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Filipa Lowndes Vicente e Leonor de Oliveira, eds. – Collections, Exhibitions and Museums in Portugal and its Empire: From the 18th to the 20th Century

Egídia Souto
Referência(s):

Vicente, Filipa Lowndes, e Leonor de Oliveira, eds. 2025. Collections, Exhibitions and Museums in Portugal and its Empire: From the 18th to the 20th Century. New York: Routledge. 272 páginas, ISBN: 9781032843292.

Notas da redacção

Revisto por Ana Carvalho

Texto integral

1A coletânea Collections, Exhibitions and Museums in Portugal and its Empire: From the 18th to the 20th Century foi publicada em 2025 e editada por Filipa Lowndes Vicente e Leonor de Oliveira, a partir de um projeto originalmente concebido por Foteini Vlachou. A publicação surge como uma contribuição fundamental para repensar a história da arte, da cultura material e das práticas museológicas em Portugal e nos seus territórios coloniais. Ao abranger um período que se estende do século XVIII ao final do século XX, desafia as narrativas tradicionais que tantas vezes colocam Portugal numa posição periférica em relação aos grandes centros culturais europeus. Em vez disso, propõe uma leitura transnacional e globalizada das coleções, exposições e museus, e demonstra como estes espaços e práticas foram instrumentos ativos na construção de identidade, poder e memória, tanto na metrópole como nas colónias. Este volume, com 272 páginas e inúmeras ilustrações, destaca-se sem dúvida como um marco nos estudos da história da arte, museologia e história colonial portuguesa.

2Na introdução do livro, Foteini Vlachou, Filipa Lowndes Vicente e Leonor de Oliveira estabelecem um diálogo crítico com a historiografia tradicional, que muitas vezes reduz a história da arte portuguesa a categorias como “marginalidade”, “perifericidade” ou cinge-se a abordagens meramente estéticas e biográficas. Esta publicação surge num momento de viragem nos estudos sobre o império português, marcando uma rutura significativa. Como sublinham as organizadoras, Portugal ocupou, ao longo dos séculos, uma posição híbrida: periférica no contexto europeu, mas central na sua dimensão imperial. Esta dualidade refletiu-se em diversos campos do saber, incluindo a história da arte, onde a noção de “influência” foi frequentemente utilizada para descrever um fluxo unidirecional de ideias e práticas artísticas, ao ignorar a circulação ativa de saberes entre Portugal e os seus territórios ultramarinos.

3A vasta introdução estabelece um quadro interpretativo centrado na ideia de “mapping visions” e sublinha a importância das circulações de objetos, pessoas e saberes e da ligação entre metrópole e império. Conceitos como “transcolonialidade” ou “globalização” aparecem como ferramentas teóricas em diversos capítulos. O volume posiciona Portugal como um espaço de circulação ativa, desafia dicotomias como centro/periferia e questiona a noção de “influências” enquanto fluxo cultural unidirecional.

4Estruturada em três partes temáticas e cronológicas, a coletânea articula-se em estudos de caso que atravessam geografias diversas: de Lisboa ao Brasil, da Índia a Macau, passando por África e regimes políticos distintos, do Antigo Regime ao Estado Novo, às transições pós-coloniais. O resultado é uma obra que, embora desigual em alguns momentos, se afirma como um contributo sólido e necessário para a reconfiguração dos estudos museológicos em contexto lusófono.

5Apesar da diversidade temática, o volume apresenta uma forte coerência interna. A primeira parte da obra intitula-se «Artistic and Natural History Collections in the Eighteenth Century: Between Lisbon, Brazil, China and India». Esta secção analisa a formação e circulação de coleções em Portugal e no império durante o século XVIII, com especial enfoque nas intersecções entre Lisboa, Brasil, China e Índia. Os capítulos demonstram como as coleções de pintura, espécimes de história natural ou artes decorativas foram espaços de negociação cultural, política e económica. Foteini Vlachou aborda a pintura histórica e a construção de uma identidade imperial, destacando como a arte foi utilizada para legitimar o poder monárquico e aristocrático. Ao analisar as transferências de modelos iconográficos e as adaptações locais, a autora demonstra a complexidade dos processos de difusão cultural, recusando leituras unidirecionais que reduziriam o Brasil a um mero recetor de influências metropolitanas.

6Lorelai Kury analisa as coleções de história natural no Brasil durante o Iluminismo e mostra como estas práticas refletiram as dinâmicas de exploração colonial e difusão de conhecimento científico. Luís de Moura Sobral estuda a coleção dos Duques de Aveiro e observa a circulação transnacional de objetos de arte, bem como o papel das elites portuguesas na formação de coleções. Maria João Ferreira e Miguel Metelo de Seixas investigam a cultura material asiática nas coleções portuguesas, realçando a importância das artes decorativas na cultura material portuguesa.

7Na segunda parte, intitulada «Exhibiting Identities in the Portuguese Colonial Empire (1860–1999)», os capítulos problematizam de que modo as exposições foram mobilizadas enquanto dispositivos de construção e encenação dos poderes coloniais, tanto em Portugal como nos territórios ultramarinos. Os diferentes contributos demonstram como estas práticas se adaptaram a diversos contextos políticos, desde o liberalismo do século XIX até ao autoritarismo do Estado Novo. Filipa Lowndes Vicente estuda as exposições em Goa como espaços de afirmação identitária e evidencia como estas práticas refletiram as tensões entre as elites locais e o poder colonial. Kathrin Raminger analisa a política colonial do Estado Novo a partir do estudo de exposições de arte, e em que medida estas funcionaram como dispositivos de representação ideológica que não apenas exibiam o império, mas também o construíam simbolicamente. Dessa forma contribuíram para a sua legitimação junto do público através de narrativas visuais que reforçavam a missão “civilizadora” e a unidade imperial. Leonor de Oliveira discute a participação portuguesa em exposições internacionais e realça as contradições entre a modernidade artística e o nacionalismo do regime. Patrícia de Sousa Melo aborda a criação do Museu Luís de Camões em Macau e revela como este museu foi utilizado para preservar a memória da presença portuguesa na Ásia.

8Em continuidade com estas problemáticas, a última parte do livro, intitulada «The Displaying of Art and History in the First Half of the Twentieth Century», debruça-se principalmente sobre o papel dos museus e das exposições na construção de narrativas nacionais durante a Primeira República (1910-1926) e o Estado Novo. Quatro capítulos analisam o modo como estas instituições foram instrumentalizadas para cristalizar uma visão oficial do passado. Entre estes, Joana Baião centra-se nas reformas museológicas durante a Primeira República Portuguesa e demonstra, de forma aprofundada, as continuidades e ruturas em relação ao regime monárquico. Alicia Miguélez estuda a reconstrução do túmulo de Egas Moniz como símbolo de identidade nacional e analisa como os monumentos históricos foram utilizados para construir mitos nacionais. Destaca-se o capítulo de Raquel Henriques da Silva, que investiga o caso do pintor Eduardo Malta, diretor do Museu Nacional de Arte Contemporânea durante o Estado Novo, e expõe tensões entre o regime e a arte moderna. Esta contribuição insere-se no debate sobre o modo como os regimes usam (ou reprimem) a arte para legitimar o poder. O capítulo da historiadora proporciona assim um estudo de caso histórico com implicações diretas para os debates atuais: os museus como instrumentos políticos.

9O último capítulo do volume, de Inês Fialho Brandão, debruça-se sobre as exposições da Livraria Buchholz em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial e mostra como este espaço se tornou um centro de resistência contra o regime de Salazar. Esta contribuição acompanha de forma pertinente o debate atual, num momento em que vários museus estão a rever as suas coleções e narrativas para confrontar legados autoritários e coloniais.

10Deve salientar-se que esta publicação, Collections, Exhibitions and Museums in Portugal and Its Empire, publicada em inglês, reveste-se de uma estratégia académica significativa. Em primeiro lugar, amplifica o alcance da obra, ao permitir que o debate sobre o património material, as práticas museológicas e o legado colonial transcendam as fronteiras da lusofonia e se insiram em discussões globais sobre decolonialidade, história da arte e estudos imperiais. Ao fazê-lo, o livro desafia a marginalização histórica de Portugal nos estudos internacionais, muitas vezes relegado a um papel periférico em narrativas eurocêntricas e posiciona-o como um caso de estudo central nas redes transnacionais de circulação cultural.

11Esta publicação interdisciplinar reúne contributos de investigadores de renome e deverá interessar igualmente a estudiosos de outras tradições imperiais (britânica, francesa, espanhola ou holandesa), permitindo comparações sistemáticas entre práticas coloniais e museológicas. Estes aspetos revelam-se particularmente relevantes no âmbito dos estudos pós-coloniais, num momento em que a história global procura descentrar perspetivas hegemónicas e integrar experiências do sul global, como a portuguesa.

12Apesar da sua ambição analítica, a coletânea destaca sobretudo a agência de elites locais e dedica menor atenção à forma como grupos marginalizados – como pessoas escravizadas, populações indígenas e mulheres – interagiam com estas coleções e exposições; não obstante, trata-se de uma obra de grande alcance e rigor. Distingue-se, em particular, o cuidado na organização e edição do livro, bem como a riqueza e pertinência da iconografia, que contribuem significativamente para a sua coerência e qualidade científica. Algumas dimensões poderiam, ainda assim, ser aprofundadas em investigações futuras, nomeadamente no que diz respeito ao tráfico de objetos culturais africanos ou ao papel das mulheres nas redes de colecionismo. Em suma, este volume constitui não apenas um contributo sólido, mas também um ponto de partida estimulante para novos desenvolvimentos neste campo de estudo.

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Egídia Souto, «Filipa Lowndes Vicente e Leonor de Oliveira, eds. – Collections, Exhibitions and Museums in Portugal and its Empire: From the 18th to the 20th Century»MIDAS [Online], 22 | 2026, posto online no dia 05 maio 2026, consultado o 14 julho 2026. URL: http://journals.openedition.org/midas/7250; DOI: https://doi.org/10.4000/166ly

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Autor

Egídia Souto

Université Sorbonne Nouvelle, França, egidia.souto[at]sorbonne-nouvelle.fr, https://orcid.org/0000-0001-5128-913X

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