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O trabalho e suas histórias
Textos históricos

O legado de Laerte Sznelwar: a ergotoxicologia a serviço da transformação do trabalho

El legado de Laerte Sznelwar: la ergotoxicología al servicio de la transformación del trabajo
L’héritage de Laerte Sznelwar : une ergotoxicologie au service de la transformation du travail
The legacy of Laerte Sznelwar: ergotoxicology in service of transforming the world of work
Fabienne Goutille e Alain Garrigou
Tradução(ões):
O legado de Laerte Sznelwar : a ergotoxicologia a serviço da transformação do trabalho [es]

Resumos

Esta dupla contribuição tem como objetivo recordar à comunidade de profissionais da saúde no trabalho a importante contribuição científica e humana de Laerte Sznelwar, investigador brasileiro na área da ergonomia e da psicodinâmica do trabalho, falecido em outubro de 2025. Laerte Sznelwar era um investigador com múltiplas facetas. Neste texto, optámos por destacar especialmente a sua contribuição, que permanece amplamente desconhecida, para o desenvolvimento da ergotoxicologia .

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Notas da redacção

Traduzido por Flora Vezzá (floravezza@gmail.com)

Texto integral

1Este texto é composto por duas partes complementares. Na primeira, Alain Garrigou (professor de ergonomia na Universidade de Bordéus) relata seu encontro com Laerte Sznelwar e descreve sua contribuição para a ergonomia, mais especificamente para a ergotoxicologia. Na segunda parte, Fabienne Goutille (professora auxiliar na Universidad Clermont Auvergne) apresenta como o trabalho de Laerte influenciou fortemente sua pesquisa de doutorado e sua pesquisa atual.

1. O testemunho de Alain Garrigou

1.1. A contribuição de Laerte Sznelwar à ergonomia

  • 1 Abergo – Associação Brasileira de Ergonomia e Fatores Humanos
  • 2 SELF – Société d’Ergonomie de Langue Française [Sociedade de Ergonomia de língua Francesa]
  • 3 IEA – International Ergonomics Association [Associação Internacional de Ergonomia]

2Nos pontos seguintes, gostaria de relembrar o que, a meu ver, constitui a originalidade do trabalho de Laerte Sznelwar e sua contribuição para a ergonomia em geral. Suas contribuições são numerosas: há, naturalmente, o desenvolvimento da ergotoxicologia (com forte interação com Norbert Sée e Alain Wisner), mas também a consideração da subjetividade na atividade e em sua análise (Laerte acreditava que não se podia separar ou opor objetividade e subjetividade, pois para ele elas formam um todo), o desenvolvimento na França e no Brasil da psicodinâmica do trabalho com Christophe Dejours como parceiro, a criação de um curso de ensino de ergonomia na prestigiada Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (com Fausto Mascia e Uiara Montedo), o desenvolvimento da ergonomia no Brasil dentro da Abergo [1], mas também na Self [2], e o papel que desempenhou na defesa da ergonomia da atividade no conselho da IEA [3]. Como Fausto Macia e Marçal Jackson nos lembram em entrevista concedida para este texto, Laerte concentrou suas pesquisas nos serviços públicos brasileiros e desempenhou um papel significativo na compreensão das dificuldades enfrentadas por trabalhadores e gestores nos setores público de saúde e justiça. Ele também foi fundamental na tradução para o português e na disseminação no Brasil de diversos livros de ergonomia considerados obras seminais na França. Dentre todas essas contribuições, optei por destacar sua contribuição para o campo emergente da ergotoxicologia no final da década de 1980 e início da década de 1990.

3Quando penso em Laerte, duas lembranças me vêm à mente com força: a de uma pessoa que era ao mesmo tempo modesta, humilde, cativante, profundamente humana e atenciosa, curiosa sobre tudo, com quem se fazia amizade rapidamente; e, ao mesmo tempo, alguém capaz de iniciar grandes mudanças científicas, seja no desenvolvimento da ergotoxicologia ou da psicodinâmica do trabalho. Ele possuía o que os brasileiros chamam de "jeitinho", uma maneira de se conectar profundamente com as pessoas, que lhe permitia transcender as barreiras de status social e origem, fomentando uma troca dual de saberes e habilidades detidas por indivíduos (quaisquer que fossem) e conhecimento científico.

1.2. Um belo encontro

  • 4 CNAM - Conservatoire national des arts et métiers [Conservatório Nacional de Artes e Ofícios]

4Nos conhecemos em 1989 no laboratório de ergonomia do CNAM [4] então dirigido por Alain Wisner. Esse laboratório era um centro de intercâmbio, formação e estímulo intelectual incrível para ergonomistas, representantes sindicais, médicos do trabalho, inspetores do trabalho, especialistas em prevenção, pesquisadores e profissionais de origens muito diversas: Canadá, Brasil, Filipinas, Argélia, República Centro-Africana, Argentina, entre outros. Nesse ambiente intelectual aberto e internacional, Laerte ocupava uma posição singular: um médico brasileiro que viera se especializar em ergonomia, trazendo consigo uma maneira particular de considerar a interação entre saúde, trabalho, tecnologia e subjetividade. Laerte tinha um forte vínculo com Alain Wisner, Antoine Laville e Christophe Dejours, todos com formação inicial em medicina.

1.3. Uma defesa de tese que me marcou

5Lembro-me particularmente da defesa da tese de Laerte em janeiro de 1992; foi um momento crucial, pois eu estava finalizando a minha. Reuniu figuras de áreas raramente associadas na época: ergonomia, com Alain Wisner e Antoine Laville; psicodinâmica do trabalho, com Christophe Dejours; e toxicologia, com A. Picot e B. Goelzer (figuras renomadas na área). Essa formação já indicava a abrangência do trabalho defendido: não se tratava simplesmente de estudar o uso de pesticidas na agricultura, mas de construir um espaço para o diálogo entre diferentes campos do conhecimento. Para mim, essa tese foi uma das primeiras defesas verdadeiramente multidisciplinares a que assisti e um dos primeiros trabalhos a conectar de forma tão eficaz os riscos dos produtos, os sintomas, o trabalho em si e os níveis organizacionais de exposição.

6O que mais me impressionou em seu trabalho de tese foi um duplo deslocamento. O primeiro consistiu em transferir a responsabilidade pela exposição, então muitas vezes centrada nos próprios agricultores (que não respeitavam as instruções de utilização de pesticidas e as instruções relativas à segurança e ao uso de equipamentos de proteção), para determinantes organizacionais, técnicos e macrossociais. Isto significava que, se quiséssemos reduzir a exposição e desenvolver ações robustas de prevenção, teríamos que atuar nos determinantes organizacionais, nas estratégias de utilização dos produtos, nas formas de divisão do trabalho, nos níveis meso e macro de organização do trabalho e nas escolhas técnicas, económicas e produtivas. Esta contribuição conceitual foi posteriormente retomada pelas propostas de “atuar coletivamente no sistema técnico […] e institucional” (Goutille, 2022, p. 455 e 490) e de “identificar o design e a regulação como uma cadeia de determinantes das situações de exposição a pesticidas” (Albert, 2022, p. 334). O segundo deslocamento dizia respeito ao status dado aos trabalhadores. Onde a ergonomia da época falava de “operadores” (o que ainda hoje pode ser o caso) correndo o risco de reduzi-los a executores de um ciclo de operações, Laerte deu aos agricultores outra consistência, outra espessura, outra profundidade. Considerava-os pessoas com uma história e uma experiência incorporada, uma relação única com os produtos, com o risco, com a sua atividade e com a sua saúde. Eles não estavam apenas expostos passivamente, mas também construíam compromissos entre a produção, a sua saúde, o seu emprego e a sobrevivência económica. Eles, portanto, desenvolveram um conhecimento original. Desenvolveram estratégias, por vezes com margens de manobra muito desiguais, dependendo da sua posição na organização produtiva. Para Laerte, os trabalhadores tornaram-se protagonistas de sua atividade. Também aqui foi um contributo decisivo para o desenvolvimento da ergotoxicologia, que assumimos com Brahim Mohammed-Brahim (Mohammed-Brahim & Garrigou, 2009), Ummuhan Kahraman (Kahraman et al., 2015), Carolina Ullilen (Ullilen-Marcilla & Garrigou, 2016), Nathalie Judon (2017), Louis Galey (2019), Fabienne Goutille (2022), Caroline Jolly (2022), Marion Albert (2022), Valentin Lamarque (2024), Jessie Aldana (Aldana Jague et al., 2025), Elhadj Salikou Mariko (Mariko et al., 2026) ao considerar o trabalhador e a trabalhadora como especialistas em suas próprias exposições. Esta posição é muitas vezes oposta ao discurso dos atores na prevenção.

7Outro aspecto original quase antropológico diz respeito à análise comparativa realizada em diferentes locais situados nas regiões metropolitanas de Paris (3 locais em Brie) e São Paulo (4 locais próximos a Atibaia), sob uma perspectiva antropotecnológica. Essa abordagem de espelhamento nunca havia sido realizada dessa forma na história da ergonomia, que se constituia tanto em termos de disciplina quanto de tecnologia. Laerte destacava que "como esta pesquisa se destina a uma discussão sobre a realidade das condições de trabalho, não podemos nos permitir generalizações como: o clima no Brasil não favorece o uso de equipamentos de proteção individual; as condições de higiene são piores no Brasil; os trabalhadores no Brasil são menos instruídos e, portanto, têm menos acesso a informações precisas sobre riscos; as relações trabalhistas na França permitem maior autonomia aos trabalhadores, facilitando a recusa em trabalhar em situações de risco, etc." (Sznelwar, 1992, p. 101). A sutileza das análises realizadas por Laerte mostrou que o determinante cultural não era operante e que muitas características semelhantes que explicavam as exposições estavam presentes tanto no Brasil quanto na França.

1.4. Uma contribuição decisiva para a ergotoxicologia

  • 5 “Os riscos do trabalho”

8A tese de Laerte constituiu, portanto, um marco importante e decisivo para o campo nascente da ergotoxicologia. Vale lembrar que o termo "ergotoxicologia" foi cunhado por Robert Villatte em "Les risques du travail" [5] (1985). É importante também lembrar que o trabalho de doutorado teve início em 1985 e foi defendido em 1992 (Sznelwar, 1992). Ele ofereceu não apenas uma análise qualitativa da exposição a biocidas: ele abriu uma nova perspectiva sobre as toxinas sob a ótica do trabalho, rejeitando tanto a redução toxicológica ao produto em si quanto a redução comportamental à negligência do trabalhador. A tese já levantava três questões que permanecem centrais: Como a organização do trabalho e as estratégias de uso do produto determinam a exposição? Como os indivíduos expostos percebem os riscos envolvidos? Como a análise da atividade nos permite compreender as formas de exposição em cada etapa do trabalho, bem como as possibilidades reais de transformação?

9Em retrospectiva, percebo que na época fiquei cativado pelo desenvolvimento com François Daniellou, François Guérin e Joël Maline dos conceitos e métodos da ergonomia de concepção design ergonômico (Guérin et al., 2006). Estávamos numa estratégia para legitimar a ação dos ergonomistas entre os engenheiros e para isso o trabalho sobre a provável atividade futura e as simulações foram um verdadeiro avanço (Garrigou, 1992). A ergotoxicologia proposta por Laerte poderia ter sido relevante em meu trabalho de tese que focou na concepção das gráficas do jornal Figaro, já que as exposições a vapores de tinta e solventes de limpeza são significativas e haviam sido identificadas pelos trabalhos de Catherine Teiger, Antoine Laville e Monique Lortie. Devo admitir que na época não consegui perceber o seu alcance! Em todo o caso, é a partir desta memória sensível partilhada com Laerte, é a partir desta reivindicada linhagem científica que colectivamente toda a nossa equipa (Epicene, BPH, Universidade de Bordéus) continua a transmitir e a dar vida à ergotoxicologia como área de especialização em ergonomia. Não posso terminar este testemunho sem fazer um aceno à Márcia, à sua esposa e aos seus dois filhos Marina e André, que o acompanharam e apoiaram em todas as suas aventuras humanas e científicas e em muitas outras aventuras.

2. Testemunho de Fabienne Goutille

2.1. Uma linhagem científica: pensar sobre pesticidas com base no trabalho real

10Escrever com base na obra de Laerte Idal Sznelwar é, para mim, uma forma de me reconectar com uma linhagem científica, no sentido de uma maneira de enquadrar as questões de saúde ocupacional. Sua pesquisa orientou meu trabalho em ergonomia, moldando a forma como formulo perguntas relacionadas à exposição a substâncias químicas. Permitiu-me compreender que situações que envolvem risco químico não se resumem à presença de uma substância tóxica e que o conhecimento em toxicologia só se torna significativo quando vinculado à análise do trabalho. Pensar sobre a exposição, portanto, exige relacioná-la à complexidade das situações: as histórias, os corpos, os ambientes e os compromissos que as pessoas estabelecem para continuar exercendo suas funções.

11A tese de Sznelwar (1992), dedicada à análise ergonômica da exposição de trabalhadores agrícolas a pesticidas, é um texto pioneiro nesse sentido. Ela já incorpora um dos princípios fundadores da ergotoxicologia: articular o conhecimento de substâncias tóxicas e a análise da atividade, sem subordinar um ao outro. O objetivo é compreender como os biocidas, substâncias que matam seres vivos, interagem com os corpos, as percepções de risco, as trajetórias profissionais e as organizações do trabalho, e como circulam de acordo com gestos, ferramentas, culturas e condições climáticas.

2.2. Uma crítica aos limiares abstratos de perigo e exposição

12No campo da saúde e da prevenção de riscos, a toxicologia caracteriza o perigo, descreve os mecanismos de ação, estabelece limites e informa as normas e sistemas de proteção. Este conhecimento é essencial, nomeadamente para objetivar riscos vagos, difusos e indiretos na experiência imediata de trabalho (Mias et al., 2013). Mas Laerte mostra que elas não podem ser mobilizadas como um corpus estabilizado de certezas. As classificações baseadas em doses letais, limites de exposição ou os chamados valores aceitáveis ​​estão repletas de controvérsias científicas e políticas. Baseiam-se em escolhas de modelos, extrapolações e objectivos de protecção mais ou menos explícitos, podendo produzir uma ilusão de garantia, nomeadamente face a efeitos crônicos, retardados ou ligados a exposições múltiplas (Mohammed-Brahim & Garrigou, 2009).

13Na década de 1990, o trabalho multidisciplinar de Laerte já demonstrava que as pessoas em ambientes agrícolas não estavam expostas a moléculas isoladas e claramente identificáveis ​​ou a produtos puros, mas sim a formulações complexas compostas por substâncias ativas, solventes, coformulantes, impurezas, produtos de degradação e misturas que podem interagir entre si.

14Essa ênfase na formulação do produto está sendo ampliada por diversos estudos toxicológicos que discutem as limitações das avaliações regulatórias centradas exclusivamente na substância ativa (Huc & Jouzel, 2021). A pesquisa de Defarge, Mesnage, Séralini e seus colegas sobre herbicidas à base de glifosato contribuiu, portanto, para uma discussão renovada sobre o papel dos coadjuvantes, misturas e contaminantes na toxicidade de produtos efetivamente comercializados e utilizados em ambientes agrícolas (Defarge et al., 2016; 2018). A questão, portanto, não se limita à substância em si, mas também à forma como o produto formulado se integra aos sistemas técnicos, às condições de uso e aos processos de produção. O tipo de formulação pode, então, modificar a disponibilidade do agente tóxico, sua penetração, sua persistência, seu comportamento no meio ambiente e seus potenciais efeitos no organismo.

15A análise dos produtos, desde sua composição, comercialização, aplicação, transformação e incorporação no trabalho, demonstra que substâncias tóxicas circulam e se recombinam em situações concretas de trabalho e de vida.

2.3 Formas de exposição diferentes

16Dessa intersecção entre toxicologia e ciências humanas e sociais, torna-se possível distinguir diversas modalidades de exposição (Barthélémy et al., 2021). Estar exposto a ocorre quando os indivíduos se encontram em ambientes, equipamentos, organizações ou procedimentos que os colocam em contato com substâncias tóxicas, por vezes com capacidade limitada de influenciar os determinantes da sua exposição. Expor-se, não no sentido de assumir riscos individuais ou de negligência, mas sim porque a atividade, por vezes, exige aproximação, manuseio, intervenção, reparação, limpeza, tomada de decisões urgentes ou arbitragem entre muitas exigências conflitantes. Por fim, expor, quando a utilização de substâncias tóxicas envolve também outras pessoas: familiares, colegas, residentes locais, consumidores, o solo, o ar, a água ou organismos vivos.

17Essas três modalidades não oferecem a mesma margem de manobra, dependendo da posição de cada um dentro do sistema de produção (Albert et al., 2024). As compensações entre saúde, trabalho e produção variam entre os atores: para alguns trabalhadores, o espaço para negociação pode se limitar à manutenção do emprego e a comportamentos operacionais voltados para a redução da exposição; para os produtores diretamente envolvidos no trabalho, a saúde está ligada à sobrevivência econômica da propriedade rural; para outros, mais distantes da exposição direta, as decisões podem ser mais influenciadas pela produtividade, pelo cumprimento das normas ou pela gestão da empresa (Jolly, 2022). Essas diferenças alteram o foco da prevenção: exigem o monitoramento de substâncias tóxicas em ambientes de trabalho, mas também a compreensão das relações de poder, das responsabilidades distribuídas e dos compromissos que os indivíduos assumem para lidar com aquilo que os expõe a, enquanto lidam simultaneamente com aquilo que, às vezes, os leva, involuntariamente, a expor (Goutille, Degbelo et al., 2025).

18A ergotoxicologia torna-se então plenamente operante ao abordar as exposições a partir dos constrangimentos concretos do trabalho, articulados com conhecimentos empíricos, as arbitragens profissionais e as possibilidades de ação impedidas na atividade (Mariko et al., 2026).

2.4. A medição das exposições como suporte ao diálogo

  • 6 “Não ignorar mais os agricultores”

19É nessa linha que se situa minha tese de doutorado, orientada por Alain Garrigou e Marc-Éric Gruénais (Goutille, 2022). Em “Ne plus ignorer les agriculteurs” [6], buscamos, com os coletivos envolvidos nessa pesquisa-ação, desenvolver uma abordagem ergotoxicológica capaz de apoiar os viticultores e suas comunidades na identificação e transformação, para e por eles mesmos, de situações de risco relacionadas aos pesticidas. Os materiais de pesquisa foram construídos a partir de observações, dados metrológicos, autoconfrontações com traços da atividade e também de ações coletivas sobre as condições de produção e a transformação dessas situações (Galey, 2019). Essa abordagem faz parte de uma perspectiva de prevenção desenvolvida com as pessoas envolvidas, com base nas situações que vivenciam e que buscam transformar, e por meio de objetos intermediários que favorecem o encontro entre mundos que produzem conhecimento, mas raramente dialogam (Judon, 2017).

20Dessa perspectiva, o relatório de defesa da tese redigida por Laerte constituiu um momento singular de reflexão. Laerte enfatizou que o principal problema abordado dizia respeito à tensão entre as necessidades de produção da indústria vinícola de Bordeaux e os riscos à saúde daqueles expostos a pesticidas: trabalhadores, proprietários de vinhedos, subcontratados, bem como moradores locais e consumidores. O risco dos pesticidas permeia as situações de trabalho, os territórios, as escolhas de produção, as estruturas organizacionais, os sistemas técnicos e as condições de vida das populações afetadas.

21No mesmo relatório, Laerte identificou o que acredito ser o núcleo transformador da abordagem ergotoxicológica: a possibilidade de construir diagnósticos aprofundados que abram caminho para soluções que reduzam as exposições. Essa formulação nos lembra que o diagnóstico ergonômico não é um fim em si mesmo. Documentar as exposições, analisar as situações de trabalho e compreender seus determinantes só fazem sentido se essas operações levarem a possibilidades de ação (Falzon, 2013). A mensuração, a observação, o registro em vídeo e a análise das prescrições tornam-se ferramentas de empoderamento para os envolvidos.

22Em ergotoxicologia, a metrologia serve como suporte para o monitoramento da circulação de substâncias tóxicas: depósitos sobre as superfícies, persistência após a aplicação, novo contato, possível absorção cutânea e exposição indireta relacionada à limpeza, manutenção ou armazenamento. No entanto, ela só é valiosa se permanecer vinculada à atividade real, ou seja, ao que importa para as pessoas em atividade (Lamarque et al., 2023). É por isso que a ergonomia suscita outras questões: que lugar essa exposição ocupa em suas preocupações? Em que momento ela passa a ser discutida, evitada, minimizada, esquecida, tolerada ou transformável? O que a mensuração revela e o que ela pode obscurecer se não for rediscutida em relação à experiência do trabalho?

23Entrar na questão apenas pela exposição a pesticidas é também correr o risco de reduzir a situação àquilo que interessa aos pesquisadores da área da saúde, toxicologistas ou especialistas em prevenção, sem realmente compreender o que essa exposição significa para quem trabalha no campo. Diante de riscos químicos pouco perceptíveis, outros problemas se tornam prioritários: salvar uma colheita, intervir antes da chuva, evitar avarias, cumprir prazos, preservar a qualidade das plantas, gerenciar a fadiga, enfrentar as exigências econômicas, responder às expectativas do setor, proteger os entes queridos e manter a fazenda. A exposição a pesticidas, portanto, existe dentro de uma hierarquia de preocupações em constante mudança, na qual o risco químico está presente, mas entrelaçado com outras questões urgentes, outros vínculos e outros dilemas.

24Assim, o conhecimento toxicológico ajuda a construir objetos de diálogo em torno de fenômenos muitas vezes invisíveis, desde que esses objetos possam ser discutidos com e pelas pessoas envolvidas. Um traço de pesticida, uma medição de contaminação, uma sequência de vídeo da atividade ou um mapa dos deslocamentos tornam-se úteis quando permitem aos profissionais conectar de uma maneira diferente o que fazem, o que sabem, o que temem e aquilo que poderiam transformar com os outros.

2.5. As prescrições e proteções como uma reconfiguração do trabalho

25Essa crítica ganha força particular na análise de Laerte sobre as prescrições de higiene e proteção. Elas são frequentemente apresentadas como a principal resposta à exposição: usar equipamentos de proteção, lavar-se, trocar de roupa, ler instruções, fazer a manutenção dos equipamentos, evitar certas ações, respeitar prazos e abster-se de trabalhar em determinadas condições. Mas estas prescrições não são simplesmente acrescentadas ao trabalho; elas o reconfiguram. Requerem tempo, água, infraestrutura, áreas de descontaminação, equipamentos adaptados, sua manutenção, substituição, competências de manutenção e recursos econômicos e organizacionais. Constituem, portanto, tarefas adicionais que podem entrar em conflito com as demandas de produção, as condições climáticas, a urgência das intervenções ou a fadiga (Laurent et al., 2016).

26Além disso, alguns equipamentos de proteção individual criam novas limitações: atrapalham, provocam calor, dificuldade de termorregulação, desconforto, reduzem a destreza e podem até mesmo aumentar a absorção cutânea quando o produto penetra sob roupas oclusivas (Garrigou, 2011). O desafio, portanto, não é negar a importância dos equipamentos de proteção individual, mas compreender suas reais condições de uso e os compromissos que impõem às pessoas em atividade (Goutille, Garrigou & Maréchaux, 2025).

2.6 Da produção de ignorância ao reconhecimento da experiência

27Laerte me incentivou a buscar o desenvolvimento do dispositivo de comunidades científicas ampliadas (Oddone et al., 1981), dando importância central à escuta das pessoas diretamente expostas por seu trabalho. Ele ligava essa escuta à expansão da capacidade de ação e à possibilidade de gerar novas soluções. Isso me levou a ampliar seu trabalho, atentando para espaços de diálogo nos quais as pessoas envolvidas possam expressar suas preocupações, confrontar suas representações com os vestígios situados da exposição, discutir as vantagens e desvantagens, observar os sacrifícios que estão fazendo e desenvolver, junto com outras pessoas, possíveis soluções.

28Essa questão da escuta não é meramente metodológica. Ela também é política e epistemológica na obra de Laerte. De fato, em situações que envolvem exposição a pesticidas, os trabalhadores muitas vezes se encontram em uma posição paradoxal: estão em contato direto com os produtos, mas sua experiência permanece amplamente ignorada na produção de conhecimento sobre os riscos; eles devem aplicar as prescrições, mesmo que estas nem sempre sejam adaptadas à realidade de seu trabalho (Goutille, Baudin & Garrigou, 2025); são designados como usuários finais, embora os principais determinantes da exposição também sejam moldados por escolhas industriais, agronômicas, técnicas, regulatórias e econômicas (Jouzel & Dedieu, 2013). Essa crítica se alinha às análises contemporâneas da produção social da ignorância em torno dos pesticidas, que destacam as dificuldades enfrentadas pelas vítimas da agricultura contaminada em estabelecer vínculos entre exposição, doença e responsabilidade (Jouzel & Prete, 2024).

29Laerte criticou consistentemente as interpretações que atribuem acidentes, intoxicações ou exposições à ignorância, imprudência ou negligência dos trabalhadores. Essas explicações baseiam-se em um desconhecimento da realidade do trabalho; elas transferem para os indivíduos expostos a responsabilidade por problemas não resolvidos no projeto técnico, na organização, na gestão e nas políticas de prevenção (Morvan et al., 2023). Em contrapartida, a análise multidisciplinar, e até transdisciplinar, proposta por Laerte nos obriga a levar a sério o conhecimento das pessoas, o que elas tentam preservar e as condições coletivas necessárias para que sua experiência se torne um recurso para a prevenção. Ampliando essa crítica à ignorância atribuída aos trabalhadores, Laerte também levanta outra questão: a da subjetividade dos indivíduos expostos.

2.7 Subjetividade e poder de agir das pessoas em atividade

30Em sua tese, Laerte também situava a relação do trabalhador com o risco na interseção entre ergonomia e psicopatologia do trabalho. As representações do risco implicam tanto o conhecimento, a competência, a regulação da atividade, como também o sofrimento mental e os mecanismos de defesa psíquicos. Essa perspectiva permanece frutífera para a compreensão da exposição aos pesticidas. Os trabalhadores não são nem ignorantes, nem desinformados, nem simplesmente resistentes à prevenção. Eles podem conhecer o risco e ao mesmo tempo serem constrangidos a resistir a ele para continuar trabalhando; podem desenvolver comportamentos de prudência mas ter de abandoná-los quando a urgência, a fadiga, os equipamentos, o clima ou a pressão da produção impossibilitam sua manutenção; podem querer se proteger, mas estarem presos em dilemas nos quais a proteção das plantas, a preservação da renda, o atendimento às expectativas da indústria e a proteção de sua própria saúde não estão alinhadas.

31Por isso, "deixar de ignorar os agricultores" não significa simplesmente dar voz a eles. Significa reconhecer que seu trabalho é um espaço de conhecimento e transformação. É nessa tradição que, em meu próprio trabalho, a expressão “pessoas em atividade” impôs-se. Ela marca uma importante mudança teórica e metodológica: a exposição não está mais relacionada apenas a uma tarefa, uma sequência prescrita ou uma série de ações observáveis; ela é entendida como aquilo que acontece a pessoas envolvidas em uma situação, com sua história, sua saúde, seus saberes, suas inquietudes, suas escolhas, seu vínculo com a profissão e suas possibilidades, mais ou menos impedidas, de transformar aquilo que vivem.

32Na tese de Laerte, a saúde não é concebida como um estado estável, mas como uma dinâmica: um potencial para agir, para reagir sobre si mesmo e o ambiente, que a exposição a biocidas pode vir a diminuir. Essa concepção permite uma ligação direta entre toxicidade, atividade e poder de agir. Ela rompe com a ideia de um operador médio, padrão e abstrato que a prevenção poderia simplesmente equipar ou instruir. Ao contrário, ela nos obriga a considerar os indivíduos expostos como sujeitos capazes de compreender, discutir, questionar e transformar situações, desde que as condições coletivas lhes permitam dialogar sobre suas preocupações. O artigo de Sznelwar e Hubault (2015) sobre subjetividade em ergonomia amplia essa mudança ao colocar explicitamente a questão do sujeito. Não se trata simplesmente de reconhecer que uma pessoa realiza uma atividade, mas de compreender como ela é e pode se tornar protagonista do seu próprio trabalho. Na minha tese, essa perspectiva permitiu-me conceber a intervenção como uma co-investigação conduzida em conjunto com os profissionais: não fazer as coisas por eles, não os deixar sozinhos, mas construir com eles as condições para uma possível recuperação das situações de risco. As preocupações de indivíduos e grupos tornam-se, então, pontos de referência para orientar a investigação, escolher as evidências a serem coletadas, discutir as medidas, priorizar os problemas e criar margens de manobra. Falar de pessoas em atividade permite, assim, considerar a exposição biológica, a experiência vivida, a conflitualidade do trabalho e a capacidade coletiva de transformar situações.

2.8 Transferência de tecnologias, ambientes de uso e níveis de transformação

33Em sua tese, Laerte recusou-se a abordar a exposição a substâncias químicas a partir de uma única área de conhecimento. Ele assumiu explicitamente o recurso à ergonomia, enriquecida pela antropotecnologia e pela psicopatologia do trabalho, para analisar a relação entre atividade e exposição a biocidas. Essa abordagem é essencial para integrar dimensões que as divisões institucionais tendem frequentemente a separar: a toxicidade das substâncias, as técnicas de aplicação, as formas de produção agrícola, as condições de apropriação das tecnologias, as representações do risco, os mecanismos de defesa, as estratégias de prudência, as relações sociais e as políticas públicas.

34Para Laerte, os pesticidas não são objetos técnicos universais que circulariam de forma neutra de um país para outro, de um setor para outro ou de uma fazenda para outra. Ao recorrer à antropotecnologia, ele examina as condições de transferência, apropriação e uso das tecnologias em contextos sociais, linguísticos, econômicos, culturais e ecológicos diferentes. Os pesticidas, os pulverizadores, os equipamentos de proteção e as prescrições nunca encontram usuários abstratos, mas sim pessoas situadas, coletivos, línguas, saberes, constrangimentos econômicos, formas de emprego, relações com a terra e mundos agrícolas. Um equipamento de proteção pode ser teoricamente adaptado para uma substância, mas tornar-se difícil de usar em um clima quente, em uma tarefa que exige precisão, em uma organização de trabalho com constrangimentos de tempo ou em um sistema técnico que exige manipulações imprevistas. Um procedimento pode ser válido do ponto de vista regulatório, mas pouco sustentável em uma fazenda pequena, em um sistema de subcontratação, em um período de alta pressão metereológica ou em um contexto no qual os recursos materiais são limitados.

35A perspectiva antropotecnológica proposta por Laerte ajuda-nos, assim, a compreender as limitações das prescrições importadas ou padronizadas. Ela permite analisar as discrepâncias entre a tecnologia concebida, a tecnologia prescrita e a tecnologia efetivamente adotada na prática. Ela abre assim uma reflexão sobre os ambientes de utilização e as condições concretas de apropriação da tecnologia.

Conclusão: Uma ergotoxicologia mais necessária do que nunca

36O que impressiona ao reler a obra de Laerte Idal Sznelwar hoje não é tanto o seu caráter datado, mas sim a sua notável potência de antecipação. As questões que ele levantou no início da década de 1990 — a redução do risco a uma única molécula, o esquecimento das formulações, a fragilidade dos modelos de exposição, a confiança excessiva nas prescrições, a culpabilização dos trabalhadores por negligência, a falta de reconhecimento de sua experiência e a dificuldade de agir sobre os determinantes técnicos, econômicos e políticos da exposição — são agora centrais nas pesquisas em toxicologia, epidemiologia, sociologia, ergonomia, saúde ambiental e na defesa das vítimas. A persistência de tais questões também sugere que essas batalhas ainda não estão ganhas. Algumas avançaram, outras mudaram o foco e outras ainda estão a sofrer retrocessos na medida em que a prevenção se recentra no uso controlado, nos comportamentos individuais ou nos equipamentos de proteção.

37Para Laerte, as transformações necessárias situam-se em vários níveis: micro, meso e macro. Essa observação permanece essencial para a compreensão das atuais extensões da ergotoxicologia. Algumas transformações podem ser implementadas no nível da propriedade rural: modificar procedimentos de preparo, redesenhar áreas de armazenamento, adaptar sequências de limpeza, discutir o uso de equipamentos, transformar a circulação ou tornar a contaminação visível. Mas outras exigem apoio que vai muito além da propriedade rural: grupos de pesquisa em ergonomia, engenharia de equipamentos, agronomia, toxicologia, políticas públicas, financiamento, estratégias para reduzir o uso de pesticidas e a evolução dos setores e modelos agrícolas. Esse ponto é fundamental para evitar que a prevenção fique restrita à responsabilidade individual de assalariados e agricultores. Há margens de manobra locais, mas elas continuam dependendo de fatores que vão muito além do trabalho, da parcela de terra ou da empresa.

38A ergotoxicologia deve, portanto, apoiar transformações localizadas, mantendo em aberto a questão dos níveis de ação. Deve permitir-nos compreender como uma contaminação observada num gesto se relaciona com um equipamento, uma organização, uma prescrição, uma formulação, um mercado, uma política de produção ou um modelo de desenvolvimento agrícola. Só assim ela poderá contribuir para uma prevenção que não seja nem culpabilizante nem meramente adaptativa, mas verdadeiramente transformadora.

39Reler a obra de Laerte hoje, à luz de nossas trajetórias de pesquisa, revela um tema central que permeia a ergotoxicologia: compreender os tóxicos por meio do trabalho e transformar o trabalho a partir de uma compreensão situada dos tóxicos. Esse tema central requer que vários princípios fundamentais sejam mantidos em conjunto: levar o conhecimento toxicológico a sério, documentar as exposições no real da atividade, ouvir as pessoas envolvidas, construir comunidades alargadas de pesquisa e intervenção, investigar as transferências de tecnologia, analisar as prescrições a partir de suas condições de uso e pensar nas transformações em múltiplas escalas com os protagonistas em atividade.

40É nesse sentido que as obras de Laerte continuam a nos inspirar. A ergotoxicologia que estamos a desenvolver visa instrumentalizar as pessoas, apoiar o diálogo sobre o que lhes preocupa, abrir margens de manobra nas situações, mas também acompanhar a elaboração de regras, de ferramentas, dispositivos técnicos e organizações de trabalho mais adaptadas aos ambientes em que se concretizam. Contribui assim, de forma modesta mas concreta, para tornar os locais de trabalho mais habitáveis.

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Notas

1 Abergo – Associação Brasileira de Ergonomia e Fatores Humanos

2 SELF – Société d’Ergonomie de Langue Française [Sociedade de Ergonomia de língua Francesa]

3 IEA – International Ergonomics Association [Associação Internacional de Ergonomia]

4 CNAM - Conservatoire national des arts et métiers [Conservatório Nacional de Artes e Ofícios]

5 “Os riscos do trabalho”

6 “Não ignorar mais os agricultores”

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Fabienne Goutille e Alain Garrigou, «O legado de Laerte Sznelwar: a ergotoxicologia a serviço da transformação do trabalho»Laboreal [Online], Vol.22 Nº1 | 2026, posto online no dia 30 julho 2026, consultado o 05 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/laboreal/25940; DOI: https://doi.org/10.4000/16n12

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Autores

Fabienne Goutille

0000-0001-8038-4814, Laboratoire ACTé EA 4281, Université Clermont Auvergne, INSPÉ Clermont-Auvergne, 36 avenue Jean-Jaurès CS 20001, 63407 Chamalières Cedex. Fabienne.goutille@uca.fr

Artigos do mesmo autor

Alain Garrigou

0000-0002-7467-0643, EPICENE, BPH, Université de Bordeaux. 146 rue Léo Saignat 33076 Bordeaux cedex. Alain.garrigou@u-bordeaux.fr

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