A autora agradece ao Prof. Dr. Allaoua Saadi do IGC/UFMG por seus valiosos comentários e sugestões que ajudaram a aprimorar o presente artigo.
1Na literatura brasileira o tema do turismo cultural encontra vasta bibliografia, enfocando diversos assuntos como o patrimônio existente, tanto material como imaterial, o estudo da capacidade de carga das edificações, inventários dos bens culturais de diferentes lugares, a utilização de edifícios e centros históricos para o turismo, com foco majoritário nas instituições, ou seja, na oferta, em detrimento de estudos sobre a demanda, ou seja, sobre as pessoas que realizam as visitas.
2Nos últimos anos, constatou-se um movimento de revalorização de museus, centros culturais, casas da cultura e similares. Países como Japão e Inglaterra (Harvey, 2008) são contemplados com novos museus em uma frequência singular. No Brasil, nos últimos 30 anos, foram inauguradas quase duas instituições culturais a cada mês (Faria, 2012).
3A visita a museus depende de vários fatores, entre eles o hábito de frequentar equipamentos culturais, o nível de escolaridade e a renda dos usuários, a familiaridade no entendimento da linguagem artística, a qualidade do acervo, os recursos públicos e privados disponíveis para operação e manutenção dos equipamentos, práticas de gestão, políticas educacionais, divulgação das exposições, entre outros (Diniz e Machado, 2011 ; Bourdieu, 2007 ; Botelho e Fiore, 2004).
4Uma especificidade dos museus é que, em geral, eles não possuem economia de escala. Segundo Teixeira Coelho (2009), quanto maior o número de visitantes maiores as despesas, o que onera os custos de operação e manutenção destes equipamentos culturais. Neste sentido, a possibilidade de geração de receitas financeiras pelos museus, derivada da cobrança de vários serviços a serem oferecidos aos visitantes, torna-se atraente para estas instituições. Mas o que deve ser oferecido, e para quem ? São perguntas que devem ser respondidas pelo gestor dos museus e, para isso, conhecer o perfil socioeconômico dos visitantes torna-se imperativo.
5As informações aqui apresentadas originaram-se de uma pesquisa com uma amostra de visitantes do Museu de Arte Contemporânea Inhotim, localizado em Minas Gerais. Os resultados encontrados foram comparados a casos similares de outras instituições, a maior parte situada na Espanha, através de consulta à literatura disponível. O objetivo do estudo é investigar o turismo cultural pela ótica do visitante de museus de arte, ampliando o conhecimento sobre este tema no Brasil e disponibilizando informações essenciais para subsidiar as decisões estratégicas quanto ao planejamento e gestão de equipamentos culturais.
6O Museu de Arte Contemporânea Inhotim localiza-se no município de Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais–Brasil(ver mapa ao lado). O museu reúne em espaços contíguos uma coleção de arte contemporânea e um jardim botânico, distribuídos em uma área de aproximadamente 100 hectares, conforme pode ser visualizado pelas fotos contidas.
7Inaugurado no final do ano de 2006, recebeu na época um número aproximado de 7.000 visitantes, evoluindo para cerca de 180 mil visitantes em 2010 e 250 mil visitantes em 2011. A coleção possui importantes obras de arte dos anos 60 até os dias atuais, resumindo as principais correntes da arte contemporânea nacional e internacional.
Mapa 1 : Localização de Inhotim
Foto 1 : Viewing Machine” de Olafur Eliasson e “Troca Troca” do artista Jarbas Lopes
Ludimila Espanguer
Foto 2 : Galeria “True Rouge” do artista Tunga
Ludimila Espanguer
Foto 3 : Palmeiras e ao fundo obra “Magic Square” do artista Helio Oiticica
Ludimila Espanguer
8As informações apresentadas procedem de uma pesquisa amostral realizada com os visitantes no período entre dezembro de 2009 e janeiro de 2010, denominada como “Pesquisa 2010”. O plano amostral se baseou na técnica de amostra aleatória simples, utilizando uma proporção. Neste caso, uma amostra de n elementos é selecionada por um mecanismo aleatório em uma população de N unidades, sendo n <N. Adotando 95 % de confiança e um erro máximo de 5 %, a amostra estimada foi de 393 casos. A investigação foi realizada segundo a técnica de pesquisa de opinião, que consiste em um questionário estruturado e padronizado aplicado em uma amostra representativa da população.
9A seguir serão apresentadas informações quanto ao perfil socioeconômico do visitante de Inhotim, seguida de uma comparação dos resultados encontrados com outros museus de arte.
10Primeiramente, os visitantes do museu foram desagregados em duas categorias, denominadas de excursionistas e turistas. Segundo a Organização Mundial do Turismo1, excursionista é a pessoa que realiza atividades turísticas em um destino, mas não realiza pernoites (same-day) ; e turista é a pessoa que realiza atividades em uma viagem ou em locais fora da sua residência habitual, por, no máximo, um ano consecutivo, por motivos de lazer, negócios e outros (overnighvisitor). Tal segmentação permite avaliar a participação dos turistas nas atividades culturais. No caso estudado, verificou-se que o número de excursionistas é três vezes mais elevado do que o número de turistas, isto é, de cada quatro visitantes do museu, apenas um é turista, o que pode ser observado no Quadro 1.
11Quanto à origem dos visitantes, 80 % é proveniente do Estado de Minas Gerais, com destaque para a Região Metropolitana de Belo Horizonte-RMBH, que participa com 72 %. Uma vez que a principal área emissora é a RMBH, os excursionistas constituem a grande maioria dos visitantes. Os outros Estados do Brasil contribuem com 19 % do total de visitantes, e o exterior com apenas 1 %.
12Visitas a museus e centros culturais são fenômenos cada vez mais urbanos. Se por um lado é nas grandes cidades que se localizam majoritariamente estas instituições, por outro as aglomerações populacionais garantem a principal fonte de demanda para o atrativo cultural, ou seja, os potenciais visitantes (Bote, 2001 ; Faria, 2012 ; Diniz e Faria, 2012).
Quadro 1 : Origem dos visitantes
|
Origem
|
Casos
|
%
|
Turista
|
%
|
Excursionista
|
%
|
|
Minas Gerais
|
316
|
80%
|
20
|
5%
|
296
|
75%
|
|
Belo Horizonte et alentours – RMBH
|
281
|
72%
|
0
|
0%
|
281
|
72%
|
|
Fora da RMBH
|
35
|
9%
|
20
|
5%
|
15
|
4%
|
|
Outros Estados
|
73
|
19%
|
72
|
18%
|
1
|
0%
|
|
Outros paises
|
4
|
1%
|
4
|
1%
|
0
|
0%
|
|
Total
|
393
|
100%
|
96
|
24%
|
297
|
76%
|
Pesquisa 2010
13A procedência dos visitantes foi comparada a entrevistas anteriores realizadas pelo museu, no período 2007-2009. Pode-se observar uma concentração de visitantes procedentes de Minas Gerais em todo o período analisado, embora seja perceptível uma ligeira queda na contribuição deste Estado, que passou de 95 % em 2007 para 80 % em 2010, ao contrário da participação de outros Estados, que subiu de 4 % em 2007 para 19 % em 2010. Enquanto isso, o número de estrangeiros manteve-se estável, em 1 % nos últimos anos, conforme demonstrado no gráfico abaixo.
Figura 1 : Origem dos Visitantes( %)
Instituto Inhotim 2007 e 2009 ; Pesquisa 2010.
14Observando mais atentamente os turistas, pode-se averiguar a exclusividade da visita : 20 % dos turistas escolheram Inhotim como o “principal destino” da viagem, sendo que a maior participação dos turistas vem do grupo “um entre outros destinos”, com 44 %, seguido por “uma visita não esperada”, com 36 %. Os dois últimos resultados mostram que Inhotim está inserido em roteiros turísticos e atrai o turista que está em Belo Horizonte ou em sua vizinhança.
Quadro 2 : Perfil da Visita-Turistas
|
Turistas
|
Foi o principal destino
|
Um entre outros destinos
|
Uma viagem não esperada
|
|
Numero
|
%
|
Numero
|
%
|
Numero
|
%
|
|
96
|
19
|
20%
|
42
|
44%
|
35
|
36%
|
Pesquisa 2010
- 2 Informações obtidas diretamente com a diretoria do museu.
15Os resultados tornam-se mais interessantes quando comparados a instituições similares. Devido à escassa disponibilidade de dados sobre visitantes em museus no Brasil, foi utilizado um estudo da Associació d’Artistes Visuals de Catalunya–AAVC(2006), que investigou a dimensão econômica das artes visuais em nove instituições culturais na Espanha : Centro Museo Vasco de Arte Contemporáneo – Artium, em Vitoria ; Fundación Cesar Manrique, em Lanzarote ; Guggenheim Bilbao Museo ; InstitutValencià d’Art Modern- IVAM, em Valencia ; Museu d’Art Contemporani de Barcelona – MACBA ; Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía – MNCARS, em Madrid ; Museo de Arte Abstracto Español–MAA, em Cuenca ; Museo Patio Herreriano, em Valladolid ; e Museo Picasso, em Málaga. Além dos museus contemplados no estudo da AAVC, foi possível agregar informações sobre o Museo del Prado, em Madrid ; do Centro Cultural La Caixa, em Barcelona, e do Museu de Arte Moderna em São Paulo2.
16Observando a diversidade do número de visitantes das instituições contempladas, decidiu-se constituir dois grupos para análise dos dados, sendo o primeiro grupo composto por museus com mais de 100.000 visitantes por ano – denominado grupo 1, e o outro grupo formado por aqueles museus que ainda não alcançaram este nível – denominado grupo 2. Para o primeiro grupo, há informações sobre sete museus, dos quais cinco estão na Espanha e dois no Brasil, enquanto o segundo grupo é formado por três museus da Espanha. Em relação ao grupo1, percebe-se que a participação de turistas no total de visitantes aos museus espanhóis era superior a 50 % em todos eles (variou de 55 % no Museu Reina Sofia a 91 % no Guggenheim Bilbao). No caso dos museus do Brasil, os turistas representavam 30 %, sendo a participação dos excursionistas mais expressiva, com 70 % das visitas. Vale comentar que a predominância de turistas no Guggenheim Bilbao (91 %) e no museu do Prado (73 %), os transformam em “museus-estrelas”, termo utilizado por Frey (2000) para denominar museus que têm capacidade de atrair visitantes de outras regiões e países, dadas as singularidades do museu e de seu acervo.
17No grupo 2, ou seja, estabelecimentos com menos de 100 mil visitantes por ano, a participação de turistas variou entre 30 a 52 %.
18Buscou-se conhecer também a participação daqueles turistas que selecionaram o museu como “principal destino” no número total de visitantes. Esta informação estava disponível para seis museus. O resultado para Inhotim corresponde a 5 %, o que significa que de cada 100 visitantes, 5 são turistas que escolheram Inhotim como “destino principal” da viagem. O limite superior foi da Fundação César Manrique, com 14 %, para o grupo 1, enquanto para o grupo 2 o Museu Patio Herreriano apresentou o maior percentual, 28 %.
19Por sua vez, a participação daqueles turistas que selecionaram o museu como “principal destino” no número total de turistas mostra que o limite superior para os museus do grupo 1 pertence ao Inhotim, com 20 %, o que significa que, de cada 5 turistas que visitam Inhotim, um tem o museu como “principal destino”. Este resultado indica que Inhotim pode ser considerado um indutor do aumento do turismo na Região Metropolitana de Belo Horizonte. No grupo 2, somente havia informação para o Patio Herreriano, com 53 %. O quadro a seguir apresenta as informações obtidas.
Quadro 3 : Visitantes em Diferentes Museus na Espanha e no Brasil
|
Instituição
|
Visitantes
|
Ano
|
Excursionistat / Residentes (%)
|
Turistas
|
Turistas motivados pelo museu / total de visitantes (%)
|
Turistas motivados pelo museu / total de turistas (%)
|
|
Artium – MAC, Pais vasco
|
75 800
|
2003
|
-
|
-
|
-
|
-
|
|
Fund. César Manrique em Lanzarote
|
306 769
|
2003
|
-
|
-
|
14%
|
-
|
|
Guggenheim, em Bilbao
|
874 807
|
2003
|
9%
|
91%
|
-
|
-
|
|
IVAM – MAM, em Valencia
|
220 242
|
2003
|
36%
|
64%
|
6%
|
10%
|
|
MACBA – MAC, em Barcelona
|
386 086
|
2003
|
30%
|
70%
|
6%
|
10%
|
|
MNCARS – Reina Sofia em Madrid
|
1 444 300
|
2003
|
45%
|
55%
|
6%
|
10%
|
|
MAA – Arte abstracto, em Cuenca
|
34 256
|
2003
|
70%
|
30%
|
25%
|
-
|
|
Patio Herreriano, em Valladolid
|
46 803
|
2003
|
48%
|
52%
|
28%
|
53%
|
|
Musée Picasso, em Malaga
|
402 000
|
2003
|
-
|
-
|
-
|
-
|
|
Musée du Prado, em Madrid
|
2 598 016
|
2008
|
27%
|
73%
|
-
|
-
|
|
Centre C. La Caixa, en Barcelona
|
57 619
|
2005
|
62%
|
38%
|
-
|
-
|
|
|
MAM, em São Paulo
|
168 466
|
2009
|
70%
|
-
|
-
|
-
|
|
Inhotim, em Brumadiho
|
169 289
|
2010
|
76%
|
24%
|
5%
|
20%
|
La dimensión económica de las artes visuales en España, 2006 ; *Periañez et al., 2009 ; **Ministerio do Turismo de España, 2008 ; ***Bonet et al., 2007 ; ****Museu de Arte Moderna de São Paulo-MAM, *****Instituto Imhotim ; - informação não disponível.
- 3 De acordo com informações do Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 22/12/2010, 70% dos visitantes (...)
20Observa-se que a composição da frequência ao Inhotim, ainda que possua mais de 100.000 visitantes ao ano, possui uma expressiva participação de excursionistas. Considerando que se localiza perto de uma metrópole, Belo Horizonte, e que outros museus similares no Brasil, como o Museu de Arte Moderna de São Paulo3, apresente entre os visitantes uma expressiva participação de residentes na capital, é possível supor que o número de excursionistas em Inhotim continuará expressivo, com participação importante dos residentes da Região Metropolitana de Belo Horizonte.
- 4 De acordo com o IBGE – Censo Demográfico de 2010, o rendimento nominal médio das pessoas com 10 ano (...)
21Quanto à renda mensal do visitante, o valor médio encontrado foi de R$ 3.815.00, observando-se uma diferença entre o rendimento médio do turista frente ao do excursionista, sendo o valor do primeiro superior ao do segundo. A figura seguinte mostra como, nos estratos superiores de renda, a frequência de turistas é maior que de excursionistas. Comparado à renda média do brasileiro4, o visitante do Inhotim possui uma renda mais alta.
Figura 2 : Renda do Visitante : turista e excursionista
Fonte : Pesquisa 2010
22 No tocante a sexo e idade, observa-se a predominância de mulheres, com 57,1 % dos casos, sendo a idade média de 39 anos. Os frequentadores mais assíduos estão na faixa entre 25 e 34 anos, seguidos pelos coletivos entre 35 e 54 anos, conforme o quadro a seguir.
Quadro 4 : Faixas de Idade dos visitantes
|
Faixa Etaria
|
Participação (%)
|
|
14-19
|
4,3
|
|
20-24
|
10,1
|
|
25-34
|
32,5
|
|
35-44
|
18,3
|
|
45-54
|
19,4
|
|
55-64
|
11,0
|
|
Mais de 64 anos
|
4,5
|
Pesquisa 2010
23Contextualizando nossa amostragem no perfil da população brasileira, verifica-se, através do Censo Demográfico de 2010, que a participação de mulheres no total da população é de 51,03 %, sendo um pouco maior na região Sudeste, com 51,38 %. Por sua vez, o grupo de idade mais frequente está na faixa entre 20 a 24 anos, enquanto na região Sudeste situa-se no grupo entre 25 a 29 anos. Desta forma, constata-se que a maioria feminina encontrada no perfil dos visitantes do Inhotim apresenta idade maior que a média nacional.
24A ocupação dos visitantes mostra que a participação dos trabalhadores independentes (autônomos) e de estudantes e professores é preponderante, seguida por trabalhadores das áreas operacional e administrativa, do setor cultural, empresários e aposentados, como se pode visualizar no quadro seguinte.
Quadro 5 : ocupação dos visitantes
|
Ocupação
|
Participação
|
|
Trabalhador independente
|
27%
|
|
Prefessor e estudante
|
22%
|
|
Actividade operacional ou administrativa
|
17%
|
|
Atividade cultural
|
6%
|
|
Empresario
|
6%
|
|
Aposentado
|
6%
|
|
Funcionario publico
|
4%
|
|
Militar
|
1%
|
|
Vendas
|
1%
|
|
Dona de casa
|
1%
|
|
Não declarado
|
1%
|
|
Outro
|
9%
|
Pesquisa 2010
25A participação dos trabalhadores independentes no volume de visitas é relevante, considerando que atingiu quase um terço dos visitantes. Sabendo-se que as grandes aglomerações urbanas concentram maior número de profissionais autônomos, pode-se inferir o papel fundamental das grandes metrópoles como demandantes de cultura.
26Quanto ao nível de escolaridade, os universitários representam 49,3 %, os pós-graduados 25,7 %, o nível médio 19,7 % e o ensino fundamental 5,3 %.
- 5 Com a intenção de analisar o crescimento da escolaridade, identificou-se a distribuição das pessoas (...)
27Estes resultados convergem com estudos sobre o setor cultural no Brasil, que revelam a influência significativa da escolaridade, juntamente com a renda, na demanda por produtos e equipamentos culturais (Diniz e Machado, 2011 ; Funarte, 2009 ; Botelho e Fiori, 2004). Verifica-se que o visitante de Inhotim pertence a um seleto grupo de brasileiros, pois, de acordo com a pesquisa nacional por amostra de domicílios – PNAD 2012, o percentual de pessoas com nível superior completo no Brasil alcança o patamar de apenas 12 %5.
Figura 3 : Escolaridade
Pesquisa 2010.
28Os visitantes que se declararam brancos registram ampla participação no total dos visitantes (61,5 %), seguidos dos morenos (16,9 %), pardos (12,6 %), pretos (5,4 %), amarelos (2,2 %) e indefinidos (1,4 %).
29Para completar a caracterização dos visitantes, cabe apresentar a resposta referente a religião. Os visitantes católicos são os mais frequentes, sendo que os protestantes e aqueles com nenhuma religião possuem o mesmo grau de participação, ou seja, 16,6 % ; outras religiões alcançam 9,6 %. A maioria católica era esperada, uma vez que no Brasil (64,6 %) e no Estado de Minas Gerais (70,4 %), de acordo com o Censo Demográfico de 2010, a maioria da população declara ser da religião católica.
Figura 4 : Religião dos Visitantes
Pesquisa 2010.
30Em seguida determinou-se o valor médio do gasto do visitante. Foram estimados inicialmente os gastos na visita, a partir da composição da média de gastos dos visitantes, desagregados entre excursionistas e turistas. Os gastos na visita são os gastos com transporte e as despesas dentro do museu. Observa-se, no quadro abaixo, que a participação dos gastos não apresenta diferença expressiva para as duas categorias de visitante, sendo os gastos com refeição e transporte os mais significativos. Vale observar que o turista gasta mais com alimentação e presentes que o excursionista. Para este, o peso maior está no gasto com transporte. O valor médio do gasto na visita é de R$ 61,00 para excursionista e R$ 76,00 para turista. O transporte se refere ao deslocamento para acessar o museu, por exemplo, trecho Belo Horizonte-Inhotim-Belo Horizonte, composto por despesas com táxi, ônibus ou combustível. Como o museu está localizado a cerca de 60 km da capital mineira, o gasto com o transporte dos visitantes adquire importância neste contexto.
Quadro 6 : Gastos na visita
|
Gastro diretos
|
Excursionista (%)
|
Turista (%)
|
Valor excursionista (R$)
|
Valor Turista (R$)
|
|
Bilheteria
|
22
|
17
|
13,18
|
13,08
|
|
Cafés e et restaurantes
|
35
|
42
|
21,64
|
31,66
|
|
Compras
|
7
|
15
|
4,28
|
11,29
|
|
Transporte
|
36
|
26
|
31,92
|
19,93
|
|
Total
|
100
|
100
|
|
|
|
Gastos R$ por visita
|
|
|
61,02
|
75,96
|
Pesquisa 2010
31Foi possível comparar a composição de gastos dos visitantes de Inhotim e do museu Guggenheim Bilbao, através dos dados disponíveis no estudo da AAVC (2006). Para tal tarefa foi necessário retirar dos gastos o item transporte. Desta forma, a participação da bilheteria e das vendas de produtos e serviços no total de gastos do visitante no museu Guggenheim Bilbao é de 51 % e 49 %, respectivamente ; e para Inhotim situa-se em 34 % (bilheteria) e 66 % (venda de produtos e serviços) para o excursionista, e 23 % e 77 % para os turistas, respectivamente. Os valores para Inhotim revelam uma participação menor na bilheteria e maior na venda de produtos e serviços frente ao museu Guggenheim Bilbao.
32Do total de visitantes, 74,7 % foram a Inhotim pela primeira vez e 25,3 % já conheciam o museu, o que condiz com o curto tempo em operação do museu (aberto em 2006). A visita foi realizada geralmente em grupo (94 %), contra 6 % daqueles que a realizaram sozinhos. Quanto à decisão da visita, 67,6 % foram influenciados pelo comentário de parentes e amigos, 23,4 % pela publicidade e 6,7 % pela internet. A grande maioria, 98,4 %, organizou a viagem sem a intermediação de agências de viagem.
33Como motivo da visita, os atrativos naturais (41,6 %) e culturais (40,8 %) foram citados com maior frequência, como se pode verificar pela figura a seguir.
Figura 5 : Motivo da Visita
Pesquisa 2010
34Analisando o meio de transporte utilizado para a visita, o automóvel próprio foi o mais frequente (79,1 %), seguido por ônibus de turismo (9,8 %), ônibus regular (6,3 %), carro alugado (1,9 %) e outros. Devido à proximidade com a capital, Belo Horizonte, e sendo a maioria excursionistas com renda alta, o automóvel como meio de transporte predominante era esperado.
35Podemos realizar um resumo do perfil predominante dos visitantes do Museu de Arte Contemporânea Inhotim, de acordo com a Pesquisa 2010 : o visitante típico é brasileiro, mineiro (80 %), com média de idade de 39 anos, com ensino superior completo e renda alta. A maioria é constituída por mulheres (57,1 %) e a ocupação principal é o trabalho independente (27 %). A cor branca (61,5 %) e a religião católica (57,2 %) predominam entre os visitantes.
36Visando comparar os dados obtidos para Inhotim a outros estudos e pesquisas desenvolvidos sobre o mesmo tema, são apresentados na continuação os resultados de estudos realizados por Diniz (2009), Rausell (2006), Laporte (2006), André et al (2011) e Instituto de Estudios Turísticos de España (2012).
37O estudo realizado por Diniz (2009) analisa o consumo de bens e serviços artístico-culturais no Brasil metropolitano. Os resultados revelam que os consumidores artísticos culturais assim se caracterizam : predominantemente pessoas mais jovens, na maioria mulheres, com mais de 12 anos de estudo, de alta renda, pertencentes a famílias sem filhos ou com filhos maiores de 18 anos, com religião distinta da protestante.
38O estudo desenvolvido por Rausell (2006) apresenta o perfil sociodemográfico dos visitantes do Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), em Valencia – Espanha, no ano de 1994 : mais de 55 % habitantes são da cidade de Valencia, onde o museu está localizado ; 69 % dos visitantes estão na faixa etária entre 19 e 35 anos ; e 70 % possui nível universitário.
39Laporte (2006) averiguou as características sociodemográficas dos visitantes do Centro Cultural da Fundação “La Caixa”, em Barcelona, em um estudo desenvolvido entre 1994 e 1995. De acordo com o autor, predominam mulheres, com idade inferior a 30 anos, a ocupação principal concentrada em estudantes e professores, sendo aproximadamente 40 % deles envolvidos com arte. Do total de visitantes, 60 % são originários da cidade de Barcelona, onde se localiza o museu, e 25 % moradores da província de Barcelona.
40O estudo elaborado por André et al (2011) discorreu sobre o perfil dos visitantes da cidade de Figueres, onde se localiza o museu Dalí, distante 140 km de Barcelona. Motivo principal da visita : ócio e cultura (82,5 % dos casos), seguido de visita a amigos e familiares (8,2 %). A atração principal e ponto forte da visita é o Museu Dalí, que recebe um contingente aproximado de 800 mil visitantes ao ano. O automóvel é o principal meio de transporte e a visita foi acompanhada de algum familiar. Segundo o estudo, os visitantes passam algumas horas no município, mas não pernoitam em Figueres.
41Finalmente, o estudo elaborado pelo Instituto de Estúdios Turísticos da Espanha (2012) apresenta as características do visitante do museu do Prado, em Madri. Do total de visitantes 53,7 % são estrangeiros ; 58,8 % mulheres. A faixa de idade mais frequente situa-se entre 25 e 34 anos (22,3 %), seguida de perto pelo coletivo de pessoas entre 35 e 44 anos (19,5 %) e entre 18 e 24 anos de idade (18,2 %). O nível de escolaridade surpreende, pois 71,2 % dos visitantes apresentam escolaridade de nível universitário. Dos visitantes recebidos, 70 % foram motivados pela coleção permanente. Interessante notar que, diferenciando visitantes nacionais e estrangeiros, 66 % dos nacionais já haviam visitado o museu anteriormente, enquanto o percentual para estrangeiros neste mesmo quesito foi de 13,7 %. Vale destacar que os residentes da comunidade de Madrid, onde se localiza o museu, contribuem com 23,4 % dos visitantes.
42Vários aspectos convergem no tocante às características do visitante do Museu de Arte Contemporânea Inhotim e das demais instituições culturais utilizadas como referência neste estudo. A maioria dos visitantes é constituída por jovens, com predominância de mulheres, significativa participação de pessoas com nível universitário e renda alta. Muitos frequentadores residem na localidade onde está situado o museu ou em sua proximidade. Uma diferença observada refere-se à ocupação : no caso de Inhotim, a maioria dos visitantes é constituída por profissionais autônomos. Outra particularidade refere-se à participação de excursionistas entre os visitantes de Inhotim, que, comparado a museus que contam com mais de 100 mil visitantes ao ano, mostra-se elevada.
43Os resultados revelam ainda que a visita a museus e centros culturais é um fenômeno urbano, descortinando uma relação de interdependência entre turismo cultural e os grandes centros, uma vez que são as cidades que possuem a oferta turística apropriada para potencializar e desenvolver este tipo de turismo, pois concentram a principal fonte de demanda para o atrativo cultural, ou seja, os potenciais visitantes ; além disso, a metrópole configura, em geral, o ponto de irradiação das rotas turísticas de âmbito regional, nacional e internacional.
44O potencial turístico para essa atividade passa a ser relevante quando o museu tem o poder de atrair turistas exclusivamente para visitá-lo. É o caso de Inhotim, que apresenta um percentual expressivo de turistas que realizam viagens específicas com o propósito de visitá-lo, um percentual elevado se comparado aos outros museus analisados. Transformar-se-á Inhotim em um museu-estrela ?
45Instituições como museus e centros culturais foram revalorizados a partir das últimas décadas do século XX. Os museus hoje em dia são espaços de arte, locais de produção de conhecimento, mas ao mesmo tempo se constituem em centros de consumo, com lojas, restaurantes, lanchonetes, transporte interno, apresentações musicais e teatrais, adaptando-se à tendência emergente no mundo contemporâneo : centros de visitação que oferecem um leque de serviços e facilidades para entreter o visitante.
46Conhecer a demanda, o perfil dos visitantes dos museus, seus gostos e preferências, é condição essencial para traçar estratégias eficientes de gestão e tornar os museus cada vez mais atrativos ao público, com capacidade de geração de recursos que contribuam para uma adequada manutenção dos espaços e conservação dos acervos.