- 1 Castelos a Bombordo. Práticas de Monumentalização do Passado e Discursos de Cooperação Cultural ent (...)
- 2 Aglomerado urbano das rotas caravaneiras. A transcrição dos vocábulos em hassāniīâ, o árabe dialect (...)
1A inclusão da Mauritânia no meu mapa de interesses académicos fez-se no quadro de um projecto subsidiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e que pretendia cobrir as práticas e retóricas da cooperação cultural portuguesa com países árabes e/ou islâmicos.1 Foi isso que me levou a Ouadane, um ksūr2 num oásis do centro/norte mauritano onde, eventualmente (as fontes portuguesas não o confirmam e as escavações arqueológicas também não), terá existido uma feitoria portuguesa.
- 3 DR I, Série B, nº 300, 30 de Dezembro de 2000. O projecto de cooperação portuguesa incluiu a recons (...)
2Não é fácil entender porque é que Portugal investiu, em 2000, na reconstrução da muralha do centro histórico de Ouadane.3 Mais complicado se torna entendê-lo tendo em conta a dominante nacionalista da cooperação cultural que se tem empenhado em glorificar e exibir o passado português. Em Ouadane não há vestígios físicos dele, nem audiência para tal. É por isso de crer nos relatos oficiosos de alguns agentes oficiais — conservadores e arquitectos — que participaram nesse processo de patrimonialização de uma memória sem substrato material. Dizem eles que, estando acordada a necessidade de investimento externo na África ocidental que, por razões da dominante lusófona da cooperação portuguesa, estaria destinado à Guiné, e tendo esse país entrado então em guerra, as verbas em causa terão sido canalizadas para Ouadane, por sugestão de um dos representantes diplomáticos portugueses nos países vizinhos que havia visitado recentemente a cidade.
3Não se leia na exposição destes relatos qualquer crítica ou intenção denunciatória porque a informalidade foi, aqui, criativa e, como veremos, talvez mais positiva do que noutras situações de cooperação politicamente mais formais. De forma mais optimista, a confirmar-se esta realidade, poder-se-á antes ler nela um primeiro sinal de cosmopolitização da cooperação portuguesa pelo investimento que foi feito num local de fraca rendibilidade em termos da exibição da memória expansionista de Portugal, mas efectivamente carenciado de apoios internacionais. Por outro lado, e de um ponto de vista mais epistemológico, sirva isso de testemunho para três constatações que se têm vindo a evidenciar e que suportam a pertinência contemporânea da antropologia: a de que os limites entre as economias políticas formais e informais são ténues e flutuantes; a de que as relações internacionais se estabelecem frequentemente sobre laços de relações e percursos pessoais; e, consequentemente, a de que o método etnográfico é especialmente apropriado para trabalhar os interstícios entre o local e o transnacional e o formal e o informal. Estes são alguns dos pontos de partida que insistirei em demonstrar aqui.
- 4 A República Islâmica da Mauritana divide-se administrativamente em 13 ūilāīâ (regiões), 53 mughātâ (...)
- 5 Nessas viagens subsequentes fui acompanhada pela Amélia Frazão que desenvolveu pesquisa em Ouadane, (...)
4Quando cheguei a primeira vez a Ouadane (em 2003) não era minha intenção desenvolver lá trabalho de campo mais demorado, para além daquele que me permitisse entrevistas ao presidente da comuna4 e a um conservador do museu local já referenciado, com vista ao esclarecimento da sua percepção do passado português e do processo de patrimonialização activado ali pela cooperação bilateral. Na verdade, a relativa marginalidade (territorial e simbólica) da acção de cooperação em Ouadane pareciam-me não justificar maior investimento, de tempo e orçamental, ali. Duas coisas alteraram a minha disposição nessa viagem: uma placa indicativa de um museu em pleno deserto de areia e o encontro com Zeida, a jovem proprietária da hospedaria Vasque. Para começar a entender a pertinência de uma e o sucesso empresarial de outra voltei a Ouadane mais três vezes, até agora (entre Março e Abril de 2004, em Janeiro de 2005 e entre Janeiro e Fevereiro de 2006).5
- 6 O que corresponde, à taxa de cambio actual, a cerca de 80 cêntimos de euro.
5A apenas cerca de 20 km de Ouadane (e a muito menos de Tonechert), o que, por pista de duna, parece muitíssimo mais, deparamos, subitamente, com uma placa de madeira pintada plantada no meio do deserto (?) indicando: Musée d’Enoj, 300 ouguias.6 A custo, e semicerrando os olhos, conseguimos, seguindo com o olhar a direcção indicada pela placa, vislumbrar uma cerca de folhas de palmeira em torno de uma tenda escura de lã: é o museu. Entre Abril e Outubro os carros não passam ali, de tal modo são insuportáveis as temperaturas que ocorrem. Mas o movimento da estação turística justificou que um velho cameleiro, agora guia de arqueólogos, turistas e cooperantes e proprietário de dois museus, ali estabelecesse um deles: o outro é em Tonechert, oásis maior, mais bonito e frequentado mas que, de acordo com as suas estimativas, não sobreviverá muito tempo à invasão das dunas.
- 7 Ū ilāīā do Centro/Oeste da Mauritânia, que ocupa cerca de 22% do seu território. Depois do maciço m (...)
6A direcção da placa levou-me ao universo do turismo, da patrimonialização e musealização de Ouadane e arredores, que explorarei agora apenas o necessário para a satisfação da outra curiosidade que quero aqui ver satisfeita: a do sucesso empresarial de Zeida – uma jovem negra, divorciada e com filhos pequenos — no planalto — por excelência mouro e masculino — do Adrar.7
- 8 As bibliotecas de Chinguetti são muito mais impressionantes que as de Ouadane e, por isso, foi a me (...)
7Ouadane fica a cerca de 650 km de Nouakchott, a 200 km de Atar (por pista de terra) e a cerca de 500 km da costa, na direcção da ilha de Arguim, onde se ergueu uma das primeiras fortalezas portuguesas (de estabelecimento não anterior a 1455; cf. Godinho 1945, 1956b). A cidade foi construída sobre aglomerados pré-existentes, mas as primeiras fontes que lhe fazem referência são portuguesas (Cadamosto e Sintra 1948 [1507]; Fernandes 1940 [1507]; Zurara 1994 [1453]). Uma das interpretações mais comuns para o seu nome liga Ouadane à confluência de dois rios — um de mel e outro de sabedoria —, o que a inscreve no território histórico dos sábios islâmicos e na genealogia tribal dos grupos marabúticos. Para além disso, ou por isso, Ouadane, como Chinguetti, um outro oásis a cerca de 54 km a sul (por pista de areia), ficava na rota da hājj, da peregrinação a Meca, e isso capitalizou a fama de ambas como cidades de ulemâ, fama justa a julgar pelas espantosas bibliotecas de manuscritos transmitidos no interior das grandes famílias marabúticas, de geração em geração, até aos nossos dias (Gaudio 2002; Tolba 1999).8
8Ouadane e Chinguetti, juntamente com outras cidades mais a sul, foram, assim cidades talhadas pelas e para as transacções. A retórica contemporânea dos proprietários/conservadores/guias turísticos apropriou-se dessa ideia para reforçar um certo cosmopolitismo local, contando-se aos turistas como desde há séculos Chinguetti antecipa o conceito de agência turística para dar apoio aos peregrinos.
9A entrada dos portugueses em Ouadane nos finais do século xv visava a intersecção das rotas de comércio caravaneiro dos produtos locais (sal das minas de Idjil) e de outros que eram trazidos do sul — ouro, escravos, goma arábica (Godinho 1956a, 1956b; Moreira, no prelo) — e levados para Marrocos. A ocupação portuguesa terá, contudo, sido efémera e discute-se hoje a real localização da fortificação portuguesa, se não mesmo a sua existência. Mas as fontes mais credíveis (cf. Ricard 1930; Zurara 1994 [1453]) parecem demonstrar que os portugueses se mantiveram no ksūr apenas alguns meses, sujeitando-se à resistência da população local (Cheikh et al. 2000). Ao contrário de anteriores visões que atribuem a decadência das rotas interiores ao posterior desenvolvimento do comércio das caravelas, Abdel Ould Cheikh afirma, contrariando Godinho (1956a), que “a caravela não matou a caravana” (Cheikh et al. 2000; Taine-Cheikh 2000) e que os dois comércios — interior e costeiro — se tornaram, durante séculos, complementares. A azáfama comercial de Ouadane decairá apenas com o desuso dos produtos que a atravessavam e, sobretudo, com a colonização e o comércio a retalho que se instalará na vizinha cidade de Atar. Mesmo assim, ao lado dos baús cujas tampas se abrem agora para mostrar os velhos manuscritos carcomidos pelas térmitas (estas mais expressivas da autenticidade em risco e, por isso, mais comoventes para a maioria dos turistas do que os próprios manuscritos em língua, para eles, incompreensível), algumas famílias exibem hoje os sacos, as armas e arreios, testemunhos ainda preservados do período caravaneiro de Ouadane, duplicando-se, assim, o exotismo do passado, país estrangeiro (Lowenthal 1985), num país estrangeiro.
- 9 A cooperação portuguesa, e isso é repetido a cada visita turística à cidade velha, foi a primeira a (...)
10A Mauritânia, o Adrar em particular, é pródiga em vestígios arqueológicos e outro património, muito dele inexplorado, cujo valor simbólico foi acrescentado por deambulações românticas ocidentais, como as de Théodore Monod ou de Odette du Pigaudeau. Deserto, pedras, grutas nunca antes visitadas, pinturas rupestres, jazidas e ateliês neolíticos no meio da areia, vestígios do mar a 500 km da costa… Mas a fase de patrimonialização que agora se encontra em efervescência encetou-se nos anos 90. Em 1996, três anos depois da sua constituição, a Fondation Nationale pour la Sauvegarde des Villes Anciennes (FNSVA) consegue o reconhecimento das cidades de Ouadane, Chinguetti, Tichitt e Oualata, como Património Mundial pela UNESCO. Coloquemos, provisoriamente, aí o início da retórica da salvação que vai dominar, a vários níveis, os processos de patrimonialização e turistificação de Ouadane, e atrair projectos de cooperação como o da reedificação das muralhas do “centro histórico” pelos portugueses.9
- 10 Ouadane chegou a ter apenas, nessa altura, pouco mais de uma centena de habitantes. Em 2003 contava (...)
- 11 Um “regresso” que continua a acompanhar os ritmos habituais na Mauritânia e que, por isso, é sazona (...)
11É importante, nesta altura, dizer que nesta região este género de aglomerado populacional — o ksūr — não era, habitualmente, muralhado (ver Cheikh et al. 2000): adaptando-se a ritmos e fluxos sazonais dos habitantes que viviam essencialmente do comércio de longo curso e do pastoreio, os ksūr eram de construção perecível porque a sua população era relativamente móvel. O construído e a ruína entrelaçavam-se. A ruína fazia parte, em cada momento, do presente da cidade, que não perdia muito tempo em reconstruções daquilo que o tempo, ou a força imprevisível do ūā d, destruíam cada ano. Mas também os vários períodos de seca (anos 60, e 1983/1984) e consequentes migrações urbanas, a guerra entre a Mauritânia e o Senegal em 1989 e, com efeitos mais directos sobre Ouadane, a guerra do Sahara — que, no início dos anos 80, levou a um enorme fluxo emigratório para Atar e Nouadhibou — contribuíram para a sua natural decadência urbanística.10 E quando, no início dos anos 90 se assiste ao regresso11 de alguns patrícios mais eminentes, em parte atraídos pela capitalização cultural da sua terra natal, isso implicará mais o desenvolvimento da parte nova do aglomerado do que o repovoamento progressivo do núcleo antigo.
- 12 Embora o termo al turāth — o património, em árabe — derive, como o nosso, do conceito de herança, e (...)
12Assim, as preocupações preservacionistas que hoje fazem parte da ideologia e das práticas quotidianas de Ouadane parecem relativamente recentes, e importadas12. As ruínas (gharī bā), hoje circunscritas pela muralha reconstruída com a ajuda dos fundos portugueses, desempenham, no entanto, um valor fundamental – acrescido, justamente, pela circunscrição que melhor permite a sua exibição – no sentido do apelo que reclamam à necessidade de preservação, melhor, salvação do património local. Aos olhos do turista as ruínas são o testemunho de uma autenticidade em risco, que é preciso preservar a todo o custo. Já não se trata do “dilema colonial” ou estremecimento perante a incongruência do gaze imperial que, ao rasgar um tempo panóptico, acabava por exibir, no espaço que tomava como anacrónico, a própria contestação do mito da narrativa única das origens (McClintock 1995). As ruínas despertam hoje, nos visitantes ocidentais (turistas, antropólogos, cooperantes), simultaneamente, a atracção pelo “autêntico-porque-antigo-e-em-decadência” e a responsabilidade pela sua salvação, sentimento duplo que se refracta e espelha, sob o sol mauritano, em múltiplos outros pontos da paisagem cultural local e que os mauritanos não renegam como fazendo parte da sua cultura, hoje. A cultura é uma miragem, mas a miragem também é cultura.
13Foi, contudo, o turismo que teve mais importância neste processo de difusão de atribuição de valor ao património local. Mas, ao contrário do processo formal de patrimonialização — induzido por elites e implementado oficialmente de acordo com os cânones internacionais —, o turismo teve um intenso desenvolvimento informal até começar a ser regulamentado pelas instâncias oficiais.
- 13 Alain Corneau, 1984. A relação entre a rodagem de filmes e turismo tem sido analisada na literatura (...)
14Tomemos como ponto de partida um momento significativo na história deste processo e que é revelado na visão local do desenvolvimento do turismo como relevante: o da rodagem de Fort Sagan,13 nos anos 80. Nele se conjugam uma série de situações, competências e intervenientes que permitem sumarizar o despertar do turismo enquanto actividade significativa no Adrar: a reciclagem do parque automóvel da produção cinematográfica para a realização de itinerários turísticos; a imagem veiculada pelo filme, aliada à já difundida pelo Paris-Dakar (que, por seu turno, sucedeu à de Saint-Exupéry); o know-how engenheiro e comunicacional entretanto desenvolvido pelos mecânicos de automóveis da rua principal de Atar (que há muito ali se concentravam para apoiar os acompanhantes anuais do Paris-Dakar ou os viajantes que se dirigiam, em aventura ou para vender carros nos países mais a sul); as redes de conhecimento internacional desenvolvidas nesses empreendimentos, aliadas às redes familiares e de conhecimento locais, à grande destreza na mobilidade, comunicação e hospitalidade da vida habitual na Mauritânia; tudo aquilo que, num lampejo de inteligência e oportunidade, como outros que haviam de o repetir, resultou no que se convencionou ser a primeira agência turística do Adrar — o Adrar Voyages.
- 14 Hoje existem sete estrangeiras e duas nacionais em Atar. A partir de 2004, os operadores turísticos (...)
- 15 Sendo 9120 franceses, seguidos dos belgas (335). Dados do Office Regional de Tourisme. Os números o (...)
- 16 Um dos operadores turísticos estrangeiros com experiência prévia em contextos semelhantes afirma qu (...)
15A estreia de Fort Sagan foi em 1984. Haveria que esperar dez anos por iniciativas decisivas para formalização do turismo na Mauritânia: a primeira Declaração da Política Geral do Turismo, em Maio de 1994; a fundação da SOMERSET, sociedade de exploração turística dependente da empresa exploradora do ferro das minas de Zoueirat (SNIM) e da Société Mauritanienne de Services et Tourisme, ambas em 1996. Só em 1997 é promulgado o decreto que regulamenta a profissão de guia (97-030 de 5 de Abril), e em 1998 o que fixa critérios de autorização dos estabelecimentos de alojamento e restauração (98-63 de 16 de Agosto). Mas, entretanto, os albergues, os restaurantes, os guias e cameleiros, os rent-a-car foram florescendo e multiplicando informalmente a sua presença, as agências estrangeiras foram-se instalando,14 sobretudo a partir do momento em que os aviões da Point Afrique, uma agência de viagens solidária que alegadamente faz reverter os seus lucros aos países destinatários, começaram a aterrar, todos os domingos (entre Outubro e Abril) no pequeno aeroporto de Atar. Ali desembarcaram, durante a estação turística de 2004-2005, 9923 turistas de 39 nacionalidades.15 A maioria eram mulheres.16
- 17 Por exemplo: a 6 km de Ouadane, em direcção a Chinguetti, está a “árvore de uma hora”: é a árvore q (...)
16E é vindos de Atar que muitos dos turistas chegam hoje a Ouadane, movidos ainda, entre outras coisas, pela ilusão de um espaço desértico nu, sem imaginar as placas de sinalização que o balizam e que são apenas a manifestação mais evidente dos limites que lhes são impostos.17
17Muitos são os textos que se têm debruçado sobre as formas de turismo dito alternativo, que acompanhou os movimentos de consciência ecológica e a emergência do desenvolvimento sustentável, por um lado (Duffy 2002; Honey 1999, 2002; McLaren 1998; Russel e Wallace 2004), e a contestação à universalidade dos valores da modernidade ocidental, por outro (Cohen 1995; Crick 1989; MacCannel 1989 [1973]; Urry 1991, 1997 [1995]). A concordar com Urry ou com MacCannel, que vêem no turista o paradigma do homem contemporâneo, é fácil entender porque não nos podemos alongar aqui, sob o risco de não chegarmos ao que nos interessa agora.
18Jim Butcher escreveu em 2003 uma pequena obra — The Moralisation of Tourism. Sun, Sand… and Saving the World — que, embora não muito eloquente, faz um sumário útil de algumas tendências do tipo de turismo, agentes turísticos e turistas que são também aqueles que encontrei na Mauritânia. São eles movidos por três princípios fundamentais que aqui ainda resumo mais do que Butcher: o da liberdade (libertação dos constrangimentos ocidentais), o da fragilidade (do ecossistema, da cultura e das populações locais) e o da salvação (como imperativo normativo para a sua conduta face à fragilidade local). Esta moralização do turismo aproxima-o da cooperação. E na Mauritânia, as fronteiras entre turistas e cooperantes e agentes humanitários (para já não falar dos antropólogos) são, de facto, muito ténues.
- 18 A Mauritânia tem uma densidade de antropólogos relativamente fraca comparativamente com outros país (...)
19A liberdade, a fragilidade e a salvação, importadas pelos turistas e cooperantes,18 tiveram um importante impacto nas economias informais de Atar e nos oásis do Adrar que conseguiram entrar nos circuitos turísticos.
20Não tentarei aqui fazer aquilo que a literatura etnológica sobre o turismo e a evidência da diversidade turística das últimas décadas já demonstraram ser impossível fazer, em qualquer parte do mundo: um retrato, ou uma tipologia, do turismo na Mauritânia. Ali é possível encontrar todo o tipo de turistas, desde mulheres de meia idade à procura de companhia masculina até rastas polacos à procura de não se sabe bem o quê. A população local, muito mais ciente dessa diversidade, conseguiu, apesar de tudo, detectar alguns padrões que pude confirmar: por exemplo, o de que os alemães e austríacos dormem sempre no deserto, evitando alojamento comercial estabelecido. Todos — ou quase todos —, de todas as nacionalidades, parecem partilhar dessa ideia mítica de que não são turistas (ou de que, pelo menos, não são turistas como os outros), assumpção que é, afinal, o único traço que permite impor-lhes um rótulo comum: o de “turistas alternativos”.
21Apesar desta diversidade, à qual os agentes locais têm demonstrado grande capacidade de adaptação, os organismos oficiais têm tentado etiquetar as formas de turismo que a Mauritânia tem para oferecer, que é muito mais determinado pelo tipo de procura do que, propriamente, pelo tipo de estruturas e recursos existentes. Assim fala-se de turismo sahariano, meharista, meditativo, cultural, ecológico, desportivo, de aventura e balnear (Ahmedou 1999). Mas, na verdade, o que encontramos são itinerários, quando não pacotes, que conjugam diferentes motivações, à semelhança do que tem vindo a acontecer com todos os destinos turísticos e respondendo às tendências universais das motivações dos turistas, cada vez mais diversificadas, por um lado, e compósitas, por outro.
22O exotismo do deserto e das palmeiras, colorido pelas indumentárias e hábitos locais, é simétrico do exotismo de uma ruidosa coluna de jipes, motos ou quads e dos enormes camiões de assistência que os acompanham, a entrar num pacato oásis ao anoitecer, ou de uma turma de yoga em estágio num palmar. O gaze é mútuo (Maoz 2006) mas, se tomarmos os turistas como um todo, como em geral os habitantes locais os tomam, então estes estão em vantagem: os turistas chegam e partem, eles estão quase sempre lá para os ver, e melhor conhecer as suas vontades e bizarrias.
23Vasque é o refrescante nome francês19 da hospedaria de Zeida Bilal, uma jovem empreendedora de Ouadane, e de uma mercearia com o mesmo nome, de que Zeida também já foi proprietária, que pertence hoje à irmã de sua mãe.
- 20 Feitas, a convite de Zeida, por uma pintora portuguesa que se tornou sua amiga.
- 21 O tīkīt e o mahmal são construções locais feitas de troncos e folhas de palmeira, o primeiro de for (...)
24Logo à entrada de Ouadane, ainda do lado de cá do leito do rio, e antes da subida do rochedo onde o casario se empoleira, os desenhos inspirados nas pinturas murais de Oualata20 atraem os turistas para a hospedaria, que mais não é do que o conjunto de seis quartos circulares em pedra, com tecto de colmo (imitando os antigos tīkīt-s), um mahmal21 que serve de sala de refeições, uma cozinha, dois duches e duas retretes (em Ouadane há água canalizada desde há um par de anos, mas electricidade ainda não) tudo formando um cercado, em cuja arena estão montadas, no chão de areia, três grandes khaīmâ-s (tendas) brancas.
- 22 Termo corrente para designar os estrangeiros, e maioritariamente utilizado pela população não arabó (...)
- 23 De tal forma que Zeida reconhece, pelo som, as marcas e os proprietários dos veículos, adivinhando (...)
25Mas muitos vêm já à procura de Zeida. Na verdade, a grande maioria dos tubab22 — turistas, amigos, cooperantes, diplomatas em férias (e antropólogos) — que ficam no seu albergue fazem parte de redes de conhecimentos, encontros ou afinidades por cuja manutenção ela zela cuidadosa e periodicamente, através do telefone e da Internet, de cada vez que desce a Atar ou sempre que alguém se presta a servir de emissário ou transportar carta ou encomenda. As distâncias nunca assustaram os mauritanos, e qualquer pessoa em trânsito — pastor, cameleiro, taxista, turista motorizado ou guia — é um potencial meio de transporte e de comunicação. A localização da hospedaria — num terreno pedregoso que Zeida comprou e limpou a braço, à entrada de Ouadane — permite controlar bem esses meios tão vitais para o negócio 23Tudo isto foi laboriosamente estudado por Zeida, antes de se lançar na empresa. Tinha então vinte e poucos anos.
26Eu não conhecia Zeida nem o seu albergue na minha primeira visita a Ouadane. Mas enquanto visitava as casas onde havia manuscritos, procurava o museu e deambulava pelas ruínas da parte velha, ela apareceu e acompanhou discretamente o meu passeio, sem impor a sua presença, como alguns jovens e crianças costumam fazer, mas disponibilizando-se a responder a qualquer questão, o que fazia de forma bastante informada, crítica e criativa. Vindo depois a conhecer o ritmo de trabalho a que o albergue e a família a obrigam, perguntei-me como havia podido dedicar-me essa manhã inteira a troco de nada. Conhecendo-a, hoje, melhor, entendo que, para além da genuína curiosidade e gosto pelo convívio, ela sabia que a sua mera presença e a sua história – que logo nessa primeira visita o motorista argelino que nos acompanhava me haveria de contar maravilhado (como outros homens o voltariam a fazer) – bastavam para atrair potenciais clientes ou, como prefere para alguns, amigos.
- 24 Homens e mulheres só devem tocar-se quando são parentes de sangue ou de leite: o presidente da comu (...)
27Zeida não gosta de falar de escravatura nem de pertença tribal. Mas não pode omitir os traços físicos que, na Mauritânia, a classificam socialmente, de forma automática. Ser negro, como ela é, sobretudo naquela parte do território, é ter origens, social e geneticamente falando, num grupo social tributário, se não escravo, até há muito recentemente. Também não pode esconder a idade: Zeida tem agora 29 anos. Há pouco mais de vinte anos ainda se vendiam escravos em Atar (Madi1997; Saleck2003; ver nota 45). Zeida nasceu em Ouadane, de uma mãe local e de um pai de Zoueirat, que ali esteve como militar. Tendo sua mãe morrido cedo, viveu grande parte da vida com a sua avó materna, que foi mãe de leite (o que atesta novamente o estatuto tributário da família) de vários ilustres locais mouros brancos (literalmente beī dān, brancos, por oposição aos Kūar, pretos), inclusivamente o presidente da comuna.24 Fez a escola corânica em Ouadane e estudou, depois, durante dois anos em Zoueirat, onde aprendeu um pouco de francês. Casou aos 19 anos em Nouadhibou e teve dois filhos. Rapidamente se divorciou e regressou a Ouadane onde vive agora com eles (um de nove e outro de seis anos), com a sua avó materna, com uma irmã e um irmão mais novo, e com uma tia materna divorciada com quatro filhos pequenos (hoje proprietária da sua antiga mercearia). Em Ouadane vive ainda o irmão de sua mãe que é casado e com filhos, pedreiro de profissão e, como todos os outros membros da família, com poucos recursos. Decidida a regressar a Ouadane e a manter consigo os filhos — vontade que a avó contrariava –, Zeida procurou trabalho mas, rapidamente, disse-me, entendeu “que não gostava de patrões e que, mesmo em relação à família, é preciso ser livre”. Foi “fazer comércio”.
- 25 Os griots (igga’ūin) existiam apenas entre as tribos guerreiras. Ouadane é território de tribos ess (...)
- 26 Nessa altura Ouadane produzia trigo: hoje nas zrība-s (propriedades agrícolas no leito do rio delim (...)
- 27 Indumentária feminina: uma longa peça de tecido, hoje em dia geralmente colorido, que envolve o cor (...)
- 28 Robert Vernet e Mohammed Ould Baouba, a quem agradeço informações preliminares que bastante contrib (...)
28Zeida não foi a primeira mulher da sua família a trabalhar fora de casa: a mãe era cantora (embora, insista ela, não fosse grio25), e a avó já fazia pequenas incursões na actividade comercial: o marido trabalhava nas hortas do palmeiral, mas ela viajava muitas vezes para ir ver o filho que trabalhava nas minas de ferro em Zoueirat. Foi assim que começou a comprar lá objectos — recipientes e outros utensílios domésticos, bijutaria — que trocava, depois, por trigo.26 Zeida começou por vender as coisas que sobravam da antiga actividade da sua avó. Depois foi-lhe juntando melaHfa-s27 e outros tecidos. Através do projecto de microcrédito Oásis, especialmente vocacionado para a agricultura, adquiriu um bidon de gasóleo que vendeu obtendo liquidez — 25 mil ouguias — para comprar mais objectos. Começou a recolher peças antigas, como pulseiras de prata, das gentes locais. Depois começou a vender pedras, pontas de flecha e lança, bifaces neolíticos e, às vezes, “coisas partidas” que comprava em Ouadane. Frequentou o Paris-Dakar que passava, então, mais perto de Ouadane. E, embora este ano tenha voltado a montar, com a sua prima Tété, uma tenda de venda no acampamento da organização do rally, em Al-Ghalaoui, recusa-se hoje, terminantemente, a vender “património”, dissuadindo os turistas de comprá-lo ou, ao contrário, instando-os a fazê-lo para depois o devolverem a algum dos museus. Zeida incorporou bem os princípios da acção de formação em que participou, ministrada por dois arqueólogos célebres.28 E mesmo os ovos das avestruzes, que até aos anos 60 não eram raras naquelas paragens, se tornaram para ela artigo interdito. O lugar deles é hoje nos museus, que se têm vindo a multiplicar em Ouadane, ao mesmo ritmo que o preço de entrada em cada um deles vai subindo.
29Em 2003 conheci apenas um museu (mthaf) em Ouadane, o maior e mais recheado, cujo conservador, Sidi Ould Abidine, ex-professor de liceu e erudito local, autoproclamado responsável pelo património de Ouadane perante a UNESCO, está em constante disputa com as “políticas culturais” do presidente da comuna. A última querela, que o levou a escrever várias e longas cartas aos ministérios e à UNESCO, teve que ver com a instalação daquilo que já é conhecido como “o farol de Ouadane”: uma antena para a rede de telefone móvel, que foi instalada mesmo ao lado do minarete da grande mesquita, amesquinhando-o.
- 29 Ingestão forçada de quantidades improváveis, e durante períodos prolongados, de leite de camela, a (...)
- 30 Os processos de patrimonialização colocam, como em todo o lado, questões difíceis relativamente à p (...)
- 31 Como a portada da janela do nosso quarto na hospedaria de Zeida, “financiada” por um dos programas (...)
30Em 2006, abriram mais três museus que, copiando modestamente o modelo do de Sidi Abidine, exibem a panóplia pré-histórica e histórica (bifaces, pontas de lança, machados, manuscritos), etnográfica (arreios de camelos, tigelas para o leite feitas de cabaças, pinças para torturar as raparigas em gavage29) e natural (ovos, fósseis, rosas do deserto) de Ouadane e arredores. E se é um facto que as campanhas de sensibilização foram eficazes no sentido da atribuição de valor aos testemunhos materiais da cultura, a verdade é que o que sedimentou, junto de grande parte dos habitantes, foi a versão mais mercantilista da retórica patrimonial: “não devemos vender o património, porque se ele é exportado nunca poderemos fazê-lo render; enquanto que, se ficar aqui, de cada vez que vem um turista apreciá-lo ele está a render”, disse-me o guarda de um museu (que se fazia passar por seu proprietário) ao mesmo tempo que, com a mesma ordem de razões, justificava o facto de todos os artefactos patrimoniais exibidos estarem marcados com tinta azul indelével para prevenção de eventuais furtos, agora que tinham esse valor patrimonial acrescido.30 Concomitantemente, o material usado neste processo de patrimonialização e lenta e pontual, mas progressiva, reconversão urbana — as madeiras, as placas que exibem os códigos abstractos das entidades, programas e financiamentos, enfim, o material de estaleiro — entra também no mercado informal e na paisagem urbana, sendo reciclado para telhado, porta ou persiana31
- 32 Pelo menos até à deposição do antigo Presidente Ould Taya, em 2005.
31É impossível não reconhecer as especificidades culturais e sociais de um país que fica entre o Magreb e a África subsahariana e que tem procurado definir a sua identidade política e cultural jogando com esse facto. A circunscrição nacional da discussão antropológica faz, neste caso, sentido por isso mesmo: o Estado tem sido interveniente activo neste processo de definição identitária e, por outro lado, é voz comum que a distribuição do poder político do território nacional tem sido claramente determinada pela lógica segmentar da organização tribal.32 Poder-se-ia discorrer longamente sobre o assunto que tem implicações a variadíssimos níveis, e acompanhar discussões acesas, sobretudo no seio da literatura etnológica francesa (entre outros, Ahmed Salem 2000; Villasante-De Beauvais 1998).
32Interessa-me aqui também referir, ainda que de forma necessariamente sumária, a forte estratificação social que assenta profundamente em laços sociais estabelecidos com base na genealogia, na raça, no género, na idade e na ocupação. São eles que, a meia escala, e concomitantemente com os dados de conjuntura nacional e transnacional, por um lado, e o percurso individualizado de Zeida, por outro, nos ajudarão a explicar o seu sucesso.
- 33 É importante lembrar, nesta altura, o apoio que as políticas coloniais francesas concederam estrate (...)
- 34 A tribo (qabīlâ) divide-se, sumariamente, em fracções (faghZa-s) que, por seu turno, se dividem em (...)
33Numa longa estratigrafia histórica que não posso aqui decompor (e sem me deter, por exemplo, nas manipulações coloniais a que foi sujeita) os beīdān (mouros brancos) ocupam o topo da hierarquia social e política afirmando-se, essencialmente, como árabes que subjugaram populações berberes pré-existentes (aznāg) e os negros do sul (as-sudān).33 Os negros que encontramos no Norte são, na sua maior parte, descendentes dos a’bid (escravos) ou dos harāt in (escravos libertos). Os “árabes” beīdān (que razões históricas nos dizem que têm muito de berbere) dividiram-se, grosso modo, de forma quase dumeziliana, entre as tribos guerreiras hassān e as tribos marabúticas (zaūaīâ) dos sábios religiosos. Este sistema de classificação social de determinante genealógica,34 étnica e racial foi, por seu turno, atravessado por outra grelha, que alguns dizem de castas (Hamès 1969) e outros de influência pré-islâmica, de categorização com base na ocupação, onde ganham relevo os ferreiros e os griots (igga’ūin).
- 35 Faço um resumo da discussão para o Magreb em Silva (1999: 54-65).
- 36 Sem falar de outras menos abrangentes: o nomadismo, por exemplo, faz dos āHl albadī â (os beduínos) (...)
34Independentemente da rigidez e pertinência destes esquemas ideológicos – que a antropologia dos anos 80 e 90 nos ensinou a olhar cautelosamente (quase ansiogenicamente35) –, esta conceptualização continua a nortear comportamentos políticos e quotidianos, formais e informais. Mas na verdade, e como também a antropologia nos ensinou, ela só pode ganhar, mesmo assim, alguma pertinência se tivermos em conta outras classificações categoriais como a da raça, do género e da idade.36
- 37 Oficialmente a escravatura foi abolida na Mauritânia em 1981 pela Ordonnance nº 81.234, emitida apó (...)
35Os harātin, bem como os outros grupos servis, eram por assim dizer, e sem entrar na discussão conceptual que lhes é relativa, castas sem tribo. Eles eram dependentes das tribos a que se sujeitavam como tributários e, por não terem pertença genealógica, acentuaram marcadores raciais, sociais e culturais que lhes permitem hoje a reivindicação de representatividade política com base em princípios de uma etnicidade largamente construída num passado de servidão 37(Saleck 2003; Villasante-De Beauvais 2000). Mas após a expulsão dos senegaleses, em virtude do conflito da Mauritânia com o seu vizinho do sul em 1989, muitos harātin empobrecidos ocuparam os seus lugares de operários de construção, vendedores, artesãos, ganhando papel importante na economia — sobretudo informal — e evidência no espaço público urbano. Isso é frequentemente explicado, não apenas pelo aguçamento do engenho pela maior necessidade (ou seja, pela sua pobreza), mas sobretudo pela independência em relação ao sistema de valores que, tanto nas tribos (árabes) quanto nas castas (negro-africanas), impede os seus membros de praticar certas tarefas (Bineta 1998). Nesse sentido, os haratīn arvoram a sua relativa liberdade e modernidade.
36Ao mesmo tempo, também o género obriga à decomposição da grelha rígida do tribalismo e suas conceptualizações, fornecendo-lhe (mais) sentido: só a quadrícula fina resultante da sobreposição final de todos estes idiomas — género, tribo, raça e idade — possibilita uma leitura pertinente das diferentes valorizações sociais. Tradicionalmente, a da mulher beīdān varia de acordo com a tribo e com a casta, mas assenta na sua dependência do trabalho servil. As mulheres que se entendem como nobres — hassān e zaūaīâ — são, por excelência, supervisoras do trabalho efectuado por outrem. Os hassān não fazem, recebem. A imobilidade é especialmente valorizada e reprodutora de estatuto e a prática da gavage, que marcou profundamente os ideais de beleza feminina da Mauritânia, é disso o mais eloquente testemunho. Pelas mesmas razões, também a idade obriga a ritmos de mobilidade e trabalho diferenciados: são as mulheres mais jovens as que mais devem trabalhar e movimentar-se. As mulheres beīdān, quando muito, trabalhavam no artesanato de pele ou, nalgumas circunstâncias especiais, davam aulas corânicas às meninas. Algumas fazem hoje incursões pelo comércio informal de jóias, roupas, cosméticos, mas sempre em circuitos fechados e elitistas, embora por vezes internacionais (Smale 1980; Tauzin 2001).
- 38 E, dentro da mesma lógica — na Mauritânia, proverbialmente, exacerbada —, as mulheres divorciadas p (...)
37Historicamente, como de resto aconteceu em muitos outros contextos, as mulheres dos grupos servis desenvolveram competências que as outras mulheres não conheceram e tiveram acesso a uma mobilidade que às outras não foi permitida. Às mulheres haratīn sempre foi reconhecida a capacidade de trabalho e iniciativa, tanto no domínio das tarefas domésticas quanto da agricultura ou do comércio. Por isso, e porque a ideologia islâmica propicia a dicotomização entre o princípio da reprodução e da sexualidade (separando esposas/mães de concubinas), também foram sempre vistas como mais resistentes e sexualizadas38 Também as actividades de entretenimento, a dança e a música — mesmo quando para fruição dos beīdān — estiveram historicamente associadas aos grupos servis ou tributários, quando não, especificamente aos griots. Por isso essas competências e prazeres foram igualmente mais desenvolvidas pelas mulheres dos grupos socialmente mais desvalorizados (Guignard 1975; Tauzin 2001).
38Depois dos motoristas que nos levavam a Atar ou a Ouadane, que sempre falavam dela com admiração, foi Zeida quem acabou por me contar a sua história e permitir que a registasse (em áudio). Fi-lo com o mesmo pudor que sempre me há-de acompanhar nestas situações, por mais que as repita. Zeida, que apesar de tudo não estava à vontade, disse-me que, em todo o caso, já o havia feito para o Peace Corps, numa acção de formação e que, inclusivamente, já algum turista lhe havia sugerido que a escrevesse e fizesse um folheto para os seus clientes: “os turistas gostam disso”. Contou-me também, orgulhosa, como já a haviam entrevistado para um documentário sobre a importância da preservação do património na Mauritânia e como, em 2003, o director do Office de Tourisme, num programa de rádio, a havia dado como exemplo do empreendedorismo feminino no sector. Toda a gente em Ouadane lhe dera os parabéns. Definitivamente, Zeida era local e globalmente apreciada e objectivava o valor daquilo que se dispusera a dar-me: a sua história.
- 39 Embora o albergue de Zeida não seja o único a ser gerido por uma mulher. Antes de 2003-2004 existia (...)
39Quando lhe perguntei se tinha consciência de que o facto de ser mulher, afinal, parecia ajudá-la, respondeu-me com um inequívoco “claro! Não só os turistas procuram mais o meu albergue por causa disso,39 como também os habitantes de Ouadane se disponibilizam a ajudar, a fornecer transporte, a dar um dia ou dois de trabalho se necessário”. Mais: por exemplo, fora Mo-Mo — um sexagenário francês com longa carreira turística na Mauritânia (a caminho do Mali ou do Senegal) – quem lhe arranjara a torneira do duche que estava avariada.
40Mas Zeida sabia ainda mais do que isso. Não era apenas uma mulher que atraía os turistas: era ela, era a sua performance. E de cada vez que um grupo novo chegava e ela se dirigia ao mahmal-refeitório para, como quase sempre o fazia, os acompanhar na primeira refeição, repetia, por vezes já cansada: “O espectáculo vai começar! E mimava o sorriso brilhante que lhes haveria de lançar”. Não que Zeida seja bonita, cante ou dance airosamente. De facto as suas primas fazem-no de forma mais elaborada e sedutora. Mas, apesar disso, são elas que se servem do sucesso empresarial de Zeida para captar os seus turistas para as bancas de venda, reclamando o parentesco com ela (o que a irrita), ou tentando imitá-la nos seus empreendimentos. Mas nenhuma tem a sofisticação no domínio do mutual gaze (Maoz 2006) que Zeida exerce sem se deixar violentar.
41O sucesso de Zeida reside, em grande parte, na gestão dessa tensão intercultural e intersocial, dos limites sensíveis do público e do íntimo, da relação profissional e pessoal, da hospitalidade e do negócio, que consegue manipular com tão bom humor. É a isso que a maioria dos registos dos visitantes no livre d’or do albergue se referem, quando elogiam a frescura, a calma, o brilho do sorriso de Zeida que elegem, indubitavelmente, como a mais-valia do albergue —“un vrai oasis” —, e é isso que Zeida exibe nas fotos com amigos e antigos visitantes que expõe no placard do refeitório, para devolver (e reciclar) o agrado.
- 40 Guelb er Richat é uma gigantesca formação anelar com cerca de 40 km de diâmetro e um dos sítios de (...)
42Não foi preciso passar muito tempo na hospedaria para perceber quão cansativa, mas importante, era a actividade de entertainer na sua manutenção. Não que Zeida não tirasse gozo da sua atitude, mas reagia por vezes às exigências dos turistas que sempre consumiam a sua energia e por vezes invadiam a sua vida privada. Por isso tinha os seus limites disciplinadamente definidos e disso fez questão de me avisar logo quando me começou a contar a sua história. Também por isso, disse, era particularmente sensível às transgressões que, respeitando os hábitos de todos — a ingestão de álcool, as indumentárias e exibição de sensualidade de alguns turistas, as perspectivas de outras religiões —, não tolerava. Especialmente chocada ficara, por exemplo, com o desdenho com que um conhecido piloto, campeão internacional do rally, se referira à situação das mulheres na Mauritânia: “ils vous restent beaucoup de choses a apprendre”, dissera ele, quando ela, depois de um agradável serão de conversa polida, se recusara a estender-lhe a mão em cumprimento. Mas, simetricamente também contou, indignada, o episódio em que um polícia a deteve quando se preparava para acompanhar um grupo de estrangeiros em visita a Guelb er Richat.40 Respondendo às críticas do polícia que a admoestava por ser perigoso para uma mulher sozinha andar com nzrānīn, Zeida enumerou que: primeiro, ele não a conhecia e ela era uma mulher trabalhadora e honrada (“Se é proibido trabalhar para viver, dizes-me que é proibido partir com os turistas. Eu não trabalho com os turistas para arranjar marido”); segundo, que era muçulmana como ele, mas que não seria ele a “arder no fogo” se algo de condenável viesse a acontecer, o que achava improvável; e terceiro que, de qualquer forma, na Mauritânia quem deve ter cuidado são os tubab porque não estão no seu país. Esta resposta, assim bem sumariada à maneira pragmática de Zeida, é esclarecedora e representativa do registo que muitas mulheres muçulmanas hoje utilizam para se afirmarem na cena pública: num discurso eivado de individualismo moderno reafirmam a sua honra e dignidade, sublinhando a sua conformidade com os princípios do Islão e aproveitando o argumento para, à luz do mesmo, reclamar o dever de respeito e protecção das mulheres que a religião impõe aos homens. No seu remate, o que Zeida estava dizendo ao polícia, subvertendo a crítica que este lhe fizera, era que nada havia a temer porque estava confiante que os homens do seu país sempre a protegeriam, até do eventual perigo dos tubab, esses sim desprotegidos num país que não era o deles.
- 41 A este propósito contou Zeida a história de um homem cuja riqueza avultada era resultante de contra (...)
43Embora decidida e expedita na resposta a situações de tensão concretas, Zeida não é inequívoca em relação aos efeitos do turismo num país muçulmano. De facto ela é bastante crítica e temerosa, reagindo, por exemplo, aos comportamentos dos acompanhantes do Paris-Dakar, sobretudo para com as mulheres — que tomam, indiscriminadamente, como disponíveis — e aos hábitos de consumo que incentivam nas crianças. Talvez por isso seja determinada em não querer que os seus filhos cresçam nas cidades maiores como Atar ou Nouadhibou. Mas, por estas e outras declarações, entende-se que confia nas possibilidades do livre arbítrio, desde que comedido pelos princípios basilares do Islão. Contou-me, por exemplo, como os ulemâ discutem a propósito de os homens mauritanos poderem ou não cumprimentar as mulheres estrangeiras com aperto de mão, porque essa situação não está contemplada na xa’rīa, e como era sua opinião que cada um deve escrever isso, que não está escrito, como melhor entender para si. Mas mais significativa dessa preocupação e empenho em pautar as suas atitudes de forma esclarecida mas sempre pelo Islão, foi a sua consulta a um alīm para apurar se o lucro da hospedaria era tributável para efeitos de zaKāt, e a sua intenção de voltar a consultá-lo para saber se poderá, um dia, fazer a peregrinação com o dinheiro recebido dos nzrānīn, o que teme ser harām.41
44O negócio com nzranīn e, sobretudo, a cobrança da hospitalidade são, contudo, assuntos que ultrapassam a xarī’a. Um sofisticado guia da SOMERSET em Atar falava-me com desagrado da população de algumas aldeias do Parque Nacional do Banco de Arguim e do facto de estas não só cobrarem excessivamente a dormida e a alimentação dos turistas como de a exigirem aos guias e cozinheiros que os acompanhavam. A esse propósito lembrou que em Chinguetti — donde era originário — “seria impensável, porque vergonhoso, nos anos 80 cobrar qualquer tipo de hospitalidade ou abrir um albergue”. Quando retorqui que se tratava de um negócio, perguntando-lhe qual achava ser a solução para o dilema, respondeu, num francês imaculado, que era preciso fazer as coisas com “souplesse et subtilité” e não permitir que o negócio matasse a hospitalidade. Percebi depois, pelo seu descontentamento mal mascarado em relação à amizade que suas irmãs nutriam por Zeida, que este guia não havia resolvido os reveses sociais que o turismo introduzira nos esquemas hierárquicos que lhe eram anteriores, e pelos quais, no fundo, ainda se pautava.
45Ora ninguém gere o negócio do turismo com “souplesse et subtilité” como Zeida: na primeira vez que ficámos na sua hospedaria, só já depois de partirmos, demasiado tarde para o remediarmos, nos apercebemos que nos havia cobrado apenas metade do preço da estadia, contabilizado já o desconto que havíamos acordado pela duração prolongada; na segunda vez fizemos tudo para evitar que isso voltasse a suceder e Zeida cobrou-nos o preço justo. Já em Atar, até onde nos quis acompanhar quando partimos, permitiu que lhe oferecêssemos o jantar do primeiro dia e, no segundo, arranjou forma de que não saíssemos, convidou as outras investigadoras que se haviam juntado a nós em Atar e alguns amigos seus e encomendou uma cabra inteira que mandou assar e rechear no forno de lenha, o que, por certo, ultrapassou o valor do desconto que havíamos recusado. Zeida era uma exímia jogadora da hospitalidade e da dádiva. O seu sucesso explica-se pela segurança que ostenta e que suporta numa vigilância zelosa pela sua honra e reputação, que inclui a observância rigorosa dos requisitos religiosos e sociais locais sem, novamente, deixar que isso a violente. É assim que ela consegue estar, simultaneamente, no livre d’or dos visitantes e no quadro de honra dos habitantes.
- 42 E não só Zeida: por exemplo, Sidi Abidine, o conservador do principal museu, a cada vez que lhe bat (...)
46O êxito de Zeida não se faz sentir apenas junto dos turistas e da população local. Também os cooperantes internacionais e os agentes humanitários rapidamente se aproximaram dela e a requisitaram para projectos locais. Por isso, e pelo seu envolvimento na actividade turística, cedo começou a participar nas reuniões da comuna relativas a projectos de desenvolvimento local e regional. Para além disso, é o seu albergue que aloja, frequentemente, os cooperantes que, depois, ali enviam amigos e familiares em turismo. Ao contrário, também outros visitam Ouadane como turistas para regressarem, depois, em missão humanitária e rara é a semana em que não apareça uma delegação de uma ONG. Cooperação e turismo têm, em Ouadane, limites difusos e os seus habitantes mexem-se bem em ambos os territórios.42
- 43 Ficou conhecido o discurso de Néma em Março de 1985, em que o presidente fez apelo à participação d (...)
47Não sei se por mera decisão sua se por influência da Secretaria de Estado da Condição Feminina criada em 1992,43 logo no início da sua vida de empresária, Zeida organizou, com suas parentes e amigas vendedoras, a primeira cooperativa ouadani: convenceu-as a que todas vendessem as peças para os turistas a um preço comum para que isso não as colocasse em concorrência e permitisse subir os preços. Foi ela também que encabeçou a resistência quando a polícia as quis impedir de vender à porta da hospedaria de um dos primos do presidente de Ouadane, num espaço que ela considerava público e, por isso, de livre mercado.
48Hoje existem em Ouadane vinte associações locais, cinco das quais no edifício construído com fundos comunitários europeus. Zeida não pertence a nenhuma e aborreceu-se com a alegada hipocrisia das organizações não governamentais estrangeiras. Está nos seus planos próximos montar uma cooperativa de índole social mas sem investimento externo, que se preocupe, sobretudo, com os agregados familiares de mulheres sozinhas. A sua ideia é comprar uma zrībâ que possa ser explorada pelas associadas.
- 44 As principais fontes de rendimento da Mauritânia são a pesca e a exploração mineira: o ferro, a que (...)
- 45 46% da população mauritana vive abaixo do limiar da pobreza. O país foi classificado em 154º lugar, (...)
- 46 Dados publicados em Horizons, 4 de Janeiro de 1994, 9 de Março de 1997 e 6 de Março de 1998
49A população de Ouadane é maioritariamente feminina e muitas famílias são monoparentais por razão da emigração para as minas e para as cidades costeiras.44 O retrato de Zeida, uma mulher jovem tendo a seu cargo crianças e idosos é, assim, bem representativo de uma população empobrecida.45 Este retrato não é exclusivo de Ouadane (nem, como sabemos, da Mauritânia). E tal como noutros países, a pobreza é, essencialmente, feminina. O único empregador feminino é o Estado. A taxa de desemprego das mulheres é quase 15% superior à dos homens e, por isso, encontramos valores de emprego informal e de auto-emprego muito superiores entre elas. Essa tendência evidenciou-se quando, ao longo dos anos 80 a taxa de desemprego aumentou de 17% (em 1977) para 25,8% (em 1988), e se criaram cerca de 8500 postos de trabalho informais que ocuparam mais de um quarto da população ocupada não agrícola.46 Desde então, a tendência é para que o mercado de emprego se informalize e se terciarize. Neste processo, como historicamente noutros momentos de crise na Mauritânia (Smale 1980), ganharam especial importância as mulheres e, como vimos, os haratīn que, desde há anos, substituíram os senegaleses, repatriados em 89, na pequena economia urbana.
- 47 Como foi o caso de uma soirée num acampamento onde dormiam os participantes de uma maratona interna (...)
50A maioria das associações cooperativas de Ouadane são independentes da, e pré-existentes à, actividade turística (agrícolas e / ou artesanais para produção de bens para consumo local). O turismo veio, contudo, estimular a produção de alguns artigos (sobretudo esteiras vegetais bordadas com couro de camelo e tecidos de melaHfa tingidas artesanalmente) e fazer com que as mulheres procurassem pontos de venda estratégicos. Uma das cooperativas conseguiu instalar um ponto de venda mesmo junto à grande mesquita e à saída do circuito de visita da parte velha. Outros pontos de venda são o buvete restaurado na zona antiga e, este ano, a khaīmâ montada junto à grande porta da muralha, onde está afixada a participação portuguesa na reconstrução da muralha. Mas o grupo ruidoso que todas os dias ali se juntava era um grupo informal de gente que se associara para partilhar as despesas da tenda e — dir-se-ia a julgar pelo número de turistas que ali estacionava, pelo irrisório valor das vendas que faziam e pelo ar de festa que sempre ali pairava — para entreter um tempo que não era marcado pelo ritmo de um trabalho regular. Homens, sobretudo rapazes, mulheres e crianças, na sua maioria negros, ali passavam os dias tomando chá que ofereciam aos transeuntes — turistas, mas também aos guias, cameleiros e chauffeurs em trânsito, que actualizavam as notícias das redondezas — cantando, dançando, jogando cartas e atirando sortes com búzios eloquentes. Zeida juntava-se com prazer “às suas antigas colegas”, como gostava de lhes chamar relembrando os tempos em que também era vendedora. Noutras circunstâncias, este grupo dispersava para cada um ir montar a sua própria tenda e pernoitar junto a outras concentrações de turistas ultrapassando-os, muitas vezes, em número e animação.47 Mas esta capacidade de mobilidade e estabelecimento manifesta-se sobretudo na inesperada aparição de autênticos mercados, eminentemente femininos, à passagem dos jipes, em locais onde não se vislumbra uma única sombra, nem de árvore, nem de construção, nem de qualquer outro vestígio humano que não sejam os sulcos do rodado.
- 48 Abordagens mais enfeudadas na literatura dita pós-colonial (por exemplo McLintock 1995, ou Young 19 (...)
51O percurso de Zeida, cuja dimensão e mérito estritamente pessoal apenas enfatizo menos aqui por se tratar de um ensaio em antropologia, pode ser entendido à luz de uma leitura pós-colonial no seu sentido menos polémico:48 o que entende os quadros de contextos historicamente colonizados à luz de estruturas pré-coloniais que permaneceram e eventualmente foram estimuladas com o colonialismo e se articulam, agora, com outros quadros sociais e económicos contemporâneos que, no caso, retomam fragmentos do gaze colonial.
- 49 Claro que a ideia de sucesso pode sempre ser contestada. Mas basta-nos saber que, num contexto de p (...)
52Num primeiro momento, a razão do sucesso de Zeida pode encontrar-se no domínio das relações transnacionais. Sei que tenho falado pouco (explicitamente) de informalidade mas, afinal, é por lá que sempre temos andado, atravessando diferentes escalas, começando nesta. A desdiferenciação contemporânea entre turismo e desenvolvimento, cultura e economia, lazer e trabalho cria espaços de acção e conduta para os viajantes internacionais que impedem a sua categorização formal. Por seu turno, as populações residentes e empobrecidas adaptam-se a todos os recursos antecipando-se, muitas vezes, à formalização das novas economias. Essa adaptação informal à informalidade dos novos fluxos de viajantes (que é uma mais-valia — porque uma atracção para a viagem — que tende a desaparecer com a intervenção progressiva do Estado ou da economia regulamentada) não é feita de forma sociologicamente homogénea. Uns participam, outros não; uns têm sucesso, outros não. A questão colocada foi: a que se deve o sucesso da participação de Zeida49 neste processo, num meio social e cultural que lhe é, aparentemente, tão adverso?
- 50 Continuo, no entanto (e na linha do que escrevi em 2004), a encontrar vantagem no desenvolvimento d (...)
53A literatura de género costuma enfatizar a relativa liberdade das mulheres mauritanas face aos constrangimentos habituais da “mulher muçulmana” (por exemplo, de certa forma, Tauzin 2001). Fazer esse tipo de aproximação de essencialismo comparativo é uma tentação para quem, como eu, trabalhou noutros contextos islâmicos. Mas a sensatez metodológica insiste em que relativizemos o espartilho conceptual do Islão e abordemos o género etnograficamente, em seu contexto social e cultural mais detalhado. Retrospectivamente, entendo agora que a questão que coloquei sobre Zeida foi reflexo do “espanto” perante o seu sucesso que interpretei à luz de um quadro formatado por clichés da realidade feminina muçulmana e por experiências etnográficas prévias e alienígenas. 50Ora uma primeira aproximação etnográfica da questão dissipa o espanto porque o coloca, paradoxalmente, entre os recursos bem geridos que explicam o sucesso (que nos espantava) de Zeida: a raça negra, a pobreza, a feminidade, a maternidade solitária tornam-na frágil e induzem desejos de salvação. O seu êxito num meio que parece tão adverso (mas onde, no fundo, tem mais recursos do que muitos/as que, para nós, os evidenciam) provoca o espanto. Tudo isto atrai turistas, cooperantes, amigos (e antropólogos) e exponencia o seu sucesso.
54Ainda numa escala de análise transnacional, podemos encontrar explicações para os bons resultados de Zeida no quadro global que atribui às mulheres maior capacidade de integração no mercado turístico internacional, porque este lhes abre um universo de trabalho em geral mais feminizado e onde têm, em geral, mais competências prévias do que os homens. Isso obriga-nos a aproximar dos universos etnográficos estratificados, para podermos ter em conta as concepções de género e outras categorias sociais locais. Mas antes de lá chegarmos, é importante não esquecer uma escala intermédia: a do Estado.
55Neste segundo momento de análise poder-se-ia falar da menor integração da mulher nas economias formais, o que justifica a sua maior propensão à entrada nos mercados informais que se formam com o advento de novas oportunidades económicas. Nesse momento, a questão tem que ser perspectivada não tanto à luz do quadro do encontro internacional pós-colonial, mas ao nível nacional e da participação do Estado. O comparativismo com outras situações de mudança, por via de migrações e mobilidades, determinadas por secas ou conflitos antes, durante e após a colonização, que implicaram recurso a auto-emprego informal por parte de outras mulheres noutros contextos da Mauritânia foi esclarecedor.A acção do Estado face a essas situações prévias (o incentivo ao associativismo, as medidas políticas de apoio às mulheres), bem como a sua entrada (tardia) na paisagem turística para a sua formalização, têm que ser contabilizadas. Por seu turno, o acompanhamento histórico dos grupos minoritários (sobretudo os racializados) e o trajecto político do seu empoderamento dentro do Estado, não podem ser negligenciados.
56Por fim, num terceiro momento, a questão tem que ser analisada, definitivamente, à luz dos quadros sociais e culturais locais e regionais (sem, obviamente, o deslocarmos das escalas concêntricas que também o definem). Em Ouadane, o processo de mercadorização da cultura empreendido pelo turismo e pela ONGeização, imbuídos da concepção do turismo/desenvolvimento sustentável, levou à subversão de valorizações sociais anteriores, o que, neste caso, libertou alguns (algumas) mais do que outros (outras), para a corrida a uma nova economia. No quadro social e cultural regional, a capacidade de trabalho e o domínio dos recursos materiais eram histórica e formalmente desvalorizados relativamente aos recursos sociais, o que fez com que fossem os grupos servis e tributários a desenvolvê-los. Assistimos à subversão do sistema de estratificação social — fortemente racializado — e também de género, em situação de crise, quando passam a ser economicamente valorizadas as capacidades de trabalho e a liberdade de mobilidade, apanágio das mulheres haratīn ou tributárias em detrimento da imobilidade das mulheres beīdan. As concepções de género e raça foram, durante muito tempo, atravessadas por essas categorizações interdependentes baseadas na genealogia e no estatuto. Zeida fica num quadrado quase perfeito, de uma quadrícula a que a etnografia devolve sentido, para lançar mãos de novos recursos que sagazmente reconheceu.
57Num plano que trespassa todos estes e não é menos pertinente do que nenhum, está a volatilização (globalização) do Islão, a democratização do acesso às fontes e interpretação da xa’rīa que, em casos como estes, e de forma aparentemente paradoxal, abre alternativas individuais aos códigos sociais paralisantes, continuando a garantir, contudo, a respeitabilidade. Parece ser lá, nesse Islão, tanto ou mais do que na comunidade de habitantes, que Zeida procura os seus códigos e cuida a sua honra. É, talvez, aí que ela encontra o maior garante da sua liberdade. A tudo isto, acrescentemos “apenas” a capacidade de trabalho e o fantástico génio pessoal de Zeida, ao qual espero ter feito justiça com este texto, que não poderia escrever sem ela.
58P.S. Zeida devia integrar uma comitiva de visita a uma cidade da Provença que, por via de um protocolo como uma ONG francesa, foi geminada com Ouadane. Esperava há mais de dois anos — desde que a missão recíproca, de jovens franceses em Ouadane, partira — que se resolvessem questões burocráticas e de financiamento. Não obtendo resultados decidiu partir, com o mesmo destino e o apoio de amigos, pelos seus próprios meios. Já depois da nossa última estadia, a embaixada francesa negou-lhe o visto, sem explicação. Zeida perguntou-me pelo telefone: “De que é que eles têm medo, afinal?”. O medo e o espanto têm a mesma raiz. O medo repele. O espanto impele — sabemos — com motivações muitas vezes obscuras e dominadoras; mas resistir ao seu apelo, ainda que ambíguo, é ceder lugar inevitável ao medo, e desistir.