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InícioNúmerosvol. 8 (1)Antropologia e orçanizaçõesApresentação

Antropologia e orçanizações

Apresentação

Susana Durão e Graça Índias Cordeiro
p. 7-18

Texto integral

1A entrada dos antropólogos nas organizações tem uma história. Desde os anos 30 até 1950 os antropólogos deram o seu contributo naquele que é ainda hoje considerado um dos mais influentes estudos de uma organização em meio urbano, o estudo em Hawthorne, numa das maiores indústrias de electricidade dos Estados Unidos da América, situada em Chicago Oeste e Cícero (cf. Schwartzman 1993, e Wright 1994). Este estudo esteve na origem do subsequente movimento das relações humanas. W. Foote Whyte considerou-o “unsurpassed for detailed, systematic observational records of the behavior of work groups” (1978: 418). Nas duas décadas posteriores, enquanto florescia a sociologia das organizações, frequentemente recorrendo a técnicas de trabalho de campo, houve uma retirada dos antropólogos desse primeiro terreno estudado, as empresas industriais.

2A antropologia das organizações ressurge entre os anos 70, 80 e em particular na década de 1990, num ambiente favorável à heterodoxia. A discussão das políticas da investigação em antropologia abriu definitivamente caminho para retraçar itinerários e direcções de pesquisa, mas também para repensar a natureza da disciplina (ver por exemplo Clifford e Marcus 1986, e Clifford 1988). Houve mesmo um momento, pós-estruturalista, pós-colonial e pós-moderno (se quisermos) em que, numa atitude de renovação da disciplina, muito debatida e por muitos contrariada, vários autores usaram o prefixo “re” nos seus textos e manifestos: falou-se em reinventar (Hymes 2002 [1969]) e em recapturar a antropologia (Fox 1991). Foram extensamente debatidos problemas chave da antropologia (Ingold 1996), foi discutido o seu futuro (Ahmed e Shore 1995), e mais recentemente foram apresentadas novas problemáticas teóricas à antropologia do presente (Moore 1999). Mas, para autores como Peggy R. Sanday (1983 [1979]), o estudo das organizações formais complexas surge como um dos caminhos lógicos a seguir na antropologia americana moderna que reclama os autores clássicos (como Boas, Mead, etc.). A “thick description” de Geertz (1989 [1973]) surge assim como “paradigma” (no sentido kuhniano da palavra).

3Nos anos 70 e com particular destaque depois de 1980, os antropólogos e sociólogos voltaram assim a dar atenção às organizações formais, ao estudo do trabalho nas sociedades ocidentais, articulando, segundo Schwartzman (1993), essencialmente três grandes problemáticas. A primeira problemática diz respeito aos contextos de estudo antropológico do trabalho, destacando-se duas vias: os chamados studies up, o estudo do trabalho inserindo-o no “sistema mundo” (Wallerstein 1974), atendendo sobretudo aos conflitos e alienação no trabalho (Nader 2002 [1969], Britan e Cohen 1980a e 1980b, Nash 1981, Wallman 1979), e os chamados studies down, perspectiva que incide no ponto de vista dos nativos, nas suas classificações, relacionando-as com lógicas mais amplas das realidades sociais (Gamst 1977, Applebaum 1981, Mars e Nicod 1984, Pilcher 1972, Van Maanen 1974, 1975, 1976, 1978a, 1978b, 1978c [1973], 1978d, 1978e, 1978f, 1978g, Spradley e Mann 1979 [1975]).

4O estudo da cultura está no centro da segunda problemática. Progressivamente mais atentos à forma como o conceito de cultura foi insistentemente usado para compreender as organizações (sobretudo por psicólogos e estudiosos das organizações), alguns antropólogos têm-se dedicado a compreender os limites de tais abordagens, propondo novas interpretações: estudando a cultura como variável externa (Whyte 1961, Ouchi 1981), a cultura como organização informal (Pacanowsky e O’Donnell-Trujillo 1982, Tommerup 1988, Deal e Kennedy 1982, Andrews e Hirsch 1983, Smircich 1983) ou a cultura como organização quer informal quer formal (Gregory 1983, Sachs 1989).

5Onde tem existido maior problematização é no terceiro plano, no estudo das rotinas e quotidianos, voltando os antropólogos a sua atenção não só para as organizações, mas muito especificamente para os processos de organização (from organizations to organizing). São exemplo os trabalhos orientados por Gellner e Hirsch (2001), Hamada e Sibley (1994), McDermott e Roth (1978), Schwartzman (1989), Weick (1979).

6Concretamente nas pesquisas sobre polícias, para sublinhar este exemplo, delineou-se um quarto eixo de análise que pode ser tomado para outras profissões, indústrias e empresas – o que liga o estudo das organizações à vida urbana. Tal opção deve-se em grande medida à natureza do próprio trabalho policial. Assim, diversos autores, entre os quais assinalamos Punch (1979, 1983) e Van Maanen (1974, 1982, 1988), à medida que investigavam o tratamento das unidades organizacionais de polícia – o que é particular no seu trabalho, as formas da socialização e interacção, as auto-representações em meio profissional – não descuravam as hetero-representações que sobressaem nos meios urbanos e fazem parte do processo complexo de construção de identidades sociais, dimensão fundamental no estudo de objectos com acentuada visibilidade social.

7Embora periféricas nos estudos organizacionais, desde os anos 60 têm vindo a crescer as publicações de estudos qualitativos (veja-se por exemplo Van Maanen 1998). Todavia, é inegável que a antropologia das organizações é, ainda hoje, um campo recente entre os estudos sobre sociedade e cultura. Assim, talvez seja útil retomar alguns dados gerais sobre as principais tendências do campo. Há já alguns anos Britain e Cohen, numa colectânea de referência (1980a, 1980b), ofereceram uma síntese dos contributos da disciplina para o aumento do saber social e cultural das organizações formais. Os autores definiram três aspectos fundamentais. Primeiro, na antropologia, as generalizações teóricas não surgem meramente como abstrações, sedimentam-se em análises empíricas. A teoria cresce na exacta medida das pesquisas. Tal tem uma justificação evidente: na perspectiva antropológica a natureza informal da organização é pelo menos tão importante e tão determinante para as dinâmicas propriamente burocráticas como a sua natureza formal, merecendo por isso estudos de detalhe. Os mesmos autores afirmaram um segundo contributo: à medida que mais estudos surgem é possível caminhar no sentido de algo que faz já parte da tradição de conhecimento da disciplina – produzir comparações (etnográficas e problematizantes) entre o funcionamento das burocracias em vários contextos culturais. O terceiro ponto seria o de a antropologia ter um papel na demonstração de como as organizações podem ser mecanismos de força e de poder, mas também mecanismos de mudança dos padrões sociais e culturais mais globais e das próprias relações económicas no mundo.

  • 1 É de reconhecer que menos avanços foram feitos nos planos comparativo e generalizante da produção d (...)

8Passados mais de vinte anos, a antropologia reúne cada vez mais estudos de caso e etnografias sobre organizações, sustentados por uma grande riqueza empírica e conhecimento de diferentes realidades culturais1. Para ter uma ideia do estado da arte leia-se Van Maanen (2001: 233-261). Mas, na verdade, assumiu-se em definitivo a etnografia como método para o estudo das organizações. Hoje faz talvez mais sentido falar em etnografia das organizações do que em antropologia das organizações (cf. Hirsch e Gellner 2001: 1-15). Evidenciaram-se as potencialidades da etnografia – enquanto método e enquanto narrativa –, dando a ler interpretações astuciosas dos domínios do trabalho e das empresas que têm conduzido à problematização de noções tão centrais como “cultura” e “poder” (Wright 1994). Assim, é através da abordagem etnográfica que na antropologia vai sendo ampliado o conhecimento do mundo contemporâneo.

9As próprias questões que os estudos levantam podem conduzir a um requestionamento do campo antropologia das organizações à medida que este se vai afirmando, reconhecendo-se que o mesmo é concebido de modo muito aberto e se faz herdeiro de múltiplas influências, quer no seio disciplinar quer nas ciências sociais em geral. Para referir apenas um dos aspectos desta dinâmica, digamos que a coincidência entre terreno e objecto é em geral problematizante e motivo de reflexão. Os investigadores que estudam organizações reconhecem tratar de objectos pluriformes que, no género etnográfico que produzem, tanto nos remetem para problemas concretos e situados como nos levam a reflectir sobre outros que não estão delimitados pelo perímetro das organizações. Como diriam Hirsch e Gellner, as organizações não existem em vácuo (2001: 2). A construção de objectos de estudo que partem de realidades organizacionais é muito complexa, e talvez o mais aliciante seja a possibilidade de antropólogos – e não apenas antropólogos – produzirem etnografias que consigam descrever e interpretar os problemas de natureza propriamente organizacional que são cruzados por dinâmicas sociais e culturais, muitas vezes não exclusivas das organizações mas que as afectam, nelas ganham formas e se (re)constroem em ciclos e fases da vida das mesmas.

10Talvez se possa acrescentar que um dos principais avanços feitos pela disciplina nestes domínios de conhecimento foi dado no plano metodológico, na reflexão precisa de “competências técnicas” – para usar a expressão de Merton (1968). Tal não constitui um problema e pode até ser encarado como ganho, pois nestes ou noutros domínios da antropologia recente, não se pode avançar para o desenvolvimento de competências teóricas sem desenvolver com alguma segurança para a disciplina as suas competências práticas.

  • 2 Mas importa notar que o estudo das organizações se tornou um campo autónomo nos EUA, com uma divisã (...)

11Quando se produzem etnografias sobre organizações os problemas práticos enfrentados – a negociação do acesso, as técnicas adoptadas, o caminho de focalização progressivo, as relações entre investigadores e pessoas estudadas, por exemplo – não podem ser separados de importantes questões teóricas, até porque nelas se integram e necessariamente as revelam. Reflexões deste tipo, em grande medida atreitas aos planos metodológico e epistemológico, estão presentes em todos os campos disciplinares. É inegável que a reflexão metodológica sobre pesquisas qualitativas, em particular nas etnografias em organizações, tem merecido destacada atenção. De tal forma que a área de estudos qualitativos nas organizações, encabeçada e promovida por autores como Van Maanen e outros (Van Maanen 1977, 1995, 1998; Van Maanen, Dabbs e Faulkner 1982), se tornou, no final da década de 1970, independente das matrizes disciplinares, afirmando-se precisamente pela abordagem, fazendo recurso de um legado comum à generalidade das ciências sociais e humanas. E não será legítimo reconhecer que uma disciplina enfrentará extremas dificuldades se, isoladamente, quiser produzir teoria social e cultural sobre organizações? A antropologia, ao tomar estas como área de estudos, é obrigada a recorrer aos contributos de outras disciplinas que há muito mais anos se dedicam à investigação nas organizações e em burocracias modernas e formais. Como tal, pouco importará situar autores como Van Maanen na mira de uma disciplina.2

12Os aspectos essenciais que as boas etnografias devem suportar não se restringem aos estudos organizacionais, mas é certo que estes têm sido insistentemente sistematizados por autores que estudam organizações, como Hirsch e Gellner (2001: 9), inspirados por Bate (1997). Tais etnografias proporcionam o sentido de “ter lá estado”; fornecem detalhes e conclusões inesperadas; reflectem a polifonia do mundo real; oferecem um modelo teórico (não são apenas entertenimento); contextualizam os dados (servem-se do holismo metodológico); dão particular atenção às questões do poder e desigualdade; enfatizam o que as pessoas dizem e fazem; revelam importantes partes dos “bastidores” sociais; olham de perto para a linguagem usada nos meios; reflectem o duplo papel social e teórico que todos os etnógrafos são obrigados a desempenhar no seu trabalho; proporcionam narrativas que interessam a diversos sectores e actores da sociedade. Levar os leitores a lugares onde nunca estiveram é uma parte importante da etnografia organizacional tal como esta é praticada e entendida no presente (Van Maanen 2001: 235).

  • 3 POCTI/36003/ANT/2000, coordenado por Graça Cordeiro, com Nuno Madureira, Susana Durão e Alexandra L (...)

13Campo relativamente lacunar nas ciências sociais portuguesas, a abordagem próxima e qualitativa de certas organizações tem-se materializado, nos últimos anos, em alguns estudos pioneiros que, por isso mesmo, se revestem de indiscutível interesse. Os textos que se seguem foram apresentados·e debatidos numa jornada de reflexão sobre Antropologia e Organizações: Práticas e Contextos, que teve lugar a 11 de Novembro de 2003, organizada pelo Centro de Estudos de Antropologia Social no espaço do ISCTE. Tratou-se de um encontro entre investigadores de diferentes proveniências disciplinares que, durante um dia, partilharam e discutiram experiências de pesquisa em organizações de tipo diferente – polícias, forças armadas, empresas – com um enfoque privilegiado em forças de segurança, o que não foi obra do acaso. Na realidade, se o mote revelado pelo próprio título não podia ser mais claro e generalista – debater as propostas teóricas e metodológicas de uma aproximação etnográfica às organizações – o pretexto para a organização desta jornada era, pelo contrário, bastante particular e concreto: um estudo antropológico recém-finalizado, de cariz marcadamente exploratório, sobre construção de identidades socioprofissionais na polícia portuguesa (PSP), financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia.3 Sob o título Por uma Etnografia da Polícia: Mulheres numa Organização em Mudança, esta pesquisa teve como objectivo explorar etnograficamente uma organização policial inserida na sociedade portuguesa, na perspectiva dinâmica e processual da sua história recente, sob um ponto de vista emic, com uma especial ênfase nas vivências quotidianas (dos polícias e, estrategicamente, “das polícias”) devidamente enquadradas no nível mais amplo da estrutura organizacional e societal. A incorporação, no próprio processo de pesquisa, de todo um leque de preocupações analíticas e perspectivas comuns a outras disciplinas – como a sociologia e a história – que têm contribuído afinal para a consolidação desta vasta área de estudo, temática habitualmente designada por estudos organizacionais e, de um modo ainda mais específico, os estudos policiais, constituiu, como não podia deixar de ser, o framework teórico do campo científico em que esta pesquisa se inseriu e que, de certo modo, esteve na origem da referida jornada.

  • 4 Miguel Chaves, sociólogo, Nuno Luís Madureira, historiador, e Luís Fernandes, etnógrafo urbano com (...)

14Neste sentido, procurou-se diversificar duplamente essa participação, buscando contributos o mais próximos possível da prática etnográfica que, mesmo sem a praticar directamente, revelam uma sensibilidade grande ao ponto de vista dos actores implicados em organizações de vários tipos. Por um lado, diversificando os contextos de análise, com uma ampla escolha de casos de estudo de organizações mais ou menos “cerradas” (muito embora nunca o sejam completamente, como bem ilustra a reflexão metodológica de Manuela Ivone Cunha sobre a prisão de Tires) e, por outro lado, diversificando igualmente as áreas disciplinares de referência, com a firme convicção de que este alargamento da discussão interdisciplinar é cada vez mais, não apenas útil, mas totalmente imprescindível para o avanço nas formas de conhecimento de realidades tão complexas como estas que convocam, por definição, várias disciplinas na sua análise. Além do mais, se é certo que a antropologia é uma recém-chegada às organizações, mais certo ainda o é em Portugal. Cabe aqui agradecer a generosidade com que os sociólogos, o historiador e o etnógrafo-psicólogo aceitaram enriquecer a discussão que ocorreu ao longo desta jornada – apesar de nem todos apresentarem artigos nesta revista.4

15Independentemente das áreas disciplinares de referência e dos contextos empíricos diversificados, deparamo-nos, assim, com algumas questões teórico-metodológicas, que percorrem todos estes textos. São questões que se entrelaçam umas nas outras, entre dois extremos, um mais teórico, outro mais metodológico – nunca perdendo de vista, como pontos de referência centrais, os casos concretos de pesquisa.

16De um modo abreviado pode-se afirmar que a relação entre meio aberto (sociedade e cultura) e instituições formalmente organizadas (organizações) constitui um dos temas desta reflexão. As organizações, enquanto lugares de trabalho ou outros, constituem apenas um dos lugares onde os indivíduos desempenham papéis, para além dos que mais “naturalmente” se inserem noutras estruturas e sistemas relacionais, desde a casa, família, localidade, pertenças de género, idade/posição no ciclo de vida, pertenças de classe, étnicas, de estilo de vida ou outras. O meio social envolvente é fundamental na análise das organizações, na medida em que as pessoas não só transportam, de um modo activo e dinâmico (não estático) um conjunto de maneiras de dizer, fazer e representar, como igualmente se inserem em redes de relações próprias, mais ou menos exteriores, que podem, inclusivamente, cruzar as próprias organizações. João Freire, a partir da sociologia, abre o tema identificando-o sumariamente, e Manuela Ivone Cunha, a encerrar as “actas”, discute detalhadamente a relação entre unidade de observação e de análise, unidades que, no caso da tradição antropológica, continuam a evidenciar sobreposições reveladoras de alguma ambiguidade, decorrentes, em larga medida, do próprio processo de investigação etnográfica onde, progressivamente, o terreno/objecto se vai clarificando à medida que cada investigação vai avançando.

17Na realidade, para a antropologia, esta relação entre meio e organização, constitui, talvez, um dos seus maiores problemas. Com várias traduções e enfoques, tem sido em torno do conceito de cultura que se tem aprofundado esta relação, como uma das pontes fortes através da qual se estabelece a relação entre a antropologia e os estudos organizacionais (Wright 1994), como já se referiu. Conceito polissémico, cultura deverá ser entendida como um processo e não como um dado adquirido, como algo permanentemente em construção e não uma entidade delimitável – seja ela entendida no seu nível nacional, empresarial, ou de cultura informal que no interior das organizações se gera. Para além do consenso que esta noção pressupõe, a ambiguidade é essencial, pois fornece o espaço para esse trabalho contínuo de construção de significados, num processo que também é político. Os significados dos conceitos e dos símbolos não são imutáveis nem dados adquiridos, são antes continuamente contestados, negociados, reformulados. Assim as organizações podem ser pensadas, não apenas como entidades, mais ou menos delimitáveis no tempo e no espaço, mas igualmente como lugares dinâmicos atravessados por uma permanente negociação do sentido (significado), como “ordens negociadas” que são. Cultura surge, assim, como um dos conceitos mais usados, como quadro de referência através do qual os indivíduos e os grupos dão sentido ao seu trabalho quotidiano, no interior das organizações onde se situam e nas interferências externas que tentam gerir.

18Os textos de María Eugenia Suárez de Garay e de Emília Margarida Marques constituem excelente exemplo de como o conceito de cultura permite a articulação entre várias escalas e dimensões da vida social. Através de uma análise aprofundada do mundo vivencial dos polícias da cidade de Guadalajara, no México, M. Eugenia Suárez de Garay capta esse território liminar, de fronteira, constituído pela “cultura policial como um espaço de mediação entre as estruturas policiais e as biografias policiais dos sujeitos que as integram” (p. 52), “espaços de ambiguidade que conformam e estruturam o modo de ser polícia” (p. 55). Tomando como centro organizador do seu trabalho um conjunto alargado de entrevistas a polícias, orientadas para as representações destes na relação com as instituições policiais, a autora identifica claramente três eixos analíticos (carreira policial/temporalidade organizada; face interna da organização com a correspondente adaptação individual; exterior da instituição a partir dos discursos e significados do “ser polícia”) que lhe permitem analisar estes espaços de ambiguidade que conformam e estruturam o modo de ser polícia no México. Emília Margarida Marques, por seu lado, analisa num sistemático vaivém entre gestos/ coisas e ideias/ palavras os condutores de máquinas de moldação na indústria vidreira automatizada da Marinha Grande, construindo toda uma etnografia fina e rigorosa, centrada nas práticas técnicas e na sua relação com a organização empresarial, problematizando as dinâmicas conflituantes que se estruturam em torno da matéria e do significado que o seu controlo adquire no contexto em causa.

19Questões de ordem metodológica surgem, desde logo, como um dos aspectos cruciais contemplados e discutidos em todas estas comunicações, agora publicadas. A complexíssima ligação entre dimensões micro e mais macro, os efeitos dos sistemas de larga escala na vida quotidiana, a multiplicidade de níveis entrelaçados nos contextos das análises organizacionais constituem, apenas, o quadro geral de um amplo conjunto de preocupações teórico-metodológicas.

20Já longe da sua herança funcionalista onde a coincidência entre um território e a sua cultura era máxima, ou, como já se referiu anteriormente, a sobreposição entre unidade de observação e de análise, a antropologia tem introduzido novas práticas metodológicas para estudar processos, fluxos, formas dinâmicas de construção de sociedade, cultura e identidades. A análise de redes sociais e de situação, na linha dos desenvolvimentos metodológicos propostos no quadro dos estudos efectuados pelo Rhodes Livingstone Intitut e pela “escola de Manchester” (veja-se Hannerz 1980, cap. 4; Mitchell 1987), revela formas possíveis de encontrar o ponto certo de ajuste entre a observação, a entrevista e análise documental, e faz parte da mais-valia que a antropologia pode trazer à compreensão das organizações e da sociedade em geral. Susana Durão recorre, explicitamente, a este tipo de estratégia metodológica, conciliando análise situacional com redes sociais, ao contrastar, de um ponto de vista assumidamente feminino, a análise das provas físicas de selecção de candidatos para o ingresso na PSP, em Lisboa, com a atenção ao papel desempenhado por certas redes informais de suporte interno nesta organização. Neste caso, uma das dimensões mais interessantes descoberta por esta autora conduz à progressiva formalização de práticas informais de conduta e relação, o que desencadeia uma reflexão muito fértil sobre as fronteiras entre os vários níveis e escalas de relação social interna às organizações.

21Com efeito, a socialização na vida organizacional, enquanto dimensão processual, parecece ser um dos leitmotiv centrais deste conjunto de textos. Celso Castro, com a sua pesquisa sobre socialização profissional no exército brasileiro, em finais da década de 1980, conduzida na Academia Militar das Agulhas Negras, privilegia três dimensões de análise: o modo como a identidade militar se cria através de uma socialização intensiva capaz de criar um “espírito de corpo” entre os jovens “cadetes” que nela ingressam, estabelecendo fronteiras e tensões entre o dentro e o fora da instituição; a percepção de uma certa continuidade neste padrão de socialização profissional ao longo de cerca de meio século, revelada, entre outros factores, por um recrutamento assinalável entre filhos de militares, acentuando certos traços de fechamento institucional; e, por fim, a identificação de aspectos práticos do trabalho de campo em instituições deste tipo, onde a preocupação pela captação de vários pontos de vista capaz de atenuar o risco foi uma das constantes. Antónia Lima que, para o universo de algumas “grandes famílias” empresariais de Lisboa analisa as consequências e implicações da coexistência de interesses familiares e económicos, surgindo os segundos como concretização dos primeiros, encara estas famílias como “organizações fluidas e informais” que contrastam com o nível extremamente formalizado das empresas, o que lhe permite situar-se numa das margens de ambiguidade possível entre meio social e organização. O papel da socialização de género é crucial, pois permite, segundo a autora, conciliar os ideais familiares de transmissão filial com a exigência da competência profissional. Socialização de género que é, igualmente, um dos pontos de análise fortes do texto de Helena Carreiras, que se debruça sobre mulheres oficiais das forças armadas de dois países, Portugal e Holanda. Neste estudo comparativo que surge pelo lado da sociologia, a autora analisa os problemas de cariz relacional no interior de duas organizações comparáveis pela sua similitude e algum contraste cultural, atendendo ao contexto sociocultural da sua inserção. Carreiras toma como linha forte da sua análise as estratégias de integração versus lógicas de exclusão, o que a leva a elaborar uma tipologia muito sugestiva de estratégias de integração feminina.

22Olhar as organizações como sites de construção de significados, numa abordagem interpretativa e comparativa, e problematizar, a partir do contínuo confronto entre ideais e teorias, sobre a(s) sociedade(s) e as suas práticas, parece, pois, ser uma das preocupações mais relevantes da antropologia, quando se debruça sobre organizações, da qual este conjunto de trabalhos constitui um bom exemplo. Aceitar o desafio proposto por João Freire na tematização de “problemas” que identificou, na conferência de abertura agora publicada, constitui sem dúvida, uma das prioridades, respeitando sempre uma abertura disciplinar cada vez mais necessária e imprescindível.

23De uma forma algo simplificada, optou-se por uma ordenação clara, com critérios que conciliam uma vertente temática com quadros empíricos de certa forma semelhantes – polícias (María Eugenia Suárez de Garay e Susana Durão), militares (Celso Castro e Helena Carreiras), empresas (Antónia Pedroso de Lima e Emília Margarida Marques) –, deixando para a abertura e o final dois textos que revestem uma dimensão mais assumidamente teórica e metodológica, tanto do lado da sociologia (João Freire) como da antropologia (Manuela Ivone Cunha).

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Notas

1 É de reconhecer que menos avanços foram feitos nos planos comparativo e generalizante da produção do conhecimento. Mas não será esta uma tendência que atravessa a antropologia no seu todo?

2 Mas importa notar que o estudo das organizações se tornou um campo autónomo nos EUA, com uma divisão interna entre os teóricos considerados micro e os considerados macro. Todavia, na Europa (seguindo-se o exemplo da Grã-Bretanha e da França) estes estudos têm estado associados a disciplinas de referência, em particular a sociologia e a psicologia (cf. Van Maanen 2001: 233). A diferença é que nas referidas disciplinas o método etnográfico não é central. Assim, ainda que de modo relativamente periférico e progressivo, a antropologia tem algo a acrescentar aos domínios de estudo das organizações, em particular na Europa.

3 POCTI/36003/ANT/2000, coordenado por Graça Cordeiro, com Nuno Madureira, Susana Durão e Alexandra Leandro.

4 Miguel Chaves, sociólogo, Nuno Luís Madureira, historiador, e Luís Fernandes, etnógrafo urbano com origens na psicologia. Como moderadores nos painéis da jornada, estiveram António Firmino da Costa, coordenador com João Baptista da disciplina "Cultura e Organizações", do mestrado em Administração e Políticas Públicas, do Departamento de Sociologia do ISCTE, disciplina em que as autoras têm participado há cerca de cinco anos, e Juan Mozzicaffreddo, coordenador científico do referido mestrado.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Susana Durão e Graça Índias Cordeiro, «Apresentação»Etnográfica, vol. 8 (1) | 2004, 7-18.

Referência eletrónica

Susana Durão e Graça Índias Cordeiro, «Apresentação»Etnográfica [Online], vol. 8 (1) | 2004, posto online no dia 08 agosto 2016, consultado o 16 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/etnografica/4422; DOI: https://doi.org/10.4000/etnografica.4422

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Autores

Susana Durão

Bolseira de Doutoramento FCT e Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE)

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Graça Índias Cordeiro

Departamento de Antropologia do ISCTE e Centro de Estudos de Antropologia Social (ISCTE)

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