estratégica do medo:
não pode ser que, na Catalunha, de manhã, Carlos Sastre, um assassino, lidere manifestações; à tarde, Otegi seja entrevistado na TV3; e, à noite, aconteça apenas o que pode acontecer, ou seja, que Barcelona volte a arder e seja novamente tomada pelo terrorismo de rua. (Vox [@Vox], 29 de outubro de 2019; https://x.com/vox_es/status/1189133102716739585)
29No que respeita aos dados comparativos entre os períodos eleitoral e não eleitoral, verifica-se um desequilíbrio quantitativo no número de entrevistas: 21,2% da amostra corresponde ao período não eleitoral. Estes resultados sugerem que os partidos políticos demonstram menor interesse na disseminação deste tipo de conteúdo discursivo durante o período não eleitoral e, consequentemente, que o uso do medo como ferramenta retórica é menos prevalente (10,5%). Neste contexto, o Cs (15,8%) e o Vox (13,7%) são os partidos com maior probabilidade de capitalizar o medo nesse período.
30De acordo com a variável de filtragem, os principais desencadeadores do medo são a “perceção de dano/perigo” (76,3%) e os “estímulos negativos intensos” (36,2%), sendo ambos utilizados por todos os partidos analisados (Tabela 3).
Tabela 3. Frequência (%) dos desencadeadores do medo
Nota. *A soma dos totais excede a dimensão da amostra, dado ser possível selecionar mais do que uma categoria por variável. A partir deste ponto, tal será assinalado com um asterisco.
31De facto, o teste do qui-quadrado de Pearson revela relações estatisticamente significativas com ambas as variáveis: χ²(5) = 49,514; p < .001 e χ²(5) = 27,213; p < .001, respetivamente, sugerindo uma utilização combinada frequente destas categorias. Um exemplo ilustrativo é um excerto de uma entrevista da RTVE com Pedro Sánchez (PSOE), em que este alerta para o impacto causado na sociedade espanhola pelos seus rivais políticos:
o Vox foi uma criação de Aznar. O Vox foi criado por Aznar para enfraquecer o projeto político de Mariano Rajoy. E acabou por ganhar autonomia relativamente ao Partido Popular. Atualmente, assistimos a um Partido Popular incapaz de travar — e que também não quer travar — a extrema-direita. (PSOE [@PSOE], 8 de novembro de 2019; https://twitter.com/PSOE/ status/1192728149349535744)
32No que respeita à terceira variável — perigos/ameaças identificados pelos partidos políticos (Tabela 4) —, importa salientar que a categoria “outros” é subdividida em subcategorias adicionais sempre que uma ameaça não previamente contemplada na grelha é mencionada em mais de cinco unidades de análise. As ameaças mais frequentes são a “crise económica” (19,2%) e o “independentismo/separatismo” (13,6%). No segundo caso, os dados revelam um padrão ideológico: os partidos mais à esquerda no espetro político (UP e Sumar) nunca enquadraram a questão territorial como uma ameaça.
Tabela 4. Frequência (%) de perigos/ameaças
- 2 Tal poderá dever-se ao facto de, nas eleições nas quais a extrema-direita tinha maiores probabilida (...)
33“Imigração” — mencionada pelo Vox (31,6%) e pelo PP (5,6%) — e “terrorismo” — referida pelo Vox (21,1%), pelo PP (16,7%) e pelo Cs (7,9%) — são também temas que o espetro conservador utiliza frequentemente para ativar o medo junto dos seus públicos. Em contrapartida, exceto a UP2, os partidos progressistas tendem a associar a eventual vitória dos seus adversários a um retrocesso para posições da extrema-direita — Sumar (28,2%) e PSOE (20,6%) — e misóginas — Sumar (41,0%) e PSOE (36,4%). Esta estratificação ideológica evidencia a disputa política em torno da construção narrativa, com os partidos a procurarem moldar a agenda mediática através de associações diferenciadas, orientadas para os seus segmentos eleitorais. Observa-se ainda que diferentes conjunturas políticas e perspetivas de governação influenciam a seleção destes enquadramentos discursivos: por exemplo, em momentos em que a direita tradicional poderia vencer as eleições autonomamente, os partidos de esquerda (como a UP) invocavam com maior frequência a “crise económica” ou “cortes de austeridade” como ameaças discursivas (questões económicas). Já quando se colocava a possibilidade de entrada da extrema-direita no governo, o discurso deslocava-se para ameaças relacionadas com o retrocesso de direitos (questões identitárias).
34No que respeita à ameaça mais frequentemente mencionada e ideologicamente transversal — a crise económica — verifica-se uma relação estatisticamente significativa com os partidos (χ² (5) = 25,870; p < .001). Tal é exemplificado na declaração de Yolanda Díaz (Sumar) na La Sexta: “a proposta de Feijóo, com o seu programa eleitoral de uma redução generalizada de impostos, irá levar o nosso país à falência, empurrando-nos para uma recessão” (Sumar [@sumar], 18 de julho de 2023; https://x.com/sumar/ status/1681197653307080704).
35Na evolução temporal destas ameaças (Figura 1), observa-se uma tendência crescente da retórica baseada no medo, acompanhada por uma maior diversidade de ameaças percebidas; apenas a “crise económica” e a “violência” registaram uma diminuição nas eleições mais recentes. Tal poderá dever-se ao facto de a crise económica estar mais distante no tempo e de a violência ter assumido maior relevância nas eleições de 2019, quando o separatismo/independentismo constituiu um tema central associado a atos violentos. Além disso, não se verificaram diferenças estatisticamente significativas no tipo de ameaças entre os períodos eleitoral e não eleitoral.
Figura 1. Evolução do uso de ameaças/perigos nas diferentes eleições (>25% em qualquer dos partidos)
36No que respeita aos temas (Tabela 5), verifica-se uma clara correspondência com as ameaças identificadas (Tabela 4). Assim, “economia e negócios” (27,4%) — com uma relação estatisticamente significativa (χ²(5) = 36,629; p < .001) — e “separatismo catalão” (23,7%) dominam o discurso público. Seguem-se as questões de género (20,2%) e não a imigração. Esta discrepância poderá dever-se ao facto de o feminismo, enquanto tema, ser também instrumentalizado para problematizar fenómenos como a imigração — por exemplo, através da criminalização de estrangeiros alegadamente responsáveis por um maior número de casos de violência baseada no género — bem como à distinção entre “machismo” e “políticas de género”, ambos enquadrados sob a temática do feminismo, mas percecionados como ameaças consoante a ideologia do emissor.
Tabela 5. Frequência (%) dos temas
37Além disso, os conteúdos analisados cumprem maioritariamente a função (Tabela 6) de “criticar/discutir um tema” (70%), com uma relação estatisticamente significativa com os partidos (χ²(5) = 23,292; p < .001). O que sugere que os partidos recorrem habitualmente a outros formatos comunicacionais para explicitar as suas posições oficiais sobre determinadas matérias (por exemplo, conferências de imprensa ou comunicados formais), do mesmo modo que os líderes políticos não expressam, em regra, posições estritamente pessoais, limitando-se a utilizar as entrevistas para comentar, numa lógica centrada no partido, os temas colocados pelos jornalistas. O género jornalístico utilizado na recolha dos dados pode, de facto, influenciar os resultados quanto às finalidades dos conteúdos. Um exemplo ilustrativo é o seguinte excerto de Pablo Casado (PP) na Antena 3: “desde que Pedro Sánchez está no poder, há mais 126.000 pessoas desempregadas ( ... ). O mesmo aconteceu na campanha de 2008 — o que aconteceu? Três milhões e meio de desempregados e uma recessão que terminou num resgate com tudo incluído” (PP [@ppopular], 2 de abril de 2019; https://twitter.com/ppopular/status/1113183077306474496).
Tabela 6. Função/objetivo do conteúdo
38Por último, embora as entrevistas tenham sido concedidas em diversos programas, Informativos Telecinco (Mediaset) é o mais frequentemente utilizado (8,1%). Apenas a UP se afasta desta tendência, apresentando dados ainda mais dispersos. A predominância de Informativos Telecinco — embora represente menos de 10% — poderá dever-se à estratégia do seu grupo mediático de se posicionar como transversal, sem evidenciar uma orientação ideológica clara (Ramírez-Dueñas & Vinuesa-Tejero, 2020).
39Contudo, a ideologia não deixa de desempenhar um papel relevante na tomada de decisões partidárias, sendo a escolha do meio mais “adequado” para difundir uma narrativa, sem dúvida, uma questão de natureza política. Assim, o Cs revela preferência pela Cope, o PP pela TreceTV e o Vox pelo OkDiario. Estes meios de comunicação têm assumido alinhamentos ideológicos claros com posições conservadoras (Masip et al., 2020; Niñoles-Galván & Ortega-Giménez, 2020). No que respeita ao Vox, o partido recorre igualmente a influenciadores como InfoVlogger e Wallstreet Wolverine. O uso intensivo das redes sociais (Bustos-Díaz, 2024) é consistente com a sua estratégia de se apresentar como vítima dos média tradicionais, que, segundo o partido, distorcem o seu discurso e lhe negam visibilidade (Hernández & Fernández, 2019). Por sua vez, o Sumar privilegia o La Sexta, um canal progressista pertencente à Atresmedia, que procura alcançar um espetro ideológico amplo e moderado (Humanes et al., 2021).
40Os sistemas políticos ocidentais assentam na democracia pluralista — isto é, na ideia de que os cidadãos se organizam para representar a diversidade da sociedade. No entanto, as lógicas eleitorais e de governação podem conduzir a uma homogeneização da competição partidária, atenuando algumas das suas diferenças ideológicas. Uma dessas convergências diz respeito ao uso do medo (e.g., Furedi, 2018). Ao longo das últimas cinco eleições gerais, todos os partidos de âmbito estatal com representação parlamentar recorreram a este instrumento para fins de mobilização — OE1 (Meana, 2008) — ainda que a sua expressão quantitativa tenha sido limitada. Embora seja verdade que o espetro conservador revela maior propensão para a sua utilização — Vox (43,2%), PP (38,6%) — a diferença face aos partidos progressistas é reduzida — PSOE (36,2%), Sumar (34,8%). Apenas o Cs e a UP, que não participaram nas eleições mais recentes, fizeram um uso marginal deste recurso. Estes resultados alargam o âmbito dos estudos sobre o uso propagandístico do medo na política parlamentar europeia, uma vez que a literatura sobre este tema se tem frequentemente centrado nos chamados partidos “populistas”, em vez de o considerar uma característica inerente à competição eleitoral (Bonansinga, 2022; Hloušek et al., 2024; Özer & Kaçar Aşcı, 2021). Apenas no caso italiano se considera uma pluralidade de partidos políticos, concluindo-se que o discurso baseado no medo é uma estratégia mais frequentemente utilizada pela extrema-direita (Martella & Bracciale, 2022).
41No que respeita às ameaças identificadas e aos temas em que estas são enquadradas, observa-se também um aparente consenso: o risco de uma crise económica (OE2) — num país ainda marcado pelas consequências da recessão de 2008 — assume particular destaque nas entrevistas analisadas. Contudo, no que diz respeito à forma como estes medos são mobilizados, emergem diferenças ideológicas. Um exemplo ilustrativo é o feminismo, um dos temas mais recorrentes no conjunto dos dados. Esta questão, frequentemente presente no corpus analisado, é utilizada pelos partidos conservadores para enquadrar as políticas de género como uma ameaça, enquanto os seus homólogos progressistas identificam o machismo como o verdadeiro perigo.
42Deste modo, tanto a economia como o feminismo constituíram temas abordados por todos os partidos. Poder-se-á argumentar que foram incluídos nas agendas mediáticas de forma estrutural, enquanto matérias de interesse geral que, independentemente da vontade dos atores políticos, não poderiam ser ignoradas. Ainda assim, identificam-se ameaças mais frequentemente abordadas e sobretudo mobilizadas no discurso público pelos partidos de direita, como o independentismo (13,6%), a imigração (11,5%) ou o terrorismo (11,1%). A esquerda, com menor expressão, procurou introduzir na agenda temas como o neoliberalismo (6,6%), a extrema-direita (6,3%) e a homofobia (5,2%).
43Os resultados sugerem que o uso do medo não contribui para a construção de uma agenda comum, mas antes para a formação de agendas paralelas que fragmentam o debate público. Como demonstrado nas Tabelas 4 e 5, cada partido prioriza diferentes ameaças e temas, construindo diagnósticos divergentes da realidade social que só raramente convergem. Enquanto os partidos conservadores e de extrema-direita destacam ameaças como a imigração, o terrorismo ou a desintegração territorial, os partidos progressistas centram a sua retórica baseada no medo em riscos associados à reversão de direitos, à ascensão da extrema-direita ou às desigualdades de género. Esta diferenciação reforça a segmentação das audiências e dificulta a existência de um espaço deliberativo comum, contribuindo, assim, para a fragmentação da esfera pública.
44Os resultados fornecem também uma resposta negativa à questão de investigação: embora se registe um menor número de entrevistas fora do período de campanha eleitoral, não se observam diferenças significativas entre os períodos eleitorais e não eleitorais no que respeita à exploração do medo. O único fator que distingue a sua utilização é a ideologia. Este resultado é consistente com a ideia de que as identidades podem ser construídas através do medo (Farré-Coma, 2005), neste caso, a partir de questões políticas.
45Em suma, os principais líderes políticos encontram no medo — uma emoção que integra a realidade dos destinatários — uma fórmula para tentar definir a agenda, num ciclo de sobre-exposição que poderá alimentar aquilo que tem sido designado como a “sociedade do risco”. Assim, a exploração do medo para fins políticos tem sido classificada como não democrática (Furedi, 2018), tanto pela sua capacidade de controlo como pela sua aptidão para monopolizar o pensamento do público (Ekman, 2007).
46O presente estudo apresenta limitações metodológicas que importa reconhecer. A análise foi circunscrita a entrevistas, com o propósito de explorar o papel da propaganda política tanto nas estratégias partidárias como na definição da agenda mediática. Ainda assim, a análise de outros tipos de materiais, como publicações em redes sociais ou anúncios de campanha, poderia fornecer contributos adicionais, nomeadamente no que respeita à forma como os atores políticos constroem as suas mensagens independentemente dos intermediários mediáticos. Importa ainda referir que a dimensão visual da comunicação não foi considerada, podendo esta proporcionar uma compreensão mais aprofundada de como os entrevistados se posicionam no contexto mediático mais amplo; no entanto, o presente estudo incide exclusivamente sobre o conteúdo textual. A quantificação das emoções permanece intrinsecamente complexa e, embora esta abordagem permita uma análise sistemática do conteúdo das mensagens, não capta os efeitos reais que estas podem produzir nas audiências.