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Susana Matos Viegas

Susana Matos Viegas
p. 125-126

Texto integral

1Provei jaca pela mão de Deda, logo no primeiro mês de trabalho de campo, em Agosto de 1997. Saborear e manifestamente gostar do fruto foi a primeira de muitas outras situações que suscitaram conversas sobre árvores, frutos, cultivas de roças e casas, acabando no parentesco, nas mulheres, nos casamentos e na cíclica mudança do lugar das casas.

2A jaca é um fruto de grandes dimensões e muito pesado, difícil de manejar, de transportar e até de comer de uma só vez, já que fermenta rapidamente depois de aberto. Num clima quente e sem qualquer meio de refrigeração pode atingir a putrefacção em poucas horas. Assim, comer jaca é momento de chamar parentes, reforçando os significados mais importantes de habitar e edificar uma casa.

3A transformação da vida dos Tupinambá de Olivença, nestes últimos oito anos, pode ser condensada por esta foto, datada de Fevereiro de 2004. Nela, duas parentes de Deda posam para a minha máquina, com duas jacas que acabavam de apanhar. A sua postura recta invoca o tipo de trabalho de campo institucional que eu realizava nessa altura, para a Fundação Nacional do Índio, mas também o modo de os Tupinambá de Olivença encararem o momento de serem fotografados, preocupando-se em endireitar as costas “para não sair torto na fotografia”, idealizando assim como sujeitar o corpo ao escrutínio imagético.

4No dia em que lhe tirei esta foto, uma destas parentes de Deda vestia esta camiseta alusiva ao sistema fiscal. Nela se inscreve a longa experiência de relação com os patrões, a cidade e os organismos estatais, vivida com intensidade há pelo menos dois séculos pelos Tupinambá de Olivença e com a qual as mulheres souberam lidar mais cedo que os homens.

5Mas a imponência das duas jacas elevadas por estas mulheres numa só mão pode ser vista como um epítome da “resistência silenciosa” dos Tupinambá de Olivença a vergarem-se às representações estereotipadas do que é ou não é ser índio na Baía hoje. É através de aspectos experienciais como o prazer de comer certos frutos e alimentos que tenho vindo a compreender a transformação das suas vidas desde que, no ano 2000, foram reconhecidos pelo Estado como Tupinambá.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Susana Matos Viegas, «Susana Matos Viegas», Etnográfica, Número especial | 2006, 125-126.

Referência eletrónica

Susana Matos Viegas, «Susana Matos Viegas», Etnográfica [Online], Número especial | 2006, posto online no dia 10 setembro 2025, consultado o 13 outubro 2026. URL: http://journals.openedition.org/etnografica/19174; DOI: https://doi.org/10.4000/14o0z

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Autor

Susana Matos Viegas

Departamento de Antropologia, Universidade de Coimbra Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa
smviegas@antrop.uc.pt

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