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- 1 Ahl al‑Kitab – Povos do Livro, segundo o Alcorão, nos quais se incluem os crentes das três religiõe (...)
1O último quartel do século XVIII e os primeiros anos de Oitocentos foram um período de recomposição geopolítica em todo o Mediterrâneo. A Ocidente as relações entre os Ahl al‑Kitab1 foram afectadas pelo confronto entre as potências europeias pelo domínio de um espaço de relevante importância geoestratégica. As comunidades judaicas magrebinas, particularmente a argelina e marroquina, desempenharam neste particular contexto um significativo papel.
2Eminentes estudiosos do judaísmo norte-africano apontam as violentas crises que o atingiram – Egipto em 1732, Marrocos entre 1790 e 1792, a Regência de Argel em 1805 – debruçando‑se sobre as suas causas e consequências. Lucette Valensi prestou particular atenção em Juifs et Musulmans en Algérie ao progrom de 1805 e ao assassinato de Naphtali Busnach na sequência dos violentos motins que eclodiram na cidade de Argel.
3A documentação existente nos arquivos portugueses permite, todavia, uma outra leitura que leva a considerar o falhanço das negociações levadas a cabo pelos enviados de Portugal na tentativa de resgatar centenas de seus compatriotas ali retidos, bem como a muito particular situação política vivida na Regência, como estando na origem da morte de Naftali Busnach e de cerca de centena e meia de membros da comunidade judaica argelina.
- 2 Banho – Do francês bagne, local onde se concentravam os cativos na sua maioria resultantes das acçõ (...)
4Entre os anos de 1778 e 1810 mais de seis centenas de portugueses foram feitos cativos pelo corso de Argel. A perda para os activos da marinha da Regência de dois navios da marinha de guerra portuguesa – o bergantim Lebre pequeno capturado no ano de 1799 e a fragata Cisne aprisionada no ano de 1802 – contribuiu para o derradeiro fôlego do corso argelino e o aparecimento do seu último grande raïs, Hamidou Ibn Ali. Com a chegada ao Banho2 da Regência de um significativo número de cativos, entre os quais se encontravam personagens relevantes da sociedade portuguesa da época, começou a afluir a Portugal inúmera documentação descrevendo as condições de detenção e apelando a uma rápida libertação. Viram a luz do dia também relatos circunstanciados de todas as vicissitudes que rodearam as várias expedições a Argel dos negociadores portugueses que só haveriam de alcançar os seus frutos no ano de 1810 com um Tratado de Trégua que libertaria os cativos ali retidos, a que se seguiu depois o Tratado de Paz de 1813.
- 3 Dey – Do turco dâï, título usado pelos detentores do poder supremo na Regência de Argel, desde o fi (...)
- 4 Divan – Conselho da Regência de Argel na dependência dos grandes oficiais do odjak (milícia). Pouco (...)
- 5 Abraão Cardozo “ami de Nelson, fournisseur de la Royal Navy, qui fut au début de XIXe siècle le pri (...)
5Nas primeiras abordagens de Portugal ao dey3 e divan4 argelinos entre os anos de 1799 e 1805 desempenhou papel de relevo como mediador Naftali Busnach. Todavia, após o seu assassinato, os judeus livorneses da Regência continuaram ligados às negociações que conduziram ao resgate dos cativos portugueses. A estes últimos juntaram‑se também outros proeminentes membros das comunidades judaicas do sul da Península, como o sefardita português Abraão Cardozo,5 cônsul de Argel em Gibraltar, e a família Benoliel representante dos sultões alauitas no Rochedo.
6É pois com base na diversa documentação existente nos arquivos portugueses e nos Diários das viagens a Argel elaborados por Frei José de Santo António Moura entre os anos de 1799 e 1803, permitindo uma outra leitura das causas próximas do progrom de 1805, que este trabalho tentará abordar uma questão de significativa importância para o judaísmo magrebino em finais de Setecentos e primeiros anos de Oitocentos.
- 6 Sobre o resgate de cativos portugueses no ocidente do Mediterrâneo ver Edite Maria da Conceição Alb (...)
7A permanência de cativos portugueses nos Banhos da Regência de Argel foi um problema com que o reino português se confrontou durante todo o século XVIII e a primeira década do XIX. Entre 1655 e 1778, os Padres Redentores da Ordem da Santíssima Trindade rumaram a Argel uma dezena de vezes para ali resgatarem 2 192 cativos na sua esmagadora maioria portugueses.6 Foi naturalmente um considerável esforço para as finanças régias e para grande parte da população do Reino obrigada a contribuir com o seu óbolo para a libertação dos seus mais próximos e restantes compatriotas retidos no Magrebe. Mas revelou‑se também uma extraordinária fonte de receita para o dey e divan da Regência argelina, bem como para os particulares que na posse de cativos viam prosperar um negócio em torno do qual especulavam, tendo sempre em conta o preço do homem na bacia mediterrânica.
8O último resgate de cativos portugueses na Regência de Argel teve lugar no ano de 1778 através da acção dos Padres Redentores. As depredações sobre a navegação de cabotagem ao longo das costas portuguesas e sobre o tráfego do Brasil que demandava Lisboa, levadas a cabo pelo corso argelino no seu derradeiro período de ouro por um dos seus míticos raïs, Hamidou Ibn Ali, conduziram de novo ao Banho de Argel 615 cativos que só haveriam de ser libertados no ano de 1812. Revelava‑se imprescindível a Portugal impedir a passagem do Estreito em direcção ao Atlântico dos corsários de Argel. Estes chegaram mesmo a penetrar no estuário do Tejo e atacar pescadores e populações das vilas da Trafaria e Caparica.
- 7 Muitas vezes as autoridades de Lisboa propuseram liquidar empréstimos concedidos pela família Benol (...)
9Os produtos coloniais provenientes do Brasil e o trigo marroquino eram essenciais para o comércio português.7 O embate dos poderes marítimo e continental no espaço europeu e a intervenção inglesa, escorada no abastecimento dos exércitos que combatiam o invasor francês na Península, agilizaram o derradeiro resgate do século XIX e o consequente Tratado de Paz com a Regência argelina de Julho de 1813, fazendo chegar em segurança à Península as rezes necessárias para a movimentação das peças de artilharia dos exércitos de Arthur Weslleley, tão cruciais para derrotar as tropas francesas que a ocupavam.
- 8 “Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
- 9 “Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
- 10 “Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
- 11 “Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
10Em outubro de 1780, Guilherme Rodrigo Delamar, antigo cativo português de origem sefardita, atraído pelas oportunidades de negócio que o poder inclusivo do islão hanafita dos dirigentes argelinos lhe proporcionava, remeteu para as autoridades do Reino uma extensa memória na qual discorria sobre as vantagens para Portugal da normalização das relações com a Regência de Argel.8 Afirmando que “De todos os Estádos da Barbária, hé Argel o mais importante para os Européos”,9 Delamar acrescentava que “Os productos dos Dominios Ultramarinos são todos muito dezejados, e de prompta sahida em Argel, particularmente Açucares, e todo o género de Páos, e Drógas para tintas, &c. vendendose com bom Lucro”,10 concluindo depois que “Os retornos que se pódem esperar de Argel, não são menos vantajozos para Portugal, sendo alguns destes precizos para o sustento da gente, como o Trigo, Farinha, Legumes, &c. e outros muito próprios, e necessários paras as Fabricas”.11
11O quadro económico que Rodrigo Delamar traçava das produções argelinas e da possibilidade de escoamento dos produtos coloniais portugueses conferia à libertação dos cativos e à intervenção de mediadores credíveis que a agilizassem um papel essencial. Ninguém melhor que os judeus livorneses para o desempenhar num futuro resgate e tratado de paz ou tréguas com o dey e divan argelinos.
- 12 “Relação dos cativos…”, Argel, 27/II/1786, in AHU, NA, Cx. 389.
12A urgência do resgate e da paz não se coadunava com o tempo lento da diplomacia portuguesa do Antigo Regime. Segundo uma relação enviada para o Reino encontravam‑se em Argel 120 cativos portugueses como resultado da tomada pelo corso argelino de doze navios: 55 pertencentes ao Dey “do Bailique”, 52 na posse de particulares, 13 provenientes de Orão “Doram”.12
- 13 “Instruçoens que levou…”, Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 17/I/1786, in AHU, NA, Cx. 396.
13Durante o ano de 1785 chegou a Portugal a informação “Que o Dey convinha em que fosse huma Pessoa da parte de Portugal a fim de Negociar a referida Paz: Que antes dela concluída achava precizo, que esta Corte a fizesse com a Porta Otomana”.13 Nas instruções para Jaques Filipe de Landerset, Martinho de Melo e Castro transmitiu as ordens da rainha D. Maria I ao enviado que deveria dirigir‑se à Corte de Madrid e ali apresentar‑se ao embaixador português para depois, com o apoio daquela Corte, embarcar num navio espanhol para ser conduzido a Argel.
- 14 “Instruçoens que levou…”, Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 17/I/1786, in AHU, NA, Cx. 396.
- 15 “Informação de Diogo Ignacio de Pina Manique…”, Lisboa, 25/IX/1772, in AHU, NA, Cx. 404.
14Nos cinco pontos que compõem as referidas “Instruçoens” não existe qualquer referência à necessária mediação dos judeus livorneses da Regência, apenas uma particular chamada de atenção para de “modo algum se regular, nem pelo que nos aconteceo em 1763 com o Resgate de Marrocos; nem em 1778 com o de Argel”.14 Estes dois resgates, o de 1763 a cargo de particulares e o de 1768 conduzido pelos Padres Redentores, tinham‑se revelado particularmente onerosos para o Erário Régio. A forma como decorreram levou à intervenção em Lisboa de Diogo Inácio de Pina Manique e à prisão de um dos mediadores, Francisco Vanés, numa pensão da capital. Este no ano de 1770 tinha rumado a Argel para ali, juntamente com um comerciante inglês a residir naquela cidade, tentar negociar o resgate dos portugueses. Vanés no relatório de Pina Manique foi considerado “hum homem vadio, vagabundo, e sem domicilio serto, e daquelles aquem vulgarmente chamam cavalheiros de industria, e que são a peste das Republicas, e neste caracter he conhecido nesta Praça [Lisboa] por alguns dos honrrados Comerciantes Estrangeiros, e Portuguezes della”.15
- 16 Em Julho de 1797 o Inspector do Terreiro do Trigo em Lisboa informava D. Rodrigo de Sousa Coutinho (...)
- 17 “Relação dos Navios e Hyates…”, Lisboa 28/VI/1797, in AHU, NA, Cx. 397.
- 18 “Relação das Embarcaçoens…”, in AHU, NA, Cx. 391.
15Para Portugal, a necessidade de um tratado de paz com a Regência argelina que resultaria do resgate dos cativos revelava‑se crucial. A importância da segurança do tráfego cerealífero com reino alauita obrigava a mantê‑lo a salvo da actividade predatória do corso argelino.16 Em 28 de junho de 1797, a Inspecção do Terreiro do Trigo remeteu para a Secretaria de Estado a “Relação dos Navios e Hyates que se achão promptos no Tejo, e se destinão aos Portos de Berberia para haverem nelles de Carregar Graons”.17 Informação que a mesma Inspecção completou com outra de 26 de julho do mesmo ano em que afirmava se encontrarem ao largo de Lisboa doze embarcações prontas a partir para os portos marroquinos e ali procederem ao carregamento de “Graons”.18
- 19 “Informação do Capitão de Mar e Guerra...”, …”, Gibraltar, 12/V/1796, in AHU, NA, Cx. 429.
16A inoperacionalidade da esquadra que patrulhava o Estreito na missão de se opor à passagem do corso argelino para o Atlântico, constituída em maio de 1796 por uma nau – Conde D. Henrique –, duas fragatas – Graça e Carlota –, dois bergantins – Voador e Lebre –,19 era um problema a carecer de rápida solução. A manutenção logística desta força naval obrigava a considerável esforço financeiro para o qual contribuíram os Benoliel de Gibraltar e era também um factor a ter em conta na necessidade de um tratado de paz com a Regência argelina. No entanto apesar de todos estes pressupostos, a viagem de Jacques Filipe de Landerset a Madrid para daí rumar a Argel, o resgate e a paz tinham‑se gorado. Aproximava‑se a hora da imprescindível intervenção dos judeus livorneses de Argel.
- 20 Khaznadji, Tesoureiro Chefe que desempenhava o cargo equivalente ao de Ministro das Finanças.
- 21 Simão Abucaya, Agente em Paris da sociedade comercial fundada em Argel pelos Bacri e Naftali Busnac (...)
17O contexto político vivido na Regência argelina era favorável a uma aproximação por parte de Portugal. Hassan El‑Khaznadji20 (1791–1798) tinha morrido de doença no seu leito, caso raro nos derradeiros deys argelinos até à ocupação francesa. O seu sucessor, Mustafá dey (1798–1805), de imediato relembrou ao Directório da República a urgência de serem reembolsados 200 000 Duros que lhe tinha emprestado há já alguns anos. A quantia em questão deveria ser remetida para Argel através dos súbditos argelinos Bacri e Abucaya.21
- 22 Eugène Plantet, Correspondance des Deys D’Alger avec la Cour de France. 1579-1833, Paris, Félix Alc (...)
- 23 E. Plantet, Correspondance…, pp. 480–482.
18Muatafá dey exigia também que fosse libertada uma embarcação de Jacob Cohen Bacri, proveniente de Inglaterra com mercadoria destinada à Regência, aprisionada por corsários franceses que entretanto tinham agido de igual forma em relação a outro navio pertença do mesmo Bacri, retido com um carregamento trigo em território francês.22 A urgência em resolver este crédito levou o dey argelino a recorrer a Jacob Bacri para junto do Directório pressionar a sua liquidação. Acrescentava Mustafá Paxá, justificando o pagamento a Bacri e Abucaya do que lhe era devido, que estes seus súbditos judeus tinham fornecido víveres à República Francesa num tempo em que esta se encontrava bem necessitada deles e em que ninguém mais se tinha arriscado a fazê‑lo.23
- 24 E. Plantet, Correspondance…, pp. 488–489. O currículo de Dubois-Thainville é bem elucidativo da imp (...)
19O assunto ainda era motivo de controvérsia em maio de 1800. O Directório, como resultado da insistência argelina, tinha arrestado os bens dos muçulmanos existentes na República e conduzido à prisão do Templo os judeus Jacob Cohen Bacri e Simão Abucaya numa altura em que Bonaparte enviava para Argel um novo representante consular, Charles-François Dubois Thainville.24 A Regência confrontava‑se assim com a necessidade de fundos que um possível resgate dos cativos portugueses em seu poder poderia mitigar e sofria também as consequências do embate em território europeu dos dois grandes poderes que ali se enfrentavam, França e Inglaterra.
- 25 Sobre este assunto ver Michel Abitbol, Le passé d’une discorde : Juifs et Arabes du VIIe siècle à n (...)
20Frei José de Santo António Moura fez a primeira viagem à Regência de Argel no ano de 1799. Haveria de realizar mais seis até ao ano de 1813. Este arabista já se tinha deslocado por várias vezes a Marrocos. No decurso duma dessas deslocações teve a oportunidade de viver um dos períodos de mais negros do judaísmo magrebino, as violentas perseguições movidas à comunidade judaica marroquina durante o curto sultanato de Mulay Yazid (1790–1792).25 Era um profundo conhecedor do Magrebe e das relações nem sempre pacíficas entre os Povos do Livro.
- 26 Bey – Chefe militar, governador de um beylik. Termo que também inicialmente designava os chefes das (...)
- 27 M. Abitbol, Le passé…, p. 120.
- 28 Lucette Valensi, Juifs et Musulmans en Algérie.: VIIe-XXe siècle, Paris, Éditions Tallandier, 2016, (...)
21A relação com os judeus livorneses de Argel, bem como a sua importante mediação no comércio do homem no ocidente mediterrânico, aparece no Diário da primeira viagem a Argel de Santo António Moura onde surge também pela primeira vez mencionado o nome de Naftali Busnach. Este elemento da comunidade judaica argelina, comerciante de envergadura internacional, tinha chegado à Regência no ano de 1774. Inicialmente instalado em Constantina veio depois a transferir a actividade para Argel em resultado da eleição do seu amigo bey26 como dey da Regência para a qual contribuiu de forma notória. Modesto, instruído e piedoso, segundo as fontes judaicas, ou ambicioso, cúpido e cruel, de acordo com a documentação consular europeia, a sua influência sobre Mustafá dey foi significativa.27 Assumiu papel de relevo na política argelina ao negociar o fim da guerra com a Inglaterra iniciada em 1795 e recebendo em 1801 os cônsules holandês, dinamarquês e sueco.28
- 29 “Diario da primeira viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fls (...)
22A opinião manifestada nas fontes consulares europeias não encontra equivalente na documentação portuguesa. Os enviados do Reino mantiveram com Naftali relações de bastante cordialidade, respeitando a sua capacidade negocial e o importante papel que desempenhava junto do dey argelino. Santo António Moura no Diário da sua primeira viagem a Argel informava: “Fui esta manhã ao Bei apresentado por Ben Taleb, e pelo Judeo Naftali Busnach, que faz de Ministro dos Negocios Estrangeiros […] Á noute me ajuntei com Ben Taleb, e o mencionado Judeo, em quem este tinha grande confiança […] encarregou‑se o mencionado Judeo de participar ao Bei [a proposta portuguesa]”.29
- 30 “Diario da primeira viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fl. (...)
23Neste Diário publicou também o religioso português a carta que já de Lisboa remeteu a Naftali Busnach transmitindo‑lhe a impressão do Príncipe Regente sobre as exigências argelinas que “vio com indignação as cobiçosas pertençoes desse Baxa, não se havendo dignado admitir alguma dellas por as considerar indecorosas á sua Dignidade Real”.30 Tinham‑se assim gorado as primeiras negociações com a Regência argelina sob a mediação do judeu livornês.
24Em Julho de 1803 Santo António Moura agora já não como negociador principal, como tinha acontecido no ano de 1799, mas sim intérprete de Lázaro José de Brito enviado do Príncipe Regente, deslocou‑se de novo à grande urbe do Magrebe Central. A pressão para a libertação dos cativos acentuava‑se em resultado da perda do bergantim Lebre pequeno e da fragata Cisne, agravada ainda pelo facto desta última na sua tripulação contar com membros importantes da sociedade portuguesa da época.
- 31 “Diario da minha 2ª viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fls (...)
25Naftali Busnach voltou a desempenhar papel significativo nesta aproximação à Regência. A Carta Régia de que era portador Lázaro José de Brito mencionava os presentes que este deveria distribuir às pessoas com capacidade de influenciar as negociações, dando especial relevo ao judeu livornês “que faz as vezes de Ministro dos Negocios Estrangeiro”.31 Encontrando‑se ainda em Alicante, aguardando transporte para Argel, Santo António Moura recebeu uma carta de Naftali Busnach na qual o judeu livornês acusava a recepção de outra mencionando o preço que Portugal achava por bem pagar pelos seus naturais ali cativos, transmitindo por sua vez a contraproposta do dey argelino.
- 32 “Diario da minha 2ª viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fl. (...)
26Recebidos em Argel pelo “sobredito Judeo Busnach” Lázaro José de Brito e o seu intérprete foram conduzidos à presença do dey. Naftali Busnach, encorajado na sua mediação por uma oferta dos negociadores portugueses de quarenta mil cruzados, regressou com uma proposta que rondava 3 400 000 Duros na qual estava incluído o preço a pagar por Diogo Ramires Esquível, oficial da Cisne e filho do almirante Ramires, o mais importante cativo português retido em Argel. Não obstante ser esta a derradeira proposta argelina, recusada pela delegação portuguesa, “o Judeo Neftali me disse a despedida que se Portugal quisesse despender trez milhões de cruzados por huma só vez na paz e resgate, o quisesse eu avizar, porque tinha a esperança de o conseguir”.32
27O malogro das negociações e o regresso a Portugal de Lázaro José de Brito geraram o pânico e a revolta entre os cativos portugueses. Paulo Freire de Andrade escreveu então ao visconde de Anadia dando conta do ambiente vivido em Argel perante o insucesso da mediação daquele que fazia as vezes de ministro dos negócios estrangeiros da Regência argelina
- 33 “Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 3/X/1803, in AHU, NA, Cx. 400.
“cheio de soberba mandou [o dey] chamar poucos dias depois, que da qui sahio o enviado Lazaro Joze de Brito todos os Commandantes dos Corssarios, e para socegar os sussurros que já avia entre o povo, cauzados por não ter condescendido com a generoza oferta do nosso Augusto Principe de Portugal, e que preparaçem os seus Corssarios para hirem a Corso, pois que não devião recear as Embarcaçoes Portuguezas”33
28Face às condições vividas na Regência, ao alvoroço que causara no seio da milícia de Argel e na sua população o fiasco das negociações com Portugal, agravado pela conjuntura em toda a bacia mediterrânica, o sucesso do resgate com as receitas que inevitavelmente entrariam no tesouro argelino revelava‑se essencial.
- 34 “Condições para a paz…”, Outubro de 1804, in AHU, NA, Cx. 415.
- 35 “Carta de Naftali Busnach…”, Argel, 1/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 415. Encontravam-se em Lisboa na Cad (...)
29A necessidade e urgência de concluir este negócio levou o poder turco da Regência a procurar outras soluções. Hagi Abdelkrim Bentaleb, comerciante marroquino estabelecido em Lisboa, com negócios em ambas as margens do Mediterrâneo, foi instado a negociar a paz e o resgate dos cativos ali retidos, escrevendo para isso às autoridades do Reino. Já em Lisboa, para onde se deslocara por ordem do imperador de Marrocos, recebeu as condições argelinas que constatou serem muito elevadas. Bentaleb “logo escreveo particularmente a Naftale Busnah, para que fizese as diligencias possíveis para muderar as pertençoens do Dey, pois que com as actuaes não se poderia effectuar nada”.34 A resposta do judeu livornês foi rápida, afirmando “que tudo estaria concluído por 1 000 000 de Patacas Hespanholas e o prezente do Consul” e aconselhando que “não se demore a vinda dos Navios com o Dinheiro, Consul, e Escravos, por que aqui se achará tudo quanto for precizo que lhe sirva de governo”.35
- 36 “Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 7/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 411.
30A probabilidade de se vir a gorar mais uma tentativa para libertar os cativos com evidentes prejuízos para todos os intervenientes nas negociações aumentou o volume de correspondência para Portugal com indicações de como proceder em relação a Mustafá Paxá, exercendo em simultâneo pressão sobre as autoridades de Lisboa para libertar os seus compatriotas. Em 7 de Novembro de 1804, o comandante dos cativos enviou ao visconde de Anadia uma carta na qual informava que “ontem me chamou /por assim dizer/ quem governa o Paiz /isto é/ o negociante Hebreo Busnaque e me disse = que aproveita-ce a ouccazião em rogar, ao Serenissimo Principe Regente de Portugal, o nosso resgate por quanto elle, me segurava que o Dey estava mais conforme para ajustar, e acabar, d’uma vez a negociação =”.36
- 37 L. Valensi, Juifs et Musulmans…, p. 69.
31A mediação das negociações com Portugal não tinha conseguido os seus objectivos. E talvez por isso mesmo, Naftali Busnach sofreu nova tentativa de assassinato da qual voltou a escapar.37 Perante estes factos, o corso argelino rumou ao Oceano em busca de presas para forçar o regresso à Regência dos enviados portugueses. A crise política em Argel agravou‑se. Os motivos eram os mesmos: escassez de receitas que pudessem mitigar conflitos sociais daí resultantes, sobretudo os existentes no seio da milícia; crise frumentária vivida pela população que a exportação para a margem norte do Mediterrâneo acentuava. E apesar do corso de Argel estar a viver o seu derradeiro período de ouro, a pressão sobre o dey e os seus mais próximos colaboradores entre os quais se encontrava Naftali Busnach acentuava‑se.
32Paulo Freire de Andrade, depois de questionar a eficiência da esquadra portuguesa que patrulhava o Estreito de Gibraltar, informava o Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos
- 38 “Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 24/V/1805, in AHU, NA, Cx. 404.
“O Deï desta Regencia, depois de ter sufrido, huma grande cura, desde o dia 17 de Março, em que o quizerão asassinar, os seus soldados; teve a furtuna do seu restabelecimento, não esperádo; acha-se com menos, huma orelha, e a carne adjacente; sem dois dedos, n’uma mão; na outra sem dois e meio, e com treze sicatrizes pelo corpo, signaes da sua soberba, avareza, e da dezumanidade, que exzerçita, com todos os seus suditos.”38
- 39 Kulugli – Do turco kul ôglu (filho de escravo). Termo que designa os nascidos da união de janízaros (...)
33A carta do antigo oficial da Cisne, agora convertida num dos navios mais modernos ao serviço do corso argelino sob designação de al‑burtughazia (a portuguesa), espelhava a situação interna da Regência. O ambiente adensava‑se em Argel e as acções contra a comunidade judaica e restante população de origem moura e kulugli39 avolumavam‑se. Em outubro de 1805, Paulo Freire de Andrade voltou a escrever, agora uma longa carta, ao visconde de Anadia relatando‑lhe em pormenor o ambiente vivido na Regência. Expunha os violentos conflitos no seio da comunidade judaica, os movimentos dos cônsules das potências europeias para que a paz não fosse assinada com Portugal, bem como o assassinato de Naftali Busnach e o brutal progrom que se lhe seguiu.
- 40 “Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 26/X/1805, in AHU, NA, Cx. 425. Sobre a cidade de Argel (...)
“descubertas as entrigas dos Hebreos, conhecida a somma que elles receberão dos Consules, para evitar o arranjamento com os Portuguezes; a extrema nescessidade, em que se achava o Paiz, por falta de Grão, pela dezordem em que se achão as Provincias de Titre, e Tremessem, e pella grande exportação que os dittos Hebreos tinhão delle feito, sendo este commercio só delles: foi a cauza da perdissão total aqui dos Hebreos, e da morte do Dey Mustafa Baxa.
Hum soldado Turco, tendo em vista o bem da sua Patria, toma a rezulussão de banir da Terra, o intrigante Hebreo Busnaque; e derigindo-se aos seus camaradas, faz com elles aliança, premetem riciprocamente, libertar esta Cidade do Jugo Hebreo, e se oferecem á morte; este soldado Turco procurando o ditto Hebreo, o encontrou n’uma rua, rodeado dos seus amigos, perguntando-lhe o seu nome, e pela resposta conhecendo ser elle aquelle que procurava, lhe faz entroduzir huma balla de Pistola, no Corpo, cahe morto Busnaque; seguro o Turco, ter feito o dezejado efeito a balla empelida, pellos signaes que nelle vê, suspende o Golpe d’Alfange, que a elle destinava, e contente de tirar a vida ao monstro, se retira ao seu quartel, cheio de aplauzos, e bendiçoes de quaze todos os abitantes da Cidade; pertendem os Hebreos tirar vinganca, entrigão com o Dey Mustafa Baxa, e com Gasnaxi [khaznadji]/ titulo que aqui tem o primeiro menistro / para que se castigue o Turco, chamado por elles, perturbador da tranquilidade; dezeja o Dey satisfazer os seus dezejos, e pertende castigar o Turco, sabido isto dos seus camaradas pertendem defender os seu herôe; e na seguinte manhãa, saem armados dos seus quarteis, deregindo-se ao Palacio, pertendem saber das vontades do Dey; defende-se elle, dizendo, ignorar as intrigas do ditto Hebreo, e ordena aos Turcos, a morte dos Hebreos, e lhe promete o saqueyo; emmediatamente se utelizão da licença do Dey, e empregão os seus golpes, em 150 Hebreos, que forão victimas, das intrigas dos tres dittos, e quaze todas as cazas Hebreas, forão saqueadas pelos abitantes mouros da Cidade, e por alguns Turcos; David e Bacri são salvos pella Regencia, e os seus thezouros pelo Consul de Hespanha”40
34Já em Setembro, João Afonso Neto, também oficial da Cisne, tinha notificado, disputando a primazia ao seu camarada de armas Paulo Freire de Andrade no envio de informações para Portugal, a violenta morte do judeu livornês
- 41 “Carta de João Affonso Neto…”, Argel, 11/IX/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“O Hebreo Nephtali Busnack, que éra o regente de todos os outros Hebreos a qui residentes, e sócio da sobredita companhia [Bacri & Busnach], recebeo o devido premio dos conselhos, que dava ao Dey, para fazer muitos despotismos; pois foi assassinado por hu soldado Turco em vinte e oito de Junho do prezente anno, como participei a V. Exª”41
35Mais crítico em relação à comunidade judaica de Argel que o seu camarada, Afonso Neto acrescentava ainda motivos que teriam estado na origem do assassinato de Naftali Busnach
- 42 “Carta de João Affonso Neto…”, Argel, 11/IX/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“E de tal maneira manejavão os ditos Hebreos a sua vil politica, que erão a cauza de serem quazi sempre incommodados os Consules das Potencias da Europa nesta Regencia, e algumas vezes tratados como escravos, e obrigados a caminharem pelas ruas públicas com grande cadeia, como aconteceo, não há muitos annos ao Agente da Nação Hespanhola junto ao dito Dey. Estes mesmos Hebreos, a quem foi dirigido Lazaro Jozé de Brito para tratar do resgate dos Portuguezes aqui escravos, forão a cauza de não se fazer o mencionado resgate; pois o dito Busnach dice ao Dey, que Portugal tinha muito dinheiro; e que devia exigir hua grande quantia pelo Primeiro Tenente Diogo Ramires Esquivel, por ser filho de hum Almirante”42
36Esta missiva é um exemplo do duplo discurso que marcou desde meados do século XVIII as relações do Estado português com as comunidades judaicas magrebinas e de Gibraltar. Portugal denunciava a interferência judaica quando as negociações falhavam, não deixando por outro lado de solicitar a intervenção da capacidade financeira das suas elites e redes de negócios para suprir as eternas insuficiências do Erário Régio nas relações magrebinas.
37O assassinato de Naftali Busnach e o violento progrom de 1805, cuja causa próxima foi o fracasso das negociações com o reino português para a libertação dos seus cativos, não esgotou as relações com os livorneses de Argel. A sua mediação e activos financeiros foram fundamentais na obtenção do resgate de 1810 e no Tratado de Paz de 1813. Frei José de Santo António Moura no período pós-Busnach dirigiu‑se a Argel para, sempre como intérprete, acompanhar os novos enviados de Portugal. Estes seriam agora distintos oficiais da marinha de guerra portuguesa.
- 43 “Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
- 44 “Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
- 45 “Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
- 46 “Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
38Em março de 1806, Richard Cartwright, antigo cônsul britânico em Argel, à data em Gibraltar, enviou ao comandante da Esquadra do Estreito uma carta em que sintetizava qual deveria ser a actuação da diplomacia portuguesa no período pós Naftali Busnach. Nela analisava também a situação política em Argel resultante da liquidação de Mustafá dey. O seu sucessor, Ahmed Paxá (1805–1808), alicerçou a chegada ao poder no cumprimento de duas promessas que beneficiariam a elite anatoliana ainda à frente dos destinos da Regência: “Primeira, Fazer a paz com S. A. R. o Princepe de Portugal. Segunda dobrar os soldos dando a cada cazado huma medida de trigo cada Mez”.43 A primeira gorara‑se e quanto à segunda “o Dei acha muita dificuldade em pagar soldo dobrado; e por falta de Trigo na imposebilidade de o distribuir, sendo no seu Reino de hum preço exorbitante, a ponto de ser Oubrigado a mandalo vir de fora, e o esperão diariamente”.44 No entanto, validando as opiniões maioritariamente negativas manifestadas pelos cônsules das potências europeias, Cartwright cita a necessidade da presença em futuras negociações do “Judeo Bacre de quem V. Sª. experimentará occultamente as maiores opposiçoens”.45 Advertia também um futuro enviado português que “Chegando com o dinheiro necessario, […] não será oubrigado a entregar se ao famozo Judeo Bacre corretor dos Concules para receber dez, quinze, vinte, e trinta por Cento para o emprestar, allem dos seus dois por Cento de corretagem”.46
39Durante o governo de Ahmed Paxá, o corso de Argel sob o comando do raïs Hamidou e de outros valorosos corsários encaminhou para o tesouro da Regência substanciais receitas. Todavia, a sua estabilidade interna era com frequência ameaçada por graves sublevações em variados locais do território argelino a que se juntavam as incursões das tropas de Túnis no Leste do país.
- 47 “Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
- 48 “Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
- 49 “Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
40Tentando mediar um negócio que se revelava premente para o dey argelino sujeito ao cumprimento das promessas feitas quando da sua eleição, Joseph Cohen-Bacri abordou o visconde de Anadia para um possível retomar das negociações com Portugal. Numa carta remetida ao governante português Joseph Cohen Bacri criticava o antigo dey “Le pretenzioni esorbitanti del Dei morto, furono sempre un ‘ostacolo che si eredete impossibile di superare durante su regno”,47 apontava as razões que levaram ao seu assassinato e tecia rasgado elogio ao seu sucessor “Una rivoluzione che precipito Mustafá Pasciá dal trono, mise per cappo di questa reggenza, un príncipe degno del posto che ocupa, per i suoi lumi. Per cio mi dó premezo di parteciparlo a V. Ecc. Per poco che S.A.R. voglia riscattare i suoi suditti e fare la pace com questa reggenza, sará facile il conseguirlo”.48 Terminava a sua missiva com uma informação cujo objectivo era pressionar as autoridades portuguesas para apressar um possível resgate “Tutt’i nostri corsari sono felicemente ritornati dalla loro crucciera. Una presa portoghese da loro fatta, diceri essere stata venduta in uno di porte dio Marocco”.49
- 50 “Carta do visconde de Anadia…”, Lisboa, 12/IV/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
41O governante português respondeu com alguma celeridade ao judeu livornês, mas de forma não conclusiva e face às dificuldades internas com que se debatia o Reino tentou manter aberto um canal que lhe poderia vir a ser de grande utilidade no futuro “La riconoscenza di S. A. R. il Principe del Brasile, e la mia pariculare gratitudine saranno equali, e proporcionate alle di lei cure e sforzi per ultimare felicemente queste importanti ed utilissime transazioni per ambe le due Nazioni, assicurandola frattanto della stima com laquale ho l’onnore di rassegnarmi”.50
42O período que decorreu entre as mortes de Naftali Busnach e Mustafá Paxá e a definitiva libertação dos cativos portugueses no ano de 1812 continuou a ser caracterizado por grande instabilidade no seio da Regência argelina. Albert Devoulx, funcionário da administração colonial francesa em Argel, num dos seus muitos trabalhos de recolha documental que deram origem a obras de referência para o estudo da Regência, descreveu detalhadamente a morte da Ahmed Paxá às mãos de um dos seus janízaros. Devoulx transcreve na obra que dedicou ao estudo da biografia do raïs Hamidou o testemunho oral de um turco que ainda criança assistiu à morte no ano de 1808 do odioso dey que sucedeu a Mustafá Paxá
- 51 Albert Devoux, Raïs Hamidou: Notice Biographique sur le plus célèbre Corsaire algérien du XIIIe siè (...)
"Le Turc se précipite vers lui et jette un cri de joie. Le coup de fusil était beau en effet: le pacha gisait dans la ruelle, près de nous, qui étions pleins d’épouvante. La foule des janissaires accourut bientôt aux cris d’Ahmed Allayali, puis, se ruant avec frénésie sur le corps, ils le mirent en pièces et emportèrent triomphalement les débris. Cette scène, où un homme avait été dépecé comme un animal, nous glaça d’horreur. Ahmed Pacha avait beaucoup d’embonpoint, et sa chair blanche présenta, quand elle fut coupée, des couches de graisse dont l’aspect a fait une impression ineffaçable sur ma jeune imagination.”51
43A permanente instabilidade na Regência durante os anos que antecederam o desembarque francês em Sidi Ferrouche e com a qual conviveu a comunidade judaica argelina não a impediu de continuar intervir nos assuntos dos governantes que sucederam a Ahmed Paxá.
- 52 Muqaddam – Termo que no Magrebe designa um líder civil ou religioso.
- 53 L. Valensi, Juifs et Musulmans…, pp. 69–70.
- 54 Kamal, Chehrit, Les Janissaires: Origines et Histoire des Milices Turques des Provinces Ottomanes e (...)
44Já não restava em Argel nenhum membro da família do antigo muqaddam52 Naftali Busnach. Estes tinham escolhido o caminho do exílio rumo a Tunis e Livorno. Uma parte significativa dos Bacri seguiu‑lhes o exemplo. David Bacri, proeminente membro desta família, que tinha permanecido em Argel, armador de vários navios de comércio, chegou a ser muqaddam durante quatro anos, antes de ser executado no ano de 1811 pelo dey Hadj Ali Paxá (1809–1815).53 Este dey, sádico cruel, fervoroso adepto de execuções públicas e de castigos exemplares, foi estrangulado no banho por elementos da milícia em 22 de Março de 1815.54 Foi durante a vigência do governo de Ali Paxá que Portugal negociou a libertação dos seus cativos e conseguiu firmar a paz com a Regência.
45Recorrendo primeiro aos Benoliel de Gibraltar para suprir parte dos fundos necessários à libertação de cativos e suplantar outros entraves que ocorreram no decurso das negociações, as autoridades portuguesas juntaram aos préstimos financeiros da casa de comércio Judah Benoliel, Arengo e Companhia os bons serviços de Joseph Cohen Bacri para a obtenção da paz.
46No ano de 1811 foram assim executados dois dos muqaddam da comunidade judaica de Argel (David Bacri e David Durand). Após estas execuções a família Bacri retomou a direcção da comunidade e Joseph Bacri tornou‑se o novo muqaddam, cargo que anteriormente fora do seu filho. Seguiram‑se graves conflitos no seio da comunidade judaica argelina, acabando Joseph Bacri por ser expulso pelas autoridades da Regência e tomar o caminho de Livorno.
- 55 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
47Na relação da viagem que Santo António Moura fez para as autoridades do Reino do acontecido na deslocação a Argel em Setembro de 1811 estes factos não lhe passaram despercebidos.55 A viagem foi marcada por uma série de ocorrências que a podiam ter feito gorar e o seu sucesso só foi possível graças à intervenção de membros relevantes das comunidades judaicas de Argel e Gibraltar.
- 56 “Carta dos Governadores do Reino…”, Lisboa, 11/I/1812, in AHU, NA, Cx. 420.
- 57 Sobre esta matéria ver A. Jorge Afonso, “ O Arresto do Brigue Português Intrépido. Um negócio inter (...)
- 58 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
48Os Governadores do Reino na carta que escreveram ao Príncipe Regente, então já no Brasil, dando‑lhe conta de todas as incidências que rodearam a segunda parte do resgate dos portugueses, acordado no ano de 1810, mencionam “20:000$ de rs. que adiantou em Gibraltar o Negociante Salomão Benoliel”.56 A segunda parte do resgate ficou marcada por um problema relacionado com o arresto em Gibraltar, a pedido do cônsul de Portugal naquela praça, de um bergantim português apresado pelo corso argelino.57 No litígio interveio o cônsul da Regência em Gibraltar, o sefardita português Abraão Cardozo e o “Hebreo Baqueri fiador dos 30.000 duros”58 com que Hadj Ali Paxá pretendia ser indemnizado pela perda de um navio que insistia em considerar “boa presa”.
- 59 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
49Todavia, os enviados portugueses colocavam em dúvida uma futura intervenção de Bacri por parecer “ter havido quem lhes tem dito que se acautelem, por que Portugal está em perigo de ser tomado pelos Francezes”59 o que poderia pôr em causa a liquidação do hipotético empréstimo que o financeiro judeu viesse a conceder. Na entrada relativa ao dia 18 de outubro da sua “Relação da viagem…” Frei José de Santo António Moura faz referência a mais uma das muitas violências exercidas sobre os líderes da comunidade judaica de Argel já nos primeiros anos do século XIX, a execução de David Duran:
- 60 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Soubémos agora que o Bei mandara estrangular o Chefe dos Hebreos, homem de mais de 70 annos; e isto logo depois de ter recebido delle o prezente, que por occazião da sua Pascoa lhe costumão offerecer. Tem sido diversas as opiniões sobre o que deo motivo a semelhante procedimento: a mais seguida he, por ter o dito Judeo, persuadido a vários outros, que não quizessem suprir-nos o dinheiro para o resgate, por que se expunhão a perdello, se os Francezes retomassem Portugal, como se dizia. Seja o que for; o certo he, que neste Paiz pouco se precisa para se perder a vida.”60
- 61 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
- 62 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
50Ajustadas as contas com Bacri e assinadas as Letras do dinheiro adiantado para a efectivação da segunda parte do resgate, os enviados portugueses prepararam‑se para regressar a Portugal com o desejo manifestado pelo mais alto governante da Regência que “dice ao Enviado que esperava voltássemos com brevidade com todo o resto do dinheiro para o resgate, e que se admitíssemos as suas propostas, estava a paz ajustada, e que aliaz terminada a tregoa, e o resgate, ficaríamos como dantes”.61 Prova mais cabal de que a intermediação de Bacri tinha sido um sucesso é a derradeira entrada da “Relação da Viagem…” relativa ao dia 30 de Outubro: “As 10 da manhãa tornámos a embarcar, e pouco depois proseguimos a nossa viagem, acompanhados do Bergantim Inglez, e de huma Polacra de Baqueri com bandeira Argelina, carregada de trigo para Lisboa, a bordo da qual vem 60 dos resgatados, por não poderem vir todos no Bergantim”.62
- 63 “Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 427.
51A morte de Naftali Busnach não afastara os principais judeus livorneses da Regência de intervir como mediadores nos negócios com Portugal. Em junho de 1813, Santo António Moura, agora acompanhando o oficial da marinha de guerra José Joaquim da Rosa Coelho, dirigiu‑se a Argel para finalmente negociar a paz com a Regência. Mais uma vez é referida a intervenção das comunidades judaicas do Sul da Península. Na entrada referente ao dia 7 de junho Santo António Moura mencionou: “Receberão-se neste mesmo dia os duzentos Contos de reis da Caza de Judá Benoliel, Arengo, e Companhia, parte dos fundos destinados para a Negociação d’Argel”.63 Sobrevivendo à instável conjuntura interna da Regência argelina, ela própria condicionada pelos factos ocorridos em finais de Setecentos e primeiros anos de Oitocentos na bacia mediterrânica, sofrendo muitos dos seus membros os resultados das lutas fratricidas que eclodiram no seio da sua comunidade, a elite dos judeus livorneses de Argel revelou‑se essencial nas várias abordagens que o reino português fez às autoridades da Regência para a libertação dos cativos portugueses que ali se encontravam e para alcançar a paz definitiva com Argel no ano de 1813.
52A digressão efectuada pelas fontes portuguesas na procura das causas próximas que estiveram na origem do assassinato de Naftali Busnach e do progrom do ano de 1805, levando à morte mais de centena e meia de elementos da comunidade judaica de Argel, permite considerar que estes acontecimentos tiveram lugar devido ao falhanço das negociações com Portugal para a libertação dos seus cativos na Regência argelina.
53A documentação portuguesa, nomeadamente as várias descrições das viagens efectuadas pelos seus enviados a Argel elaboradas por Fr. José de Santo António Moura, indica sem alguma dúvida a participação de Naftali Busnach nas primeiras tentativas efectuadas por Portugal para levar a cabo a libertação dos seus naturais ali retidos. Do acervo documental existente no Arquivo Histórico Ultramarino em Lisboa também faz parte inúmera correspondência remetida de Argel pelos cativos portugueses, sobretudo a partir do ano de 1802. Neste ano o corso argelino apresou um importante navio de guerra português, a fragata Cisne. Esta perda causou entre os membros mais esclarecidos da sociedade portuguesa da época considerável ruído já que em 1799 tinha sido também tomado um bergantim da Armada, o Lebre pequeno. Da tripulação destes dois navios faziam parte elementos grados da sociedade portuguesa do Antigo Regime com capacidade bastante para grafar a vivência argelina e confronto com o Outro.
54O último resgate em Argel tinha tido lugar no ano de 1778 e decorrera sobre a superior orientação dos Padres Redentores da Santíssima Trindade, não se podendo considerar que tenha sido propriamente um sucesso negocial como o haveria mais tarde de considerar Martinho de Melo e Castro, ministro da rainha D. Maria I.
55A conjuntura interna argelina foi muito marcada pelo pragmatismo comercial do seu dey que não teve qualquer problema, em fornecer às tropas de Bonaparte a caminho do Egipto o necessário fornecimento cerealífero para a sua manutenção ainda que, como veio a acontecer, o pagamento desse cereal se viesse a revelar muito problemático. Foi uma situação que condicionou a actuação de Naftali Busnach na gestão da pressão que sofreu para levar a bom porto as negociações com o reino português e trazer para o tesouro argelino as receitas provenientes de um hipotético resgate e tratado de paz com Portugal.
56O falhanço das negociações dos anos de 1799 e 1803 com o reino português, nas quais Naftali Busnach interveio e em que muito se empenhou, foi a causa próxima do seu assassinato e da morte às mãos dos janízaros da milícia de Argel de uma centena e meia de elementos da comunidade judaica argelina, conforme relato detalhado remetido para o Reino em Outubro de 1805 por Paulo Freire de Andrade, oficial da fragata portuguesa e comandante dos cativos portugueses na Regência.
57A morte de Naftali Busnach não alienou a importância dos judeus livorneses na intervenção nos grandes negócios da Regência com as potências europeias de grande e média dimensão. E também não fez cessar as violências sobre os elementos mais preponderantes dos judeus argelinos muitas vezes exercida no seio da sua própria comunidade. Aos enviados e cativos que a relataram para o Reino ela também não passou despercebida. Frei José de Santo António Moura na viagem que efectuou a Argel em Setembro de 1811 para a segunda parte do resgate acordado em 1810 descreve com detalhe a morte por estrangulamento de David Durand ordenada pelo próprio dey.
58A sociedade argelina foi marcada pela violência a que não escapou a elite turca que a dirigiu e foram numerosos os deys que não morreram de morte natural. Albero Devoulx, funcionário da administração colonial francesa, que coligiu inúmera documentação fundamental para o estudo da Regência, numa das suas obras descreveu com requinte de pormenores, baseado em testemunho oral, a liquidação do dey Ahmed Paxá por um elemento da milícia.
59Todo este contexto de violência e agressividade que rodeou a comunidade judaica em Argel, que por vezes também a influenciou na relação com os seus próprios membros, marcou o período que medeia entre a segunda metade do século XVIII e o fim da década de vinte do século XIX. Após a morte de Naftali Busnach, armado do duplo discurso que muitas vezes utilizou em relação aos judeus magrebinos e do Sul da Península, Portugal vai usar a sua capacidade financeira e negocial para conseguir a libertação dos seus cativos e assinar a tão necessária paz com Argel no ano de 1813.
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Bibliography
Fontes Impressas
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“Relação das Embarcaçoens que se achão promptas no Tejo, e se destinão a os Portos da Barbaria, para haverem nelles de carregar Graons, e conduzilos a este Porto”, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de João Affonso Neto para o visconde de Anadia”, Argel, 11.IX.1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Joseph Cohen Bacri para o visconde de Anadia”, Algeri, 3.XII.1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Richard Cartwright para Luiz da Motta Feo”, Gibraltar, 6.III.1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta do visconde de Anadia para Joseph Cohen Bacri”, Lisboa, 12.IV.1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Demonstração das vantagens que rezultarão ao Reyno de Portugal por meyo de huma paz, ou Tregoa com a Regencia de Argel”, Outubro. 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
“Instruçoens que levou Jaques Filipe de Landerset”, Palacio de Nossa Senhora da Ajuda em 17/I/1786, in AHU, NA, Cx. 396.
“Relação dos Navios e Hyates que se achão promptos no Tejo, e se destinão aos Portos de Berberia para haverem nelles de Carregar Graons, e Conduzidos a este Porto”, Lisboa 28/VI/1797, in AHU, NA, Cx. 397.
“Carta de Paulo Freire de Andrade para o visconde de Anadia”, Argel, 3/X/1803, in AHU, NA, Cx. 400.
“Informação de Diogo Ignacio de Pina Manique sobre a prisão de Francisco Vanés”. Lisboa, 25/IX/1772, in AHU, NA, Cx. 404.
“Carta de Paulo Freire de Andrade para o visconde Anadia”, Argel, 24/V/1805, in AHU, NA, Cx. 404.
“Carta de Paulo Freire de Andrade para o visconde de Anadia”, Argel, 7/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 411.
“Condições para a paz apresentadas pelo Dey de Argel”, Outubro de 1804, in AHU, NA, Cx. 415.
“Carta de Naftali Busnach para Abdelkrim Bentaleb”, Argel, 1/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 415.
“Relação da viagem que eu Fr. Joze de Stº. Antonio Moura fiz a Argel em Setembro de 1811 na companhia de James Scarnichia Chefe de Divizão, e encarregado de efeituar a 2ª parte do resgate, e de ajustar a paz definitiva; e do rezultado sobre este Negocio”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Carta dos Governadores do Reino para o Príncipe Regente D. João”, Lisboa, 11/I/1812, in AHU, NA, Cx. 420.
“Carta de Paulo Freire de Andrade para o visconde de Anadia”, Argel, 26/X/1805, in AHU, NA, Cx. 425.
“Relação da viagem que eu Fr. Jozé de Santo Antonio Moura fiz a Argel em Junho de 1813 na companhia do Capitão de Mar e Guerra, Jozé Joaquim da Roza Coelho, Commandante da Fragata Perola, e Encarregado de ajustar a Paz com aquella Regencia, a quem S.A.R. me mandou associar para tratarmos este Negocio de acordo com o Enviado Britanico Wiliam A Court, transportado d’Inglaterra a bordo da Fragata Persus, commandada pelo Capitão de Fragata, Eduardo H. A Court, authorizado pelo seu Soberano para garantir, e proteger esta Negociação”, in AHU, NA, Cx. 427.
“Informação do Capitão de Mar e Guerra e Comandante de Esquadra Antonio Joze Valente para o Ministro e Secretario de Estado dos Negocios Estrangeiros da Guerra e Marinha Luis Pinto de Souza, Gibraltar, 12/V/1796, in AHU, NA, Cx. 429.
“Diario da primeira viagem, que por ordem de Sua Alteza Real o Principe Regente Nosso Senhor fiz no anno de 1799 de Lisboa á Praça de Gibraltar, e desta a Argel para ahi tratar do resgate dos nossos captivos, e de outros negócios, de que fui encarregado pelo mesmo Senhor”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza, e por Fr. Jozé de S.to Antonio Moura, Officiaes e Interpretes Regios de Lingoa Arabiga, nos quaes se relatão os acontecimentos políticos sucedidos que foi por elles observado nas seguintes jornadas nos estados barbarescos, Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), fl. 89.
“Diario da minha 2ª viagem a Argel em Julho do anno de 1803 por ordem de Sua Alteza de Sua Alteza Real o Principe Regente nosso Senhor, indo em companhia de Lazaro José de Brito a quem o mesmo Senhor me mandou associar” in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza, e por Fr. Jozé de S.to Antonio Moura, Officiaes e Interpretes Regios de Lingoa Arabiga, nos quaes se relatão os acontecimentos políticos sucedidos que foi por elles observado nas seguintes jornadas nos estados barbarescos, BNP.
Obras gerais
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Notes
Ahl al‑Kitab – Povos do Livro, segundo o Alcorão, nos quais se incluem os crentes das três religiões monoteístas: judeus, cristãos, muçulmanos.
Banho – Do francês bagne, local onde se concentravam os cativos na sua maioria resultantes das acções predatórias do corso argelino. Existiram em Argel vários Banhos públicos e privados. Em pleno século XVII estes locais chegaram a abrigar cerca de 30 000 cativos. No princípio de Oitocentos apenas subsistia um como memória dos tempos áureos do corso da Regência. Sobre a arquitectura e logística dos Banhos públicos ver P. Boyer, La Vie Quotidienne a Alger a la Veille de L’intervention Française, Paris, Hachette, 1963, p. 248.
Dey – Do turco dâï, título usado pelos detentores do poder supremo na Regência de Argel, desde o fim do governo dos aghas (oficiais superiores com o grau equivalente ao de general do exército otomano), no ano de 1671, até ao desembarque das tropas francesas em Sidi Ferrouche em Junho de 1830.
Divan – Conselho da Regência de Argel na dependência dos grandes oficiais do odjak (milícia). Pouco a pouco, o Divan assumirá o papel de órgão de tutela do governo da Regência. O Divan compunha-se de cinco dignatários: o agha da mehalla (comandante do exército de terra), o khaznadji (responsável pelo Tesouro), o oukil el-khadj (ministro da marinha), o khodja el-khaïl (responsável pela gestão dos bens públicos), o beït el-mal (encarregado dos registos públicos). Sobre a constituição e papel do Divan, ver P. Boyer, La vie quotidienne a Alger…, 96–9; Venture de Paradis, Tunis et Alger au XVIIIe siècle. Mémoires et observations rassemblés et présentés par Joseph Cuoq, Paris, Éditions Sindbad, 1983, pp. 195–220.
Abraão Cardozo “ami de Nelson, fournisseur de la Royal Navy, qui fut au début de XIXe siècle le principal notable de la communauté de Gibraltar et, pour ses services, reçut, de Louis XVIII en 1824, la légion d’honneur” in Lionel Levy, La Nation Juive Portugaise. Livourne, Amsterdam, Tunis, 1591-1951, Paris, L’Harmattan, 1999, p. 207. Sobre Abraão Cardozo ver também Tito Benady, “The Jews of Gibraltar before the Treaty of Utrecht and the Development of the Jewish Community Since.” Cuadernos de Gibraltar – Gibraltar Reports 2 (2016-2017), pp. 43–66; Tito Benady, “The Jewish Community of Gibraltar.” In The Western Sephardim, edited by Richard Barnett and Walter Schwab. Gibraltar Books, 1989, pp. 144–179.
Sobre o resgate de cativos portugueses no ocidente do Mediterrâneo ver Edite Maria da Conceição Alberto, Um Negócio Piedoso: o Resgate de Cativos Portugal na Época Moderna. Tese de Doutoramento em História, Universidade do Minho / Instituto de Ciências Sociais, Setembro 2010; António Jorge Afonso, Os Cativos Portugueses nos Banhos Magrebinos (1769-1830). O Islão, o Corso e a Geoestratégia no Ocidente do Mediterrâneo. Tese de Doutoramento em História dos Descobrimentos e da Expansão, Faculdade de Letras de Lisboa, 2017.
Muitas vezes as autoridades de Lisboa propuseram liquidar empréstimos concedidos pela família Benoliel de Gibraltar com géneros coloniais.
“Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
“Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
“Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
“Demonstração das vantagens…”, Outubro de 1780, in AHU, NA, Cx. 393.
“Relação dos cativos…”, Argel, 27/II/1786, in AHU, NA, Cx. 389.
“Instruçoens que levou…”, Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, 17/I/1786, in AHU, NA, Cx. 396.
“Instruçoens que levou…”, Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 17/I/1786, in AHU, NA, Cx. 396.
“Informação de Diogo Ignacio de Pina Manique…”, Lisboa, 25/IX/1772, in AHU, NA, Cx. 404.
Em Julho de 1797 o Inspector do Terreiro do Trigo em Lisboa informava D. Rodrigo de Sousa Coutinho que se encontravam no Tejo doze embarcações prontas a rumar aos portos da costa atlântica de Marrocos – Safim e Mazagão – para ali carregarem trigo com destino a Lisboa.
“Relação dos Navios e Hyates…”, Lisboa 28/VI/1797, in AHU, NA, Cx. 397.
“Relação das Embarcaçoens…”, in AHU, NA, Cx. 391.
“Informação do Capitão de Mar e Guerra...”, …”, Gibraltar, 12/V/1796, in AHU, NA, Cx. 429.
Khaznadji, Tesoureiro Chefe que desempenhava o cargo equivalente ao de Ministro das Finanças.
Simão Abucaya, Agente em Paris da sociedade comercial fundada em Argel pelos Bacri e Naftali Busnach fornecedora de consideráveis quantidades de trigo aos municípios, Marinha e Exército franceses e também encarregado na capital francesa dos interesses do dey de Argel.
Eugène Plantet, Correspondance des Deys D’Alger avec la Cour de France. 1579-1833, Paris, Félix Alcan, Éditeur, Tome Seconde (1700-1833), 1889, pp. 476–478.
E. Plantet, Correspondance…, pp. 480–482.
E. Plantet, Correspondance…, pp. 488–489. O currículo de Dubois-Thainville é bem elucidativo da importância que Bonaparte conferia às relações com as Regências magrebinas. O novo representante diplomático francês tinha sido Encarregado de Negócios na Holanda e agente da República em missões em Constantinopla, Esmirna, Cairo e Síria. Para além de ter desempenhado em França importantes cargos públicos.
Sobre este assunto ver Michel Abitbol, Le passé d’une discorde : Juifs et Arabes du VIIe siècle à nos jours, Paris, Perrin, 2003; e Michel Abitbol, Histoire du Maroc, Paris, Perrin, 2009, pp. 278–279.
Bey – Chefe militar, governador de um beylik. Termo que também inicialmente designava os chefes das tribos turcomanas. Beylik: Designação de uma província administrativa. Durante o domínio turco, a Argélia estava dividida em três beyliks: Orão, Constantina e Titteri.
M. Abitbol, Le passé…, p. 120.
Lucette Valensi, Juifs et Musulmans en Algérie.: VIIe-XXe siècle, Paris, Éditions Tallandier, 2016, p. 68.
“Diario da primeira viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fls. 87v–88.
“Diario da primeira viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fl. 89.
“Diario da minha 2ª viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fls. 90–90v.
“Diario da minha 2ª viagem…”, in Collecção de Diarios co-ordenados por Fr. João de Souza…, BNP, fl. 92.
“Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 3/X/1803, in AHU, NA, Cx. 400.
“Condições para a paz…”, Outubro de 1804, in AHU, NA, Cx. 415.
“Carta de Naftali Busnach…”, Argel, 1/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 415. Encontravam-se em Lisboa na Cadeia da Galé súbditos argelinos naturais do distrito de Orão que aguardavam ser trocados quando dum possível resgate a acordar com o reino português.
“Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 7/XI/1804, in AHU, NA, Cx. 411.
L. Valensi, Juifs et Musulmans…, p. 69.
“Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 24/V/1805, in AHU, NA, Cx. 404.
Kulugli – Do turco kul ôglu (filho de escravo). Termo que designa os nascidos da união de janízaros, provenientes na sua maioria da Anatólia, com mulheres autóctones. Encontram-se também em algumas listas de cativos resgatados de Argel muçulmanos retidos no Reino, trocados por portugueses, aí mencionados sob a designação de “colorios”.
“Carta de Paulo Freire de Andrade…”, Argel, 26/X/1805, in AHU, NA, Cx. 425. Sobre a cidade de Argel neste período ver Tal Shuval, La ville d’Alger vers la fin du XVIIIe siècle. Population et cadre urbain, Paris, CNRS Éditions, 2002; e P. Boyer, La Vie Quotidienne…
“Carta de João Affonso Neto…”, Argel, 11/IX/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de João Affonso Neto…”, Argel, 11/IX/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Richard Cartwright…”, Gibraltar, 6/III/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta de Joseph Cohen Bacri…”, Algeri, 3/XII/1805, in AHU, NA, Cx. 391.
“Carta do visconde de Anadia…”, Lisboa, 12/IV/1806, in AHU, NA, Cx. 391.
Albert Devoux, Raïs Hamidou: Notice Biographique sur le plus célèbre Corsaire algérien du XIIIe siècle de l’hégire, Alger, Typographie Adolphe Jourdan, 1859, p. 100. O executor de Ahmed Paxá tornou-se uma personagem importante, ofuscando a do próprio dey no poder. Acabou estrangulado no decorrer duma expedição militar por ordem de Hadj Ali.
Muqaddam – Termo que no Magrebe designa um líder civil ou religioso.
L. Valensi, Juifs et Musulmans…, pp. 69–70.
Kamal, Chehrit, Les Janissaires: Origines et Histoire des Milices Turques des Provinces Ottomanes et Tout Spécialement celle d’Alger, Alger, Éditions Grand-Alger Livres, 2005, p. 144.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Carta dos Governadores do Reino…”, Lisboa, 11/I/1812, in AHU, NA, Cx. 420.
Sobre esta matéria ver A. Jorge Afonso, “ O Arresto do Brigue Português Intrépido. Um negócio inter-religioso no mundo sefardita”, in As Diásporas dos Judeus e Cristãos-Novos de Origem Ibérica Entre o Mar Mediterrâneo e o Oceano Atlântico. Estudos, org. José Alberto R. Silva Tavim et al., Lisboa, Centro de História da Universidade de Lisboa, 2020, pp. 207–224.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 420.
“Relação da viagem…”, in AHU, NA, Cx. 427.
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