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Recensões

Manuela Ivone Cunha. Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos

Susana Durão e Luís Vasconcelos
p. 467-469
Referência(s):

Manuela Ivone Cunha. Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos. Lisboa, fim de século-edições, 2002

Texto integral

1Muito para além da leitura destinada a uma recensão, o livro de Manuela Ivone Cunha rapidamente se transforma num excelente instrumento de trabalho. Desde logo pelos temas que trata: i) por dar a conhecer o papel de mulheres portuguesas no mercado free-lance de drogas (uma “economia de droga semiperiférica”, p. 169); ii) por se detalhar na relação das reclusas com o policiamento e o dispositivo de controlo legal; iii) por finalmente nos permitir ir dentro de uma prisão feminina (Tires) e seguir um fio interpretativo acerca das experiências de vida, redes de parentesco e relações nos bairros degradados de onde provêm estas mulheres, mas também sobre as práticas discursivas sobre a delação (o “chibanço”), os sentidos das clivagens e da “integração na exclusão” (p. 6).

2O uso da palavra “filigrana” (p. 25) convoca um patamar de discussão a partir do qual se percebe a presença de um texto de grande qualidade. A apresentação comparada de um conjunto de dados sociográficos correspondentes aos finais das décadas de 1980 e 1990 faz emergir a profunda transformação entretanto operada no perfil penal das reclusas. Enchendo a cadeia de mulheres progressivamente menos jovens, aqueles dez anos reduziram “a diversidade criminal” das presas, agora esmagadoramente condenadas “a penas muito mais longas”. Dando conta de uma “pauperização genérica” da população prisional, cons-tata-se, em simultâneo, uma homogeneização, “por baixo”, do seu perfil sociológico (pp. 76-77). Inscrita em todo o itinerário analítico, é esta transformação que é sistematicamente sujeita a um inquérito no qual o exercício comparado da viagem pelo tempo do cárcere e pelas transformações entretanto operadas vai sendo acompanhado por uma discussão teórica, fina e bibliograficamente estribada. Somos assim apresentados a uma obra muito completa e densa mas sempre compreensível; de opções originais, porventura ambiciosas (até pelo constante recurso à comparação com trabalhos referentes a outros contextos), mas claras.

3O texto é também uma excelente etnografia. O que não é pouco, atendendo aos perigos que rondam a construção de um objecto como o seu: a ter em conta os discursos que têm vindo a construir o problema-droga e que tendem a destituir todos os agentes nele envolvidos do direito a um sentido para as suas palavras e acção, os simples actos de ouvir e olhar para compreender constituem, por si mesmos, um exercício da maior importância. Ao colocar este trabalho e a sua autora na melhor tradição antropológica, esta característica funda também a sua importância política: em Tires, cada uma das mulheres – a Zulmira, a Iolanda, a Maria Emília, a Lavínia… – é, sem uma mediação quantitativa que oblitere a sua humanidade, escutada pelo sentido literal da sua fala.

4Para o leitor é já evidente que, embora partindo de uma experiência de campo situada, não satisfazem a autora reflexões demasiado presas ao perímetro prisional, preferindo esta colocar em evidência os universos sociais que, em muito larga medida, se repercutem no lugar que é a prisão. E, como se tal não bastasse, a autora vai ainda percorrer toda a lógica que compõe e recompôs em dez anos de vida em Portugal os bairros e a prisão (especificamente na distância que medeia os dois momentos da sua investigação, 1987 e 1997). A discussão antiga na antropologia, e em larga medida extensiva às ciências sociais, de produzir um conhecimento em contexto por alternativa a uma análise mais “sistémica” não é aqui uma opção de um sentido apenas. A riqueza da obra está em conseguir ser “dois em um”, problemática social e organizacional. Deste ponto de vista, e a título de exemplo, leia-se a discussão dos pormenores diferenciados das relações entre os di-versos tipos e origens das presas e as respectivas guardas.

5Assim vão sendo derrubados os muros da cadeia. Analisando a “proveniência maciça e sistemática de um leque de bairros precarizados” e a existência “de núcleos mais ou menos alargados de reclusas que se conheciam já antes da prisão” (p. 95), vamos sendo confrontados com o imbricamento das condições de vida destas últimas com as características das práticas policiais que organizam as suas detenções – é cada um daqueles bairros que se constitui como alvo – e com as assimetrias verificadas no acesso a um serviço jurídico de qualidade. Demonstradas as características das primeiras – marcadas pela pobreza e pela maleabilidade do parentesco e da vizinhança – e desmontado o mito do “grande traficante” e do discurso que o organiza, fica à vista a articulação da precariedade estrutural das economias e de algumas das relações domésticas destas mulheres, com as suas incursões nas periferias da economia legal e da venda a retalho. Relatadas as segundas, ficam à vista as “braçadas” de arguidas (p. 188) que, dos bairros, trazem para dentro da prisão uma parte do seu universo de relações e as concepções com que organizam as suas lealdades.

6É já claro que este trabalho de investigação vem lembrar que não é necessariamente nos estudos de objectos consagrados na antropologia que surge inovação teórico-metodológica. Evidenciando que a disciplina não mais se confunde com os seus (tradicionais) objectos, Manuela Ivone Cunha conduz-nos ainda numa espécie de itinerário científico cruzado, conciliador de escalas. A reflexão no capítulo 2 acerca do seu estatuto de antropóloga, a negociação e renegociação de papéis em “mapas” simultaneamente “sociais e subjectivos” (p. 77), por um lado, e o epílogo, pela reflexão ampla acerca das políticas para as prisões, por outro, são dois dos momentos-chave que sublinham essa opção. Se com esta obra a autora está a contribuir para o encontro de respostas que colocam a antropologia no seio de discussões de estado, tal não serve para abandonar aspectos cruciais inerentes ao saber-fazer dos etnógrafos. Se as opções metodológicas nem sempre merecem a atenção devida nas etnografias que delas tanto dependem, já a reflexão implicada, embora não seja novidade nas ciências sociais, tem sido uma prática pouco acarinhada entre antropólogos portugueses (dos mais empiristas aos mais teorizantes). A partir de um texto integrado, Manuela Ivone Cunha vem recolocar na ordem do dia estas duas dimensões da produção de saber. E, mais uma vez, fá-lo de modo engenhoso.

7Não admira então que este texto tenha, em 2002, sido premiado pelo Instituto de Ciências Sociais com o prestigiado prémio Sedas Nunes, pois “mais do que uma excelente tese de doutoramento, é um ponto de viragem na antropologia portuguesa e no nosso entendimento da criminalidade, do que poderíamos chamar o sistema da droga e, num âmbito mais vasto, das estruturas de desigualdade na nossa sociedade” (prefácio de Miguel Vale de Almeida). A investigação em antropologia que nos ajuda a conhecer melhor Portugal e que fundamenta opções a que não estamos habituados, algo ‘radicais’ na forma e na crítica social, política e económica merece, no mínimo, celebração.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Susana Durão e Luís Vasconcelos, «Manuela Ivone Cunha. Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos», Etnográfica, vol. 7 (2) | 2003, 467-469.

Referência eletrónica

Susana Durão e Luís Vasconcelos, «Manuela Ivone Cunha. Entre o bairro e a prisão: tráfico e trajectos», Etnográfica [Online], vol. 7 (2) | 2003, posto online no dia 21 março 2014, consultado o 15 outubro 2026. URL: http://journals.openedition.org/etnografica/3486; DOI: https://doi.org/10.4000/etnografica.3486

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Autores

Susana Durão

Bolseira FCT Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE).

Artigos do mesmo autor

Luís Vasconcelos

Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE)

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Direitos de autor

CC-BY-NC-4.0

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