Editorial
Texto integral
1A ideia de criar a MIDAS surgiu como um imperativo num momento de viragem para os museus em Portugal e para as áreas de estudo que lhes estão correlacionadas. Designadamente porque em Portugal se está a assistir a uma mudança de conjuntura, de encerramento de um ciclo que se iniciou na década de 1930, com João Couto, em que o sistema se concentrou sobretudo na promoção da qualificação técnica e académica dos quadros dos museus nacionais, que passou, inclusive, por formação especializada realizada no estrangeiro e da qual decorreu a também especialização de objetivos e tarefas das instituições museológicas e a qualificação dos recursos e dos espaços. Nos últimos anos também se tem assistido à consolidação da oferta formativa (Mestrados e Doutoramentos) nas áreas da Museologia e do Património nas instituições de ensino superior portuguesas, muitas delas já em processo de balanço, avaliação e transformação.
2O novo ciclo dos museus que se começou a desenhar com a entrada no século XXI e que a criação da MIDAS também quer assinalar é o da permanente reinvenção da ideia de Museu, mercê da pluralidade das realidades passíveis de serem classificadas hoje como museológicas, em que até a tradicional dimensão física do museu é problematizada. A MIDAS propõe que se repense o museu enquanto projeção de um processo cultural, por vezes ideológico e até político. Daí a intencionalidade programática da nossa opção pelo título MIDAS - Museus e Estudos Interdisciplinares, que afirma como fundamental a convocação de outros saberes quando necessários a uma melhor compreensão das realidades museológicas, cada vez mais complexas e cada vez menos contidas entre as paredes do museu, e que à pluralidade do museu atual corresponde uma sua maior integração e participação nas dinâmicas e nos principais debates das sociedades contemporâneas.
3A MIDAS – Museus e Estudos Interdisciplinares apresenta-se como uma revista universitária, editada em suporte digital, de acesso aberto e com revisão científica. Pretende dar a conhecer e promover o Museu enquanto objeto de investigação científica e a Museologia enquanto área do conhecimento que congrega diferentes grupos disciplinares. A abrangência internacional permitirá uma leitura comparativa de diferentes circunstâncias nacionais. Além dos artigos, a inclusão de secções especializadas dedicadas à História da Museologia e a recensões confere uma necessária vertente de natureza epistemológica ao projeto.
4Neste primeiro número, da constante reinvenção do museu dão notícia Joana Ganilho Marques, com os Museus Contemporâneos, e Carmen Pérez Almagro, em Las estructuras de Emilio Pérez Piñero en la musealización de dos espacios singulares. Maria Lucia de Niemeyer Matheus Loureiro e José Mauro Matheus Loureiro (Documento e musealização: entretecendo conceitos), assim como Marcus Granato e Guadalupe do Nascimento Campos (Teorias da Conservação e desafios relacionados aos acervos científicos) colocam o enfoque na transdisciplinaridade dos museus, quer em relação à definição de conteúdos, quer no que concerne aos critérios de conservação. Com Joana d'Oliva Monteiro retomamos a noção do museu enquanto exposição, com a mostra A Natureza-Morta na Europa. Segunda parte: séculos XIX-XX (1840-1955), exibida na galeria do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. A Museologia enquanto objeto de estudo e a literatura museológica são também motivo de reflexão, designadamente para Irene Vaquinhas (A museologia como campo de estudo nas universidades portuguesas: esboço de evolução, pertinência e atualidade) e Jesús Pedro Lorente (Revistas museológicas en la actualidad: una panorámica global).
Para citar este artigo
Referência eletrónica
Alice Semedo, Paulo Simões Rodrigues, Pedro Casaleiro e Raquel Henriques da Silva, «Editorial», MIDAS [Online], 1 | 2013, posto online no dia 10 abril 2013, consultado o 10 agosto 2026. URL: http://journals.openedition.org/midas/72; DOI: https://doi.org/10.4000/midas.72
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