Editorial
Texto integral
1Este número, em formato de publicação contínua desde o início de 2025, assume um perfil de número aberto (“Varia”) e resulta da diversidade de propostas aprovadas no âmbito do processo de revisão por pares. Reúne contributos inéditos que dialogam com a pluralidade de olhares contemporâneos sobre museus, coleções, práticas museológicas e as suas implicações sociais, económicas, políticas e culturais.
2A publicação contínua, iniciada desde 2024 e consolidada no presente ano, tem permitido à MIDAS uma maior agilidade na disponibilização dos artigos logo após a sua aprovação, contribuindo para uma mais rápida disseminação do conhecimento científico e para um diálogo mais dinâmico com a comunidade académica e profissional. Esta opção editorial reafirma o compromisso da revista com a acessibilidade e com a circulação livre do conhecimento, princípios fundamentais que norteiam o projeto desde a sua fundação.
3Os contributos reunidos neste número oferecem uma seleção de trabalhos que se cruzam com temas centrais da museologia contemporânea, como a prática educativa em museus, a musealização, o papel do museu como ator de diplomacia cultural, a complexa relação entre antropologia local e museus, e as questões emergentes de ética e direitos humanos no mundo das coleções e dos museus.
4Neste número fica também patente a diversidade geográfica e institucional das autoras dos textos publicados, reafirmando a vocação internacional da MIDAS e o seu compromisso com o diálogo transnacional, privilegiando as relações de proximidade com os países de língua portuguesa e espanhola, sem deixar de acolher contributos de outras geografias linguísticas e culturais.
5À semelhança de edições anteriores, este número procura refletir a natureza interdisciplinar, aberta e dinâmica da museologia enquanto campo de investigação e de prática.
6De forma mais detalhada, a secção de artigos inclui quatro contributos relevantes. Francisca Hernández Hernández (Universidad Complutense) assina o primeiro artigo, «La museología de la ruptura en las exposiciones de Fernando Estévez González». Este estudo parte da reflexão em torno da museologia crítica, designadamente da ideia de “museologia da rutura” proposta por Jacques Hainard, e analisa como, nas exposições organizadas por Estévez González, se desafiam formas tradicionais de musealização – sobretudo no campo dos museus etnográficos ou antropológicos – para privilegiar o diálogo, as comunidades, o património imaterial e um modelo que não se centre exclusivamente no objeto, mas que problematize o poder museológico e as suas implicações identitárias e culturais. O contributo deste estudo reside em evidenciar, mediante uma hermenêutica museográfica, como as exposições atuam como dispositivos de crítica institucional e de reconfiguração museológica, ampliando o horizonte da museologia tradicional.
7Carmen Gómez-Redondo (Universidad de Valladolid) propõe, em «El uso de técnicas plásticas en la educación en los museos de Oporto: un estudio multicaso», uma investigação sobre a utilização de técnicas plásticas (artísticas) em contextos educativos de museus no Porto. A autora realiza um estudo que documenta como os museus portuenses estão a adotar estratégias que combinam intervenção prática, processos criativos e mediação museológica, integrando o público – nomeadamente jovens visitantes – como protagonistas no processo de aprendizagem. Este trabalho contribui para o debate da educação em museus ao mostrar evidências empíricas de como as técnicas artísticas podem potenciar a participação, a criatividade e a relação entre museu/público, abrindo caminho a práticas inovadoras de mediação.
8Ana Martín García (Museo Casa Don Bosco, Itália) assina o artigo «Musealización, memoria e identidad: Le Camerette di Don Bosco de Valdocco, Turín», centrado no processo de musealização de um espaço religioso-pedagógico, Le Camerette di Don Bosco de Valdocco, em Turim e no modo como memória, identidade e museografia se cruzam. A autora reflecte sobre a forma como aqueles espaços se tornaram museu e veículo de identidade religiosa, num contexto que articula o local, o internacional e o legado educativo dos salesianos. O trabalho aprofunda a questão de como as casas-museu, mesmo quando de natureza religiosa, participam de uma dinâmica museológica mais ampla, interrogando memória, identidade e musealização.
9Ornella De Nigris (Università degli Studi di Siena) apresenta o artigo «Chinese public art exhibitions between national identity and global image», em que examina como os museus estatais chineses e as exposições públicas de arte são mobilizados como instrumentos de diplomacia cultural e de construção de identidade nacional no âmbito global. A autora recorre a investigação de campo, análise documental e estudos de casos em instituições como o National Art Museum of China (Pequim) ou a Power Station of Art (Xangai), assim como a participação da China na Bienal de Veneza em duas das suas edições. O contributo reside em confrontar como as exposições funcionam hoje como plataformas de soft power e de construção de imagem nacional, implicando o museu num campo de tensões entre identidade nacional e estratégia política internacional.
10Na secção de ensaios deste número acresce o contributo de Ana Saraiva (CRIA, Universidade Nova de Lisboa), que assina o texto «Antropólogos e museus locais: entre o estudo distanciado e a relação de proximidade». O ensaio discute a dupla condição do antropólogo que trabalha em museus de âmbito local – por um lado como investigador (externo), e por outro como agente (interno) de mediação entre a instituição museológica e as comunidades representadas. A autora revisita literatura, bem como a sua própria experiência profissional em projetos de museologia e de antropologia pública para refletir sobre os dilemas éticos, deontológicos e práticos envolvidos nessa interface. O ensaio interroga: pode o antropólogo desempenhar um papel de mediação cidadã sem comprometer os pressupostos da disciplina? Que expectativas o museu pode depositar nesse profissional? Assim, o ensaio contribui para o debate sobre ética e participação nos museus de âmbito local.
11Na secção de entrevistas apresentamos uma conversa com Ana Luísa Santos (Universidade de Coimbra), conduzida por Elisa Noronha (CITCEM, Universidade do Porto) e Patrícia Roque Martins (IHA, Universidade Nova de Lisboa) – «Restos humanos em coleções museológicas: controvérsias e dilemas éticos». Trata-se de uma interlocução aprofundada sobre temáticas atuais da museologia contemporânea: a proveniência e a gestão sensível de restos humanos em coleções museológicas, o contexto ético e científico da investigação, a restituição e circulação internacional das coleções, e o papel dos museus enquanto mediadores. A entrevistada, professora e experiente investigadora em antropologia biológica, partilha o seu percurso (que incluiu a coordenação do Museu Antropológico, entre 2006 e 2010) e contribui para o debate sobre ética, memória e direitos humanos em contexto museológico.
12Este número encerra com seis recensões críticas de exposições e livros, com o crivo científico e editorial de Joana Baião e Leonor de Oliveira, editoras da MIDAS. Esta secção assume particular relevância, prolongando a reflexão museológica em diferentes registos e proporcionando uma análise aprofundada de obras de referência que contribuem para o debate teórico e para a renovação das práticas museológicas.
13No campo das recensões de livros, destaca-se o comentário de Sofia Alexandre Carvalho (CITCEM, Universidade do Porto), que analisa o livro de Françoise Vergès, Decolonizar o Museu: Programa de Desordem Absoluta, que foi traduzido para português pela Orfeu Negro. Vergès, conhecida cientista política, ativista e historiadora francesa, com origem na Ilha da Reunião, departamento ultramarino francês, interroga os processos de descolonização dos museus e os desafios decorrentes desses processos.
14O segundo livro recenseado é da autoria de Carolina Neves (IHA, Universidade Nova de Lisboa), que comenta a obra de Bárbara Coutinho – A Exposição como Obra Total nos Museus do séc. XXI, um dos últimos volumes editados pela Coleção “Estudos de Museus”. O livro cruza as áreas do design, da arte, da arquitetura e dos museus, incluindo como estudos de caso o Triennale Design Museum (Milão), o Neues Museum (Berlim) e o MUDE – Museu do Design (Lisboa).
15O terceiro livro em destaque é Archiving Cultures: Heritage, Community and the Making of Records and Memory, da americana Jeannette A. Bastian. Recenseado por Joana Galhardas (CIDEHUS, Universidade de Évora), esta publicação traz novos entendimentos sobre o papel dos arquivos, a preservação da memória e a participação das comunidades, incluindo a relação com os museus e seus arquivos.
16Esta secção compreende ainda três exposições em análise. Rita Maia Gomes (IHA, Universidade Nova de Lisboa) comenta a exposição, James Lee Byars, Perfecta es la pregunta (2024), realizada no Palacio de Velásquez (Madrid) com curadoria de Vicente Todolí. A exposição é dedicada ao artista americano James Lee Byars (1932-1997), um dos nomes mais relevantes da performance e da arte conceptual do século XX.
17Fabíola Cristina Alves (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) dedica-se à recensão da exposição Armorial 50 anos, exposição que circulou por vários espaços no Brasil, explorando as implicações museográficas e identitárias desse legado cultural brasileiro, o movimento Armorial.
18A última exposição analisada é assinada por Sónia Moura (IHA, Universidade Nova de Lisboa) e refere-se à mostra Problemas do Primitivismo a Partir de Portugal (2024), que esteve patente no CIAJG – Centro Internacional das Artes José de Guimarães. Esta exposição, com curadoria de Marta Mestre e de Mariana Pinto dos Santos, também coloca em evidência o tema da descolonização das narrativas e das coleções museológicas.
19Cada uma destas recensões não apenas examina obras específicas, mas prolonga o diálogo museológico, estimulando crítica, abertura e questionamento sobre o presente e o futuro dos museus.
20A escolha da imagem de capa deste número inscreve-se na linha editorial da MIDAS de dar visibilidade a obras artísticas contemporâneas que prolongam e ampliam a discussão sobre os museus, sobre os seus modos de existência e sobre as formas como são percebidos, habitados e questionados na atualidade. Com curadoria de Elisa Noronha, editora da MIDAS, esta escolha reflete a compreensão de que o pensamento sobre museus não se esgota no discurso académico, mas alimenta-se igualmente das práticas artísticas que interrogam, desconstroem e reinventam as instituições museológicas. A imagem em causa, a vista da exposição “9 do 9” do projeto curatorial “museu do louvre pau-brazyl” (2016–2021), concebido pelos artistas brasileiros, Jéssica Varrichio e Guilherme Giufrida, reinterpreta criticamente o conceito de museu a partir de um edifício emblemático de São Paulo (Brasil), que se designa de “Louvre”, convertendo-o num “museu-trouvé” que evidencia tensões entre centro e periferia, original e cópia, memória e ficção. Ao transformar uma estrutura arquitetónica quotidiana num espaço simbólico de questionamento institucional, a obra dialoga com o propósito editorial da MIDAS de promover um olhar expandido sobre o museu enquanto construção cultural, política e imaginária.
21Deixamos um agradecimento a todas as autoras que neste número confiaram à MIDAS os seus trabalhos de investigação, assim como aos revisores e revisoras científicas que, através do seu trabalho rigoroso e diligente, asseguram a qualidade do processo de arbitragem por pares.
22Queremos deixar mais duas notas finais. Uma para salientar os progressos alcançados pela MIDAS no que concerne à sua indexação e visibilidade em bases de dados de referência internacional. Com efeito, a aprovação da MIDAS para integração na Scopus foi em 2025 um objetivo alcançado, e que se traduz num maior impacto dos resultados de investigação publicados e que permitirá reforçar ainda mais a posição da MIDAS no contexto científico internacional, consolidando-a como uma referência incontornável nos estudos de museus em língua portuguesa e espanhola.
23No contexto nacional, destacamos outro marco de reconhecimento da MIDAS, neste caso pela comunidade profissional, com a distinção atribuída pela APOM (Associação Portuguesa de Museologia) na categoria de “Edições” dos prémios de 2025, com uma menção honrosa. Esta distinção evidencia também o papel da MIDAS para a museologia portuguesa.
24Ao encerrarmos este décimo segundo ano de publicação, renovamos o compromisso com a promoção de uma museologia crítica, reflexiva e plural, aberta ao questionamento, à experimentação e ao diálogo interdisciplinar. A MIDAS continuará nos próximos anos a apresentar-se como um espaço de encontro entre investigadores e profissionais de museus, privilegiando contributos que se destaquem pela sua capacidade de teorização, inovação e originalidade, e que contribuam para repensar os museus e a museologia face aos desafios contemporâneos.
Para citar este artigo
Referência eletrónica
Ana Carvalho, Alexandra Curvelo, Elisa Noronha, Paulo Simões Rodrigues e Pedro Casaleiro, «Editorial», MIDAS [Online], 20 | 2025, posto online no dia 15 novembro 2025, consultado o 02 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/midas/7176; DOI: https://doi.org/10.4000/155hi
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