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Mobilidade e territorialidade indígena Kaingang no Paraná, Brasil: a comercialização do artesanato no contexto da atividade turística

Kaingang Indigenous mobility and territoriality in Paraná, Brazil: The commercialization of handicrafts in the context of tourism activity
Mobilité et territorialité indigènes kaingang au Paraná, Brésil : la commercialisation de l’artisanat dans le contexte de l’activité touristique
Sandro Campos Neves
p. 167-186

Resumos

O comércio de artesanato tem sido uma importante alternativa de subsistência ativada por indígenas Kaingang no contexto da atividade turística na região sul do Brasil, nomeadamente nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esta pesquisa aborda a mobilidade Kaingang em um dos seus territórios, a Terra Indígena Rio das Cobras, no Paraná. Através de uma metodologia de pesquisa qualitativa de campo, investigaram-se os significados atribuídos à produção e comercialização do artesanato entre os Kaingang, bem como suas percepções a respeito da situação vivenciada em viagens para centros urbanos com o objetivo de comercializá-lo. Embora essas viagens sejam lidas pelas instituições estaduais e federais brasileiras como ocorrendo em contexto de vulnerabilidade, os indígenas as compreendem a partir de duas dimensões – identitária e territorial – que, articuladas com as necessidades de subsistência, permitem formular uma compreensão mais ampla do conceito de territorialidade.

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Notas da redação

Revisto por Ana Sofia Veloso

Artigo recebido a 19.05.2025
Aprovado para publicação a 19.01.2026

Notas do autor

Declaração de conflitos de interesse
O autor declara não existir quaisquer conflitos de interesse.

Financiamento
O autor não recebeu apoio financeiro direto para a investigação, autoria e/ou publicação deste artigo. No entanto, é importante mencionar que parte dos custos relacionados a deslocamentos e à permanência em campo foram custeados pelo projeto BRA 13/019 da Fundação Nacional dos Povos Indígenas com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, embora o financiamento esteja relacionado à execução de consultoria específica – e não à pesquisa.

Declaração de ética
Todas as pessoas entrevistadas para a pesquisa consentiram, de forma livre e esclarecida, com a participação na investigação e a divulgação dos dados dela resultantes, desde que fossem preservados o sigilo e os demais compromissos éticos assumidos no processo de coleta dos dados, razão pela qual os dados e as declarações foram anonimizados.

Texto integral

Introdução

1O presente artigo é resultante de atividade de pesquisa empreendida no âmbito de uma consultoria prestada à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com intermediação financeira do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). A consultoria, desenvolvida em 2019 no âmbito do projeto BRA 13/019 – Implementação da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas, foi contratada pelo órgão indigenista oficial (Funai) com o objetivo de compreender de forma mais aprofundada a problemática da comercialização de artesanato por parte dos indígenas Kaingang nos três estados da região sul do Brasil – Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

  • 1 A ação se iniciou tendo como lócus o Terminal Integrado do Saco dos Limões em Florianópolis, área p (...)

2Na percepção da Funai – e de outros órgãos públicos, como os respectivos Ministérios Públicos em cada estado –, os indígenas que se deslocam para as cidades vivem lá situações de vulnerabilidade exacerbada, tais como o pernoite em ruas, avenidas, praças e outros espaços públicos ou privados. A situação foi considerada ainda mais preocupante devido ao envolvimento de crianças na comercialização do artesanato nas cidades e, consequentemente, vivenciando essas situações de vulnerabilidade. Tal situação é objeto de constantes manifestações de órgãos públicos municipais, bem como de cidadãos, através da ouvidoria da Funai e/ou por meios judiciais diversos. Notadamente, a Funai foi arrolada como corré no âmbito da Ação Civil Pública 5030065-13.2016.4.04.7200 proposta pelo Ministério Público Federal em Santa Catarina (MPF-SC)1 e condenada, junto com a Prefeitura Municipal de Florianópolis, a construir uma casa de passagem no município para albergar os indígenas durante sua estadia na cidade.

3De tal modo, afim de produzir um entendimento mais aprofundado da questão na perspectiva indígena e buscar a construção de soluções para o problema, foi contratada a consultoria anteriormente citada. Entre os seus objetivos estava compreender, do ponto de vista indígena, a prática e os sentidos da comercialização de artesanato nas cidades, suas motivações principais e as condicionantes do deslocamento e estadia Kaingang na cidade.

4A partir de tal contexto, e em acordo com a Funai, foi estabelecido um método e um cronograma para o trabalho de campo, com duração de seis meses, a ser realizado em 2019. Tendo em conta se tratar de uma realidade que se apresentava muito diversa regionalmente, se definiu a necessidade de observar a situação desde o ponto de vista dos indígenas nas aldeias, bem como acompanhar sua viagem e permanência nas cidades. Ficou ainda estabelecida a realização de visitas de trabalho e observação em pelo menos uma aldeia em cada estado e nas três capitais – Curitiba (Paraná), Florianópolis (Santa Catarina) e Porto Alegre (Rio Grande do Sul) – para onde se dirigia grande parte do fluxo. Neste artigo analisam-se os resultados deste processo de pesquisa referentes à Terra Indígena Rio das Cobras, no município de Nova Laranjeiras, estado do Paraná. As informações apresentadas são uma sistematização de dados obtidos em conversas, entrevistas formais e observações com os indígenas da aldeia e com a Coordenação Técnica Local (CTL) de Nova Laranjeiras.

5O município de Nova Laranjeiras, que tem uma população de 12 287 pessoas (segundo censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística de 2022) e se localiza na porção centro oeste do estado do Paraná, possui um território de cerca de 1200 quilômetros quadrados e uma densidade habitacional de 9,98 habitantes por quilômetro quadrado. A Terra Indígena é atendida pela Funai através da Coordenação Regional de Guarapuava e da CTL Nova Laranjeiras, sendo a última também responsável por prestar apoio à Terra Indígena Mangueirinha. Atualmente, segundo dados do Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena/Secretaria de Saúde Indígena, a Terra Indígena Rio das Cobras tem uma população de cerca de 3250 indígenas. A área é habitada majoritariamente por indígenas Kaingang, mas inclui também três aldeias Guarani.

6As aldeias Kaingang existentes na área são denominadas Sede, Taquara, Vila Nova, Trevo, Jacutinga, Encruzilhada, Campo do Dia, Missão e Vila Paulista. A Terra Indígena Rio das Cobras possui uma extensão de 19 mil hectares e uma divisão territorial complexa. A aldeia é atravessada pela rodovia federal BR-277 e, em diversos pontos, há um elevado grau de perigo em função da quantidade de veículos de grande porte e das altas velocidades em que se circula.

7O presente artigo tem como objetivo apresentar um mapeamento da mobilidade indígena Kaingang oriunda da Terra Indígena Rio das Cobras, que aflui às cidades da região para comercializar artesanato. Busca-se descrever, sobretudo, o significado que os indígenas atribuem a estas práticas, mas pretende-se também abordar a questão da vulnerabilidade indígena durante a permanência nos centros urbanos, priorizando a perspectiva dos próprios Kaingang.

1. Presença indígena Kaingang no Paraná e circulação pelas cidades

  • 2 Lúcio Mota (2008) relata diversos registros e evidências de presença indígena na região chegando a (...)

8Os registros da ocupação indígena Kaingang na região sul do Brasil remontam ao século xvi.2 A descrição de Lúcio Mota é bastante eloquente a respeito da extensão do território que dominavam:

A literatura sobre os Kaingang afirma sua presença numa larga extensão de território que vai desde o rio Tiete em São Paulo, até os campos ao sul do rio Uruguai no Rio Grande do Sul. Seus limites a leste foram as vertentes orientais da Serra do Mar e, a oeste, as barrancas do rio Paraná. Nesse imenso território que abrangia terras dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e partes da Argentina, constituído por grandes extensões de florestas tropicais e campos, cortados por grandes rios como o Tietê, Paranapanema, Tibagi, Ivaí, Piquiri, Iguaçu e Uruguai […]. (Mota, 2008, p. 91)

  • 3 Reduções ou missões jesuíticas eram aldeamentos organizados pela Companhia de Jesus.

9Conforme indica a literatura, os Kaingang – embora em pequeno número – estariam entre os indígenas nas reduções jesuíticas3 desde seu início, não havendo dúvida sobre sua presença (Mota, 2007). Para os efeitos de compreensão do presente texto importa estabelecer a ocupação pré-colonial do território (Ayres et al., 2023), bem como o processo de constante pressão colonizadora estabelecido a partir do século xvi em diante. É também importante destacar que, em que pesem as reduções jesuíticas, os Kaingang viveram em relativa liberdade de circulação até o século xix, quando se iniciaram as invasões mais sistemáticas de seus territórios no processo de interiorização do Brasil (Mota, 2007). Neste aspecto, importa relatar também que a literatura registrou, a partir daí, os diversos episódios de extrema perseguição sofridos pelos indígenas Kaingang (Fernandes, 2003, 2004; Mileski & Faustino, 2011; Mota, 2007).

  • 4 É de seu período no governo a publicação do Decreto Estadual 13.722 de 19 de janeiro de 1951, respo (...)

10No que diz respeito ao estado do Paraná, sem desconsiderar a longa duração da história colonial, vale destacar que a memória dos atuais indígenas se remete frequentemente ao chamado “tempo do Lupião”, em alusão aos períodos de governo estadual de Moysés Wille Lupion de Troya (1947-1951 e 1956-1961).4 Empresário do ramo madeireiro, Lupion é tido como um dos próceres da chamada Marcha para o Oeste, caracterizada como a ocupação dos territórios no interior e oeste do estado do Paraná, tidos no discurso político hegemônico daquele período como composto por imensos vazios demográficos de terras devolutas (Mota, 2007). Obviamente tais terras pertenciam aos indígenas Kaingang e outros povos Jê do Sul e estavam ocupados por suas aldeias e áreas de circulação, cultivo, entre outros tipos de ocupação territorial. Este período do século xx foi caracterizado por intenso esbulho dos territórios Kaingang, associado a inúmeros registros de remoções, assassinatos em massa e às várias formas de violência colonial comumente relatadas (Santos, 2016).

11Os Kaingang chegam ao século xxi reduzidos a 13 Terras Indígenas no estado do Paraná, três das quais, como já mencionado, coabitadas com outras populações indígenas como Guarani, Xokleng e Xetá. Além de toda a história de violência colonial, os Kaingang se encontram em uma situação econômica extremamente adversa. Com territórios reduzidos e uma população crescente, enfrentando preconceitos diversos e a violação de direitos básicos (Cardoso, 2013) – como o direito integral à educação, o direito à saúde, para além do próprio direito às suas terras –, encontram-se empobrecidos e enfrentando inúmeras adversidades (Faustino et al., 2024).

12Diante de tal quadro, uma das principais alternativas para a subsistência Kaingang tem sido o comércio de artesanato nas áreas urbanas, notadamente no contexto da atividade turística na região sul (Faustino et al., 2024; Pezzotti & Bloemer, 2009; Ribeiro, 2013)

13O artesanato tradicional Kaingang é composto principalmente por cestaria feita de taquara. Este tipo de artesanato é produzido em todo o território Kaingang, sendo uma tradição ensinada desde cedo às crianças. Estudos têm demonstrado, contudo, que tal artesanato passou por processos de modificação, adaptando-se à comercialização turística (Savoro et al., 2014). Durante as diversas visitas às aldeias, foi recorrente observar indígenas Kaingang sentados produzindo artesanato, rodeados pelos filhos, de diversas faixas etárias, a participar da produção.

14A comercialização do artesanato é feita comumente a partir de viagens aos centros urbanos, onde se consegue encontrar mais interessados e vender em quantidade suficiente para gerar a renda necessária à subsistência. Essas viagens inicialmente afluem para os centros urbanos mais próximos das aldeias (Garlet, 2010), mas se espraiam por toda a região sul e alcançando atualmente o estado de São Paulo. Durante os períodos de alta temporada turística (dezembro, janeiro e fevereiro) existe grande procura dos indígenas por viagens para as capitais dos três estados da região sul, aos seus respectivos balneários (Pezzotti & Bloemer, 2009) e também às regiões serranas (Bazzo, 2015), locais com diferentes tipos de fluxo turístico. Esta diversidade de turistas tem em comum o interesse pelo artesanato Kaingang e, de acordo com relatos indígenas, atribui-lhe maior valor do que ao artesanato regional.

15Tais viagens, contudo, despertam preocupação, pois o contexto de permanência nas cidades por parte dos indígenas na região é tido por bastante adverso. Na maioria dos casos, não há estrutura pública especificamente destinada a este fim, com raras exceções de casas de passagem, indígenas ou não, em um ou outro município. De tal modo, os Kaingang geralmente acampam em barracas de lona em locais como rodoviárias, terrenos cedidos por prefeituras e, eventualmente, em logradouros públicos diversos. Talita Savoro et al. (2014) demonstram que existe razoável preocupação dos munícipes locais, bem como dos agentes do poder público, com a questão da permanência das crianças. Estudos como os de Marinez Garlet (2010) e Zico Ribeiro (2013) já observaram que tal comportamento é uma maneira específica Kaingang de enxergar o processo de socialização infantil – isto é, ter as crianças com os pais de forma constante, até nas viagens de comercialização do artesanato.

16Contudo, a situação não é encarada deste modo pelos habitantes dos municípios em que os Kaingang permanecem nem pelos órgãos públicos locais eventualmente envolvidos na situação (tais como conselhos tutelares, varas de famílias, secretarias diversas de assistência social). Esses buscam ocasionalmente a Funai para realizar denúncias, queixas e tratativas a respeito da questão.

17O discurso utilizado para tratar o tema refere-se sempre no caso dos municípios à questão dos direitos da criança e adolescente e preocupação com as condições consideradas de vulnerabilidade vivenciadas pelos indígenas em área urbana. Contudo, como se irá observar ao longo deste artigo, o discurso não consegue esconder algumas prenoções e até discriminações relacionadas aos indígenas. Tal como aparece nas reclamações registradas na ouvidoria da Funai ou nos relatos obtidos em campo, o discurso tangencia a ideia de que “o lugar” dos indígenas seria nas suas terras e reservas, considerando sua presença e permanência na cidade inadequada. Durante o processo de pesquisa buscou-se, sobretudo, identificar a visão indígena da situação, embora se tenha registrado alguma ponderação dos demais atores com os quais estes se relacionam ocasionalmente.

2. Metodologia

18A pesquisa que levou à elaboração deste texto foi realizada na Terra Indígena Rio das Cobras, com indígenas Kaingang. A metodologia incluiu também o acompanhamento da presença de indígenas Kaingang em alguns dos grandes centros urbanos por eles visitados para venda de artesanato, particularmente em Chapecó (Santa Catarina), Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre. Tratou-se de uma pesquisa qualitativa realizada tendo como instrumentos de coleta de dados a observação simples, entrevistas livres e entrevistas semiestruturadas.

19A observação simples foi utilizada para descrever as práticas e comportamentos em dois contextos diversos: a aldeia e os centros urbanos. Na aldeia de Rio das Cobras se observou os processos de fabricação do artesanato entre os Kaingang e os preparativos relacionados às viagens para sua comercialização, além de demais aspectos pertinentes que foram registrados em campo e serão descritos mais detalhadamente na apresentação dos dados. Nos centros urbanos se observou os locais em que os Kaingang permanecem e os locais onde comercializam artesanato de forma mais expressiva.

20As entrevistas, no contexto da aldeia, foram realizadas com os indígenas, de forma livre e semiestruturada. Se desenvolveram, em alguns casos, como conversas livres com indígenas durante a circulação e a observação na aldeia. Em outras ocasiões, se utilizou um modelo de entrevista mais formal, semiestruturada, com o objetivo de obter informações mais específicas sobre a produção e comercialização do artesanato. Por fim, nos centros urbanos se utilizou as entrevistas semiestruturadas com agentes públicos envolvidos na questão, buscando identificar a perspectiva dos mesmos sobre a presença indígena nas cidades, assim como suas práticas e formas de atuação institucional nesse âmbito.

21Os Kaingang entrevistados durante a pesquisa de campo são de perfis variados. Foram abordados líderes formais da comunidade, pessoas ocupantes de cargos institucionais (professores de escola e agentes de saúde), bem como demais moradores da comunidade. A identificação precisa das fontes não será realizada de modo a preservar os compromissos éticos estabelecidos. A informação obtida foi fornecida em acordo de sigilo relativamente à identificação do nome do informante ou qualquer dado que possa levar à sua identificação. Tais acordos foram firmados no processo de obtenção do consentimento livre e esclarecido. Ademais, as informações relatadas podem, na hipótese de identificação da fonte, causar eventuais prejuízos aos informantes, o que reforça a relevância do sigilo.

22Como mencionado anteriormente, a inserção no campo se iniciou com a atuação enquanto consultor junto ao projeto BRA 13/019, numa parceria entre a Funai e o PNUD. Durante as etapas iniciais da pesquisa se contou com a mediação dos funcionários da Funai para conhecimento e estabelecimento de relação com os Kaingang. Tal inserção tem suas vantagens – uma vez que os agentes da Funai contam com ampla confiança dos Kaingang –, mas também suas desvantagens.

23Como desvantagens destaca-se o fato de que os indígenas poderiam ter alguma reserva para revelar informações sensíveis, sobretudo se pensarem que poderia ter consequências administrativas no âmbito da Funai. Dada a relação dos indígenas com esta entidade – que varia de certa subserviência a alguma desconfiança, reserva e até mesmo eventual tensão aberta – também se pode assumir que relações similares tenham sido “herdadas” pelo pesquisador em função de ser visto como associado a ela. Por diversas vezes foram prestados esclarecimentos aos indígenas entrevistados e com quem se conviveu a respeito da diferença entre pesquisador e a Funai, mas não é possível afirmar com certeza que se tenha operado completamente essa dissociação.

24De todo modo, importa salientar que, via de regra, os indígenas sempre pareceram muito à vontade para fornecer informações à pesquisa. É possível arrolar como vantagem da posição de entrada no campo o fato de que os indígenas se encontravam fortemente empenhados em discutir, durante a execução do projeto, a situação da mobilidade para a venda de artesanato nos três estados da região sul do Brasil. Manifestaram diversas vezes sua percepção de soberania e desejo de domínio completo de seu território e relações sociais internas e externas de modo independente da Funai. Assim, percebe-se que se sentiram relativamente livres para inclusive criticar abertamente a atuação da Funai em alguns casos. Pode-se dizer, até, que se observou uma tendência a formularem críticas com mais frequência do que o esperado, possivelmente por imaginarem que estariam sendo ouvidos com mais atenção.

3. Artesanato em Rio das Cobras: produção, circulação e mobilidade indígena

25Como observado na literatura, o artesanato atualmente produzido pelos Kaingang se modificou para se adaptar às necessidades atuais, nas quais sua produção e comércio se torna cada vez mais relevante no cômputo dos bens e recursos necessários à sobrevivência. Nestes termos, são produzidas peças identificadas como estando de acordo com os desejos dos compradores, majoritariamente turistas e sempre residentes de áreas urbanas e não indígenas. Assim, as peças que mais se produzem na Terra Indígena Rio das Cobras são a cestaria tradicional – que encontra muita demanda por sua utilidade doméstica aliada à beleza – junto com adornos pessoais (como colares e pulseiras) e, em menor escala, arcos e flechas e uma significativa variedade de objetos utilitários. A observação do desejo do cliente pode chegar a situações extremas em que os Kaingang são vistos – em pequeno número e contextos específicos – vendendo objetos caracterizados como “de camelôs”, isto é, o tradicional comércio informal, muitas vezes ambulante, visto nas ruas de diversas partes do país. Esta situação ainda é a exceção, mas já é observada com preocupação por lideranças indígenas.

26O artesanato é produzido pelos indígenas na aldeia em condição permanente, fazendo parte dos afazeres cotidianos. Sua produção envolve homens e mulheres adultos, idosos e crianças. Estas últimas acompanham, nos colos das mães e pais ou ao seu redor, o processo de confecção do artesanato e tão logo tenham coordenação motora suficiente já colaboram no processo. É possível imaginar, inclusive, que essa atividade contribuir para a própria aquisição de coordenação motora pelas crianças, dada sua presença nos processos de socialização. A maior parte dos relatos indígenas afirmam que este é mesmo um dos modos de “produzir a pessoa” Kaingang (Tassinari, 2015). Relatos tais como “é acompanhando os pais que as crianças aprendem [a ser Kaingang]” foram ouvidos sempre que se interrogava por sua presença na produção artesanal.

27Como relatado, a confecção do artesanato é contínua para a maioria dos seus produtores. Há um conjunto de razões que ordenam essa produção. Em primeiro lugar, é possível destacar a falta de trabalho formal, de tal modo que os indígenas dispõem, por um lado, de tempo livre de jornadas fixas de trabalho e, por outro, de grande necessidade de recursos financeiros. Essa necessidade é resultante de sua subsistência diária, sem trabalho fixo e com poucas alternativas de renda. Assim, os Kaingang de Rio das Cobras suprem suas necessidades por meio de uma parca agricultura individual e atividades extrativistas e recorrendo, em grande medida, ao comércio local. Como não possuem renda fixa, a compra é comumente feita a crédito de forma quase exclusiva. Os comerciantes aceitam as solicitações de compra a crédito dos indígenas, anotando suas dívidas nas tradicionais cadernetas, suspendendo o crédito sempre que se chega a um certo limite pecuniário ou temporal. É justamente esse limite que acaba impondo a produção e comercialização contínua do artesanato, como forma de obter recursos para saldar dívidas e readquirir crédito para a aquisição de víveres. Há ainda que mencionar que, diante do quadro de falta de ocupação formal e alternativas de desenvolvimento, muitas famílias dependem de pensões de idosos e benefícios sociais para se sustentar; contudo, a renda proveniente desses recursos fica muito aquém das necessidades cotidianas.

28No que toca à comercialização do artesanato, como não existe alternativa de clientela em Laranjeiras do Sul, município com pouca população e saturado como mercado para comercialização artesanal Kaingang, surge a demanda por viajar. Assim, a sistemática de comercialização do artesanato obedece a uma lógica segundo a qual se produz diariamente e, sempre que se conjugam a necessidade de obter renda e a existência de um estoque artesanal suficiente, realizam-se viagens de comércio. Essas viagens aumentam significativamente de número na alta temporada turística, durante a qual os balneários da região se enchem de turistas interessados na aquisição do artesanato. Contudo, especialmente para a Terra Indígena Rio das Cobras, a organização das viagens não obedece apenas a este fluxo temporal. Elas ocorrem com muito maior frequência impulsionadas pela necessidade urgente de renda. Desta forma, as viagens se iniciam por municípios do Paraná próximos, como Pitanga, Cascavel, Guaíra e Guarapuava. Na medida em que estas viagens não atendam à demanda de renda e ao escoamento do estoque aumenta-se a distância e o tempo em viagem. Nesses casos, os indígenas procuram municípios como Tubarão, Florianópolis e Balneário Camboriú (em Santa Catarina), Curitiba e, em menor escala, Porto Alegre e outros balneários nos três estados da região sul.

29Em alusão a este processo, uma fala de um interlocutor Kaingang é bastante ilustrativa da maneira como se pensa essa abrangência: “O pessoal vai campeando, né!? Quando aqui não tá bom para vender, vai indo mais pra lá e avisa os outros e, assim, o pessoal vai indo”.

30A ideia que permeia essa mobilidade é, sem dúvida, a busca pela subsistência, mas foi também mencionado com grande frequência uma certa noção de tradição e mobilidade. Afirmações como a de que é “uma tradição Kaingang” circular livremente pelo território apareceram com regularidade nas argumentações relativas às viagens. Estas mesmas afirmações encontram corroboração na literatura, como verificado. A história de aldeamento forçado dos Kaingang e da restrição territorial e de circulação, mesmo no contexto pós-cabralino, é marginal, datando do fim do século xix, como visto. Assim, mesmo após a chegada da colonização, os Kaingang passaram mais tempo circulando livremente pelo território do que encerrados em reduções, reservas, Terras Indígenas ou qualquer que fosse a designação institucional adotada naquele momento.

31Os relatos dos entrevistados dão conta de que, no passado, os Kaingang contaram com o auxílio de políticos e instituições do poder público para custear suas viagens. No período da pesquisa de campo esse auxílio era mais escasso, predominando o custeio próprio associado a algum tipo de benefício, como o benefício de meia passagem ou similar.

32Esse mesmo imperativo da necessidade contribui fortemente para a presença das crianças nas viagens, embora não seja um fator determinante neste caso. Os artesãos, em grande medida, não se demonstraram dispostos a deixar seus filhos com parentes na aldeia. Na realidade, durante as conversas surgiu uma interpretação que relaciona novamente a experiência das viagens com a formação da pessoa Kaingang. Um cacique Kaingang à época relatou que:

aonde família vai, a criança vai também, né? Inclusive, é, o pessoal diz que o menino quando tá aqui dentro, ele tá perto da mãe, do pai, aprendendo a fazer [o artesanato]. Aí ele sai para aprender a vender para aprender como é que é viajar, então tem que explicar que a cultura é sempre difícil assim para todo mundo. Entendeu?

  • 5 Importante referir que a proposta de incluir o artesanato no currículo da escola decorre, sobretudo (...)

33Deste modo, as viagens revelam também um caráter pedagógico, no sentido de formação da pessoa Kaingang. Na perspectiva narrada pelos indígenas a viagem é uma forma de socialização das crianças. Aprender a fazer o artesanato, a viajar para comercializar, a interagir com o mundo não indígena e efetivamente a comerciar e negociar com os brancos é um processo tido como de grande valor educacional. Se pode corroborar a ideia, inclusive, pelo fato de que a escola indígena tenha incluído o artesanato em seu projeto pedagógico, como narraram diretores e professores da escola.5

4. O sentido do artesanato e da mobilidade

34A perspectiva pedagógica é uma boa conexão para continuar a descrever o processo de atribuição de sentido ao artesanato. Como já mencionado, as viagens em si são vistas como processos de aprendizagem para as crianças Kaingang, o que se torna um fator adicional a corroborar a necessidade de sua presença junto aos pais. Assim, o aprendizado durante as viagens tem relação com o processo segundo o qual a criança aprende as virtudes e os valores necessários à vivência Kaingang no mundo contemporâneo, isto é, a produção social da pessoa.

35Os indígenas entrevistados, por diversas vezes, fizeram alusão a uma ideia de continuidade. A afirmação vai no sentido de que, no passado, as crianças Kaingang acompanhavam os pais em viagens pelo território e durante esse processo aprendiam a caçar, pescar e outras habilidades necessárias à sobrevivência no modo de vida tradicional. Por associação, as viagens atuais teriam o mesmo sentido, mudando apenas as habilidades necessárias à sobrevivência, agora entendidas como competências comerciais e negociais para acessar o mundo e os bens não indígenas. Assim, aprender a vender artesanato, a encontrar um lugar seguro para passar a noite, a circular pelas cidades e a lidar com suas adversidades é visto como um conjunto de habilidades necessárias à existência Kaingang no mundo contemporâneo.

36De tal forma, a narrativa indígena associa o costume das viagens e a comercialização de artesanato à continuidade da tradição, ainda que transformada. Do mesmo modo se poderia dizer que é concebida a própria mobilidade, a circulação pelo território e o senso de pertencimento associado a ela. Nesse caso, o argumento aponta para a concepção de que a circulação Kaingang sempre se deu de forma muito livre, sobretudo na faixa central de um amplo território dominado nos três estados da região sul. Essa circulação se estabeleceu como uma prática por razões espirituais, existenciais e sociais, entre as quais a busca pelos bens e recursos necessários à subsistência.

37O texto de Angelica Domingos e Rosa Fernandes (2022) é riquíssimo em narrativas que corroboram tais ideias. As autoras (uma das quais Kaingang) apontam diversos relatos colhidos em pesquisa etnográfica entre os Kaingang a corroborar a interpretação de que grassaria entre estes indígenas um senso de territorialidade e de mobilidade bastante fluidos neste mesmo território. As autoras afirmam, também com base no material coligido por Lúcio Mota et al. (2000) e Maria Bethonico (2018), que o território se liga à própria humanidade Kaingang (Domingos & Fernandes, 2022, p. 357). As próprias retomadas – instrumento usual de ocupação e, portanto, de luta pelo território (Fernandes & Piovezana, 2015) –, que se encontram em diversas realidades indígenas brasileiras, seriam instrumentalizadas pela mobilidade: “Retomar para caminhar novamente no espaço roubado. É preciso afirmar que é por meio das retomadas que atualizamos nossas resistências, na busca por aquilo que foi esbulhado” (Domingos & Fernandes, 2022, p. 361).

38O sentido de recuperação do território, de fato, não apareceu de forma direta nos relatos de campo coligidos por esta pesquisa. No entanto, esse sentido parece ser encontrável na ideia que relaciona a mobilidade com a tradição. A maioria dos indígenas Kaingang participantes na pesquisa se referiu à ideia de que “é uma tradição Kaingang andar pelo território”. Frases como “meu pai me levava e eu levo meus filhos” apareceram constantemente como forma de descrever e, inclusive, legitimar as viagens, a presença na cidade e o próprio comércio de artesanato. Essa conexão com a legitimação é relevante, pois a circulação dos indígenas pelas cidades é uma atividade fortemente condenada por parcelas da população local, em determinados contextos urbanos tais como os de Florianópolis, Balneário Camboriú, Curitiba e Porto Alegre, entre outros. Assim, importa lembrar sua conexão com a tradição, bem como a ideia de que os territórios atualmente ocupados pelas cidades dos brancos foram outrora territórios de livre circulação Kaingang e de que a mudança imposta pelos brancos jamais foi desejada ou mesmo consentida pelos indígenas. Afirma-se, deste modo, também um direito ao território, ou ao menos à circulação sobre ele, recorrendo à perspectiva da ocupação imemorial.

39Importa lembrar, neste caso, que se lida com populações indígenas fortemente “antropologizadas”, isto é, com imensa facilidade de acesso e elevado grau de incorporação do discurso e das teorias antropológicas sobre eles. De tal forma, não é possível deixar de notar que a narrativa indígena, naquilo que tem de fortemente teórica sobre sua realidade é, em alguma medida, tributária da própria teoria antropológica a seu respeito. Tal observação não pretende desacreditar as falas indígenas ou mesmo lhes atribuir intenções enganosas, mas apenas chamar atenção para sua relevância política e sua apropriação das “armas” que parecem ter maior eficácia no mundo não indígena – isto é, os discursos teóricos da antropologia que, por exemplo, sustentam processos legais, tais como os de demarcação de terras.

40A narrativa indígena sobre a mobilidade no território recorre, portanto, ao argumento da tradição imemorial, regularmente evocado em laudos antropológicos de demarcação de Terras Indígenas, e constante da Constituição Federal Brasileira de 1988. Absolutamente plausível e mesmo verificável na literatura disponível sobre o tema, esta tradição teria em sua atualização o maior instrumento de legitimação disponível. Se todo o empreendimento indigenista, bem como toda a discussão legal (ao menos após a Constituição de 1988) sobre os direitos originários se sustenta sobre a ideia de garantir o direito ao exercício de um modo de vida diverso, nada pode ser mais venerável do que a manutenção da tradição.

41Neste caso, a tradição depende, como surge na argumentação indígena, não apenas da delimitação de uma porção de terra sobre a qual se constrói moradia, mas de um território sobre o qual se constrói um modo de vida. Assim, a noção de territorialidade contínua é fundamental para a manutenção do modo de vida dos Kaingang. Não é possível restringir os limites da circulação deste povo ao território de aldeamento ou de demarcação. Por sua própria tradição, a territorialidade Kaingang seria fluida, atualizando-se no movimento constante e na busca de ampliação de seus limites, em confronto com sua restrição.

42Especialmente interessante neste ponto é a relevância da atividade turística nas novas dinâmicas de mobilidade no território. Como ficou claramente enunciado nas narrativas indígenas durante a pesquisa, busca-se, nas viagens, o melhor resultado para o comércio. Esta eficácia é mais facilmente alcançada nos grandes destinos turísticos. Com efeito, são os turistas aqueles que têm maior interesse no artesanato Kaingang enquanto souvenir a atestar o valor simbólico da experiência turística (Urry, 2001). Este seria, afinal, um dos mais potentes símbolos a ser exibidos para fornecer os benefícios estatutários, por assim dizer, da condição de turista. O artesanato é o signo que o turista exibe em seu local de origem, a atestar a “nobreza” da experiência turística.

43Por outro lado, o desejo do turista se direciona para a busca de uma ideia de autenticidade (MacCannell, 1999). Para essa visão de autenticidade, o indígena prototípico seria aquele encontrado nas aldeias nu e falante de um idioma desconhecido. Como tal estereótipo dificilmente será condizente com qualquer realidade identificável no Brasil contemporâneo, a busca de autenticidade turística é também um dos elementos que motivam a manifestação contra a presença indígena na cidade. A perspectiva de degradação associada ao indígena na cidade, fora de sua aldeia prototípica original, vestindo-se como “os brancos” e apresentando um comportamento – o comércio – tido como “dos brancos”, reduz o valor simbólico que lhe é atribuído no mercado turístico.

44De tal modo, o turismo é uma força bivalente neste contexto do comércio do artesanato indígena. Por um lado, a valorização do artesanato pelos turistas é um elemento importante na disputa simbólica e política dos Kaingang pela ocupação do território urbano. O turista é aqui um legitimador e, além do mais, um agente a colaborar para o aumento do prestígio indígena. Por outro lado, a busca do turista pela autenticidade estereotípica funciona, no outro polo, deslegitimando-os. A presença do indígena no contexto urbano, quando não corresponde ao estereótipo esperado, leva o turista a se juntar ao discurso local para corroborar a concepção de que o lugar destes indígenas seria em aldeias remotas “para seu próprio bem”.

Alguma teoria sobre a mobilidade indígena Kaingang no contexto turístico à guisa de conclusão

45De seguida, pretende-se tentar conectar alguns pontos. O primeiro ponto diz respeito à relação entre as preocupações do órgão indigenista oficial e a percepção indígena do tema. A preocupação fundamental da Funai, seguida pelos Ministérios Públicos dos três estados da região sul do Brasil e de diversos órgãos de gestão pública estadual e municipal, se relaciona com as possíveis situações de vulnerabilidade vivenciadas pelos indígenas e, sobretudo, pelas crianças indígenas no contexto destas viagens. Tal preocupação foi amplamente manifestada pelos órgãos de política pública, com destaque para as cidades e órgãos municipais. Em 2019, era também um dos temas mais recorrentes a respeito dos Kaingang na ouvidoria da Funai.

46Contudo, é digno de nota que o mesmo tipo de preocupação parece não estar presente para estes mesmos órgãos no que diz respeito aos indígenas e crianças nas aldeias. Como se espera ter havido ocasião de demonstrar, uma das principais motivações para as viagens indígenas Kaingang pelas cidades a fim de comercializar o artesanato é a questão de subsistência financeira. Como se demonstrou, os Kaingang são impulsionados para as cidades, em alguns casos de maneira quase compulsória, para obter sustento – isto é, saldar dívidas e obter crédito a fim de custear as necessidades alimentares junto a estabelecimentos comerciais. Essa preocupação, embora presente nas intenções do órgão indigenista oficial, parece não ser partilhada na mesma medida pelas demais instâncias do poder público estadual e municipal envolvidas. Uma das conclusões que se pode tirar da situação é que, afinal, a situação que mais preocupa – com exceção da Funai que parece se interessar por ambas – é a vulnerabilidade dos indígenas, mas apenas nas cidades. A situação indígena nas aldeias é pouco questionada por quaisquer dos atores com os quais se interagiu durante a pesquisa, apesar de ser significativamente adversa aos indígenas e constituir também uma situação de vulnerabilidade.

47De tal modo, os indígenas entrevistados durante a pesquisa pareceram ter outra ordem de preocupações com a questão. Embora muitos deles tenham concordado com o fato de a situação nas cidades estar longe de ser a ideal, os seus argumentos abrangem pelo menos duas questões consideradas mais relevantes. Em primeiro lugar, consideram que as condições ruins nas cidades são falta de ação de poder público e não uma questão inerente à sua presença. Em segundo lugar, consideram que a situação vivida nas cidades é “um mal necessário” para dar conta de um problema mais urgente, a subsistência cotidiana. A solução inicial pareceu, portanto, lógica e simples em determinado momento. De um lado, se deveria melhorar as condições de permanência nas cidades, como estratégia emergencial, enquanto, de outro, se trabalharia na questão de fundo, ou seja, resolver a situação de subsistência nas aldeias que, por raciocínio lógico, levaria à cessação das viagens. Contudo, ao se investigar o tema, a complexidade da questão voltou a se evidenciar.

48Quando questionados, a maior parte dos indígenas respondeu que ter melhores condições de subsistência em Rio das Cobras, embora urgente, não mudaria – ou mudaria muito pouco – a situação das viagens aos meios urbanos para o comércio de artesanato. A explicação para esse fato, na visão dos Kaingang, estaria na tradição. Como se teve ocasião de demonstrar, muitos indígenas consideram que circular pelo território, buscando as condições de subsistência ideais, é um elemento da tradição. Diversos foram os relatos que dão conta de que os indígenas do presente apenas reproduzem com os filhos o que viveram e aprenderam com os pais e estes com seus antepassados. Dito de forma simples o entendimento é que circular pelo território é “coisa de Kaingang”.

49Os relatos indicam que esta seria uma forma de educar as crianças, constituindo elemento da própria indianidade Kaingang. Também se aponta para a questão do cuidado: os pais, compelidos a viajar pela necessidade de subsistência, consideram que o melhor lugar para as crianças é junto a eles. Ademais, a experiência da viagem e os aprendizados junto ao mundo dos brancos seriam fundamentais, parte do legado Kaingang a cada criança. Assim, muito além de uma simples necessidade de subsistência, as viagens seriam formas de exercício da socialidade Kaingang e, portanto, elementos não eletivos. Essa leitura é corroborada pela literatura que, conforme visto, indica que os Kaingang, até o século xix, circularam de maneira franca pelo território e, posteriormente, embora os embaraços tenham crescido progressivamente, seguem fazendo-o.

50De tal modo, uma das leituras que emerge da análise da situação diz respeito à relação entre a mobilidade Kaingang e a compreensão do sentido de território, bem como à sua defesa. Nessa perspectiva, o território Kaingang é o chão onde se pisa ao circular, e a permanência dos deslocamentos é uma forma de resistência ao continuado esbulho deste território pelos brancos. Tal raciocínio, se não foi expresso exatamente com essas palavras, apareceu abundantemente nos relatos Kaingang sobre o tema. A ideia de que andar pela terra “é da tradição”, de que “os meus pais me levavam e eu levo meus filhos” e ainda de que “a terra é dos índios” são afirmações constantemente repetidas. Deve-se, consequentemente, levar à sério tal raciocínio e buscar dele extrair uma conclusão analítica.

  • 6 Alude-se aqui à discussão constitucional que alcançou o Supremo Tribunal Federal e envolve também o (...)

51Os Kaingang sabem que afirmar o direito ao território encontra albergue na legislação brasileira, ainda que as discussões recentes sobre o marco temporal ameacem embaralhar o problema.6 Como indígenas profundamente envolvidos com o universo dos brancos, com a discussão legal e com as contribuições da Antropologia para o tema, os Kaingang têm perfeita consciência da relevância política do argumento e o utilizam de forma estrategicamente informada e politicamente organizada para fazer valer seus direitos. A partir de tal ordem de percepções, o que os Kaingang informam é uma leitura clara de seus direitos e uma reivindicação efetiva em relação ao seu direito à mobilidade: não desejam ter as viagens impedidas ou mitigadas, mesmo em troca de melhores condições nas aldeias. Reivindicam melhores condições para seguir viajando e, ao mesmo tempo, assegurar seu direito à permanência em qualquer parte do que sempre foi seu território.

52O fato de ser este um raciocínio politicamente orientado não o aproxima de qualquer falseamento, apenas o contextualiza com a ordem do dia. Está claro que a percepção indígena, na continuidade do que ocorreu até o século xix, compreende todo o território em que circula como seu, contestando o esbulho de suas terras a partir da insistente permanência nela. Novamente, não é um elemento que possa ser encarado como novo tanto na etnologia Kaingang quanto na etnologia indígena brasileira contemporânea. São inúmeros os relatos e teorizações sobre as retomadas de terra como estratégia de resistência, contestação do esbulho e reivindicação de direito.

53A modalidade circular de afirmar essa retomada simbólica parece ser uma especificidade já estudada da questão Kaingang, embora também não seja única e exclusiva na realidade indígena no Brasil e alhures. Circular pelo território, desde uma percepção ameríndia, é uma das únicas formas de assegurar o direito e a posse do mesmo, tal se percebe nos diversos processos de demarcação em áreas contínuas na Amazônia brasileira. O único elemento que parece obstar essa modalidade nas terras indígenas do leste brasileiro parece ser justamente a presença mais antiga, numerosa e politicamente potente dos brancos no território. Assim, é antes o esbulho pós-colonial que impede uma afirmação clara da necessidade de demarcação contínua das terras indígenas do Leste do que a imposição de uma percepção mais ensimesmada do território entre esses indígenas.

54Desta forma, seria possível concluir que a presença Kaingang nas cidades, relacionada à comercialização de artesanato no contexto da atividade turística, extrapola imensamente a mera instrumentalidade comercial de tais relações. A julgar pelos relatos coligidos, pela observação em campo – com todas as suas limitações – e pelo cotejamento da literatura, o processo estudado tem raízes mais profundas. Trata-se de um processo, ainda pendente de estudo mais aprofundado e continuado, com vista à constituição de uma estratégia política específica de afirmação de direitos. Estar presente, circular pelo território e marcá-lo com os pés é uma forma Kaingang de afirmar pertença e direito e de constituir identidade e socialidade. De tal forma, não há no horizonte expectativa de ver cessar tal movimento e nem os Kaingang parecem desejar tal interrupção.

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Notas

1 A ação se iniciou tendo como lócus o Terminal Integrado do Saco dos Limões em Florianópolis, área pública abandonada em 2005 e ocupada pelos Kaingang durante a sua permanência na cidade, sobretudo na alta temporada. Em 2016, o MPF-SC acionou a Prefeitura de Florianópolis, tendo a Funai como corré, buscando atribuir às mesmas a obrigação de construir uma casa de passagem indígena no local. A ação se desenrola até a atualidade. Já houve no processo cumprimento provisório de sentença, o que equivaleria à condenação da Prefeitura de Florianópolis e da Funai e levaria à construção da dita casa de passagem, bem como acordo da Prefeitura de Florianópolis para se responsabilizar por realizar melhorias no Terminal Integrado do Saco dos Limões. A última decisão registrada na ação no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região disse respeito à ordem de cumprimento deste acordo que, nas palavras constantes da decisão, considerou que a Prefeitura de Florianópolis vinha buscando “procrastinar o feito e deixar de cumprir as determinações deste juízo”. A mesma sentença constatava a ausência de ação da Prefeitura no sentido de construção da casa de passagem.

2 Lúcio Mota (2008) relata diversos registros e evidências de presença indígena na região chegando a remontar 8000 anos, embora obviamente não seja possível ou adequado referi-la Kaingang. Estes dados, contudo, pertencem à discussão mais propriamente arqueológica e tem pouco interesse para a discussão em tela, a não ser o de retomar o argumento da ocupação imemorial do território.

3 Reduções ou missões jesuíticas eram aldeamentos organizados pela Companhia de Jesus.

4 É de seu período no governo a publicação do Decreto Estadual 13.722 de 19 de janeiro de 1951, responsável por uma radical redução das áreas das terras indígenas do estado do Paraná: muitas terras tiveram seu território reduzido em 90% e outras foram extintas.

5 Importante referir que a proposta de incluir o artesanato no currículo da escola decorre, sobretudo, da busca de uma forma de lidar com a ausência das crianças da escola para participar das viagens, mas o processo de sua inclusão nos projetos pedagógicos recorreu ao argumento educativo enunciado pelos próprios Kaingang.

6 Alude-se aqui à discussão constitucional que alcançou o Supremo Tribunal Federal e envolve também o Parlamento brasileiro a respeito da garantia do direito territorial. Segundo a chamada tese do marco temporal só se deveria garantir aos indígenas direitos territoriais relativos a áreas efetivamente ocupadas de 1988 (ano de promulgação da Constituição que enuncia tais direitos) em diante. Tal tese, por consequência, ignora todo o processo colonial e de esbulho de terras indígenas, buscando afirmar que os direitos só se garantem a partir da Constituição de 1988. Obviamente tal tese interessa diretamente àqueles que disputam posse de terras com indígenas no Brasil, incluindo toda sorte de interesses privados no setor agrícola e mesmo fora dele. Estes interesses encontram representantes no sistema político e fazem ressoar fortemente sua proposta em face da frágil representatividade indígena no mesmo sistema político nacional.

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Para citar este artigo

Referência do documento impresso

Sandro Campos Neves, «Mobilidade e territorialidade indígena Kaingang no Paraná, Brasil: a comercialização do artesanato no contexto da atividade turística»Revista Crítica de Ciências Sociais, 139 | -0001, 167-186.

Referência eletrónica

Sandro Campos Neves, «Mobilidade e territorialidade indígena Kaingang no Paraná, Brasil: a comercialização do artesanato no contexto da atividade turística»Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 139 | 2026, publicado a 22 junho 2026, consultado a 14 agosto 2026. URL: http://journals.openedition.org/rccs/18751; DOI: https://doi.org/10.4000/16g7z

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Autor

Sandro Campos Neves

Departamento de Geografia, Humanidades e Turismo, Universidade Federal de São Carlos
Rod. João Leme dos Santos, CEP: 18052-780, Sorocaba - SP, Brasil
Contacto: sandrocamposneves@ufscar.br
orcid:
https://orcid.org/0000-0001-7405-515X

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