Editorial. Novos dados, novas leituras
Texto integral
1A escravatura e o tráfico de escravos permanecem na linha da frente da pesquisa histórica há várias décadas, surgindo a cada ano novas abordagens, novas interpretações e novos dados. Neste campo de estudos vibrante, a Ler História apresenta agora dois trabalhos que se salientam pelos dados inéditos que oferecem. Num dos casos, reconstitui-se o fluxo de escravos do Brasil para a metrópole portuguesa nos dez anos anteriores à proibição do tráfico (1761). No outro, de maior amplitude, é discutido o papel de Lisboa na “big picture” das redes atlânticas de escravização e comércio colonial. De algum modo conexo com este tema, o artigo de Stuart Schwartz, inserido na série Magna Opera, revisita a trajectória do seu livro referencial sobre a economia e a sociedade do açúcar no Brasil colonial, publicado há 40 anos, onde, entre outros tópicos, apresentou uma nova visão sobre a condição dos escravos, enfatizando a sua agência e dinâmicas de resistência. Na área da história social e económica – a mais saliente neste volume – cabe também um estudo sobre a Inquisição de Goa, onde, a partir de uma nova base de dados, se analisa o perfil sociológico, étnico e geográfico dos réus do tribunal asiático. Juntam-se ainda dois artigos sobre a Extremadura espanhola que revisitam problemas clássicos da história económica. No primeiro, reinterpreta-se o processo de privatização dos bens comuns e os seus efeitos sobre a transformação das sociedades rurais durante a construção do estado liberal. No segundo, desenvolve-se um exercício de história antropométrica, com base nos dados sobre a altura dos recrutas entre 1856 e 2000, para questionar a relação entre saúde, alimentação, desenvolvimento económico e nível de vida.
2Do lado das ideias e da cultura, esta edição apresenta dois ensaios sobre figuras maiores da cultura portuguesa e brasileira – Fernando Pessoa e Gilberto Freyre. Para o primeiro, reclama-se um estatuto de pensador europeu a partir da dissecação do seu conceito de “nacionalismo cosmopolita”; no caso de Freyre, identifica-se no iberismo uma das raízes intelectuais e ideológicas do seu lusotropicalismo. Dois outros artigos, centrados no cantor e compositor José Mário Branco e no Grupo de Acção Cultural, analisam o cruzamento de projectos e trajectórias artísticas com a militância política, especialmente no contexto revolucionário pós-25 de Abril de 1974. Este número completa-se, no que respeita aos artigos, com um ensaio bibliográfico sobre a produção historiográfica ibérica relativa à “dissidência sexual” – uma área de estudos em expansão mas ainda com muitas linhas por explorar.
3Aos artigos, junta-se uma secção de recensões ampliada, dando expressão à recente política editorial da Ler História de apostar neste segmento, por entender que as recensões, além do seu papel na divulgação informada e na apreciação crítica das novidades editoriais, constituem um instrumento de actualização historiográfica. Dão conta dos temas mais em foco na disciplina, sejam emergentes ou consolidados, bem como dos resultados recentes da investigação e dos debates em curso. Nesta edição oferecemos 14 recensões, numa selecção de títulos que combina abordagens nacionais, comparativas e transnacionais, e que cobre um vasto leque cronológico e geográfico. Destacam-se vários novos estudos sobre os impérios ibéricos, desde o Brasil às Filipinas, com foco em práticas de colonização, resistências, escravatura e pensamento negro. Destaca-se, também, o processo das revoluções atlânticas que deu lugar à formação de novas nações ibero-americanas e, mais tarde, à imigração maciça de colonos europeus. Questões clássicas como a violência colectiva, a resistência popular ou a construção do estado liberal têm vindo a ser revisitadas em livros recentes que são aqui discutidos. O mesmo se diga de temas como as desigualdades de género e trabalho ou as novas interpretações sobre a história do clima ou do anti-semitismo na longa duração. Trata-se de um conjunto de obras que, por si mesmas e pelas recensões de que aqui são objecto, não só actualizam debates historiográficos centrais como abrem pistas para investigações futuras, além de, em vários casos, estabelecerem pontes com os artigos publicados neste mesmo número.
4Temos, assim, uma edição em que a falta de um eixo temático central é compensada por uma pluralidade de temas com relevância historiográfica, em várias escalas, que vão do tráfico de escravos à história queer, da inquisição seiscentista à canção de intervenção, do liberalismo ao anti-semitismo, das resistências populares à história antropométrica, entre outros temas. Temos, também, uma edição que se destaca por vários artigos se apoiarem em novíssimas bases de dados. E temos, finalmente, uma edição que conta com um alargado número de 32 autores, três quartos dos quais com origem fora de Portugal – do Brasil, Espanha, Estados Unidos, Canadá, Argentina, Filipinas, Israel e Reino Unido – num sinal expressivo da internacionalização da revista. Talvez isso ajude a explicar, a par de outros factores, que, pelo segundo ano consecutivo e pela terceira vez em quatro anos, a Ler História tenha sido classificada no primeiro quartil do Índice SJR (Scimago Journal Rank) – um reconhecimento internacional de prestígio, qualidade e impacto, e também um estímulo para o trabalho futuro.
Para citar este artigo
Referência do documento impresso
José Vicente Serrão, «Editorial. Novos dados, novas leituras», Ler História, 86 | 2025, 5-6.
Referência eletrónica
José Vicente Serrão, «Editorial. Novos dados, novas leituras», Ler História [Online], 86 | 2025, posto online no dia 05 junho 2025, consultado o 15 outubro 2026. URL: http://journals.openedition.org/lerhistoria/14578; DOI: https://doi.org/10.4000/142nq
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