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- 1 J. Clyde Mitchell, “The situational perspective”, Cities, Society and Social Perception, Oxford, Cl (...)
- 2 Michel Agier, “Les savoirs urbains de l'anthropologie”, Enquête, 1996, (4): 35-58.
1É a época das celebrações dos santos populares em Junho de 2004. Os lisboetas, nos seus bairros, ruas, pátios e vilas, encenam festas, bailaricos, improvisam bares e palcos que animam os lugares. Do alto do morro, do lado do antigo bairro do Casal Ventoso, hoje demolido, olhamos de dentro do carro patrulha no sentido do novo espaço habitacional da Quinta do Loureiro, onde estão realojados os moradores que viviam deste lado. Ali foi improvisado um ring de boxe público, muito concorrido, espaço onde convive ludismo e tensão. Se nos bairros da classe média vizinhos a visibilidade é um conceito policial a manter (os polícias uniformizados patrulham as ruas a pé e dão-se a ver), nestes bairros de pobreza, exclusão social e venda de droga a retalho, as fardas não são bem recebidas. Os agentes devem manter uma prudente distância. Resta-lhes o olhar que a acidentação geográfica permite. As festas, a bebida, os excessos levam ao apelo da mediação dos conflitos e, então, é a presença fardada que se convoca. É o momento das chamadas ocorrências, verdadeiras situações sociais para nós, antropólogos (lembram-se de Mitchell1 e, mais recentemente, de Agier2?), e que se configuram como acontecimentos policiais. Esta foto evoca essa ténue fronteira entre o olhar e a reacção, a calma e a excitação, a patrulha de visibilidade e o patrulhamento de emergências. O trabalho dos polícias passa por uma observação (que pode facilmente transformar-se em voyerismo) e pela classificação dos mundos sociais, regiões morais e políticas e pessoas (muitas vezes a meio caminho entre a estereotipização e a estigmatização). Mas outras porosidades surgem entre a responsabilidade e o desinteresse, a ética prática e o descompromisso, a proximidade e a desconfiança, podendo os polícias oscilar entre o autoritarismo e uma quase docilidade, características que derivam de a profissão se ter historicamente construído entre práticas de controlo e de assistência. Existem vantagens em olhar os polícias como citadinos que integram os nossos ambientes e universos sociais. E todavia, quando submetida ao olhar, a minha memória lança-me para a doce sensação do calor no final de uma tarde de Verão, a contrastar com as noites frias e pesadas que vivi durante as patrulhas de Inverno.
Notas
1 J. Clyde Mitchell, “The situational perspective”, Cities, Society and Social Perception, Oxford, Clarendon Press, 1987, 1-33.
2 Michel Agier, “Les savoirs urbains de l'anthropologie”, Enquête, 1996, (4): 35-58.
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| URL | http://journals.openedition.org/etnografica/docannexe/image/19173/img-1.png |
| Ficheiro | image/png, 559k |
Para citar este artigo
Referência do documento impresso
Susana Durão, «Susana Durão», Etnográfica, Número especial | 2006, 123-124.
Referência eletrónica
Susana Durão, «Susana Durão», Etnográfica [Online], Número especial | 2006, posto online no dia 10 setembro 2025, consultado o 08 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/etnografica/19173; DOI: https://doi.org/10.4000/14o0y
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