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Tradução, circulação e geopolítica do conhecimento na história da geografia

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José W. Morais Antunes de Sousa

Resumos

O livro Les sciences géographiques de Camille Vallaux (Alcan, 1925), que conheceu uma vasta difusão em sua época, reeditado em 1929, está sendo traduzido para o português por Willian Antunes, em colaboração com Rogério Haesbaert, cujo presente artigo na Terra Brasilis procura apresentar a motivação principal e a fase atual da tradução. Camille Vallaux, normaliano da promoção de 1890, foi professor de geografia dos mares na École navale (1901-1913) e de geografia econômica na École des hautes études commerciales (1920-1931). Além desses livros, o autor escreveu La Mer (1908), Le Sol et l’État (1911), Géographie de l'Histoire (1921), com coautoria de Jean Brunhes, e Géographie générale des mers (1933), este último sendo seu livro mais importante. Todavia, Les sciences géographiques resta o livro mais conhecido do autor pois ele foi o primeiro a abordar frontalmente o objeto da Geografia. Nesse livro, Vallaux promove uma ruptura com a corrente oficial da Sorbonne e apresenta seu projeto de pesquisa pessoal para os estudos oceânicos. Assim, esse artigo conta brevemente as etapas, a motivação e o estado atual da tradução em curso.

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Texto integral

“Assim como a verdade, o erro tem seu poder de atração; os espíritos mais lúcidos podem se obscurecer.” Camille Vallaux

1O presente número da Terra Brasilis é um bom momento para apresentarmos ao público um projeto pessoal que tem sido a tradução para o português do livro Les sciences géographiques de Camille Vallaux (1925, 1. ed.). Embora ainda não seja tempo de escrever sobre esse livro, deixo aqui uma primeira impressão da evolução da motivação em traduzi-lo. Algumas motivações emergem do encontro com o próprio livro, enquanto outras são ligadas à tese de doutorado ainda em curso sobre o autor. Para este número, ficou acordado com a comissão da revista que seria disponibilizada a tradução do Sumário do livro como uma primeira janela de acesso dos leitores (em anexo).

2Não abordarei aqui a difusão do livro e sua recepção na França e no exterior, nem seu conteúdo teórico e nem as releituras ao longo de todo o século XX. Esse seria um tema em si e demandaria mais espaço para desdobramentos. Nosso propósito nesta nota é somente apresentar três motivações que levaram a traduzir o referido autor.

I

3Em 2013, quando já estávamos imersos no projeto de pesquisa sobre a obra e a vida de Vallaux, e vendo que não havia nenhum artigo seu traduzido para o português, a ideia de traduzir seus textos começou a chamar nossa atenção. Aliado a isso, as revistas GEOgraphia e Terra Brasilis, especialmente em seu interesse em traduzir, comentar e debater textos dos ''autores clássicos'' brasileiros e estrangeiros, foram duas revistas brasileiras que animaram nossa pesquisa porque se mostravam como meios de comunicação onde trabalhos desse tipo poderiam encontrar leitores no Brasil.

4Mas foi apenas em 2014, durante nosso intercâmbio de mestrado na Universidade de Catania, e depois de algumas tentativas, que a ambição tomou forma e começamos a tradução que intercalou blocos de intensos meses de trabalho e longos períodos de pausa em decorrência das atividades dos estudos de mestrado e doutorado. Hoje, o livro se encontra traduzido e passa por uma primeira revisão. Em seguida, o material seguirá por partes para as mãos do Professor Rogério Haesbaert que tem iniciado gentilmente essa etapa difícil que é a revisão. Para uma terceira revisão, contaremos também com a leitura de uma geógrafa francesa que tem forte experiência em tradução do português para o francês.

II

5A motivação para essa tradução evoluiu ao longo dos anos, passando por três momentos principais.

6Primeiramente, os estudos sobre a vida e a obra de Camille Vallaux vieram mostrar nossas afinidades intelectuais, ainda desconhecidas no início da pesquisa de mestrado, para com o referido autor. Assim, teve lugar um processo espontâneo de aproximação entre pesquisador e objeto de estudo, nesse caso, sua obra começou a ser um convite para entender outros aspectos da cultura francesa e geral.

7Nessa primeira pesquisa sobre seu engajamento político no regionalismo francês do início do século XX, os resultados demonstraram que Vallaux era um autor crítico, independente e bastante conhecido no meio político e científico da época. A fama de ''geógrafo rebelde'', ou que sua obra tenha sido ''ignorada'' ou ''esquecida'', que nutriu a opinião de seus primeiros comentadores como François Carré (1978), Georges Nicolas-Obadia (1984), Cristina D'Alessandro (2003), Lucien Gaillabaud (1996), Paul Claval (1968) e Yves Lacoste (1976), por exemplo, deve ser nuançada. Sublinhamos os nomes de Claval e Lacoste que criaram erros historiográficos devido a um entendimento estreito da obra dos ditos ''clássicos''. Na Itália, Claval encontrou resistência para difundir suas ideias da parte de Lucio Gambi (Quaini, 2012), mas no Brasil ele teve ampla adesão e seus erros ainda não foram revisados como podemos perceber na memória coletiva dos geógrafos brasileiros, mas aqui não é o lugar mais adequado para desenvolver esse assunto. Assim, esses geógrafos acabaram por difundir uma imagem falsa da obra de Vallaux, dificultando a interpretação de seus futuros leitores como Milton Santos (2004), Wanderley Costa (1992), Rogério Haesbaert (2014), Jean-Pierre Villard (2014, 2017), Marc Levatois (2013), Olivier Orain (2003), Pedro Teles (2011) e Gonzalo L. Bietti (2019).

8O importante é ter em mente que Vallaux se aproximou muito do ar de sua época. A efervescência do ''Caso Dreyfus'' acabou por despertar um novo grupo no meio dos cientistas e políticos: muitos jovens oriundos de um meio rural ainda não letrado passaram a fazer parte dessa elite de escritores e cientistas, surgindo assim uma migração ascendente de críticos às classes superiores da sociedade francesa, ou seja, era o nascimento dos ''intelectuais'' da Terceira República (Charle, 1990).

  • 1 Esse período foi amplamente discutido em nossa dissertação de mestrado (ANTUNES, 2015).

9Assim, a curiosidade, a franqueza e a crítica, muitas vezes encontradas nos textos de Vallaux, foram despertando nosso olhar. Passamos a observar com mais cuidado sua maneira de proceder naquele meio extremamente hierárquico que era o meio universitário da Sorbonne na época. Em seus anos de doutoramento, embora nunca tenha se associado a partidos socialistas e comunistas, Vallaux participava ativamente das lutas sociais dando conferências e cursos em associações de Brest. Seu ativismo se diferenciava dos socialistas e comunistas, pois ele centrava seu combate contra as forças clericais que se organizavam em nível local, tentando ganhar as cooperativas e associações para as futuras eleições departamentais1. Desse modo, os valores da Revolução Francesa, ainda tão vivos naquela época, lhe impulsionavam a construir uma Terceira República menos monárquica e aristocrática. Esse seu posicionamento político está presente em toda a primeira fase de sua trajetória (1986-1921), quando só então outros problemas passam a ocupar seu trabalho. Sem dúvida, não podemos aceitar a imagem de um geógrafo solitário e sem influência como querem autores que escreveram sua historiografia.

10Já nos anos de doutoramento, Vallaux demonstrava ser um homem independente e defendia sua liberdade frente aos grupos de intelectuais que se formavam. A esse respeito, observemos uma crítica sua em dois extratos retirados de artigos inéditos encontrados nos Arquivos Departamentais do Finisterra (Quimper, França):

Remarcou que o povo Francês, esse povo que se diz livre pensador e forte, sempre sentiu a necessidade de adorar um fetiche? / Outrora, era a espada. Hoje, é a ciência, ou isso que chamamos assim. (Vallaux, La Dépêche de Brest, 19 de fevereiro de 1908a)

11Meses depois, ele se radicaliza mais ainda frente à formação dos grupos de intelectuais:

Desde alguns anos, parece que o fato para um cidadão, de pertencer ao grupo político no qual ele desenvolve as tendências gerais de seu espírito, deve levar esse cidadão a uma abolição completa da independência individual, da liberdade de palavra, da liberdade da pluma, e mesmo da liberdade de imprensa. Se entramos em um grupo, devemos nos mudar em cadáver vivo, perinde ac cadaver. É preciso que aceitemos nos menores detalhes o credo imaginado pelas fortes cabeças do partido. Infeliz é aquele que faz reservas sobre tal ou tal ponto desse credo: será taxado de duplicidade e de traidor; será tratado, segundo o grupo ao qual ele pertence, de revolucionário ou de reacionário; ele terá, é verdade, o consolo de pensar que somos sempre o revolucionário ou o reacionário de alguém. (Vallaux, La Dépêche de Brest, 17 de agosto de 1908b)

12O leitor perceberá que procuramos, com essas passagens, sublinhar as linhas marcantes do temperamento do autor quando era ainda um jovem doutorando (1904-1907) e professor de geografia da École Navale de Brest (1901-1913). E é exatamente essa a primeira motivação que nos levou a traduzir Vallaux: sua coragem.

13A partir de outros documentos, pudemos perceber rapidamente que os métodos ensinados nos anos de doutoramento passariam também por sua leitura crítica. Por exemplo, a longa introdução de geografia física de sua tese foi um pré-requisito estabelecido por Vidal e Martonne, mas ele não queria escrever aquelas cem páginas. Esse é apenas um dos vários temas divergentes que aparecem na obra de Vallaux. Assim, não tardaria a aparecer seu estranhamento em relação àqueles métodos. A partir de 1911, o distanciamento viria naturalmente. É exatamente dessa época que, a convite de Gaston Richard, então professor de sociologia da Universidade de Bordeaux, nascem dois livros: La Mer (1908) et Le Sol et l’État (1911) para compor a Biblioteca de Sociologia da Enciclopédia Toulouse. Esses livros foram fundamentais para a carreira de Vallaux. Richard tinha muito interesse no debate sobre a geografia política de Ratzel, sendo Vallaux encarregado de demonstrar as lições de geografia política para um público de sociólogos. Desse modo, Vallaux rompeu então o tabu que era comentar a obra de Ratzel em pleno período de preparação das forças para a Primeira Guerra Mundial.

14Anos mais tarde, Vallaux passa a ser professor de geografia da École des hautes études commerciales (1920-1931), substitui André Siegfried na École Libre des Sciences Politiques (1924-1925), sendo também convidado por duas vezes a prestar consultoria para o governo francês, e se insere nos principais circuitos intelectuais de sua época através das revistas La Géographie da Sociedade de Geografia de Paris, Mercure de France, Revue de Métaphysique e Annales de Géographie, etc. Sua participação ativa nos debates como no plano de constituição das regiões econômicas pelo ministro Clementel e colaboradores (1918), o recorte das fronteiras da Europa do Leste no Tratado de Versalhes (1919) e o projeto de construção da via férrea Le Transsaharien (1928) lhe rende reconhecimento no meio político como especialista em geografia política. Era um autor inegavelmente atuante e conhecido.

15Com essa participação ativa na vida intelectual e política um livro teórico não poderia ser isento de pensamento crítico. O livro Les sciences géographiques não deixaria de chocar os geógrafos da época porque nele Vallaux rompe com os métodos aplicados na Sorbonne. Isto é, rompe com o que nos acostumamos a chamar voluntariamente de ''Escola Francesa de Geografia''. ''Escola'' está aqui entre aspas porque ela pode ser várias coisas: ''período'', ''círculo'', ''escola'' ou ''grupo''. Isto é, em nossa pesquisa de doutoramento foi curioso constatar que não há nenhuma definição para o que chamamos ''Escola Francesa de Geografia''. Na verdade, essa expressão tende a ser utilizada como sinônimo de ''período histórico'' cobrindo toda a primeira metade do século XX, o que é um problema herdado da leitura de Claval. Daí então certamente a inflação de alguns geógrafos canônicos em detrimento de outros. Na tese tentamos propor uma definição do que foi essa ''Escola'', seu nascimento, seu fim e sua bifurcação. Vallaux, Métin, Brunhes, Rabot e Gallouédec são nomes que pertencem à uma corrente crítica em contraposição à corrente oficial. O importante é destacar que o livro de Vallaux não passou sob o silêncio de seus pares, e ele foi muito bem entendido e lido, tanto que viu uma segunda edição em 1929. Mas, deixemos essa demonstração para outro momento.

16Esses dados sobre sua trajetória intelectual apenas reforçaram a motivação inicial em traduzi-lo. E convém lembrar que essa é uma maneira de retraçar a linha de seu temperamento, pois poderíamos muito bem fazê-lo à luz de outro tema, por exemplo, o oceano que é um motor de sua obra, mas é o ângulo crítico que nos interessa passar nesse primeiro contato com o leitor.

III

17A segunda motivação surge diretamente do encontro com o próprio texto. Ao encontrarmos suas dificuldades de expressão, suas ambições teóricas e também seus sonhos sobre o futuro, é que nos deparamos com um certo estilo. Um texto onde um projeto teórico para a Gegrafia se mistura às reflexões filosóficas e, aos poucos e discretamente, vemos claramente surgir pistas de uma concepção de mundo muito pessoal. Para Vallaux as ciências modernas tinham de possuir uma concepção de mundo ou uma cosmologia, caso contrário a ciência, isto é, a geografia se tornaria uma ciência aplicada. Por isso o ar meditativo de algumas passagens.

18Albert Demangeon chegou a escrever uma resenha para L'Année Sociologique, mas publicada postumamente e em número especial. Vallaux não teve acesso a esse texto:

Cometeríamos um erro se compreendêssemos a leitura do livro de Vallaux sobre as ciências geográficas, de se deixar ser bloqueado pela extensão dos desenvolvimentos abstratos, pelo abuso das especulações transcendentais, pelas tendências por vezes paradoxais e um pouco aéreas, pois há uma forte semente promissora, como em todas as obras de meditação sincera. (Demangeon, 1925: 245)

19Em suas próprias palavras, Demangeon (1925: 245) revela exatamente os seus limites de compreensão do texto ou não. ''Extensão dos desenvolvimentos abstratos'', ''abusos das especulações transcendentais'' e ''tendências paradoxais e pouco aéreas'' seriam aqui limites de Demangeon ou ataques conscientes à obra de Vallaux? Não podemos afirmar porque eles não se comunicavam por correspondências e a resenha não foi publicada na época. Segundo seu especialista Denis Wolff (2005), Demangeon não se arriscava a escrever sobre teoria e filosofia, mas isso é pouco para afirmar qualquer crítica nesses termos dúbios de Demangeon.

20Visto que o livro tinha claramente traços de pensamentos abstratos, transcendentais e filosóficos, as frases e pensamentos de Vallaux (1925) passaram a ter mais sentido na continuação de nossa tradução. São frases aparentemente simples que passam uma lição ao leitor:

A geografia explicativa começou por uma poesia científica. Ele sente essa influência ainda. Ela sentirá talvez sempre essa força. (1925:21)
A Geografia científica nos descobre uma parte do mistério das coisas. (1925: Prefácio)
O que concebemos bem não se anuncia sempre claramente. (1925: 7)
Devemos nos defender cuidadosamente das ilusões onde nos leva a brevidade da vida e da história humana. (1925: 137)
Não acreditamos que a rigidez dos procedimentos lógicos satisfaça para fazer uma ciência fecunda, acreditamos em primeiro lugar que essa rigidez, pulsada até um rigor excessivo, tende a esterilizar a pesquisa, a retardar os progressos da ciência, e talvez a eclipsar os clarões de verdade que mais tarde não terão nunca a ocasião de brilhar. (1925: 29)
A vida é apenas uma pura concepção de nosso espírito. (1925: 72)
A verdadeira ciência consiste na explicação ou no esforço em direção à explicação. (1925: 66)

21Outro dia, correndo aleatoriamente o olho sobre outras páginas, saltou aos olhos um conselho que vale tanto para os estudantes quanto para os grandes pesquisadores:

Assim como a verdade, o erro tem seu poder de atração; os espíritos mais lúcidos podem se obscurecer. (1925: 260)

22Essas saídas, muitas vezes truncadas ou herméticas, como queiram, vão, cada um a seu modo, dirigir o leitor a reflexões da Filosofia à Poesia. São pensamentos muitas vezes não desenvolvidos dando realmente esse ar de ''meditação'' como retrata a feliz expressão de Demangeon. Portanto, é um livro único em seu gênero na época. Nele, Vallaux depositou seu projeto intelectual pessoal sem deixar de apresentar ao leitor seus pensamentos mais elevados ou abstratos. Ele tinha uma pesquisa muito concreta como objetivo. Ele se interessava pelos estudos sobre o mar, a formação dos agrupamentos da vida nos oceanos. Isso o levou a ir em busca de uma definição para a palavra ''mar'' em seu tempo. Involuntariamente, Vallaux deixou aflorar pistas de uma cosmologia que mais tarde tomará forma no último livro de Géographie générale des mers (1933), por isso a leitura de Les sciences géographiques deve ser às vezes lenta.

  • 2 Sobre a obra de Max. Sorre, consultar os trabalhos de Dylan Simon.

23Acreditamos que temos em mãos um dos maiores geógrafos da época, e dizer isso não é fazer um elogio à tradução em curso, ao contrário, é apenas chamar a atenção do leitor para o valor de Vallaux. Enquanto os grandes canônicos continuarem a eclipsar o que chamamos autores estruturantes como Sorre2 e Vallaux, retardaremos a oxigenação das ideias entre eles e os nossos estudantes de geografia. Esse parece ser o debate historiográfico fundamental onde se encontra uma pesquisa sobre Vallaux. Já a tradução tem outro sentido.

IV

24Uma terceira motivação toca exatamente ao que entendemos ser o objeto disso que chamamos História da Geografia e a experiência decorrente da tradução em curso.

25Há uma ideia que continua na nossa memória quando nos perguntamos sobre a função de um trabalho em História da Geografia. E por mais inacabada que possa ser, é a ela que nós voltamos:

A História da Geografia é um saber que procura recombinar passado e presente, um saber que serve para oferecer novas combinações entre as obras de geógrafos mortos e vivos, entre teorias findas e teorias outras que estão por vir [....] Ela deve ser entendida como fonte de inspiração, uma sorte de laboratório de recombinação de ideias e trajetórias, isto é, novas possibilidades onde as gerações de geógrafos possam se encontrar. (Antunes, 2017a: 99)

26Mas seria um erro pensar que a tradução de Les sciences géographiques é do domínio da História da Geografia, talvez um desdobramento feliz. Ao contrário, acreditamos que toda tradução é superior à própria história da disciplina. Pensamos que a tradução é uma abertura de outras dimensões do tempo.

27Em nosso caso, a tradução de Vallaux serve, num primeiro tempo, para oxigenar a Geografia contemporânea feita no Brasil. É esse ir e vir ao texto, revendo erros e falhas, redescobrindo as lacunas e temas não abordados que alimenta o principal objetivo da tradução: recombinar ideias. A depender da profundidade, da beleza da letra e da virtude de um determinado autor, o poder que emana da tradução é inesgotável. Já o tradutor é um feliz errante entre as línguas porque ele deve procurar sintonias entre emoções e pensamentos de origens diferentes.

28Mas a tradução já quer dizer interpretação e transposição de sentido de qualquer coisa entre fronteiras, sociedades e culturas. É muito mais complexo do que imaginamos, e essa problemática se expressa em um recente texto sobre o que chamamos um tradutor de fronteiras. Apesar de muito vago, deixamos aqui uma passagem:

O que chamaríamos 'tradutor de fronteiras' seria assim um indivíduo capaz, a partir da confluência das línguas, de identificar novos sentidos e novas emoções. E chamaríamos 'um tradutor de fronteiras' aquele que, destruindo a ideia de uma nacionalidade em si, seria capaz de unir pelas emoções as histórias, forjando uma outra consciência. Esse movimento de fusão das sociedades pelas emoções dá lugar à união das histórias. (Antunes, 2017b: 87)

29Essa passagem não passa ainda de um castelo de cartas capaz de ser derrubado no primeiro debate acadêmico porque, como sabemos, as ideias precisam de um certo equilíbrio entre a cultura adquirida e a experiência de vida para poderem tomar forma em definições.

  • 3 Em outro lugar, traduzimos resenhas de Vallaux com o intuito de mostrar modelos de resenha crítica (...)

30No entanto, ao traduzir esse livro procuramos encorajar não os fatos que levam o leitor a entender a institucionalização da geografia e seus debates. Não é o processo histórico o foco aqui. Procuramos na verdade, com a tradução, criar elos entre Vallaux e os estudantes e geógrafos brasileiros. Acreditamos na tradução de Les sciences géographiques porque é um texto que discute frontalmente os modos de se fazer ciência e é fonte ao mesmo tempo dessa curiosidade filosófica e de valores éticos importantes para os leitores brasileiros. Os temas, as problemáticas, as lições éticas, os conselhos e meditações também vão ajudar na formação daqueles leitores abertos a outras culturas. Esses são os elos de união que dão uma função à nossa tradução.3

V

31Todavia, não temos nenhuma ambição teórica ao fazer um trabalho em História da Geografia ou a propor a tradução desse livro de Vallaux, porque acreditamos que esses sejam, não trabalhos menores, mas trabalhos auxiliares das outras áreas que deveriam funcionar mais harmonicamente entre si como a Geografia Regional, Geografia Política, a Geografia Urbana e a Geomorfologia; essas sim capazes de guiar os rumos da Geografia brasileira.

32É importante que as leituras desses autores estruturantes como Brunhes, Vallaux e Sorre, sejam encorajadas por etapas no seio do corpo estudantil, mas, atenção, sem dogmatismos regionalistas e de ''grupos'' para onde podem deslizar pesquisas sérias produzidas atualmente no Brasil.

33A tradução de Les sciences géographiques vai resgatar quase que em cadeia outros diálogos na ciência. Acreditamos que nosso papel é mostrar esses elos adormecidos entre os estudantes, os pesquisadores e Vallaux. No final das contas, nossa tradução será mais um convite de dedicação à Geografia.

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Bibliografia

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Anexo

Tradução do índice do livro As ciências geográficas, de Camille Vallaux (1925)

Prefácio

PRIMEIRA PARTE - A geografia como ciência autônoma

Capítulo I - Geografia utilitária e geografia explicativa 3-27
Definição provisória da Geografia, 4. - A Geografia existe como ciência de explicação, 5-6. - Como se desenvolveu, desde os inícios da filosofia grega aos tempos modernos, a necessidade de explicação, 6-13. - Reconhecimento do globo; construção de mapas; sua precisão crescente, 13-16. - Os progressos dos mapas retardam a explicação científica, 16-18. - Apesar de tudo preparando-lhe o caminho, 19-20. - A Geografia não pode se contentar de objetivos utilitários, 21-22. - Ela procura a explicação, e nessa procura ela tende a se libertar das representações cartográficas, onde superabundam os acidentes inexplicáveis, 23-27.

Capítulo II - A superfície terrestre entendida como um organismo 28-57
A Geografia tenta a síntese antes de acabar a análise, 28-29. - A hipótese do organismo terrestre de superfície, 29-30. - Hipótese formada em dois estados: primeiro estado, os fatos de superfície formam um todo indivisível, 30-32. - Visão obtida pelo estudo da atmosfera e dos mares, 33-34; depois pelas hipóteses geológicas, 35-36; mas, sobretudo, pelos progressos das ciências moleculares, 37-40. - Segundo estado, o organismo terrestre, 41. - Ideia geral nascida dos progressos da biologia no XIX século, 42-48. - Serviços rendidos pela hipótese do organismo terrestre, mas ela teve seu tempo, 48-50. - A crosta terrestre não é de modo algum um consenso vital, 51-54. Ela é uma zona de contato das forças difundidas no Cosmos, 55-57.

Capítulo III - Os tours de horizonte e os fatos de massa 58-85
A Geografia é uma ciência de agrupamento, 60. - Exemplos das observações de agrupamento geográficos, 61-65. - Elas devem reunir numerosos fatos emprestados das ciências moleculares, mas utilizados segundo um método especial, 66-71. - Oposição dos procedimentos de agrupamento e de classificação, 72-77. - Incertezas do método, 78-81. - Os tours do horizonte, 82-83. - Os fatos de massa, 84-85.

Capítulo IV - As paisagens geográficas 86-119
As margens de Elorn próximo da baía de Brest, 86-93. - Definição da paisagem geográfica, 93-94. - Ela é diferente da paisagem dos pintores, 95-97, da paisagem dos literários, 98-101, da paisagem dos naturalistas, 101-103. - Todavia esta última é útil à noção geográfica da paisagem, 103-105. - Paisagem de enquadramento, 106-108. - Utilidade da toponímia, 108. - Em toda descrição bem feita há uma parte de interpretação, 109-110. - A radiação solar; oscilações diurnas e sazonais; noções de paisagem cinemática, 111-117. - Paisagens fixas e paisagens de rotação, 118-119.

Capítulo V - A geologia e a geografia física 120-145
Superioridade da geologia, por causa do emprego da observação molecular, 120-122. - A geologia, no entanto, não pode explicar as paisagens geográficas, 123-125. - Razões dessa impotência: não há hoje nem grande sedimentação, nem grande metamorfismo, nem deslocação, nem grandes movimentos observáveis, nem charriages, 129-137. - Fase atual de repouso relativo, 137-138. - A geologia cada vez mais invadida pelos acidentes, 139. - Demarcação entre a geologia e a Geografia física, sobre a base do tempo mensurável, 139. - Demarcação entre a geologia e a Geografia física, sobre a base do tempo mensurável, 140-143. - As ligações entre as duas ciências permanecem estreitos, 144-145.

Capítulo VI - As ordens de grandeza e os agrupamentos regionais 146-174
Necessidade da noção de comum medida e das expressões numéricas, 146-149. - As séries ordenadas, seu mecanismo em Geografia física, 150-159; em Geografia humana, 160-161. - Noção das ordens de grandeza, 161-162. - Agrupamentos regionais, 163-165. - Regiões naturais e regiões humanas; elas não se superpõem, 166-169. - Elas se distinguem todos os dias mais umas das outras, 166-174.

Capítulo VII - Articulações dos fatos de massa em Geografia humana 175-204
Característica heterogênea dos fatos de Geografia humana, 175-180. - Eles não se articulam uns aos outros, nem por conexão espacial, nem pela figuração; abuso que se faz da figuração, 181-189. - A impressão sobre a terra e a paisagem humanizada, 190-195. - Os fatos de Geografia humana se articulam por meio do grau de deformação das paisagens naturais, 195-196. Passagem das paisagens naturais aos grupos humanos, depois às paisagens deformadas pelos grupos, 197-202. - Gêneros de vida e índice de trabalho, 203-204.

Capítulo VIII - Possibilidades da experiência e da previsão 205-232
A experiência e a previsão científicas, 205-209. - A experiência é reservada às ciências moleculares, ela é proibida à Geografia, 210-215. - As experiências tentadas, na ordem da Geografia física, por ciências vizinhas, são apenas entretenimentos científicos, 216-218. - Nessas condições, a previsão parece impossível; no entanto, uma tal conclusão seria bastante absoluta, 219-222. - Previsões de intuição em Geografia física, 223-226, em Geografia humana, 227-229. - Citação de Humboldt, 229-232.

Capítulo IX - A economia destrutiva 233-274
Definição de economia destrutiva, 233. - Essa teoria é filha da economia política; porque ela foi adotada pelos geógrafos, 234-239. - As destruições de florestas, 240-250. - O suposto empobrecimento dos solos: papel dos microrganismos, 251-254. - As paisagens de erosão humana, 254-257. As supostas destruições das espécies animais sobre a terra, 258-262: nos mares, 263-266. - Metais e minerais; consumo do carvão e petróleo, 268-273. - Os homens acreditam sempre que suas ações sobre a natureza são mais poderosas do que realmente o são, 273-274.

Capítulo X - Eliminação das causas finais 275-295
Oposição da religião e da ciência: as causas finais são anticientíficas, 275-281. - Tendências finalistas da Geografia, circunscrita no tempo e no espaço à medida do homem, 281-285. - Noção dos grandes mecanismos terrestres independentes de todas as causas finais: oscilações glaciais, oscilações climáticas, 286-289. - Exemplo antifinalista de Geografia humana, 289-291. - Todas as possibilidades estão incluídas nos entrecruzamentos moleculares dos fenômenos; como a Geografia poderá adaptar-se a essa concepção, 292-295.

Capítulo XI - As conexões cósmicas 296-316
Relações da Geografia e da astronomia física, 296-299. - As variações da atividade solar; suas relações com a meteorologia terrestre, 299-306. - A gravidade; marés lunissolares e marés da crosta sólida, 306-310. - A isostasia e hipótese da deriva dos continentes, 310-314. As forças internas e as variações glaciais; elementos de previsões futuras, 314-316.

SEGUNDA PARTE - As geografias como ciências auxiliares

Capítulo I - O elemento geográfico nas ciências da natureza e do homem 319-330
O que justifica as Geografias auxiliares: a noção do quadro espacial terrestre nas ciências positivas, 319-322. - Essa noção é inútil aos matemáticos, 323-325; à física e à química, 325- 327. - Na verdade, ela interessa na maioria das vezes às outras ciências, 328-330.

Capítulo II - Geografia nas ciências inorgânicas 331-348
Interesse da localização e das conexões espaciais, 331-334. - A geologia: cartas geológicas e reconstituições da paleografia, 335-341. - Meteorologia e climatologia; sucessos e fracassos do método geográfico, 341-346. - A oceanografia; cartografia dos oceanos e dos mares, 346-348.

Capítulo III - Geografia biológica 349-369
O método geográfico é inútil à biologia geral, e indispensável à botânica e à zoologia, 349-354. - Mapas de demarcações botânicas e de associações vegetais; incerteza dos procedimentos, 354-363. - Distribuição de faunas; dificuldade das representações, 364-368. - Estabelecimento das leis de migração, 368-369.

Capítulo IV - Geografia histórica 370-388
Antiga dependência da Geografia em relação à história, 370-371. - Reconstituição de acidentes lineares antigos e de paisagens desaparecidas, 371-374. - Variações históricas das linhas de litoral; elas são frequentemente inexistentes, 375-378. - Antigas estradas e antigas fronteiras, 378-384. - Variações de florestas e das áreas do habitat das plantas, 384-387. Variações climáticas, 387-388. - Toponímia histórica, 388.

Capítulo V - Geografia sociológica 389-403
Definição e objeto da sociologia, 389-391. - Morfologia social e Geografia humana; elas não são a mesma coisa, 391-397. - Fatos geográficos em sociologia: raças e densidades de população, 398-399. - Imprecisão da noção da raça, 399-401. - Cartografia das densidades e dos movimentos de população, 401-403.

Conclusão geral 405-407

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Notas

1 Esse período foi amplamente discutido em nossa dissertação de mestrado (ANTUNES, 2015).

2 Sobre a obra de Max. Sorre, consultar os trabalhos de Dylan Simon.

3 Em outro lugar, traduzimos resenhas de Vallaux com o intuito de mostrar modelos de resenha crítica que está cada vez mais rara nas revistas de geografia no Brasil (Antunes, 2017a).

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Para citar este artigo

Referência eletrónica

José W. Morais Antunes de Sousa, «Traduzir Les sciences géographiques»Terra Brasilis [Online], 15 | 2021, posto online no dia 31 julho 2021, consultado o 14 setembro 2026. URL: http://journals.openedition.org/terrabrasilis/8464; DOI: https://doi.org/10.4000/terrabrasilis.8464

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