Telmo H. Caria. Experiência etnográfica em ciências sociais
Telmo H. Caria. Experiência etnográfica em ciências sociais. Porto, Edições Afrontamento, 2002.
Texto integral
1Um pequeno livro com textos úteis: eis uma forma de sumariar Experiência Etnográfica em Ciências Sociais. A colectânea junta-se à (escassa) bibliografia – de resto invocada na introdução – sobre metodologias e, em particular, sobre o problema de saber como se pensa e faz etnografia nas ciências sociais em Portugal. Embora os alunos do ensino superior, os investigadores juniores e o público em geral merecessem mais obras especializadas em “normas de procedimento metodológico” (p. 9) e outros problemas estruturantes da investigação que atravessam os estudos qualitativos – à imagem do que se faz noutros países –, Experiência Etnográfica em Ciências Sociais não se afirma como manual e denota até um certo antinormativismo, já antes defendido por Madureira-Pinto (cf. p. 10).
2Os textos são dominados por um mesmo objectivo: encontrar nas linhas teóricas que informam as diversas experiências etnográficas dos autores o sentido de todo o processo de investigação, um processo que assenta sempre na relação particular do investigador com o seu trabalho de campo e com a construção teórica. Assim, a ideia, bem apresentada por Caria, é “objectivar e racionalizar o que ocorreu” no campo (p. 10) – para “compreender a (ir)racionalidade do outro” (p. 12), a etnografia é apresentada como “lugar de fronteira” (p. 13) – e a ambição é contribuir para o “desenvolvimento de uma teoria social sobre a investigação etnográfica” (p. 10).
3Esta opção tem efeitos legitimadores da prática científica e, também por isso, deve ser encarada com seriedade. A tentativa de dar seguimento a eixos de reflexão propostos antes por investigadores portugueses, misturando indiscriminadamente referências a sociólogos e a antropólogos, como António Firmino da Costa, Boaventura de Sousa Santos, Madureira-Pinto, Miguel Vale de Almeida, Maria Cardeira da Silva ou Raul Iturra, entre outros, aponta para a necessidade de alargamento da construção e representação da etnografia às várias disciplinas do social, o que aliás emana dos vários contributos textuais do livro.
4A obra divide-se em duas partes: um bloco de textos onde se questionam sobretudo práticas de investigação – que T. Caria intitula “a construção sociocognitiva” – e outro – que designa como “a construção socioteórica” – que questiona os limites convencionais (mal) impostos ao conhecimento, obrigando a uma “recontextualização da teoria social” (p. 18).
5À cabeça dos quatro primeiros capítulos está Luís Fernandes, um investigador que se tem afirmado como etnógrafo urbano e que faz jus à palavra interdisciplinaridade nas ciências sociais. Partindo das suas notas pessoais no diário de campo em territórios psicotrópicos do Porto, o autor conduz-nos num verdadeiro trabalho de referência para quem deseje ter uma noção fina do tipo de organização e indexação possíveis desse documento que tem para a maioria dos etnógrafos o estatuto de fonte privilegiada. Com Paulo Raposo entramos no domínio da discussão de ideias exploratórias que atravessam a sua pesquisa, centrada na observação e interpretação de performances culturais em Portugal. Partindo da ideia da “viagem etnográfica”, física e intelectual, do investigador, o autor adianta algumas advertências teórico-metodológicas válidas para o seu campo de investigação. O terceiro capítulo, da responsabilidade de Elísio Estanque, parte das ideias de Pierre Bourdieu para propor uma metodologia compreensiva onde os pressupostos subjectivos do investigador passam a ser revelados e incorporados na análise, com o fim de prevenir eventuais efeitos preversos da ciência. Entramos no contexto fabril do calçado no Norte de Portugal e, com o autor, partilhamos as ambivalências e os problemas que no quotidiano da investigação surgem quando negoceia, num mesmo terreno e simultaneamente, o seu estatuto de investigador e de trabalhador. No quarto texto, Ricardo Vieira parte de considerações gerais acerca da etnografia e, progressivamente, vai-nos introduzindo no tema da sua pesquisa, que se baseia em entrevistas a professores dos três primeiros ciclos do ensino em Portugal. O autor demonstra como à medida que foi recolhendo narrativas biográficas foi identificando o seu self e traduzindo a sua própria experiência de professor.
6Na segunda parte do livro, o quinto capítulo, Manuela Ribeiro questiona “como chegar às pessoas?”. Apresentando expressivos apontamentos do registo diário do seu trabalho de terreno entre famílias camponesas transmontanas, vai-nos demonstrando o papel do tempo na construção das relações interpessoais e na colaboração progressiva entre investigadores e nativos. No sexto capítulo viajamos até aos mapuche do Chile com Luís Silva Pereira. Da narrativa ressaltam dois aspectos: a forma como o investigador percorre um itinerário algo sinuoso até chegar aos mapuche e as representações do estrangeiro (alicerçadas na história local e espalhadas através de boatos) que o etnógrafo enfrenta, levando a que os nativos lhe enderecem frequentemente uma mesma questão: “qué hace por estas tierras?” No sétimo capítulo mudamos para o continente africano, para, entre os nalu da Guiné-Bissau, Amélia Frazão-Moreira nos descrever aspectos da sua interacção com os nativos em duas etapas do terreno: a da recolha etnográfica mais generalizada e a do processo de levantamento etnobotânico e uso de técnicas da “antropologia experimental”. No texto é recorrente a preocupação com as possibilidades de retribuição e retorno do trabalho de campo. Manuela Ferreira retoma o tema da educação, já antes trabalhado neste volume, mas agora com a etnografia de crianças em idade pré-escolar num jardim de infância em meio rural português. A autora começa por tecer uma crítica às limitações da perspectiva adultocêntrica da infância e acaba por procurar dar sentido ao jogo de perplexidades mútuas quando, como etnógrafa com o estatuto de “amiga”, fica para observar e participar nas actividades das crianças. Manuel Carlos Silva encerra a colectânea com algumas considerações sobre técnicas de recolha de dados e fala das vicissitudes das experiências de trabalho de campo em duas aldeias do Norte de Portugal, Aguiar e Lindoso. Na primeira experiência evidencia como as aparentes vantagens das relações intrafamiliares na região e sobretudo a posição comprometida com a ideologia marxista num quadro de investigação-acção se transformam em desvantagens no trabalho de campo; na segunda narra as dificuldades que experimenta na sua inserção na aldeia e a forma como vai resolvendo tais equívocos e operacionalizando a etnografia.
7Que lições retirar deste variado conjunto de textos? Parece sempre proveitoso juntar pessoas que praticam e escrevem etnografia e fazer, de tempos a tempos, esse escrutínio das práticas, desses modos de construção de teoria ancorada na observação do real para produzir uma “epistemologia auto-reflexiva” no quadro das ciências sociais e traduzir algumas lógicas que informam o “jogo de espelhos” no campo (Estanque, pp. 62 e 75) e, idealmente, avaliar as formas de representação em etnografia (Van Maanen, Representation in Ethnography, 1995). São livros como este que nos obrigam a não perder de vista questões basilares (que talvez merecessem revisitação): como pensar terrenos tão diversos e particulares a partir de uma abordagem que tem tanto de idiossincrática como de disciplinar e sistemática? Que generalizações podem ir sendo feitas?
8Ainda assim, os contributos presentes em Experiência Etnográfica em Ciências Sociais são algo desiguais, traduzem diferentes níveis de desenvolvimento da reflexão metodológica e a diferente permeabilidade à complexidade que tal reflexão convoca. É provável que também reflictam os pontos de investigação em que foram escritos, os estatutos profissionais presentes dos investigadores e, mesmo que indirectamente, as tradições e os territórios disciplinares mais ou menos sensíveis à “nudez” metodológica (Raposo, p. 44) e sua reflexão sistemática. Não é de estranhar que alguns dos contributos assentem em objectivos concretos, como dar a conhecer dimensões pessoais do trabalho de campo, e nesse sentido se evidenciem mais “confessionais” (cf. Van Maanen, Tales of the Field: on Writing Ethnography, 1988), e outros se comprometam com a ambição de adivinhar soluções ou retirar algumas lições epistemológicas a partir dos seus itinerários etnográficos. Todavia, é sempre bom saber do que falamos quando falamos de etnografia, o que nuns casos é muito mais evidente do que noutros.
Para citar este artigo
Referência do documento impresso
Susana Durão, «Telmo H. Caria. Experiência etnográfica em ciências sociais», Etnográfica, vol. 7 (2) | 2003, 465-467.
Referência eletrónica
Susana Durão, «Telmo H. Caria. Experiência etnográfica em ciências sociais», Etnográfica [Online], vol. 7 (2) | 2003, posto online no dia 21 março 2014, consultado o 07 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/etnografica/3484; DOI: https://doi.org/10.4000/etnografica.3484
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