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Recensões

Paiva, Vasco (2020), O despertar das montanhas. As lutas dos agricultores e povos da montanha antes do 25 de Abril

Irina Castro
p. 209-212
Referência(s):

Paiva, Vasco (2020), O despertar das montanhas. As lutas dos agricultores e povos da montanha antes do 25 de Abril. Coimbra: Lápis de Memórias, 166 pp.

Notas da redação

Revisto por Alina Timóteo

Texto integral

  • 1 Em 2019, no âmbito do projeto editorial do Dicionário Alice, Rita Serra propõe um ressignificar de (...)

1A palavra “baldio” permanece na língua portuguesa como terra inculta, sendo por vezes até sinónimo de terra abandonada, inútil e vão. Esta ideia, de uma terra sem uso, terra de ninguém, está na base da destruição ontológica do que é um baldio, tendo sido estratégica para os processos de expropriação das terras comunitárias em Portugal. É por este motivo que o nome, ou melhor, as origens do nome, pouco importam. Como bem relembra o autor nesta obra, há que recusar partir para o estudo sobre os baldios desde a sua origem etimológica, sendo muito mais frutífero abordar os baldios como terras que resultam da ação coletiva dos e das que nela vivem, e por ela lutam, procurando assim ressignificar a palavra “baldio”.1 Este novo significado, antes mesmo de ser nome, é prática. Prática comum dos e das que da serra e da floresta, historicamente, usufruíram em comunidade.

  • 2 Exemplos destes interesses são a empresa Martins & Rebello, atualmente Indulac – Indústrias Lácteas (...)

2“Que por ela lutam” é o foco de O despertar das montanhas, uma obra que procura retratar as lutas dos povos da região do Vouga antes da Revolução dos Cravos. Escrita por Vasco Paiva – engenheiro florestal mas, mais importante que isso, militante do Partido Comunista Português (PCP) desde 1969 –, a obra dá conta das diversas lutas e protestos que durante os primeiros anos da década de 1970 e até à revolução abalaram as freguesias de Talhadas (Município de Sever do Vouga), Préstimo (antiga freguesia do Município de Águeda agregada a Macieira de Alcoba em 2013 com a reforma administrativa do mesmo ano), Albergaria das Cabras e Cabreiros (atualmente Cabreiros e Albergaria da Serra, em Arouca), entre muitas outras situadas no Vale do Vouga. Essas lutas despertaram o povo para a ação coletiva e desafiaram o Estado fascista e os seus interesses privados associados.2

3Apesar de os baldios ou, mais corretamente, de as terras comunitárias não serem um fenómeno exclusivo a Portugal, estas foram fundamentais para a consolidação do Estado fascista e, após a revolução, para a consolidação do capitalismo português. Não se estranha assim o relato de que junto dos povos se organizassem também militantes do PCP, muitos deles de forma clandestina. Esta foi também a experiência de Vasco Paiva, sendo uma das razões pelas quais esta obra é de interesse para quem procura compreender os baldios e analisar o papel das terras comunitárias na construção do Estado português.

4Em Portugal, apesar de os trabalhos académicos sobre baldios tenderem a ser mais pontuais do que disciplinares e a se inscreverem na temática de investigação sobre “comuns”, e menos como temática em si, existem na nossa academia importantes autores e autoras, cujos trabalhos contribuem de forma substantiva para o entendimento das terras comunitárias. Destaco, por exemplo, os trabalhos de João Gralheiro, António Bica, João Arriscado Nunes e Rui Feijó, João Antunes Estêvão, Pedro Hespanha, Rita Serra e, mais recentes, os de Irina Skulska. Sem dúvida, o trabalho de Vasco Paiva junta-se a estes na composição de uma bibliografia que deve ser a base de qualquer futuro trabalho sobre baldios.

5Alvorando-me da obra e focando-me no autor, há que refletir sobre o caráter documental e autobiográfico da narrativa que, ao longo dos distintos capítulos, nunca se sobrepõe à análise cuidada das condições materiais objetivas que estão na base da revolta. Quero com isto dizer que a maior força da análise de Vasco Paiva reside no facto de o autor ter sido mais do que um engenheiro florestal envolvido nas lutas. Tal como ele próprio reconhece, o saber técnico e jurídico desempenhou um papel fundamental nos processos de revolta e de contestação, mas foi o espírito de militância que fez e marcou a diferença – apesar de que para o autor, “o apoio técnico ou político era apenas isso, apoio” (p. 10). É, pois, neste relato humilde e reflexivo que se vê que “nada se faz sem a vontade do povo” (p. 9), uma importante conclusão da obra que, para Vasco Paiva e outros intervenientes mencionados ao longo da mesma, foi, e continua a ser, uma forma de estar. Esta importante conclusão serve também de lembrete aos académicos e académicas de hoje: todo o saber é útil quando comprometido com o povo e quando colocamos as nossas redes ao serviço das reivindicações do mesmo.

6Olhando para a estrutura da obra, O despertar das montanhas pode ser entendido como estando dividido em três partes. Na primeira, Vasco Paiva introduz-nos brevemente à problemática dos povos da zona do Vouga e ao papel que a intervenção clandestina do PCP desempenhou ao animar os protestos, enfatizando, no entanto, que estes se deveram sempre aos próprios povos e por eles foram dirigidos. Na segunda parte, dividida em sete capítulos, o autor relata-nos a luta pelos baldios de Talhadas, Préstimo, Albergaria das Cabras e Cabreiros, Candal, entre outras freguesias, relembrando as ações repressivas dos Serviços Florestais e do Governo fascista, e identificando as motivações da revolta, as estratégias da luta e principais intervenientes – uma identificação que apenas em liberdade é possível realizar. Seguem-lhe relatos mais curtos das lutas de produtores de leite, de gado, de vinho, de batata e de aves, bem como um relato sobre o incêndio que em 1972 abalou a região. A segunda parte encerra-se com uma descrição daquela que foi a estratégia que animou a contestação dos povos das montanhas. A terceira parte, de caráter documental e organizada em anexos, procura conduzir-nos cronologicamente ao longo dos acontecimentos e transcreve os principais textos produzidos pelos povos em luta – textos estes animados por publicações como o jornal A Terra e o boletim A Voz da Montanha.

  • 3 Poema “Trova do Vento que Passa”, de Manuel Alegre escrito em 1963. Consultado a 27.11.2022, em htt (...)

7Sendo uma obra recomendável tanto para a academia como para fora dela, O despertar das montanhas aparece como um importante contributo político e histórico sobre os baldios e seus compartes, contribuindo para popularizar as nossas terras comunitárias. Acresce-se a este contributo a virtude de ser um relato honesto sobre o papel que o PCP procurou ter na organização dos protestos e na resistência antifascista. É assim um contributo importantíssimo para o tempo em que vivemos, tempo esse contaminado pela amnésia provocada por aqueles e aquelas que se revestem dos “usos e costumes” para impor uma nova repressão. Só que tal como “nada de faz sem a vontade do povo”, “Há sempre alguém que resiste / Há sempre alguém que diz não”.3

  • 4 Citação retirada do perfil de Facebook de “Lápis de Memórias – Editora e Livraria, Lda”. Consultado (...)

8A edição é da Lápis de Memórias, um pequeno projeto nascido na cidade de Coimbra em 2011 que realiza um trabalho “Com rigor e exigência, mas também com um sentido – o traçado em Abril de 1974”.4

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Notas

1 Em 2019, no âmbito do projeto editorial do Dicionário Alice, Rita Serra propõe um ressignificar de “baldio”, tendo em conta a sua complexidade histórica, sociotécnica e jurídica. Cf. Serra, Rita (2019), “Baldio”, Dicionário Alice. Consultado a 27.11.2022, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24610.

2 Exemplos destes interesses são a empresa Martins & Rebello, atualmente Indulac – Indústrias Lácteas, S.A., e a central de compras Madeiper, atualmente inativa.

3 Poema “Trova do Vento que Passa”, de Manuel Alegre escrito em 1963. Consultado a 27.11.2022, em http://www.manuelalegre.com/301000/1/003028,000014/index.htm.

4 Citação retirada do perfil de Facebook de “Lápis de Memórias – Editora e Livraria, Lda”. Consultado a 27.11.2022, em https://www.facebook.com/lapisdmemorias/about_details.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Irina Castro, «Paiva, Vasco (2020), O despertar das montanhas. As lutas dos agricultores e povos da montanha antes do 25 de Abril»Revista Crítica de Ciências Sociais, 129 | 2022, 209-212.

Referência eletrónica

Irina Castro, «Paiva, Vasco (2020), O despertar das montanhas. As lutas dos agricultores e povos da montanha antes do 25 de Abril»Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 129 | 2022, publicado a 10 fevereiro 2023, consultado a 05 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/rccs/14088; DOI: https://doi.org/10.4000/rccs.14088

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Autor

Irina Castro

Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra
Colégio de S. Jerónimo, Apartado 3087, 3000-995 Coimbra, Portugal
belacastro@ces.uc.pt
orcid: https://orcid.org/0000-0003-1558-4515

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