1Ano que vem, On Canonical Geography (Keighren et al., 2012) completa 10 anos de sua publicação, porém o tema que trata, ao que tudo indica, seguirá sendo muito atual. Ao menos para os britânicos e anglófonos. Ao ler On Canonical Geography foi impossível não me recordar do conjunto de artigos publicados pela Transactions of The Institute of British Geographers em 1995, assinados por Felix Driver (1995), David Matless (1995), Gillian Rose (1995), Clive Barnett (1995) e David Livingstone (1995). Os artigos da Transactions, assim como On Canonical Geography que foi fruto de uma panel session do encontro anual da Association of American Geographers de 2011, resultaram de uma mesa redonda sugestivamente intitulada Rethinking the History of Geography, realizada durante a conferência anual do Institute of British Geographers em Londres naquele ano de 1995. Os textos nascem, portanto, do fervilhar de ideias que os encontros entre pares permitem.
2Em 2013, escrevi um pequeno artigo, publicado aqui mesmo na Terra Brasilis, em que comento, em linhas gerais, as principais questões e contendas suscitadas pelo debate da Transactions (Lamego, 2013). Não é o caso de retomar de modo minucioso tais questões, que evidentemente estavam bastante alinhavadas ao contexto da geografia britânica daquela época, em que se pronunciava uma onda de contestação a uma historiografia disciplinar whig marcadamente masculinista e celebratória. Assim como estão também alinhadas as questões suscitadas no On Canonical Geography ao seu tempo e lugar. Ainda que ciente de suas condições originárias, pode ser interessante retomar alguns pontos do debate da Transactions para entendermos em que termos, 15 anos depois, uma geração sucessora – e em alguma medida herdeira de Driver, Matless, Rose, Barnett e Livingstone –, re-rethink a história da sua geografia. Num exercício um tanto randômico – sem a preocupação de cotejar todo o estimulante conteúdo de On Canonical Geography, quero explorar algumas questões que, creio, se conservam no debate sobre as histórias disciplinares mesmo com o passar dos anos.
3E se em 1995 a questão central era a existência ou não de tradições geográficas, ou melhor, a possibilidade (ou ainda a plausibilidade) de sustentar a existência das tradições na geografia, em 2013, a questão aponta para as razões de ser (e permanecer) dos cânones disciplinares. Guardadas as devidas diferenças, como a limitação da canonicidade ao legado textual disciplinar enquanto por tradições entende-se o legado textual e as práticas, há muitas semelhanças especialmente no tratamento das questões. Como se uma mesma postura, reflexiva e crítica, acompanhasse os autores envolvidos nos dois movimentos pertencentes a contextos distintos, ainda que encadeados.
4Em comum, percebo a preocupação com a renitente prática da exclusão, do silenciamento e do apagamento na história da geografia. No caso do debate de 1995, a geógrafa Gillian Rose faz sua crítica incidir sobre a invisibilidade renitente da prática das mulheres na produção do conhecimento geográfico, e por conseguinte, na criação das narrativas disciplinares. O que Rose sugere é um duplo movimento, primeiro excluem-se as mulheres ao não reconhecerem o conhecimento que produzem como geográficos, e com isso apaga-se a prática da exclusão, de tal monta que a ausência das mulheres nas histórias da geografia seria resultado de práticas de exclusão e apagamento sucessivas.
5Em On Canonical Geography a prática de exclusão também é apontada, dessa vez, direcionada ao banimento de certos cânones em função das críticas que receberam, como no caso de Influences of Geographic Environment, de Ellen Semple, publicado em 1911, e alçado à categoria de livro proibido, tão logo o environmentalism se tornou um modo de conhecer e praticar a ser superado.
6O problema da depreciação do passado como estratégia de refundação da história disciplinar também é uma preocupação compartilhada. Em 1995, é Barnett quem direciona sua prosa irônica a tal prática, usando no título de seu artigo a eloquente expressão awakening the dead. Barnett lê a virada histórica, pela qual atravessa a geografia naquele momento, desenhando uma crítica contundente ao dispositivo de legitimação disciplinar que seleciona, de modo arbitrário, quais seções do passado da disciplina merecem ser lembradas e quais outras merecem ser esquecidas.
7Em 2012, Keighren, Abrahamsson e della Dora usam o testemunho histórico de Peter Gould, um dos mais pungentes spatial cadets, escrito em 1979, para demonstrar como a prática de deixar “certas fases da história da disciplina (...) cheirando a rosas, enquanto outras supostamente fedem a estrume” parece qualificar a historiografia disciplinar. Ao invés de mortos-vivos, preferem a metáfora do aroma e da fedentina. A crítica, no entanto, afina-se no mesmo tom: insiste-se na construção das histórias disciplinares não sobre sólidas fundações, mas sim sobre a instabilidade de demolições subsequentes. Por isso a defesa dos cânones, não para se tornarem os novos defuntos acordados e postos no altar, mas para serem efetivamente lidos, conhecidos e, também confrontados.
8Ao fim e ao cabo, há um argumento comum entre os autores de gerações distintas, e que a meu ver é o que há de mais estimulante nos dois debates e que nos vale reter. Tradições e cânones fomentam narrativas, o que garante suas historicidades. Portanto, a questão não é questionar a existência de tradições ou cânones, ou ainda defendê-los com unhas e dentes, enquanto representantes legítimos de uma suposta essência disciplinar, a questão é reconhecer os complexos mecanismos que os criam (na prática e na escrita), identificando as comunidades interpretativas (Fish, 1980) que os autorizam e também, por suposto, entender os mecanismos que os destroem e identificar as comunidades que os defenestram.
9Eu comecei esse comentário dizendo que o tema tratado por On Canonical segue sendo atual. A prova é o recente debate que, mais uma vez, a Transactions apresenta, dessa vez na sessão Themed Interventions, que em 2019, reuniu seis geógrafos para discutir os 25 anos de Geographical Tradition (Boyle et al., 2019; Craggs, 2019; Ferretti, 2019; Maddrell, 2019; van Meeteren, 2019; Livingstone, 2019). Pinceladas do movimento decolonizing e uma maior atenção às perspectivas não anglófonas parece ser uma das novidades desse novo re-re-rethink a história da geografia, ainda que os temas inquietantes persistam. Vale a pena conferir.