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Tradução, circulação e geopolítica do conhecimento na história da geografia

Conexões Geogr“Áfricas” no Brasil

Conexiones Geogr“Áfricas” en Brasil
Geogr“Africans” Conexions In Brazil
Connexions Geogr“Afriques” au Brésil
Paulo Eduardo Rolim Campos e Thiago de Abreu e Lima Florencio

Resumos

No rastro dos geógrafos Milton Santos e Josué de Castro, o objetivo deste artigo é reunir evidências das conexões de geógrafos africanos com a ciência geográfica brasileira, chamando atenção não apenas para a necessidade de reconhecer a memória e trajetória desses sujeitos, mas também descontruir a matriz de pensamento hegemônico que organiza e sistematiza a memória da ciência geográfica brasileira no tempo presente. Analisaremos, num primeiro momento, a simbólica e surpreendente presença do africano John Otonba Payne (1839-1906) na recém-criada Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro ao longo dos últimos anos do período imperial brasileiro. Entrando na contemporaneidade, seguiremos com a figura de Akin Mabogunje (1931-), geógrafo nigeriano que foi professor-visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

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Considerações iniciais

1A construção da ciência geográfica no Brasil a partir dos anos de 1930 foi forjada pela influência de intelectuais europeus e estadunidenses (Machado, 2000). No entanto, há um contexto contemporâneo de afloramento de múltiplas demandas reprimidas, especialmente aquelas referentes à necessidade de descolonizar as matrizes hegemônicas do pensamento ocidental (Mignolo, 2008). No caso da Geografia, ainda são poucos os estudos que se aprofundam na discussão da importância que determinados geógrafos fora do eixo hegemônico europeu e estadunidense tiveram na dissolução dos impérios coloniais e suas matrizes de pensamento. Esses geógrafos foram fundamentais na descolonização dos países africanos e asiáticos, assim como na formulação de novas perspectivas no campo da descolonização dos saberes geográficos (Clayton e Klumar, 2019). Nesse sentido, faz-se necessário levar a cabo o processo de reparação para ocupar o vazio conceitual e bibliográfico na produção científica nacional, além de apresentar e afirmar a presença do pensamento gestado a partir do continente africano como parte do processo de construção do conhecimento geográfico.

  • 1 No período entre 1961 e 1968 foram mantidos professores brasileiros nas Universidade de Ibadã (Nigé (...)

2Entre janeiro e agosto de 1961, período do mandato presidencial de Jânio Quadros (1917-1992), foram realizadas ações que deflagraram a aproximação diplomática entre o Brasil e as nações africanas recém-libertas da colonização (FUNAG, 2006). Entre essas ações estava a criação do Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, que tinha o objetivo de promover o intercâmbio universitário1 entre o Brasil e os países africanos e asiáticos (Brasil, 1962). Outra ação adotada foi a reorganização institucional do Ministério das Relações Exteriores – com a criação da Divisão de África, responsável pelo estudo, elaboração e execução de estratégias de aproximação com as nações do continente africano. Isso culminou com a instalação das primeiras embaixadas em países do continente africano: Acra (Gana), Dacar (Senegal) e Lagos (Nigéria). A escolha dos locais, segundo Penna Filho e Lessa (2007), foi estratégica: Dacar exercia influência em toda a África de colonização francesa e era um grande centro intelectual. A Nigéria era considerada um parceiro comercial em potencial por ser um país populoso e rico. Já Gana, por sua grande expressão política – o país foi o primeiro a se tornar independente –, ensaiava uma gestão socialista e era o principal centro difusor de um ideal panafricanista (Dantas, 1965).

  • 2 Sobre o episódio, ver África Difícil (Missão Condenada: Diário) (1965). Publicação de autoria de Ra (...)

3A experiência política que era levada a cabo em Gana credenciou-a a receber uma das primeiras embaixadas. Outro ato carregado de simbolismo foi a nomeação de um embaixador negro para o posto.2 O presidente Jânio Quadros convidou primeiramente o geógrafo Milton Santos (1926-2001), mas, por causa de compromissos firmados anteriormente na França, ele não pode aceitar o convite (Santos, 1989). Ainda assim, quando do seu retorno ao Brasil, ele se tornou membro de uma missão diplomática a alguns países da África Ocidental. Segundo Machado (2011), essa missão possibilitou que Santos estabelecesse vínculos com movimentos de descolonização daquele continente.

  • 3 Jânio enviou também à África duas missões. A primeira delas era chefiada pelo Embaixador Extraordin (...)

4Infelizmente pouco se sabe sobre o contexto dessa missão. No entanto, um fato interessante e pouco conhecido é apresentado por Visentini (2016), que faz menção à ocorrência de uma Missão Diplomática para a África.3 Entre outras ações, essa missão realizou reuniões com representantes do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) em Conacri – capital da Guiné – no início da década de 1960. Não se pode afirmar se a missão acima corresponde à segunda ida de Santos à África, mas, no artigo Nossos irmãos africanos (Santos, 1962), o autor menciona passagens por Senegal, Togo, Daomé (atual Benin), Costa do Marfim e Gana, coincidindo com parte dos países mencionados por Visentini (2016).

5O artigo escrito por Santos tem um caráter de manifesto, carregado pelo sentimento de pertencimento. O autor desabafa de forma genuína, significante e profunda sobre o reconhecimento de sua ancestralidade a partir de uma reverência explícita aos seus antepassados, mesmo desconhecendo sua árvore genealógica. Já a significância reside na percepção acerca de um pacto de cooperação do mundo negro, pautado especialmente no princípio da solidariedade entre a África e a América. Nele, o autor afirma publicamente um compromisso para com a irmandade africana com o objetivo de superar as feridas da colonização.

6Faz-se necessário deixar claro que, em seu livro Marianne em Preto e Branco (Santos, 1960), Santos apresenta impressões daquela que foi sua primeira viagem ao continente africano. Suas percepções são extremamente conservadoras e não suscitam reflexão acerca do nada fraterno regime colonialista. Tal comportamento pode ser atribuído ao fato de a missão científica que participava ser financiada pelo governo francês (Cirqueira, 2020). O fato é que o geógrafo não aborda as relações políticas e sociais entre os países africanos que visitou (Senegal, Guiné, Costa do Marfim e Mali) e a França.

7Outro geógrafo que teceu relações com a irmandade africana foi Josué de Castro (1908-1973), tendo ao longo de toda sua vida exercido um compromisso humanista mais amplo, o que o levou a se engajar também na luta anticolonial africana. Castro discorreu sobre Geografia da Fome (Castro, 1946), A coexistência política e a paz (Castro, 1955), Pan-americanismo (Castro, 1957), Lixo atômico (Castro, 1959), Solidariedade a Cuba (Castro, 1960a), estas eram algumas das questões sobre as quais ele se posicionava publicamente. Sua produção intelectual influenciou ninguém menos que o psiquiatra afro-caribenho, teórico da descolonização e panafricanista, Frantz Fanon (1925-1961) em seu clássico Os Condenados da Terra (Fanon, 1968):

Hoje, a independência nacional, a formação nacional nas regiões subdesenvolvidas assumem aspectos totalmente novos. Nessas regiões, excetuadas algumas realizações espetaculares, os diversos países apresentam a mesma ausência de infraestrutura. As massas lutam contra a mesma miséria, debatem-se com os mesmos gestos e desenham com seus estômagos encolhidos o que se poderia chamar de geografia da fome. (Fanon, 1968: 76)

8Embora Fanon (1968) não faça referência explícita à obra de Castro, é pouco provável que não tenha nela se apoiado para tomar emprestada a expressão geografia da fome (Araji, 2014). Basta ver que Geografia da Fome (Castro, 1946) foi publicada na França, ainda em 1949, sob o título de Géographie de la Faim (Castro, 1949). Portanto, 12 anos antes de Les damnés de la terre (Fanon, 1961), título original de Os Condenados da Terra (Fanon,1968). Castro também foi à França participar de conferências junto a outros pensadores, em apoio à libertação da Argélia (Castro, 1960b), país no qual Fanon se radicou. Entre os intelectuais franceses com os quais Castro mantinha estreita relação, estava o filósofo francês Jean Paul-Sartre (1905-1980) (Castro et al., 2007). Assim, não se deve descartar a possibilidade concreta de Castro e Fanon terem estabelecido algum contato pessoal, uma vez que Sartre também era próximo de Fanon, sendo inclusive autor do prefácio de Os Condenados da Terra (Fanon, 1968).

  • 4 A Argélia foi ocupada por forças francesas entre 1830 e 1962.
  • 5 Youssef Benkhedda participou ativamente na luta de libertação da Argélia. Chegou a exercer posições (...)

9Josué de Castro chegou a ser deputado federal, e, de maneira oportuna, usou o Congresso Nacional para proferir discursos em favor da soberania dos povos africanos. Em Tropas no Oriente Médio (Castro, 1956), o deputado denuncia agressões de França e Inglaterra ao Egito; em Contra o racismo na África do Sul (Castro, 1960c), ele condena o regime de segregação racial levado a cabo naquele país; já em Independência da Argélia (Castro, 1960b), o intelectual conclamou a Presidência da República a votar em favor da Argélia4 na eminente reunião da Organização das Nações Unidas (ONU), que votaria o direito de autodeterminação daquele país. Castro integrava um pequeno grupo de brasileiros que mantinha contato com rebeldes argelinos da Frente de Libertação Nacional (FLN), tendo inclusive recepcionado no Rio de Janeiro, em 1960, lideranças da FLN, entre elas Youssef Benkhedda (1920-2003) (Araújo, 2017).5

10No rastro dos geógrafos Milton Santos e Josué de Castro, o objetivo deste artigo é reunir evidências das conexões de geógrafos africanos com a ciência geográfica brasileira, chamando atenção não apenas para a necessidade de reconhecer a memória e trajetória desses sujeitos, mas também descontruir a matriz de pensamento hegemônico que organiza e sistematiza a memória da ciência geográfica brasileira no tempo presente. Analisaremos, num primeiro momento, a simbólica e surpreendente presença do africano John Otomba Payne (1839-1906) na recém-criada Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro ao longo dos últimos anos do período imperial brasileiro. Entrando na contemporaneidade, seguiremos com a figura de Akin Mabogunje (1931-), geógrafo nigeriano que foi professor-visitante na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

John Otonba Payne: um africano na Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro

  • 6 De agora em diante SGRJ.

11No dia 08 de maio de 1886, John Augustus Payne (1839-1906) proferiu uma palestra na recém-criada Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (SGRJ, 1886).6 O jornal Gazeta de Notícias assim divulgou o encontro: “Sessão extraordinária, honrada com a augusta presença de sua Magestade o Imperador (...) Conferencia do ilustre Geographo Africano Mr. John Augustus Payne (“Conferência do Ilustre Geographo africano John Augustus Payne”. Gazeta de Notícias, 7 de maio de 1886)”. Este foi um dos raros momentos, se não o único na história do Império brasileiro, em que um africano foi recepcionado para palestrar e tinha na plateia ninguém menos que o próprio Imperador D. Pedro II. Considerando o período histórico, fortemente marcado pelas teorias cientificistas em torno da inferioridade da raça negra e do primitivismo africano, esse encontro é, no mínimo, surpreendente. Qual seria o interesse da recém-criada SGRJ em conferir o título de sócio correspondente ao africano John Payne?

12Antes de responder a essa pergunta, cabe situar o contexto de criação da SGRJ, que nasceu em 1883 a partir de uma cisão com a Sociedade de Geografia de Lisboa, cuja filial fora instalada no Brasil em 1876. O movimento de institucionalização da ciência geográfica no Brasil estava ligado a

(...) novas correntes ideológicas [que] apregoavam a supremacia da civilização europeia ocidental. A defesa da superioridade da raça branca assegurava meios de civilizar os povos, reprimindo-os pelos mecanismos de submissão e pela eliminação das raças consideradas inferiores. Por conseguinte, os conceitos disseminados pelos teóricos do darwinismo social, e devidamente apropriados pelos interesses mercantis das grandes potências, que visavam a expropriação e a exploração econômica dos territórios africanos. A Seção do Rio de Janeiro, ao que tudo indica, pretendia desenvolver uma política de continuidade em relação à matriz. Percebia o Brasil como um prolongamento do Império ultramarino. (Cardoso, 2015: 31)

13Desejosos de ver as pesquisas da Sociedade mais voltadas aos interesses nacionais, parte de seus integrantes cria, em 1883, a Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (SGRJ). A recém-fundada SGRJ seguia uma pauta ideológica derivada do “movimento colonial em marcha nos Oitocentos, um período marcado pelo predomínio do imperialismo econômico” (Cardoso, 2015:71).

14De volta à pergunta: qual seria o interesse da recém-criada SGRJ em conferir o título de sócio correspondente ao africano John Payne? Pretendemos respondê-la acompanhando a trajetória múltipla de Payne, que transita entre uma nascente cena intelectual lagosiana (atual Nigéria), articulada internacionalmente através das redes abolicionistas e panafricanas, ao mesmo tempo em que é marcada por uma complexa trama colonial e imperialista entre Inglaterra, Brasil e o protetorado britânico de Lagos.

15Payne era um homem múltiplo. Apresentado como geógrafo pela imprensa brasileira, ele foi membro de diversas sociedades científicas, dentre as quais, a Sociedade de Geografia da França, o Instituto Africano de Paris, o Real Instituto Colonial de Londres, o Instituto Rainha Victoria e a Sociedade Filosófica da Grã-Bretanha, além de sócio correspondente da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, título que lhe foi concedido após a conferência que proferiu em sua vinda ao Brasil no ano de 1886 (SGRJ, 1886: 232). Payne também foi autor de importantes publicações sobre história e cultura iorubá, com destaque para Table of principal events in Yoruba history with certain other matters of general interest compiled for use in the courts within the British colony of Lagos (Paynes, 1893) e o famoso Payne’s Lagos & West African Almanack and Diary (Paynes, 1873-1894), além de redator de jornais lagosianos, a exemplo de The Eagle e Lagos Critics. Além disso, Payne trabalhou como funcionário colonial britânico e ocupou importantes cargos administrativos na colônia de Lagos (atual Nigéria).

16A Revista da SGRJ transcreveu os discursos proferidos em sessão extraordinária para conferir a Payne o título de sócio correspondente. Joaquim Abílio Borges – filho do famoso abolicionista Abílio Borges, fundador do Colégio Abílio, onde foram formados os principais abolicionistas brasileiros, a exemplo de Rui Barbosa, Castro Alves e Vicente Souza – foi quem entregou o título a John Payne:

(...) e, dando-vos shake hands da despedida, peço-vos que na Inglaterra e nos outros paizes que percorrerdes, e depois em vossa pátria, quando a ella volverdes, proclameis convicto que no Imperio do Brazil estão contados os poucos dias de existência da nefanda e condemnada instituição, e isso sem grande abalo na economia interna do Império, e sem ser necessario as lutas intestinas, como tem succedido em outros paizes. (SGRJ, 1886: 250)

17Esse trecho evidencia o interesse da presença de Payne na SGRJ: contribuir para a causa abolicionista. A entrega do título pelas mãos de Joaquim Abílio Borges pode ser associada a uma dupla estratégia abolicionista inaugurada por seu pai, que consistia em realizar “cerimônias cívicas” para fortalecer a propaganda abolicionista, e a estratégia do “método bumerangue” inauguradas por Abílio Borges em 1866, “apoio externo contra resistência interna” (Alonso, 2015:202). Na sequência desta entrega simbólica, que conclama Payne a aproximar sua rede abolicionista dos esforços emancipacionistas brasileiros, Joaquim Abílio saúda a presença do Imperador Dom Pedro II, “Vossa Magestade Imperial, universalmente conhecido como o primeiro apóstolo da redempção dos captivos no Brazil, consagro respeitoso as ultimas palavras desta allocução” (SGRJ, 1886:250), pressionando-o a envolver-se definitivamente nesta causa. Não vai tardar para que o Imperador ceda à pressão: exatos dois anos depois, em maio de 1888, seria abolida a escravidão no Brasil.

18Há outras redes que se movimentam, entretanto, na vinda de Payne ao Brasil. Antes mesmo da conferência, ele participou de um encontro com “os descendentes da raça africana”, conforme noticiado no Diário de Notícias.

19Em sessão solemne, reuniram-se no dia 06 do corrente, na rua do Senhor dos Passos, n. 161, os descedentes da raça africana, afim de solemnisarem a passagem do nosso ilustre hospede Mr. Payne. Presidindo a festa o Sr. Gil Moreira, alumno da Escola Polytechnica, servindo de secretários os Srs. Felippe Barbosa da Costa e Pedro Matheus Junior, alunos da Faculdade de Medicina. A comissão, composta dos Srs. Gil Moreira, Fellipe da Costa, P. Matheus Junior, Estevão Silva, Frederico Barros e Antonio Moutinho, ofereceu-lhe um quadro contendo os seus retratos, tendo no centro uma carta de saudação. (Diário de Notícias, 09 de maio de 1886, grifo nosso)

20A julgar pela presença de estudantes da Escola Politécnica, é provável que estivesse envolvido nesse encontro, ainda que indiretamente, a liderança negra André Rebouças, então professor desta instituição. A julgar também por uma nota do jornal Gazeta da Tarde, cujo proprietário era José do Patrocínio, outra importante liderança negra abolicionista, podemos presumir que esse encontro tenha sido articulado entre eles, já que o jornal revela que “John Payne esteve conosco algum tempo” (Gazeta da Tarde, 27 de março de 1886) antes de sua palestra na SGRJ. Nessa nota, o jornal ressalta ainda a admiração pela forma “correta, patrioctica com que ele fala das cousas de seu paiz, deste paiz que a civilisação ingleza colonizou sem escravizar, que adaptou às suas leis sem contudo destruir no espírito nacional as forças ethnicas de que carecem as nações para o seu desenvolvimento e o seu prestígio” (“John A. Payne”, Gazeta da Tarde, 27 de março de 1886). Exageros à parte, no que se refere à “civilização inglesa”, vale ressaltar a aproximação que os abolicionistas negros estabelecem em relação a Payne pela clave do pertencimento étnico. As “forças ethnicas” seriam fundamentais para o “desenvolvimento e prestígio” da nação, que deve ser pensada aqui para além dos interesses do Estado-Nação e da luta abolicionista. Ao se declararem “descendentes da raça africana” e ressaltarem a importância da continuidade das “forças ethnicas”, os abolicionistas negros ampliam a pauta de seus embates sociais para a luta contra as distintas formas de opressão racial. Independentemente do fim da abolição, o regime de terror racial persistiria. Os abolicionistas negros pareciam saber disso.

21De fato, essa pertença étnica é acentuada em outra nota de jornal, traduzida e replicada no Almanaque de Payne, que relata o mesmo encontro e ressalta novamente o seu pertencimento étnico-racial:

  • 7 Original: “The black coloured youth of this city, who has always followed the evolutive progress of (...)

22A juventude negra desta cidade, que sempre acompanhou o progresso evolutivo das mais avançadas nações, com o intuito de solenizar a passagem de tão ilustre senhor, nativo das regiões africanas, resolveu lhe oferecer essa foto como prova de grande admiração e consideração por seu talento. Homenagem a John Augustus Payne – Saudação ao primeiro homem negro que, em sua chegada a nosso país, soube como imprimir em nossas mentes o respeito e a admiração. (Payne, 1887: 143, grifo nosso)7

  • 8 Original: “The meeting was afterwards succeeded by a ball wich was kept up with ardour until half p (...)

23Esse encontro demonstra as ações estratégicas de luta emancipatória dos povos negros da diáspora, que criam grupos associativos e redes de solidariedade numa perspectiva do Atlântico Negro, conceito de Paul Gilroy que nos ajuda a compreender as organizações rizomáticas da diáspora negra, que devem ser entendidas mais pela dinâmica dos fluxos atlânticos do que pelos limites territoriais da nação. Daí a importância de fugir da noção de identidade em sua perspectiva de raiz (roots) para pensá-la como processo de movimento e mediação (routes) (Gilroy, 2001: 65). Ainda na chave analítica de Gilroy, para quem a música funcionou como veículo fundamental de organização das estruturas de sentimento e resistência dos negros da diáspora, vale ressaltar que o encontro foi seguido de um baile que durou até 3h30min, com presença da “banda do quarto regimento da infantaria, [que] tocou excelente música na ocasião” (Payne, 1887, 143, grifo nosso).8 Vale lembrar ainda a importância das bandas militares como lugar de organização dos músicos negros libertos na cidade do Rio de Janeiro, cuja fusão rítmica ajuda a compreender a formação de ritmos afro-brasileiros como o choro, a exemplo da trajetória do músico negro Anacleto de Medeiros na banda do Arsenal de Guerra e do Corpo de Bombeiros (Junior, 2017).

24Fica evidente a distância narrativa entre a articulação abolicionista negra (Albuquerque, 2018:348), em torno de lideranças como Rebouças, Patrocínio e Vicente de Souza, e o “abolicionismo de elite” (Alonso, 2015) da SGRJ. Embora caminhassem juntos, esses indivíduos e grupos possuíam diferenças. A trajetória negra de Rebouças e Patrocínio congrega pensamentos e ações em torno do reconhecimento de Payne como liderança negra e africana, muito mais do que um súdito do Império britânico.

  • 9 Diversos trechos dos discursos acentuam a surpresa de estarem diante de um africano “civilizado”.

25É notável a diferença de perspectiva se formos comparar a articulação do abolicionismo negro através dos jornais abolicionistas como Gazeta da Tarde e Diário de Notícias, com os discursos publicados pelos membros da SGRJ sobre a vinda de Payne. A primeira diferença se refere ao fato de a SGRJ não ter publicado a palestra de Payne, contentando-se em transcrever apenas os discursos dos dois responsáveis por sua apresentação. O jornal de José do Patrocínio, por sua vez, não apenas noticiou amplamente a vinda de Payne como traduziu e publicou um trecho do seu Almanack (Décimo terceiro prefácio, Gazeta da Tarde, 28 de abril de 1886). Reconhecimento referente ao valor de sua trajetória e de sua obra. O abolicionismo de elite parece mais interessado em Payne por sua condição de súdito do Império britânico e membro de uma colônia inglesa em África. Embora os discursos reconheçam a trajetória de Payne e sua condição intelectual,9 colocando-se como ouvintes desejosos em aprender a especificidade histórica e cultural dos africanos, fica sempre a impressão de que o valor de Payne está no fato de ele ter se aberto à educação e colonização inglesas. Embora não endossasse o discurso do racismo científico tão em voga nesse período, o discurso de Joaquim Abílio Borges reproduz uma série de estereótipos referente aos negros e ao continente africano, já que afirma existir um “atrazo intelectual e moral dos povos africanos” (SGRJ, 1886: 239), referindo-se a estes como “immensa população, igualmente negra na côr e nas trevas da ignorância” (SGRJ, 1886: 236).

26O abolicionismo de elite reconhece Payne como interlocutor, mas ainda o aprisiona ao grau de inferioridade e primitivismo, critérios vinculados aos princípios hierárquicos de raça. O orador Joaquim Abílio Borges, antes de entregar o título de sócio a Payne, se coloca como porta-voz do progresso deste povo, reproduzindo a matriz colonial de poder/saber (Quijano, 2005):

A mais bella missão a realizar é estudar aquelles povos, procurar conhecer suas necessidades; persuadil-os de que só desejamos o bem; convencel-os da grandeza e das vantagens da civilisação; ensinar-lhes o processo da cultura, a arte de explorar os minérios metallurgicos, as jazidas de hulha, e inicial-os nos trabalhos da industria; é preciso antes de tudo abolir de vez a escravidão — dar-lhes autonomia, respeitando os seus direitos. (SGRJ, 1885: 242)

27Enquanto o grupo da SGRJ pretende estudar, conhecer, persuadir e convencer os africanos da importância de serem iniciados a esse novo modelo de produção do capitalismo industrial, os abolicionistas negros pensam em como articular uma rede de solidariedade étnico-racial e organização política para a definitiva abolição da escravidão e de suas práticas de terror racial e subjugação. Esse trecho termina por evidenciar o interesse da elite abolicionista brasileira: fortalecer um novo modelo de produção e exploração da mão de obra moldando os trabalhadores negros a esse novo projeto de nação, em aliança com a Inglaterra.

28As contradições inerentes aos movimentos abolicionistas apontadas pela presença de Payne no Brasil precisam também ser compreendidas numa dimensão mais ampla. Payne estava inserido numa complexa rede de relações que envolvia não apenas a perspectiva progressista da causa abolicionista. É importante lembrar que ele trabalhava como agente colonial a serviço dos interesses imperialistas da Inglaterra. Quando passa pelo Brasil, Payne estava a caminho da Exposição colonial de 1886 em Londres. Essas exposições coloniais, ditas também “universais”, funcionariam, segundo Benjamin, como lugares de “peregrinação ao fetiche mercadoria” (Benjamin, 2006: 43). O espetáculo da Modernidade Imperialista oferecia aos espectadores as mercadorias advindas de seus novos territórios conquistadas, entre os quais os próprios sujeitos colonizados, numa espetacularização também de seus corpos, o que Stuart Hall chamou de “espetáculo do outro”, um regime de representação que racializa, codifica, fetichiza, exotiza e estereotipa o outro (Hall, 2016).

29Payne estava na organização do stand de Lagos, encarregado de escolher os objetos a serem apresentados para a exposição, entre eles, diversos artefatos sagrados iorubás, hoje depositados no acervo do British Museum. Nesse sentido, Payne trabalhava a favor da construção da máquina imperial e de seus arquivos coloniais que ordenam um novo sentido de conquista territorial e submissão étnico-racial dos povos africanos. Segundo Olusanya, ainda que Payne defendesse valores tradicionais africanos, sua função enquanto servidor da Coroa inglesa fazia dele invariavelmente um agente da colonização britânica (Olusanya apud França, 2013: 204). De fato, esse trânsito enquanto agente colonial lhe garantia reconhecimento, principalmente entre uma elite letrada brasileira que, embora abolicionista, seguia vinculada a valores civilizatórios eurocêntricos e desejosos da continuidade do sistema de hierarquia racial e da subalternização do negro enquanto força de trabalho para o sistema capitalista.

30Não basta, entretanto, reduzir a atuação de Payne a esse lugar de agente da colonização inglesa. Como já vimos, Payne também se articula numa rede de solidariedade negra e, como veremos mais adiante, panafricana. De acordo com França (2013), é necessário compreender a movimentação de Payne para além das dinâmicas nacionais e da relação colonial com a Inglaterra. Em sua análise sobre a formação da cultura impressa e letrada lagosiana, a autora procura compreender as conexões de Payne numa rede de múltiplas trajetórias, a exemplo do vínculo com o movimento abolicionista no Brasil (França, 2013: 202). No entanto, como veremos a seguir, a ligação de Payne com os brasileiros antecede sua vinda ao país em 1886.

  • 10 No original: “He is visiting some relatives in the city before continuing his journey to London.”.
  • 11 No original: “Mr. Payne has also adressed his countrymen of the Mina nation (...) and will be honor (...)

31Payne foi casado com Martha Bonifácia Lydia Payne, descendente de escravizados afro-brasileiros que retornaram à costa ocidental africana a partir dos anos 1830, os chamados agudás. Uma das razões de sua vinda ao Brasil teria sido o desejo de encontrar seus familiares residentes no Rio de Janeiro, como noticia o Rio News: “ele está visitando parentes no Rio antes de seguir viagem para Londres” (Rio News, 15 de abril de 1886).10 Outra nota do Rio News relata seu encontro com “parentes da nação Mina”: “Sr. Payne também se dirigiu aos seus conterrâneos da nação Mina (...) e será honrado por eles com um jantar hoje a noite” (Rio News, 5 de maio de 1886).11 Trata-se aqui de mais uma rede de conexões feita por Payne no Rio de Janeiro. Os laços familiares com os agudás configuram um vínculo de pertencimento étnico. Matory, em seu estudo sobre o trânsito de africanos na constituição das religiões de matriz africana no Brasil, propõe um modelo de análise que confere maior importância aos “agenciamentos africanos”. Numa postura crítica em relação ao conceito de “Atlântico Negro”, de Gilroy, que, segundo ele, diluiria tais agenciamentos, Matory propõe compreender as conexões afro-brasileiras de finais do século XIX pela perspectiva do “Renascimento cultural Lagosiano dos anos 1890” (Matory, 1999:74).

  • 12 O conceito de um único povo ‘Yorùbá’ e seu batismo com o termo Hausa para os habitantes de Òyó foi (...)

32Tal renascimento, conectado à presença dos retornados brasileiros e ao florescimento de uma cultura intelectual lagosiana, ajuda a entender a força do pertencimento étnico iorubá no Brasil. Essas lideranças religiosas iniciadas em África como babalaôs, babalorixás e ialorixás e ao mesmo tempo alfabetizadas em escolas inglesas em Lagos na segunda metade do século XIX, a exemplo de Martiniano Eliseu de Bonfim, Felisberto Sowzer, Manoel Rodolfo Bamgboshe, Isadora Maria Hamus, Iyá Nasô, teriam sido agentes fundamentais da consolidação das primeiras casas de candomblé na Bahia e da solidificação de um pertencimento étnico iorubá. (Matory, 1999: 80). Ao mesmo tempo, é importante ressaltar que a própria perspectiva dos Iorubás como um povo único, que abarca diversas etnicidades do antigo Império de Oyó, é produto desse fluxo e refluxo atlântico.12 Poderíamos pensar Payne como um dos agentes que contribui para a construção dessa etnicidade iorubá?

33Em sua palestra na SGRJ, Payne traz explicações sobre os Iorubás, chamados erroneamente de “minas” no Brasil:

O Sr. Payne muito admirado ficou de ouvir chamar aos seus patrícios Minas e explicou a origem do erro da seguinte forma: Quando os navios negreiros chegavam a Lagos, chamado pelos indígenas Eco que significa uma roça e a outros pontos daquela parte da África vinham as canoas para bordo carregadas de captivos para exportação; eram essas canoas tripoladas por pretos de Elmina e outros pontos do rio Niger, é uma raça especial que se emprega quasi exclusivamente em remar, são por assim dizer uma raça de canoeiros. Perguntando os negreiros qual a sua nacionalidade respondiam que eram de Elmina, donde concluíram que todo o negro alli embarcado era de Elmina ou Mina e como tal aqui os vendiam. No entretanto seu verdadeiro nome é Iorubá, sendo essa grande nação dividida em sete tribus tendo cada tribu o nome de um dos filhos do fundador da nação. (SGRJ, 1886: 233)

  • 13 As reflexões sobre afirmação étnica, ou emergência étnica, têm sido muito desenvolvidas no campo da (...)

34Payne, embora agente do protetorado britânico, se inseria numa cena cultural lagosiana de afirmação étnica iorubá.13 Não seria inverossímil pensar que sua viagem ao Brasil e o encontro com seus parentes agudás e com os abolicionistas negros possa ter contribuído no fortalecimento de tal afirmação étnica, principalmente se levarmos em conta o fato de que ele acrescenta a seu nome a palavra Otunba um ano após regresso de sua viagem atlântica, em 1888. Otunba, uma abreviação de “Otun Oba”, que significa “conselheiro do rei” caracteriza sua origem iorubá e sua conexão com a família real Ijebu (Sawada, 2011: 234). Segundo Sawada, essa mudança de nome pode ser entendida como uma necessidade de repensar sua identidade, aproximando-o menos da filiação inglesa, e mais de sua ancestralidade iorubá.

  • 14 Cf. Payne (1893: 15) e Silva (2017).

35Quando finalmente foi abolida a escravidão em 13 de maio de 1888, Payne estava em Lagos e participou do Comitê Brasileiro Emancipatório, criado para organizar as festividades e comemorações desse acontecimento. O Jubilee Agudás, como ficou conhecida essa grande festa dos Agudás, foi descrito por Payne como um dos eventos mais importantes da História dos Iorubás.14 Ao longo de sua viagem ao Brasil, Payne compreendeu o lugar fundamental da construção de rede de solidariedade entre os povos negros da diáspora africana como forma de consolidar as conquistas para os povos africanos e, principalmente, a construção de uma identidade iorubá.

36Ao longo de sua trajetória, Payne foi se aproximando e tendo participação cada vez mais ativa nas redes panafricanistas. Em 1895, ele foi o principal articulador da visita a Lagos do influente escritor, intelectual e militante panafricanista Edward Wilmot Blyden (Figura 1). Dois anos depois, ele participou da organização da Associação Africana (1897), cujo propósito era encorajar o sentimento de unidade entre os africanos e seus descendentes e proteger seus interesses fazendo circular informações referentes a seus direitos e apelos diretos ao governo imperial inglês. Payne participou diretamente da formação dessa Associação, tornando-se secretário honorário. Três anos mais tarde, ele participaria, junto a 32 delegados de várias partes da África e das Américas, da primeira Conferência Pan-Africana em Londres (1900) (Falola, 2013: 88).

Figura 1. Reunião de panafricanistas por ocasião da inauguração da Mesquita Shitta em Lagos

Figura 1. Reunião de panafricanistas por ocasião da inauguração da Mesquita Shitta em Lagos

Em pé, o 2º da esquerda é John Augustus Otunba Payne; sentado no centro à direita está Edward Wilmot Blyden

Elaboração: Neils Walwin Holm (1894)

O Griô Mabogunje

37Embora Akin Mabogunje seja um baluarte internacional da geografia, já tendo inclusive recebido o Prêmio Vautrin Lud – maior honraria neste campo científico –, Mabogunje não passa de um ilustre desconhecido entre os que fazem a ciência geográfica brasileira. Esse desconhecimento se faz presente em toda a categoria, nos diversos níveis de desenvolvimento e estágio profissional, desde os aspirantes até os professores universitários. No entanto, ao realizarmos um estudo biográfico e bibliográfico sobre Mabogunje, é possível constatar um conjunto de aproximações de sua vida e obra com a comunidade científica do Brasil.

38Akinlawon Ladipo Mabogunje, ou simplesmente Akin Mabogunje, de origem iorubá, nasceu em outubro de 1931, em Kano, antiga cidade situada no norte da Nigéria. Seu nascimento se deu num período em que os diversos grupos étnicos nigerianos sofriam o domínio colonial da Inglaterra.

  • 15 A primeira universidade no modelo ocidental criada na Nigéria foi a Universidade de Ibadan em 1948.

39É no período da colonização britânica que ocorre a criação das primeiras universidades daquele país.15 Entende-se, portanto, que a constituição da ciência geográfica nigeriana foi fortemente influenciada pelas ideias que circulavam no idioma anglo-saxão, em especial vindas da Inglaterra e dos Estados Unidos (Craggs e Neate, 2019). Como parte da implantação de universidades em territórios colonizados, ocorreu a importação de professores ingleses, bem como o envio de estudantes da colônia para a formação na metrópole – para, assim, ocupar os quadros nas universidades que estavam sendo criadas e perpetuar a colonização ideológica e epistemológica, mesmo com o advento da independência política do território.

40Assim, na década de 50, Mabogunje teve a oportunidade de realizar parte de sua formação acadêmica no Departamento de Geografia da Universidade de Londres, na Inglaterra. Lá obteve os títulos de Mestre e Doutor em Geografia, tendo como fruto as respectivas publicações: Changing Pattern of Rural Settlement and Rural Economy. Egba Division, Southwestern Nigeria (Mabogunje, 1958) e Lagos: A Study in Urban Geography (Mabogunje, 1961). Desde então o pesquisador goza de uma profícua, versátil e contínua produção intelectual, em várias áreas, em especial planejamento urbano, fluxos populacionais e as dinâmicas econômicas.

41Ao longo de sua trajetória publicou cerca de uma centena de artigos científicos e 23 livros, dentre os quais vale destacar: Yoruba Towns (Mabogunje, 1962), The City Ibadan (Mabogunje, 1967), Urbanization In Nigeria (Mabogunje, 1968), Owu in Yoruba History (Mabogunje e Omer-Cooper, 1971), Cities and Social Order (Mabogunje, 1974), The Development Process: A Spatial Perspective (Mabogunje, 1980) e State of the Earth: Contemporary Geographic Perspectives (Mabogunje, 1997).

42Infelizmente muito pouco da extensa obra do nigeriano foi publicada em língua portuguesa, o que seguramente é uma barreira para a incorporação do pensamento de Mabogunje na geografia brasileira. Apenas quatro de seus escritos foram traduzidos para o português. O primeiro deles, A Geografia como (disciplina) ponte entre as ciências naturais e sociais (Mabogunje, 1985), foi publicado na revista Geografia da Universidade Estadual Paulista em sua edição de outubro de 1985. No entanto, tal artigo foi originalmente publicado na revista Nature and Resources em abril de 1984 e é fruto de uma provocação do editorial por ocasião da realização do XXV Congresso Internacional de Geografia, que ocorreu em Paris naquele ano. Na época, Mabogunje ocupava a presidência da União Geográfica Internacional (UGI), a instituição promotora do congresso, quando foi solicitado que dialogasse sobre o papel da Geografia como uma ponte entre as ciências sociais e naturais no estudo e na solução de problemas ambientais.

43Outro artigo, intitulado Cooperação e Governança Metropolitana (Mabogunje, 1995), consiste na transcrição de uma palestra proferida pelo autor na Conferência Mundial sobre Governança Metropolitana, evento realizado em abril de 1993 em Tóquio. A publicação foi editada no Brasil em setembro de 1995 pela Revista de Administração Municipal, periódico do Instituto Brasileiro de Administração Municipal.

44Em 2010 outro material de autoria de Mabogunje foi disponibilizado em português na coleção História Geral da África (UNESCO, 2010), publicada originalmente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em 1984. A redação da coleção foi constituída por um comitê científico internacional composto por algumas centenas de pesquisadores, dos quais dois terços eram africanos, entre eles estava Mabogunje, que foi responsável pela redação do capítulo Geografia Histórica: aspectos econômicos (Mabogunje, 2010).

45A última publicação em língua portuguesa de autoria de Mabogunje foi por ocasião de uma homenagem póstuma realizada em memória da geógrafa Bertha Becker (1930-2012) com a publicação de um número especial da Revista Espaço Aberto, veículo de divulgação científica do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na referida publicação, o autor escreve o texto intitulado Tributo à professora Bertha Koiffman Becker (Geógrafa Internacional por Excelência) (Mabogunje, 2013). O geógrafo nigeriano e a brasileira cultivaram uma parceria que lhe rendeu o posto de professor-visitante no então recém-criado Mestrado em Geografia na UFRJ, fato ao qual ainda nos reportaremos adiante.

46Além do Brasil, Mabogunje exerceu a função de professor-visitante em universidades do Canadá, Hong Kong, Inglaterra, Suécia e Estados Unidos da América. O pesquisador ganhou notoriedade internacional entre a comunidade geográfica através de sua significativa teorização acerca dos movimentos migratórios em 1970, sobretudo por meio de um artigo publicado no periódico Geographical Analysis (Mabogunje, 1970). O aporte teórico-conceitual de Mabogunje foi reconhecido pela proposição de uma abordagem sistêmica para modelagem de fenômenos socioespaciais que ocorriam na África, em especial em sua parcela ocidental (Uebel, 2017), com destaque para as análises de fluxos migratórios de lógica rural-urbana-rural. Suas reflexões e proposições não se limitaram, entretanto, a seu território de origem. De uma maneira geral o autor dedica-se a analisar a urbanização tradicional e moderna na Nigéria, tendo especial interesse em verificar o uso de teorias ocidentais para explicar o processo de urbanização das cidades africanas.

47Mabogunje dedicou-se bastante ao fortalecimento das organizações científicas do campo geográfico. No Departamento de Geografia da Universidade de Ibadan ocupou cargos de docência e gestão entre 1958-1981. No período de 1962-1965 foi editor do Nigerian Geographical Journal. Ocupou também a presidência da Associação Nigeriana Geografia de 1978-1980. Foi membro atuante na União Geográfica Internacional (UGI), ocupando cargos nas comissões de Métodos Quantitativos entre 1964-1972; Aspectos Regionais do Desenvolvimento entre 1972-1976; Sistemas e Políticas Regionais entre 1976-1980; ainda ocupou a vice-presidência entre 1972-1980 e a presidência entre 1980-1984 (The Cities Aliance, 2006).

48Akin Mabogunje é o primeiro e único geógrafo do continente africano a ser agraciado com a comenda Vautrin Lud, honraria considerada o Prêmio Nobel da Geografia, outorgada anualmente a uma eminente personalidade do campo da ciência geográfica, durante a realização do Festival Internacional de Geografia, na França.

49Mabogunje, no decorrer de sua trajetória, estreitou laços intelectuais com alguns pesquisadores brasileiros, a exemplo de Milton Santos, sem dúvida, um dos mais importantes interlocutores das concepções geográficas de Mabogunje no Brasil. De acordo com Grimm (2011), durante as décadas de 1960 e 1970, percebe-se na trajetória epistemológica de Santos, uma centralidade ocupada pelo nigeriano nos diálogos e reflexões do brasileiro acerca das especificidades dos processos de urbanização no Terceiro Mundo. Tal centralidade era dividida com o geógrafo francês Jean Tricart (1920-2003) e com o também geógrafo neozelandês Terence McGee (1936-).

50Santos dialogou com a obra do nigeriano em pelo menos três dos seus principais trabalhos publicados em português, fora as publicações em outros idiomas que não são motivos de análise aqui. Em Por uma Geografia Nova (Santos, 1978a), o diálogo com Mabogunje surge em dois momentos: o primeiro quando Santos faz uma crítica à chamada “Geografia Colonial” e remonta ao trabalho do “reputado geógrafo nigeriano” (Santos, 1978a: 31) por ocasião do artigo Geography and the Problems of the Third World (Mabogunje, 1975), onde é tecida uma sólida crítica ao papel exercido pelos geógrafos franceses. No entanto, Santos chama atenção para uma postura “um tanto distraída quando menciona o trabalho dos ingleses” (Santos, 1978a: 31), evidenciando a ausência de crítica do nigeriano para com os acadêmicos britânicos. Mais adiante, quando Santos discorre sobre “Análise de Sistemas”, Mabogunje é posto como teórico de referência na análise de sistemas no âmbito da ciência geográfica, por meio do seu artigo Systems Approach to a Theory of Rural-Urban Migration (Mabogunje, 1970).

51Em Economia Espacial: críticas e alternativas (Santos, 1978b), Santos recorre a Role of the City in the Modernization of Developing Countries (MABOGUNJE, 1973) para conceituar a “modernização”, e faz o mesmo para o conceito de “informação” de Mabogunje (1970).

52Já em Metamorfoses do espaço habitado (Santos, 1988), ao refletir sobre o “A importância atual do Espaço”, Santos parafraseia integralmente Mabogunje, citação que entendemos ser oportuna sua reprodução, dada a peculiar acepção de “espaço” por parte do autor – peculiaridade percebida por Santos:

É importante considerar os três modos pelos quais o espaço pode ser conceitualizado. Em primeiro lugar, o espaço pode ser visto num sentido absoluto, como uma coisa em si, com existência específica, determinada de maneira única. É o espaço do agrimensor e do cartógrafo, identificado mediante um quadro de referências convencional, especialmente as latitudes e as longitudes. Em segundo lugar, há o espaço relativo, que põe em relevo as relações entre objetos e que existe somente pelo fato de esses objetos existirem e estarem em relação uns com os outros. Assim, se tivermos três localidades A, B, C, estando os dois primeiros fisicamente próximos, ao passo que C está longe mas dispõe de melhores meios de transporte para A, é possível dizer, em termos relativos espaciais, que as localidades A e C estão mais próximas entre si do que A de B. Em terceiro lugar, há o espaço relacional, onde o espaço é percebido como conteúdo e representando no interior de si mesmo outros tipos de relação que existem entre objetos (...). (Mabogunje, 1980: 52 apud Santos, 1988: 10)

53A referida citação foi extraída por Santos do livro The Development Process: A Spatial Perspective (Mabogunje, 1980). Chama a atenção o número de publicações que referendam o trabalho do nigeriano por meio do artifício do apud, a partir da obra de Santos, legitimando-o na condição de porta-voz de Mabogunje. Isso evidencia algumas constatações, a primeira mostra o quão foi (e ainda o é) importante à obra de Milton Santos para o processo de descolonização do saber, pois dada a permeabilidade do seu trabalho, este é capaz de dar visibilidade e difundir o trabalho de pensadores de outras regiões do globo, em especial do continente africano. A segunda aponta uma notória demanda reprimida em torno da produção literária de Mabogunje, fazendo-se necessária a tradução de algumas de suas obras.

54Vale ressaltar que, além do diálogo intelectual, Mabogunje e Santos acumulam outras semelhanças, ambos são originários de ex-colônias, atuais países periféricos emergentes, assolados em um contexto de elevada desigualdade social. Não bastasse isso, ambos também são negros, o que confere um sentido contra hegemônico à presença de ambos, em espaços modelados pelo paradigma colonizador de produção da ciência. Além de Mabogunje, Santos foi o único outro geógrafo negro a receber Prêmio Vautrin Lud, ainda em 1994.

55Dada a relação pessoal estabelecida entre os dois pesquisadores, em 1977, uma articulação feita por Mabogunje renderia um posto ao brasileiro numa universidade nigeriana, o objetivo era fundar uma pós-graduação em geografia. Entretanto, a missão teve de ser recusada por Santos, dado o surgimento de uma oportunidade de retornar ao Brasil, uma vez que o brasileiro ainda vivia exilado no exterior desde 1964 (Ferreti e Pedrosa, 2018). Vale ressaltar que, entre 1974 e 1976, Santos viveu na Tanzânia, trabalhando na Universidade de Dar es Salaam, em missão análoga àquela planejada para a Nigéria. Da mesma forma que Santos vivenciou o continente africano por meio de viagens a trabalho, Mabogunje também veio algumas vezes ao Brasil, como veremos a seguir.

56Akin Mabogunje contribuiu ao processo de desenvolvimento da geografia brasileira, tendo vindo ao Brasil em diversas ocasiões entre 1971 e 1982, para a participação de reuniões temáticas e seminários, atividades de docência, consultoria técnica e orientação de pesquisas. Orientou, inclusive, Bertha Becker em sua pesquisa intitulada Uma hipótese sobre a origem do fenômeno urbano numa fronteira de recursos do Brasil (Becker, 2013) por ocasião de sua especialização em Teorias da Urbanização e Análises de Sistemas Urbanos, realizada no ano de 1975.

57No entanto, sua relação com o Brasil antecede sua presença física. Mabogunje sempre dedicou parte de sua produção intelectual ao processo de construção coletiva da memória e em 1971 publica, em parceria com J. Omer-Cooper, o livro Owu in Yoruba history (Mabogunje e Omer-Cooper, 1971). A referida publicação traz uma passagem do fenômeno diaspórico do povo Iorubá, que faz parte da história da formação sociocultural do Brasil.

58De repente, apareceu no Brasil especialmente na Bahia, uma grande massa de pessoas falando uma língua comun e compartilhando basicamente a mesma religião, eram os Iorubás. (Mabogunje e Omer-Cooper, 1971: 79)

59No mesmo ano ocorreu no Brasil a Reunião da Comissão de Métodos Quantitativos da UGI e Mabogunje integrava a referida comissão desde sua fundação, em 1964, época em que era presidente. Tal fato propiciou sua primeira estadia no Brasil (Figura 2).

Figura 2. Reunião da Comissão de Métodos Quantitativos da União Geográfica Internacional no Rio de Janeiro, 1971

Figura 2. Reunião da Comissão de Métodos Quantitativos da União Geográfica Internacional no Rio de Janeiro, 1971

Da esquerda para a direita: Spiridião Faissol (IBGE), Akin Mabogunje (presidente) e Miguel Alves de Lima (IBGE)

Acervo Memória IBGE

60A reunião foi organizada e patrocinada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e realizada entre os 5 e 8 de abril na Escola Nacional de Estatística no Rio de Janeiro, então Estado da Guanabara. Desde então, Mabogunje passou a cultivar vínculos de ordem pessoal e institucional com o Brasil. Em sua autobiografia registra alguns bons momentos durante sua primeira estadia no Brasil (Mabogunje, 2011):

O primeiro foi à visita a uma das muitas escolas de samba do Rio, a bateria de uma escola de samba é um resquício da música de Lagos, assim não demorou muito para eu já estar cantando a música. A escola de samba que visitamos fez um show muito especial para nós. A conexão nigeriana - brasileira é de longa data e remonta à era do comércio de escravos entre os séculos 18 e 19. Isso facilitou a minha amizade com colegas brasileiros, especialmente Professora Bertha Becker, e Professores Speridião Faissol e Pedro Geiger. Desde então nos tornamos amigos por décadas. O segundo momento memorável, foi a excursão a Vitória, no caminho paramos em um restaurante cujo forte eram as muitas maneiras de preparar peixe, refletindo a diversidade de culturas culinárias entre os habitantes do Brasil. Fiquei particularmente impressionado ao ver pratos preparados com óleo dendê da mesma maneira que fazemos na Nigéria. Deixei Brasil com um relacionamento muito cativante com meus colegas. (Mabogunje, 2011: 177)

61A aproximação com os colegas brasileiros se estendeu além do aspecto de uma ancestralidade comum, bem como de sua cultura associada, ela também foi reforçada por uma conotação política, especialmente quando Mabogunje passa a ocupar a vice-presidência da UGI, o que ocorreu a partir do ano de 1972 (Mabogunje, 2011):

Minha eleição como vice-presidente da União Geográfica Internacional, em 1972, obrigou-me a me envolver nas políticas internas da união. A primeira atividade nesse sentido foi a realização de maneira silenciosa de uma campanha para que a Comissão de Aspectos Regionais do Desenvolvimento fosse chefiada por um pesquisador de um país em desenvolvimento. Trabalhamos duro para estabelecer garantias de que as delegações nacionais membros da comissão votassem a favor. Uma vez criada, nomeamos o professor Nilo Bernardes, geógrafo da Universidade Católica do Rio de Janeiro, Brasil, como presidente da comissão. (Mabogunje, 2011: 176)

62Como se vê, a tessitura entre os geógrafos da Nigéria e do Brasil dá-se a partir de muitas afinidades, uma destas também foi uma postura anti-hegemônica e visava oferecer resistência às relações de poder dentro da agremiação geográfica mais representativa em nível internacional.

63Dada a articulação estabelecida entre Mabogunje e Becker, o nigeriano voltaria ao Brasil em 1975, agora na condição de professor-visitante no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Coincidentemente, Becker também articulou um posto de professor-visitante no mesmo programa para Milton Santos, recém-retornado do exílio, em 1978 (Becker, 2013; Santos, 1989).

64Acerca de sua segunda passagem pelo Brasil, Mabogunje nos traz outras lembranças, desta vez não tão boas quanto às de sua primeira visita ao país:

Mais tarde, em 1974, aceitei um convite para lecionar na Universidade Federal do Rio de Janeiro, assim, no verão de 1975, parti para o Brasil, para passar um período ensinando geografia teórica e quantitativa aos alunos de pós-graduação no Departamento de Geografia. Minha anfitriã era a professora Bertha Becker, diretora do departamento. Dada a minha experiência durante minha primeira visita ao Rio, pedi à Professora Bertha Becker que arranjasse um apartamento para mim em Copacabana. No entanto, como estava indo para um trabalho remunerado, recebi um visto de imigrante. Isso significou que ao chegar ao Rio de Janeiro, tive que me reportar ao Ministério das Relações Exteriores, onde tive que preencher muitos formulários e registrar minhas impressões digitais. Fiquei um pouco desapontado com tudo isso, porque associei a necessidade de retirada da impressão digital com o procedimento feito com criminosos. (Mabogunje, 2011: 178)

65Acerca de sua vivência enquanto professor visitante, Mabogunje (2011) narra um pouco do contexto histórico-político do ensino universitário no Brasil, em especial a pós-graduação em geografia da UFRJ:

Minhas aulas eram dadas a estudantes de pós-graduação, alguns até sem o domínio do inglês. Até a Segunda Guerra Mundial, o sistema educacional do Brasil estava sob muita influência francesa. Portanto, boa parte da elite brasileira foi educada e orientada a buscar na França, as novidades da ciência. Desde a década de 1960 a influência americana, por sua vez da língua inglesa começou a ser dominante. Isso também estava acontecendo na geografia e muitos jovens brasileiros recém-formados procuravam nos Estados Unidos inspiração acadêmica. A proficiência do idioma inglês estava sendo promovida pelo British Council e pelo Serviço de Informação dos Estados Unidos, que abriram centros nas principais cidades do Brasil. Assim, meu convite foi uma maneira de fortalecer ainda mais essa orientação inglesa no ensino superior do país. Meus alunos eram um seleto grupo capaz de acompanhar uma série de palestras em inglês. Eu os encontrei já bem fundamentados na geografia e foi estimulante relacionar assuntos teóricos emergentes no campo da geografia com as estratégias de desenvolvimento regional, já que estas eram preocupação do estado brasileiro na época. (Mabogunje, 2011:178)

66Mabogunje também teve a oportunidade de trabalhar no IBGE e colaborou com sua expertise na análise censitária, este trabalho levou-o a Salvador, capital do estado da Bahia, o maior reduto Iorubá fora da África:

Depois que comecei a lecionar, o colega brasileiro Professor Speridião Faissol estava prestando uma consultoria junto ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, ele me convidou para lhe assessorar nesse trabalho, auxiliando-o no processamento dos dados do censo recentemente realizado. Além de realizar alguns trabalhos analíticos e elaborar relatórios, a função me proporcionou a oportunidade de viajar para o Nordeste daquele país, algumas das cidades foram, Fortaleza e especialmente Salvador – o principal reduto Iorubá com forte influência dos escravos trazidos até o século 19. (Mabogunje, 2011:179)

67Tempos depois, em viagem a passeio com sua esposa, a cidade de Salvador seria novamente seu destino. Mabogunje desta vez narra sua visita ao Candomblé, o que lhe causa surpresa ao se deparar com o modo em que eram adorados os orixás. Na ocasião o casal foi ciceroneado pelo antropólogo e babalaô Pierre Verger:

Mais tarde, voltei a Salvador com minha esposa em uma viagem de fim de semana. Nessa visita fomos recepcionados por Pierre Verger professor da Universidade de Salvador, ele é um antropólogo francês, especialista na diáspora Iorubá, ele chegou a passar uma temporada na Nigéria, aqui na Universidade de Ifé. Ele havia comunicado aos membros de sua irmandade religiosa de matriz Iorubá acerca de nossa visita a Salvador, assim nos convidou para participar do culto religioso daquela semana. Obviamente sendo um culto aos orixás Iorubás, este era realizado na noite do sábado, essa tradição remonta a época em que o único momento em que os escravos podiam ser dispensados de seus deveres servis. Isso porque de alguma maneira conseguiram convencer os padres católicos de que estavam adorando os santos católicos, e assim eram encorajados por eles a fazerem isso, mas é claro que tinham um orixá Iorubá equivalente para cada um dos santos. Atualmente o nome dado a este culto aos orixás no Brasil é Candomblé. Nós ficamos impressionados, especialmente com o fato dos fiéis mesmo sendo cristãos, ainda cantarem em língua Iorubá, foi a primeira vez que vimos como os orixás eram adorados em outro lugar, pois não fazíamos a menor ideia. (Mabogunje, 2011:179)

68Depois da experiência de trabalho na UFRJ e no IBGE durante os anos de 1974/75, Mabogunje retornaria ao Brasil pela última vez em 1982 (Faissol, 1989), por ocasião da Conferência Regional da América Latina da UGI, instituição que presidia na época. (Figura 3).

Figura 3. Conferência Regional Latino-Americana da União Geográfica Internacional em Belo Horizonte, 1982

Figura 3. Conferência Regional Latino-Americana da União Geográfica Internacional em Belo Horizonte, 1982

Da esquerda para a direita: Om Prakash Mathur (Japão), Akin Mabogunje (Nigéria) Ladislau Dowbor (Brasil) e Bertha Becker (Brasil)

Acervo Memória Fundação João Pinheiro.

69A conferência, organizada localmente pelo Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pela Fundação João Pinheiro da Secretária de Planejamento de Minas Gerais, realizou-se entre os dias 8 e 13 de agosto daquele ano na cidade de Belo Horizonte. Fizeram-se presentes na conferência, entre outros nomes: Beatriz Maria Soares Pontes, Bertha Becker, Carlos Minc, David Harvey, K. V. Sundaram, Landislau Dowbor, Om Prakash Mathur, Manuel Correia de Andrade, Mohammad Shafi, R. P. Misra e Yves Lacoste (UGI, 1982). Na ocasião Mabogunje apresentou um trabalho intitulado Rural development in Nigeria: problems, policies and issues (Dowbor, 1982; Mabogunje apud Carvalho, 1985).

70Embora desconhecido, Mabogunje tem sua parcela de contribuição para com a geografia brasileira, pois sendo professor de uma universidade africana, país que enfrentava dificuldades análogas às brasileiras, era detentor de uma experiência real em problemas típicos de países periféricos, e não um norte americano ou europeu que não viviam tais problemas em seus países (Faissol, 1989). Em 2013, por ocasião do falecimento de Bertha Becker, Mabogunje publica um tributo à pesquisadora (Mabogunje, 2013).

Considerações finais

71Como vimos, Payne estava inserido numa complexa rede que transitava entre os interesses imperialistas britânicos, a formação de uma elite intelectual letrada lagosiana (França, 2013; Sawada, 2011), a agenda antiescravagista envolvendo os britânicos e abolicionistas brasileiros e o fluxo e refluxo panafricano entre África e América. Suas articulações no Brasil se deram por meio de encontros em diversas frentes. A primeira delas diz respeito à relação com a SGRJ, cujo convite para se tornar membro desta sociedade permitiu um contato direto com o Imperador D. Pedro II e um trânsito entre os abolicionistas da elite brasileira. Payne se reuniu também com o que podemos chamar de “abolicionismo negro”, cujos encontros foram amplamente divulgados nos jornais abolicionistas, principalmente na Gazeta da Tarde, dirigido por José do Patrocínio. Por fim, sua relação direta com os agudás, os retornados brasileiros em Lagos, fez com que efetivasse trocas com seus parentes iorubás instalados no Brasil. A agenda política de Payne no Brasil junto a SGRJ, embora a serviço do Governo colonial inglês, pode ser compreendida no âmbito de uma articulação do pensamento da diáspora negro-africana. Ao longo de sua trajetória intelectual e política, nos anos que se seguem a essa viagem, Payne se aproxima cada vez mais da perspectiva iorubá para refletir sobre a realidade histórica e geográfica de Lagos, e de uma agenda panafricana.

72Quanto a Mabogunje, faz-se necessário um esforço genuíno daquelas e daqueles que na contemporaneidade fazem a ciência geográfica brasileira em reconhecer sua extensa contribuição intelectual e política, na construção e fortalecimento de espaços para o exercício de uma geografia genuinamente gestada no intercâmbio com a produção geográfica africana. Mesmo com tamanha massa crítica acumulada e uma sólida produção científica, Mabogunje ainda é bastante negligenciado e reforça a constatação do racismo institucional e da mentalidade colonial brasileira.

73Finalmente, acreditamos que as distintas trajetórias de Payne e Mabogunje, em suas conexões geogr“Áfricas” com o Brasil, podem contribuir para uma compreensão mais apurada dos distintos processos de construção de identidades territoriais da diáspora iorubá entre as costas africanas e brasileiras, além do significado de posicionamento político, e de rupturas, no sentido de causar fissuras, de forma paulatina e decisiva, na estrutura das epistemologias em um campo tradicionalmente bastante conservador como a história da geografia.

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Anexo

Anexo

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Notas

1 No período entre 1961 e 1968 foram mantidos professores brasileiros nas Universidade de Ibadã (Nigéria) e na Universidade de Dakar (Senegal).

2 Sobre o episódio, ver África Difícil (Missão Condenada: Diário) (1965). Publicação de autoria de Raymundo de Souza Dantas, então embaixador em Gana.

3 Jânio enviou também à África duas missões. A primeira delas era chefiada pelo Embaixador Extraordinário e Deputado José Pereira Coelho de Souza, e visitou Serra Leoa, Gana, Togo, Daomei (atual Benin), Nigéria, Camarões, Costa do Marfim e Guiné. A missão manteve contatos políticos, recolheu informações, fez um relatório sobre possibilidades de comércio (inclusive o fornecimento de petróleo africano) e, o que é pouco conhecido, manteve duas reuniões com representantes do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA), em Konakri, quando esta organização solicitou bolsas para estudantes angolanos e o apoio diplomático do Brasil à luta de independência (Visentini, 2016: 29).

4 A Argélia foi ocupada por forças francesas entre 1830 e 1962.

5 Youssef Benkhedda participou ativamente na luta de libertação da Argélia. Chegou a exercer posições de liderança e, em 1961, foi nomeado presidente do Governo Provisório da República da Argélia (GPRA).

6 De agora em diante SGRJ.

7 Original: “The black coloured youth of this city, who has always followed the evolutive progress of the most advanced nations, in order to solemnize the passage of so illustrious man, native from African regions, has resolved to offer him this picture as a proof of a great admiration and consideration for his talent. Homage to Mr. John Augustus Payne – Hail to the first black man who on his arrival in our country knew how to engrave in our minds the respect and admiration!”.

8 Original: “The meeting was afterwards succeeded by a ball wich was kept up with ardour until half past three on the following mourning. The band of the fourth regiment of Infantry played excellent music on this occasion.”.

9 Diversos trechos dos discursos acentuam a surpresa de estarem diante de um africano “civilizado”.

10 No original: “He is visiting some relatives in the city before continuing his journey to London.”.

11 No original: “Mr. Payne has also adressed his countrymen of the Mina nation (...) and will be honored by them with a banquet today (...)”.

12 O conceito de um único povo ‘Yorùbá’ e seu batismo com o termo Hausa para os habitantes de Òyó foi em grande parte fruto do trabalho de cativos libertos e de seus filhos retornando de Serra Leoa, particularmente como missionários protestantes. Os termos pelos quais os descendentes de falantes de Yorùbá são conhecidos hoje no Novo Mundo - 'Nagô' no Brasil, 'Nago' no Haiti e na Jamaica, 'Lucumí' em Cuba, 'Akú' em Serra Leoa e 'Yorùbá' em Trinidad - emergiram como categorias significativas no contexto de escravidão e exílio. O 'Yorùbá' pode, neste sentido, ser visto como um produto de deslocamento e dispersão.” (Cohen, 2002 – tradução nossa).

13 As reflexões sobre afirmação étnica, ou emergência étnica, têm sido muito desenvolvidas no campo da Antropologia Política. Trata-se de refletir sobre grupos étnicos como tipos organizacionais em que a sociedade se utiliza de diferenças culturais para fabricar e refabricar sua individualidade. Os elementos definidores de grupo étnico são os limites (fronteiras) construídos situacionalmente. Tira-se, portanto, o foco da cultura (enquanto entidade isolada) para se pensar processos identitários estudados em contextos políticos precisos. Cf. Pacheco (1999).

14 Cf. Payne (1893: 15) e Silva (2017).

15 A primeira universidade no modelo ocidental criada na Nigéria foi a Universidade de Ibadan em 1948.

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Índice das ilustrações

Título Figura 1. Reunião de panafricanistas por ocasião da inauguração da Mesquita Shitta em Lagos
Legenda Em pé, o 2º da esquerda é John Augustus Otunba Payne; sentado no centro à direita está Edward Wilmot Blyden
Créditos Elaboração: Neils Walwin Holm (1894)
URL http://journals.openedition.org/terrabrasilis/docannexe/image/8245/img-1.png
Ficheiros image/png, 1,0M
Título Figura 2. Reunião da Comissão de Métodos Quantitativos da União Geográfica Internacional no Rio de Janeiro, 1971
Legenda Da esquerda para a direita: Spiridião Faissol (IBGE), Akin Mabogunje (presidente) e Miguel Alves de Lima (IBGE)
Créditos Acervo Memória IBGE
URL http://journals.openedition.org/terrabrasilis/docannexe/image/8245/img-2.png
Ficheiros image/png, 535k
Título Figura 3. Conferência Regional Latino-Americana da União Geográfica Internacional em Belo Horizonte, 1982
Legenda Da esquerda para a direita: Om Prakash Mathur (Japão), Akin Mabogunje (Nigéria) Ladislau Dowbor (Brasil) e Bertha Becker (Brasil)
Créditos Acervo Memória Fundação João Pinheiro.
URL http://journals.openedition.org/terrabrasilis/docannexe/image/8245/img-3.jpg
Ficheiros image/jpeg, 61k
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Para citar este artigo

Referência eletrónica

Paulo Eduardo Rolim Campos e Thiago de Abreu e Lima Florencio, «Conexões Geogr“Áfricas” no Brasil»Terra Brasilis [Online], 15 | 2021, posto online no dia 31 julho 2021, consultado o 05 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/terrabrasilis/8245; DOI: https://doi.org/10.4000/terrabrasilis.8245

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Autores

Paulo Eduardo Rolim Campos

Programa de Pós-Graduação em Agroecologia e Desenvolvimento Territorial, Universidade do Estado da Bahia (PPGADT-UNEB). E-mail: permaculturakariry@gmail.com

Thiago de Abreu e Lima Florencio

Professor Departamento de História da Universidade Regional do Cariri (URCA), Doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade (PUC-RIO). E-mail: thiagoabreuflorencio@gmail.com

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Direitos de autor

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